O Judeu
Capítulo IX · Lourença Coutinho, como visse restaurar-se o amor…
Lourença Coutinho, como visse restaurar-se o amor ao estudo, o gosto das comédias, e o contente viver do filho, entendeu ativamente no consórcio almejado e prometido de tão longe. Contava ela com a vontade do seu António, e tinha como segura a condescendência de Leonor.
Enganou-se na mais importante parte dos seus cálculos. Leonor, assim que a sua mãe formalmente lhe lembrou os antigos compromissos, respondeu que sempre considerara brincadeira da sua mãe com a mãe de António o contrato de união eterna entre duas pessoas, uma das quais nasceu alguns anos depois. juntou que aceitara a correspondência de António José, para não desagradar a sua mãe, e na esperança de, alguma hora, se aproximar e sentir por ele o interesse que a distância não podia inspirar-lhe. Acrescentou e concluiu dizendo que o facto de se aproximarem não era bastante a resolvê-la a casar-se, nem a sua idade era ainda própria de tão grave decisão. Pedia, pois, cinco anos de espera; e, aos vinte, se decidiria.
Estas razões, literalmente traduzidas, queriam dizer que o não amava. Isto não é censurável nem extraordinário. O que a mim me quer parecer louvável pouco menos de nada é que Leonor, farta de ouvir contar as travessuras, os escândalos e a libertinagem do amante de Joana Vitorina e doutras do mesmo jaez, não obstante, sentisse e escondesse de todos profunda e devoradora paixão por Francisco Xavier de Oliveira, desde que, à saída do tribunal de Valhadolide, viu de novo o gentil jovem que a tinha querido salvar, e a sua mãe, pela porta da sacristia! O caso não se recomenda aos louvores de quem lê, repito; mas não é estupendo nem culpável. Leonor vira a ansiedade inútil daquele português, soubera depois que a rogos dele saíra pelas desamparadas presas o alcaide; via-se livre; e, apenas livre, dava de olhos e de coração reconhecido nos olhos e talvez no coração do belo rapaz, que saíra da sua terra para, ao lado do velho Barros, lhe ser guia e companheiro. Raros amores e até poucas paixões nascem e flamejam tão desculpáveis e bonitas!
Francisco Xavier, posto que não por amor, antes por cavalheirismo e obséquio ao seu amigo encarcerado, fosse a Valhadolide, durante a jornada teve uns vislumbres do sentimento que fizera nascer. Fechou os olhos da alma para não vê-los; todavia, o coração não se retraía de todo em todo aos honestos cometimentos da lindíssima judia. Francisco Xavier dizia entre si: “Se ele a não amasse!...“, e ela provavelmente iria dizendo: “Se eles se não estimassem...”
Ambos compreenderam e como em silêncio se comunicaram o melindre das suas posições.
Ora é certo que Francisco Xavier estava maniatado àquele baixo amor da cigana; estava, e com pejo de si pesava entre mãos o gravame de tão vergonhosos ferros; pode ser, porém, que os quebrasse de impetuoso empuxão, se Leonor lhe dissesse: “Tenho liberdade para ser tua; podes amar-me sem desonra. “
Viam-se frequentes vezes na sala de Diogo de Barros. O rosto de Leonor iluminava — se, quando o jovial rapaz entrava, contando bruscamente aventuras da devassa camarilha do Salomão português, ou rasgadamente verberava a hipócrita devassidão do clero, sem que os brados da mãe o coibissem. Leonor antes queria este arrojo que o assustadiço acanhamento de António José; antes as risadas estrídulas do amante das ciganas que as deplorativas lamentações, e concentrada amargura do flagelado dos cárceres; antes a descrição enérgica e fogosa de uma peça de touro que a leitura de uma comédia.
