O Judeu

Camilo Castelo Branco · Capítulo 26 de 46

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O Judeu

Capítulo V · É minha opinião que há umas lágrimas,…

 

É minha opinião que há umas lágrimas, que têm a mirífica virtude de lavarem as manchas da perfídia no rosto da mulher amada.

Estas lágrimas são mágicas, são os filtros do sortilégio com que a ciência dos nossos antepassados andou às voltas e com que a piedade alimentou a voracidade das fogueiras. São lágrimas que têm e encerram virtudes luciferinas: saíram de laboratório infernal; não são o sangue de alma, como o padre Bernardes as definia.

Joana Vitorina, quando Francisco Xavier entrou ao quarto em que ela estava escrevendo, tinha o rosto aljofrado, daquelas lágrimas. A ira do jovem afogou-se nelas. Cruzados os braços, crispantes os beiços, acendidos os olhos, Francisco Xavier de Oliveira parou no limiar do quarto. Joana ergueu-se, lançou mão do punhal que estava sobre um bufete, despiu-o da bainha, voltou-o pela ponta, caminhou solene para o cavalheiro com os olhos no pavimento, ofereceu-lho, e disse-lhe:

— Mata-me, que é um benefício matar uma mulher que os remorsos hão de matar vagarosamente.

Francisco Xavier passou por diante dela, aproximou-se da mesa em que ela estava escrevendo, curvou-se sobre o papel, e leu.

Era carta que a cigana escrevia à mãe, pedindo-lhe que a mandasse buscar, porque se via desamparada em Valhadolide. Do homem, com quem fugira, apenas dizia que fora atrozmente iludida por um infame. “Está vingado”, escrevia ela, “o bom jovem que eu sacrifiquei; se o vir, diga-lhe que me não deseje maior desventura. “

Francisco Xavier, lido aquilo, voltou o rosto à cigana, que ainda permanecia quieta com o punhal. Depois, sentou-se, a chorar, arquejante, aflito, com o rosto abafado entre as mãos. Joana aproximou-se dele, e ajoelhou, com o rosto pendido para o seio, braços pendentes, e o punhal na mão direita. Francisco Xavier viu-a assim; ergueu-se de golpe; quis fugir impetuosamente. Ninguém lhe estorvou o passo; podia fugir à sua vontade; mas... o fatal enliço, a cadeia magnética parecia arrancar-lhe o coração pelas costas, quando ele ia fugindo. Era a cigana!... o amor infernal daquela raça maldita de Deus, que tem por si a omnipotência de Lúcifer.

O jovem girou sobre os calcanhares como manequim. Parecia uma coisa fantástica: de real apenas se sentia, naquele quarto, a ridiculez dos olhares, das posturas e do silêncio. Estava isto assim neste curioso lance de se deverem rir um do outro, quando Joana se lhe atirou ao peito, expedindo um ai estrídulo, um como grito do coração que morre. Se a não amparassem, cairia; mas não caiu. Os braços dele apertavam-na muito, muito; e, se os braços não bastassem a sustê-la, creio que eles se segurariam um noutro pela identificação dos lábios.

Como se amavam! E, depois, não há mais que dizer no tocante à reconciliação. O alcaide chegou a lançar o jantar com o riso, quando o português lhe contava a passagem com os trejeitos e transportes que deram em resultado o jurarem-se reciprocamente um eterno amor de mais algumas semanas.

No dia seguinte, quando Francisco Xavier andava curando dos aprestos para a jornada, é que ele se encontrou com as duas perseguidas hebreias no adro da igreja. O leitor pode recordar-se.

Deteve-se ainda três dias em Valhadolide Francisco Xavier de Oliveira à espera de alguma boa nova, com referência às presas. Com as boas esperanças de D. Rafael, saiu o jovem, acompanhado da cigana, para Lisboa.

Sossegado de coração, tratou em trabalhar no salvamento de António José da Silva. Desvaliosa proteção seria a dele, já tão mal visto do Santo Oficio, que os pais incessantemente lhe pediam que fugisse de Portugal. Diogo de Barros despersuadiu-o de solicitar a misericórdia de S. Domingos a favor do seu amigo, como patronato inconveniente ao preso, a menos que o não quisesse sobrecarregar.

Os valedores do filho de João Mendes, conquanto poderosos, ignoravam e temiam a sentença no fatal dia 13 de Outubro, designado para o auto-de-fé. Contavam Diogo de Barros e o conde da Ericeira com as favoráveis alegações dos qualificadores do Santo Oficio; desconfiavam, porém, do inquisidor-geral.

Soaram os sinos à chamada dos fiéis para assistirem às sentenças na igreja de S. Domingos. Entre os réus da vanguarda ia António José com o sambenito, descalço, cabeça rapada, ao lado do padrinho que lhe fora nomeado. Ir ele entre os primeiros réus, era já sinal de grande júbilo para os seus. Os que marchavam depôs o Crucificado, erguido no meio da procissão, esses já podiam de antemão contar com as agonias da fogueira, porque já não viam a face de Cristo. António José da Silva ouviu o sermão dos lábios piedosos de um frade dominicano, que se esteve sempre em êxtase diante da misericórdia com que a Santa Inquisição andava em cata das almas tresmalhadas do caminho da glória para as restituir ao seu criador.

Concluído o sermão, dois frades subiram ao púlpito para lerem a suma dos processos, e declarar as penas em que tinham sido condenados.

