O Judeu

Camilo Castelo Branco · Capítulo 2 de 46

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O Judeu

Capítulo II · Estava em casa destes fidalgos uma criada…

 

Estava em casa destes fidalgos uma criada de vinte anos de idade, bela, órfã de pai e mãe, que ambos tinham sido queimados, como judeus, no auto-de-fé de 1685. O compassivo Luís Pereira tirara das presas da miséria aquela menina de cinco para seis anos, e deu-lhe, no batismo, nome de Maria, para lhe tirar da memória o nome Sara; e assim, com o tempo, a lavar de toda a suspeita de hebraísmo. A triste criança recordava-se dos mimos da sua casa e carinhos dos pais, um ano depois que fora arrancada aos peitos estreitados de ambos. Depois, nunca mais os vira; e, somente aos dez anos, soubera o horrendo suplício que sofreram. Julgava-os presos, desterrados, mas não pulverizados a fogo, e confundidas suas cinzas no lodo do Campo da Lã.

Aos dez anos, Sara ainda se lembrava do rosto da sua mãe. Quando queria, a pedido do seus amos, compará-la, dizia: “Quando me olho ao espelho, penso que a vejo a ela.“

Ora, Sara ou Maria muitas vezes ouviu D. Francisca exclamar ao contemplá-la:

— Muito finda és, menina! se a tua mãe assim foi, que pena ser ela judia! Que bela criatura comeu o fogo!... Oxalá, ao menos, que ela se convertesse à última hora! Assim, pode ser que as tuas rezas lhe aliviem as penas do purgatório.

— E ela há de estar ainda penando no purgatório?! — perguntava Maria aos quinze anos, com mais juízo que inocência.

— Pois então!, se ela não conhecia o verdadeiro Deus! — emendava D. Francisca.

— Se O não conhecia, para castigo bastou queimarem-na neste mundo. No outro mundo conhece ela o verdadeiro Deus, e adora-o, como decerto havia de adorá-lo cá, se O conhecesse.

O castigo do fogo, na outra vida já não lhe aproveita lá... parece-me.

— Estás a dizer heresias, rapariga! — acudia D. Francisca com severidade pia. — Acho que ainda não entendeste bem o teu catecismo... Ferve-te o mau sangue nas veias...

Maria não replicava: ia ler o seu catecismo, e pedia ao verdadeiro Deus lhe permitisse que a sua mãe e pai vissem as lágrimas dela, e a levassem para si.

Dois filhos do fidalgo tratavam-na com liberdade de amos pouco escrupulosos em respeito à pureza e à dependência; Jorge, porém, da mesma idade dela, e o seu companheiro de infância, ao tocar nos quinze anos, mudou a facilidade do trato e confiança em cerimoniosa seriedade — mudança que Maria, muito magoada, estranhou. A compostura grave de Jorge e a estranheza contristada de Sara exprimiam o alvorecer de dois sentimentos iluminados por estrela de má sina.

Amavam-se, e tão desde o íntimo à flor da alma, que um dia, ao perpassarem um pelo outro num corredor solitário do palácio, pararam, fitaram-se, e um nos olhos do outro viram-se espelhados nas lágrimas.

— Tu choras, Sara! — disse ele.

— Não, senhor Jorge... Estou alegre... Pensei que me aborrecia... Gosto de o ouvir chamar-me Sara: pensava eu que vossa Senhoria me desestimava porque era esse o meu nome, antes de me chamar Maria.

— Para mim — volveu ele — serás sempre Sara. Mais te amo, quanto mais odiada te vejo do mundo.

— Mais me ama!... — exclamou ela.

— Sim...

— Oh, meu Deus!... — clamou ela pondo as mãos suplicantes.

— Mais te amo, sim... Não vês que também eu sou perseguido?! No peito do meu avô é que eu tenho coração de pai, mãe e irmãos. Toda a minha família me detesta! Que mal faço eu?...

— Isso pergunto eu a Deus, senhor Jorge!... — balbuciou ela.

— Não temos pai nem mãe, Sara! — disse o jovem. — Os teus eram israelitas, e amavam-te muito; mas mataram-tos: os meus são cristãos, abominam-me, e dizem que os judeus morrem como devem morrer. Que hei de eu pensar destas tristezas do mundo? O pensar e ler faz-me um grande mal ao espírito...