Uma vez, bem se lembram, perguntava Francisco Xavier ao seu amigo se amava Leonor. A resposta foi de feitio que o mancebo poderia, sem desdouro, aceitar a alma que se lhe oferecia sem grandes rodeios. Não o fez assim. Viram que ele curou de afastar as nuvens de sobre o coração do amigo, para que o amor da israelita pudesse lá chegar com o calor da esperança e das alegrias. Depois, ao passo que António José cobrava alento e se reanimava debaixo do olhar menos amorável que piedoso de Leonor, Francisco Xavier afastava-se, pretextava jornadas, ocupações, divertimentos, e — Deus e ele sabiam a dor do sacrifício! — contava na sala de Diogo de Barros, em presença da pálida menina, as suas paixões passadas, os seus amores presentes, e as suas esperanças em designadas mulheres da melhor fidalguia, umas para amantes, e outras para dentre delas eleger a esposa, a companheira da vida.
E, no entanto, Lourença Coutinho admirava-se e ofendia-se das hesitações de Sara, toda vez que ela a interrogava não já sobre a vontade da filha, senão sobre o tempo de se casarem os prometidos noivos.
— Pois tu não sabes?... — perguntava Lourença. — Não sabes quando será?!
— Não sei... — respondeu Sara enfim, muito apertada pelas importunações da amiga. — Não sei, porque Leonor não declara quando, e eu, obedecendo à vontade do meu Jorge, não a obrigo a declarar-se; o mais que posso é aconselhá-la; e muitas vezes lhe tenho inculcado as vantagens deste enlace; mas, se ela me diz que só dos vinte anos em diante se há de resolver, que queres que eu lhe faça? Esperemos, Lourença. O teu filho está novo; ela está uma criança; os haveres de parte a parte são por enquanto poucos... Esperemos, minha amiga, e gozemos com a felicidade de ver que eles se amam tranquilamente, e não desconfiam da lealdade um do outro...
— Mas o meu António não cessa de perguntar... — atalhou Lourença.
— Responde-lhe isto mesmo. Diz-lhe que se goze da sua liberdade nestes cinco ou seis anos, que lhe não há de faltar tempo de viver cativo dos encargos de marido e pai. Quanto mais cedo se casarem, maior número de filhos hão de deixar para aí provavelmente pobres.
Esta resposta espinhou vivamente o amor-próprio e o coração também de António José. Deliberou-se a interrogar Leonor, suspeitoso de que, por acanhada modéstia, e melindre talvez inconveniente, desmerecesse no conceito da enérgica filha de Jorge de Barros. Mais dolorosa suspeita o feria, e era temer-se de que a bisneta do contador-mor, e a descendente dos Teles pela sua avó materna, se quisesse esquivar ao desdouro de aliar-se a um homem da classe meã, neto de fazendeiros e bisneto de pobres colonos judeus, que tinham ido de Portugal para a capitania do Rio de Janeiro.
Resolvido a desenganar-se por si, procurou o lanço de estar a sós com Leonor. Foi mais lastimável que eloquente. Almas aquecidas ao fogo místico do ideal são as menos idóneas para expressarem afetos grandes sem se apoucarem nalguma baixeza, de que raras mulheres levantam o homem. Convinha-lhe um airoso orgulho; o amor abateu-o à humildade. A mulher que ama não conhece isto; a que é tão-somente amada chama-lhe impertinência e sensaboria.
Não obstante, Leonor dava-lhe a compensação da delicadeza; e à poesia da paixão respondia-lhe com a poesia da esperança. Era cedo, dizia ela, cedo para si e cedo para ele.
— Eu tenho sido desgraçada — juntava Leonor. — Fiquei triste, muito mais triste do que era, desde a prisão de Valhadolide. Estou a convalescer das torturas da alma, que começaram com o falecimento do meu bom pai. As lágrimas ainda hoje me afogam, quando me lembra, que é para sempre, a irremediável perda que sofri. É preciso muito coração para nós passar destas tristezas ao contentamento de esposa; e aqueles que se casam, na esperança de despirem depois os lutos da alma, vão enganados: é o que eu penso, e nem meu tio Diogo nem minha mãe sustentam o contrário.
