O Judeu
Capítulo X · Neste dia, Duarte Cotinel, a horas descostumadas,…
Neste dia, Duarte Cotinel, a horas descostumadas, estava ainda fechado no seu quarto. A noite passou-a na vigília de um suplício atroz, com intermitentes de infernal alegria. Tinha ali o tesouro de António José da Silva. Abrira-o, remexera-o, contara as joias, contara os brilhantes: estava tudo, e mais um anel, que ele nunca vira, o anel do contador-mor, a prenda que D. João de Bragança dera ao seu destro caçador na tapada de Vila Viçosa. Mas assim que ele despregava os olhos das flamejantes pedras, assim que descia a tampa do cofre, ressaltavam outras chamas de dentro dele, e iluminavam-lhe três pessoas em contorcimentos horrentes, amarradas a três postes, e as labaredas a subirem, e a serpejarem por elas, e a fumarada negra a subir em coluna dentre as camadas de lenha e as faíscas a lampejarem pela cerração do fumo, e os gritos estrídulos a retinirem por sobre o crepitar da fogueira.
Assim que o almoxarife se afez àquela visão, e achou que o segredo mágico de a desvanecer estava no abrir do cofre e na deleitação de tirar e repor as preciosas camadas, conseguiu conciliar o sono. Ora, a placidez, com que ele dormia às onze horas da manhã era tal que ninguém poderia estremá-la da placidez com que dorme um justo.
Às onze horas, porém, foi espertado por estrondoso empuxar à porta. Saltou do leito, e abriu as janelas para convencer-se de que havia sol, ar e luz para ele, como para qualquer justo, que se ergue do seu catre duro de penitente para louvar a luz, o ar e o sol de Deus.
Ouviu o gritar convulso de Feliciana; vestiu-se à pressa, e abriu.
A negra ia dar-lhe parte de que estava no pátio um familiar e um meirinho do Santo Oficio, em procura dela.
— Olhe se me esconde, pelas cinco chagas! — exclamava ela.
— Se te escondo?! Para quê? — disse ele sossegadamente. — Pois tu julgas que vais presa?
— Pois então?
— Não vais presa, bruta; vais ser outra vez perguntada a respeito do que já disseste; entendes, mulher?
— Perguntada outra vez? — disse ela.
— Diante da minha senhora?
— Não: tornam a perguntar o que já disseste, e mandam-te embora, que é o costume. Pois tu pensas que as testemunhas também são metidas na prisão? Está aí o familiar, porque é sempre assim; é ele que vai buscar as testemunhas.
A escrava, não obstante as explicações confortadoras de Duarte, pensou em fugir pela quinta; mas o familiar e meirinho anteciparam-se a intimar perentoriamente o almoxarife, por maneira que faltou à negra tempo e ocasião de fugir.
Depôs ela saiu Duarte, caminho do tribunal. A preta foi conduzida à audiência; o almoxarife da Bemposta entrou no aposento do alcaide, onde se demorou meia hora em prática muito recôndita.
Ao capelão dos infantes, pai de Duarte, devia o alcaide a sua investidura naquele exercício bem remunerado. O almoxarife sabia que naquele homem tinha um auxiliar poderoso e de confiança para qualquer intento, sem despender-se na compra da alma bastante abjeta para vender-se cara. A prática entre os dois terminou depressa porque as ocupações do alcaide eram muitas e pouco intervaladas de repouso, mormente naquele mês de Outubro, em que regularmente se celebravam os autos-de-fé — por cair então a primeira dominga do Advento — e serem mais frequentes os interrogatórios e torturas dos presos.
Assim mesmo no breve tempo que praticaram, os pontos essenciais, respetivamente à negra, foram combinados, e as consequências más previstas e remediadas.
Feliciana, depois de interrogada, ouviu o seu depoimento, e assinou de cruz. Mandaram-na sair; e quando ela endireitava pelo caminho do pátio, um guarda mudou-lhe a direção, dizendo-lhe:
— Por aqui. Apavorou-se a negra, e perguntou em ânsias: — Eu fico presa? — Não: ficas ali em baixo num quarto até ver.
Fecharam-na. Começou logo ela a dar gritos e a revolver-se no pavimento.
Acudiram os guardas com vergastas e ameaçaram-na. Foi chamado o alcaide, para aquietá-la. Queria ele ficar a sós com a negra para acalmá-la com razões consoladoras, que assim convinha; mas, proibindo os estatutos da Inquisição que algum oficial do serviço dos cárceres estivesse com o preso sem o testemunho doutro empregado, o alcaide valeu-se do terror para aquietá-la.
Ao outro dia, o guarda avisou o alcaide de que a negra estava clamando que jurara falso, e queria ir desdizer-se à presença dos inquisidores, e contar o que se passara com a pessoa que a fizera jurar.
O alcaide avisou Duarte Cotinel, que sem mais demora que a necessária para prover — se de um frasco, foi à Santa Casa, e pouco se deteve com o confidente.
A negra não cessava de exclamar e pedir que a ouvissem. Pouco antes da hora do jantar, o alcaide, com o pretexto de a castigar, entrou sozinho à prisão, e tão brandamente falou à negra, tão breve lhe figurou a sua saída do Santo Oficio, que a desgraçada aplacou — se, e prometeu comer e sossegar até ao outro dia na esperança de sair então.
Feliciana jantou com algum apetite; não achou travor sensível no molho da caldeirada do peixe: comeu bem, com tenção de dormir melhor para aligeirar o tempo. Meia hora depois, quando pensava em adormecer, saltou da enxerga em gritos e ânsias, bradando por socorro. Acudiram os chaveiros. Feliciana queixava-se de ter dores infernais no ventre; rolava-se no soalho, e levantava-se de salto remetendo contra a porta para fugir. Numa destas investidas que os guardas repeliam, a negra caiu, estrebuchou, estirou as pernas em convulsões, retorceu boca e olhos horrendamente, e morreu.
José Maria da Costa e Silva, o menos imperfeito biógrafo de António José, diz o seguinte acerca desta escrava:
“Lourença Coutinho, mãe do poeta, tinha uma escrava preta, porque nesse tempo havia ainda escravos neste reino, e aquela escrava era desonesta e dissoluta, como todas elas, e como o são quase todas as criadas.
António José da Silva a castigou, e é natural que com rigor aproximado ao que em tais casos se usa no Brasil: a negra era vingativa como quase todos os negros, e ou por malignidade própria, ou por sugestões de pessoa ou pessoas a quem se queixou, apresentou contra ele no Santo Oficio uma notícia de judaizante e relapso...
Porém, a justiça de Deus não quis que esta perversa mulher continuasse a ajudar a ruína do seu senhor, nem gozasse da sua vingança tão traidoramente procurada; pois apenas a negra entrou no cárcere possuiu-se de tais terrores que dentro em breves dias terminou a sua existência.“
Eu inclino-me a crer muito mais nos efeitos do veneno de Duarte Cotinel que nos pavores e remorsos da negra.