Nisto, reteve-se, e disse em sobressalto: — Vai, vai, Sara: ouço as passadas da minha mãe... E fugiram, cada um pela sua porta lateral do corredor. Depois deste encontro, repetiram-se uns curtos colóquios ajeitados pelo acaso ou furtivamente diligenciados, bem que as expressões trocadas fossem tão desmaliciosas e honestas que podiam ser ouvidas por toda a gente, excetuados os familiares do Santo Oficio. Maria encontrara no coração de Jorge piedade com os infelizes hebreus; gostava de ouvi-lo carpir a sorte dos que gemiam avexados sob a vigilância dos hipócritas, até que a crueza e ferocidade lhes iluminava com o círio amarelo e com as labaredas o caminho do purgatório ou do irremissível inferno.

Quatro anos de melhorada vida e parca satisfação correram entre as duas almas, que se amavam e acoutavam de todos para se falarem, exceto do velho Luís de Barros, que não tinha no seio peçonha que vertesse nos singelos galanteios do seu neto e da mocinha, salva por ele da fome, da prostituição, e Deus sabe se da fogueira.

E, entretanto, no ânimo de D. Francisca entrara a suspeita, encarecida pelo desejo que ela tinha de levá-la à prova. Foi grande parte nisto o desdém e altiveza com que a judia repulsava as liberdades brutais de Garcia e os desonestos ímpetos de Filipe, chegando a acusá-los à mãe.

— E o senhor Jorge não te incomoda? — replicou a fidalga com desabrimento.

— O senhor Jorge?... — disse Maria, corando.

— Ah!, coras?... — acudiu a matreira vitoriosa. — Então sempre é certo!...

— Certo o quê, senhora? — tartamudeou Maria.

— Não gaguejes, impostora! Eu já o desconfiava... Ora cautela, cautela, que eu sou tão boa como má, quando os ingratos me voltam do invés!

Maria, sem acordo da sua situação para rebater as suspeitas, confirmou-as com a mudez. Saiu da presença da fidalga, chorando. Terrível confissão aquela, cujo efeito, ainda o mais desastroso, segundo a lógica da humana maldade, ninguém podia prever.

Assim que o lanço se ocasionou, a judia referiu a Jorge o acontecido: o jovem tremeu, ocultou os seus pavores, e foi desafogar-se com o avó, sem contudo, menos respeitoso, lhe confessar quanto amava Sara. A grande e terrível aflição de Jorge era o medo de vê-la ainda nas garras da suprema Inquisição.

Consolou-o o avô, desvanecendo-lhe preocupações horríveis sobre o futuro procedimento da sua mãe. Dizia-lhe o velho:

— Pois não vês que a tua mãe é minha filha? Seria capaz ela da fereza que a tua imaginação concebeu? É verdade que eu me espanto dos sentimentos desavergonhados desta filha que eduquei religiosamente, sem biocos nem visagens piedosas; mas sim com o mais depurado espírito das sãs virtudes antigas. Assim a tive até casar, assim a entreguei ao teu pai, que se me figurou mancebo de bom e forte carácter, e creio que o é, salvo na fraqueza com que aplaude todas as vontades da mulher. Isto está mau; mas, meu filho, não posso eu já melhorá-lo. Comigo ninguém já conta senão para me beijarem a cadavérica mão quando me tirarem este anel! — disse o ancião entre riso e choros. — No entanto, Jorge, a respeito desta rapariga, aconselho-te que não a inquietes; primeiro porque é nossa serva, segundo porque é uma pobre, sem parentes em Portugal, sem ninguém. se a tua mãe a expulsa de casa, que fará? Perde-se; e, se tu a tomares ao teu encargo, perdida está, Entretém-te com os teus livros; mas lê pouco do Montaigne e Brantôme. Fiz mal em dar-tos.

Discutes de mais: tendes às dúvidas luteranas. Bem sei o que é. Começas a odiar a Inquisição: também eu, há muito, a odeio; todavia, resigno-me com a época, porque ninguém pode pôr peito de encontro às ideias do seu tempo. Tu ou os teus filhos vereis a revolução dos espíritos e costumes. A Alemanha cá virá, como foi à França, e as demasias da religião há de cauterizá-las o ferro do soldado, assim como o fogo do frade queima hoje em dia os rebeldes à soberania dos pontífices.

Do discurso do velho facilmente inferimos que ele tinha lido Montaigne, e adivinhado Voltaire, que naquele tempo, teria quatro anos. E, todavia, religioso e santo ancião era aquele! Se pudesse viver mais cinquenta anos, aceitaria cordialmente as reformas do conde de Oeiras; mas, como justo e humano, odiaria o déspota, o coração duro, que não soube colher frutos sem regar a árvore com muito sangue inútil.

Ficara o velho, sentado e acurvado na sua poltrona, rodando entre os escamados dedos a sua caixa de tabaco de Espanha, e pensando nos embaraços de coração em que via enleado o seu querido neto, quando D. Francisca aproximou-se dele acariciando-lhe as farripas de alvíssimo cabelo, que lhe caíam nas espáduas.