A primeira sentença lida foi a do padre Luís Álvares de Aguiar, acusado de prostituir as suas devotas no confessionário, crime que na tortura confessara. Privado do exercício das funções eclesiásticas, foi condenado a desterro perpétuo.

António José da Silva, nesta ocasião somente, soube que o prior de S. Jorge fora também vítima da denúncia de Bartolomeu Lobo Correia.

Seguiram-se outros réus. Depois, um familiar conduziu pela mão António José ao meio das galerias, ocupadas por frades, bispos, qualificadores e familiares. Ouviu ler o processo, que o acusava de ter hebraizado. A sentença era absolutória, visto que o réu confesso abjurava as doutrinas dos dogmas judaicos. Em seguida levaram-no ao tope do altar, onde o fizeram ajoelhar, e pôr a mão sobre um missal. Nesta postura, recitou um protesto de fé, e esperou que o inquisidor o absolvesse da excomunhão e lhe impusesse a penitência.

Ultimada a leitura das sentenças, António José, ao sair do templo para entrar na Casa Santa circunvagou os olhos pela multidão, e viu Francisco Xavier de Oliveira, ao par da sua mãe, que cobria o rosto e as lágrimas com a mantilha. Entrou no Tribunal, despiu o sambenito, os calções e a jaqueta parda listrada de raios brancos: entregou ao alcaide da Inquisição a vestimenta, e esperou que o inquisidor, duas horas depois, lhe designasse em lista manuscrita os artigos da penitência, e lhe cruzasse a última bênção misericordiosa.

Ao anoitecer, o filho de João Mendes entrou na liteira do contador-mor, e foi conduzido a casa do seus pais. Lourença Coutinho, quando lhe viu os dedos macerados, e as articulações das falanges ainda chagadas da tortura, perdeu os sentidos nos braços do filho. O ancião, com as mãos erguidas, abafava de soluços, desviando os olhos das mal fechadas cicatrizes, que o jovem mostrava. Francisco Xavier, a praguejar, blasfemava da Providência, duvidando que ela existisse, e impassivelmente se revisse nas atrocidades deste mundo.

António José da Silva, nos primeiros dias de liberdade, fez suspeitar desconcerto de juízo, à conta de uns ares sombrios e rosto empedernido em que se deixava estar, longas horas, num terrível quietismo. À primeira vez que saiu de casa, foi ao Convento de S. Domingos tratar coisas espirituais com frades de boa nomeada em virtude e saber. Fugia aos seus antigos conhecidos, e nomeadamente Francisco Xavier de Oliveira, que mais que todos se compadecia da estragada cabeça do pobre António. Quando o amante de Joana Vitorina lhe queria contar os sucessos de Valhadolide, António José cortava a narrativa, pedindo que lhe não desnorteasse o espírito. Oliveira ria-se à socapa dos trejeitos pios do amigo, o qual, por vezes, era na verdade irrisório, referindo seraficamente as suas visões e sonhos beatíficos.

Esta enfermidade cerebral, efeito das trevas, da insulação e tormentos da Santa Casa, guarneceu-a lentamente o correr do tempo. Este melhoramento, porém, não impedia que António José, um dia por outro, fosse ao Convento de S. Domingos conversar, instruir-se e roborar a sua piedade com os frades.

Entretanto, Lourença Coutinho e João Mendes, grandemente auxiliados pelo tio de Jorge Barros, curavam incansáveis do livramento de Sara e Leonor. Ao princípio, António José ouvia falar delas com uma quase estranheza, e depois com piedade. Dizia ele que a desgraça era necessária, quando nos saía ao encontro fora da estrada direita, porque, sem ela, nunca nos resgataríamos de atalhos perigosos e condutores à perdição. “ Oxalá”, juntava ele, “que Sara e Leonor aprendam a verdadeira religião, como a mim me aconteceu! “

Lourença chorava quando isto ouvia. Francisco Xavier olhava-o em rosto com sincera amargura, e de si para si dizia: “Endoideceram-no! “

D. Rafael Hernandes avisou o seu velho amigo José de Oliveira que as duas presas sairiam infalivelmente no primeiro auto-de-fé; pelo que estavam sendo supérfluos os empenhos que iam de Portugal para o inquisidor e qualificadores do Santo Oficio. Asseverava-lhes que o Santo Oficio em Espanha era muito menos rigoroso que o tribunal português; e, no caso das duas mulheres, não havia nada que recear, senão a prisão de mais dois meses, num quarto bem iluminado e provido de tudo que elas à sua custa mandavam procurar.

Ao aproximar-se o dia 26 de Janeiro, Diogo de Barros, carregado de anos e virtudes, quis prestar ainda os bons-ofícios de parente à filha do seu sobrinho Jorge, indo a Valhadolide buscar as duas senhoras, para dali as conduzir para o seio da sua família. Francisco Xavier de Oliveira, o jovem romanesco, afigurando-se-lhe cavalheirosa bizarria aparecer numa hora feliz às damas, que viram-no em aflitíssimos momentos, acompanhou o ancião, muito a beneplácito do pai, que se atormentava com medo das iras do filho contra os inquisidores.

E chegados estamos, pois, ao ponto em que Sara e Leonor saíram absoltas e penitenciadas da Inquisição de Valhadolide, no auto-de-fé de 26 de Janeiro de 1727.