— Sustento-o eu — disse António José da Silva. — Com aquela décima jocosa que a sua mãe mandou para Amesterdão? Não, Leonor. Não falemos gracejando. O homem, que escrevia aquelas trovas, acabou. Delas me recordo escassamente... Vejo-as como folhas secas da minha primavera. O que eu hoje lhe deveria dizer em verso, não sei eu dizê-lo. Lágrimas não se escrevem: ou as decifra a mulher que ama, ou, senão, Deus. Porque me não ama, Leonor?
— Quando lhe disse eu que o não amava, senhor Silva?... — Senhor Silva... Que urbano tratamento! — acudiu o hebreu, com dilacerante sorriso. — Que desengano! Que calúnia eu lhe assacava quando à minha consciência dizia que a senhora Dona Leonor de Barros me amava...
— Eu não sou Dona Leonor de Barros — atalhou a filha de Sara. — Sou Leonor Maria de Carvalho. Os meus avós matemos apelidavam-se Carvalhos. O nome do meu pai tenho-o no coração; mas não careço dele nem para venerar sua memória, nem para me fazer respeitar do mundo. O meu pai tem ilustres parentes em Lisboa. Não quero que eles o maldigam porque deu os seus fidalgos apelidos à filha de Sara, à neta de uns judeus, que as chamas queimaram há cinquenta anos em Lisboa. Chame-me, pois, Leonor Maria de Carvalho, que eu hei de provavelmente assim morrer.
António José da Silva tomou delicadamente a mão de Leonor, e disse-lhe com mavioso enternecimento:
— Abra-me com esta mão a porta do paraíso.
— Quando for tempo, se Deus assim o tiver destinado.
— Diga-me, ao menos... que não chore...
— Não chore, que os homens a chorar não parecem bem.
— Que fria alma! — murmurou António José.
Entraram pessoas à casa onde correu este diálogo. Vinha entre elas Francisco Xavier de Oliveira, que relanceou olhos suspeitos ao rosto do seu amigo, e viu lágrimas. Ao mesmo tempo, encarou em Leonor, e traduziu a veemente satisfação que a alvoroçara, no instante em que o vira.
Tomou o braço de António José da Silva, e passou com ele ao jardim do palacete. Pediu-lhe explicação das lágrimas. Silva carecia de respirar no seio do seu melhor amigo. Abriu-se, expandiu-se, desatou novos choros dos olhos injetados, e referiu sumariamente a prática dolorosa que tivera com Leonor.
Francisco Xavier escutou-o silencioso; fez com ele alguns passeios no jardim, e voltou à sala.
— Que novidades conta, senhor Xavier de Oliveira? — perguntou uma das damas da casa.
— Não sei quase nada, minha senhora.
— Teremos brevemente touros? — perguntou um neto de Diogo de Barros.
— Provavelmente teremos, porque chegou a notícia de se ter celebrado o casamento do príncipe Dom José com a infanta de Espanha. Logo ouvirão o repicar dos sinos que pedem luminárias. No dia treze vai o nosso amigo conde da Ericeira ao paço recitar um discurso panegírico sobre os desposórios da princesa das Astúrias, e o marquês de Valença recita o panegírico do príncipe. Estes dois sujeitos, de quem aliás somos amicíssimos, se lhes fecharem a válvula dos panegíricos morrem entouridos. Andam há vinte anos a esmoucar as paredes do templo da memória a ver se lá se enfiam por uma fenda. Parece — me que os vindouros não lhes hão de dar mais importância do que a mim!
— Cala-te, má-língua! — disse o ancião Diogo de Barros. — Deixa lá os nossos sábios trabalhar na redenção das letras pátrias. Nem todos hão de fazer versos... e travessuras, como tu.
— Versos e travessuras, meu prezado amigo, está tudo por um fio. As rapaziadas cedem o passo à circunspeção, que vai abrir-me o seu plácido abrigo.
— Aí vem uma mentira das tuas, Francisco! — disse Diogo. — Temos o Roberto do Diabo casado! É o que nos queres encampar?
— É o que vai suceder, senhor Diogo de Barros — redarguiu com gravidade Francisco Xavier. — Se eu citar o respeitável nome da senhora que vai ser minha esposa, espero que me façam a justiça de crer que eu não viria aqui zombar, associando às minhas brincadeiras o nome de uma menina que vossa Senhoria e todos que a conhecem consideram.
— Se assim é — disse Diogo — podes dizer, que todos te acreditaremos; mas reflexiona, Francisco!... Não te responsabilizes a dar explicações, se o casamento se não realizar; nem queiras que a sociedade as dê, se as tu não deres.
— Refleti — disse Xavier de Oliveira. — A senhora com quem vou casar-me é Dona Ana Inês de Almeida.
— Nome respeitabilíssimo, na verdade — acudiu Diogo de Barros — , tanto por nascimento como por virtudes herdadas e próprias. Conheci muito de perto o pai dessa menina, quando ambos éramos ouvidores na índia. Ele dirá qual de nós volveu de lá mais abastado; mas o certo, a que ele não pode faltar, é que pobres fomos e pobres voltámos. Cada um de nós casou com a sua prima, e então tivemos casa. Eu desisti da carreira para cuidar dos bens; ele seguiu os lugares, e pela escala da probidade subiu a desembargador do paço. Parabéns te damos, Francisco, e aos teus pais. Ligas a virtude dos teus avós às virtudes de uma estrema da família, tão antiga como a tua. Sê digno do favor da Providência Divina!
Durante o dizer de Diogo de Barros, Leonor saiu da sala, pretextando qualquer coisa. Francisco Xavier viu sem reparar; António José da Silva viu e reparou. As restantes pessoas olharam-se reciprocamente. Uma das senhoras disse:
— Eu dou-lhe os emboras, senhor Xavier; mas...
— Mas quê, minha senhora? — perguntou Oliveira. — Consta que Dona Ana de Almeida é muito doente do peito, e promete pouca vida.
— Assim dizem — disse o jovem — ; mas quem tem tanta vida no coração dará dela a remanescente para alimentar o corpo, que é o mais fácil de sustentar. E, se a vida do coração não bastar, dar-lhe-ei da minha, que é muita e fará o milagre de ressuscitá-la.
Anunciou-se na sala que Leonor estava em ânsias aflitivas. Sara saiu logo acelerada, e as damas seguiram-na.
António José da Silva acercou-se de Francisco Xavier, e disse-lhe à puridade:
— Leonor amava-te.
— E eu estimava-a muito a ela, e por igual a ti. Faz de conta que não compreendemos este incidente. É necessário que ela me odeie, se porventura as tuas suspeitas são fundadas.
Os cavalheiros conversaram sobre coisas do Estado. Volvidos vinte minutos, Leonor entrou na sala com risonho e composto rosto. Os homens rodearam-na com perguntas sobre o seu estado.
— Não foi nada — respondeu ela. — Foi uma pequena dor que a amizade das minhas primas exagerou. Sinto-me boa.
A conversa continuou. Leonor nunca estivera tão animada. Falou dos portugueses poetas com quem travara conhecimento em casa do seu pai. Recitou algumas poesias de um judeu de Leiria chamado Manuel do Leão, que lá viveu, cantando as festas de Portugal, e lá morreu para que a pátria o não levasse ao capitólio de algum auto-de-fé. Citou muitas poesias do judeu; disse, porém, que para si a mais dileta era uma que começava:
Recolheram-se os sóis, fechou-se o dia, mas não se abriu a noite, pois se via outra manhã... (*)
[(*) Vem a poesia no Triunfo Lusitano — impresso em Bruxelas em 1688. Manuel do Leão morreu em Amesterdão de provecta idade.]
Muitos compreenderam a alusão. Pobre menina!, Julgou que eram todos tolos, excetuado Francisco Xavier de Oliveira.