— Jantou muito pouco, meu pai! — disse ela.

— É verdade, filha: vai-se-me o apetite; a vida quer ir-se...

— Não pense nisso...

— Não pensava, não. Quem já adivinha e contempla a aurora do dia grande, não volta os olhos para a noite do dia passado...

— Já cá esteve o Jorge, depois de jantar? — perguntou ela, caindo de chofre no ponto.

— Saiu agora daqui. Deteve-se D. Francisca sem saber como começar. O pai relanceou-lhe os olhos penetrativos, e abaixou a cara, continuando a rodar a caixa de ouro entre os dedos.

— Receio — disse ela — que o Jorge nos prepare desgostos grandes.

— Como assim? — perguntou serenamente o velho. — Então que há de novo?

— Uma ação indigna de um neto de Luís Pereira de Barros.

— Olá... então é coisa de maior!... Conta-me lá isso com ânimo desapaixonado, filha.

— O pai está assim com uns ares de gracejo!...

— São ares de velho, que tem visto muito mundo, e muita fraqueza. São oitenta e quatro anos vividos em épocas muito desgraçadas e revoltas. Ora diz lá, que eu te escuto muito sério.

— Eu lhe conto, meu pai. Jorge, se já não é amante da judia, procura sê-lo — disse com azedume fictício D. Francisca, e esperou a indignação do pai, que se ficou impassível. O silêncio de ambos ia-se delongando, quando o velho disse:

— Provas.

— As provas é andarem eles conversando a ocultas, e Maria corar quando eu a interroguei.

— Se ela não corasse, provava melhor as tuas suspeitas... Não te parece?!

— Corou de medo — acudiu D. Francisca.

— Não corou de medo — contradisse o velho.

— Então de que foi? De vergonha?

— Não podia envergonhar-se de amar um teu filho. Seria o sangue do coração, que lhe subiu ao rosto a pedir-te misericórdia.

— E hei de eu tê-la?

— Porque não, se Jesus Cristo a teve com mulheres criminosas?!... Maria é uma daquelas a quem Jesus diria: “Vai em paz, que não pecaste.“

— Ora essa!... O pai tem coisas!... — replicou sorrindo contrafeita. — E diria Jesus Cristo isso mesmo à judia!...

— Isso é ignorância, filha. Jesus Cristo nasceu entre judeus, e sobre judeus derramou os tesouros da sua misericórdia, e aos judeus perdoou o deicídio quando se foi ao seio de Abraão.

— Parece-me que o pai não faz bem em dizer semelhantes coisas a Jorge!...

— Não me repreendas, filha, que eu tenho oitenta e quatro anos.

— Eu não o repreendo — volveu Francisca brandamente mas Vossa Senhoria bem sabe o que são rapazes que leem os livros dos hereges.

— Vamos ao ponto, Francisca, e deixa lá os livros dos hereges... Então que queres tu?

— Que o pai repreenda meu filho, já que ele me não respeita.

— Calúnia, teu filho respeita-te; e, se te não ama, a culpa é tua. Não revivamos a questão do teu desamor a este filho. Pejo-me de entrar nela. Basta dizer-te que não tens nem tenho porque censurar Jorge. Aconselhá-lo sim: já o aconselhei.

— E entende o pai que não devo dar mais passo algum?

— Entendo.

— E quando a desgraça for irremediável?

— E quando o céu cair sobre nossas cabeças? Os actos mais inocentes do homem podem encaminhá-lo à desgraça. Não vejas o péssimo, quando nem sequer te assustam aparências do mau.

— De maneira — retorquiu a filha irritada — , de maneira que devo continuar a ter em casa a judia!...

— Deves, em consideração à inocência dela, e à minha vontade, porque fui eu que a fui buscar a casa do pobre atafoneiro que a recolheu.

— E Jorge pode fazer o que quiser!...

— Não: há de fazer o que o for justo, e o que as circunstâncias lhe disserem que é o melhor.

D. Francisca, rubra de despeito e cólera, exclamou:

— O pai perde-me aquele rapaz! O seu apoio é que lhe dá uma sobranceria orgulhosa nesta casa!

— Vai-te, que me estás incomodando — concluiu pacificamente o ancião.

Saiu D. Francisca, e foi contar ao marido a conversa com o pai. Plácido de Moura, obtemperando aos frenesis da esposa, disse-lhe:

— O teu pai está louco: é a decrepitude. Não faças caso dele, e executa o que te parecer acertado.

— Dizes bem — acudiu ela — ; mas o anel?

— O anel que tem? Ele não o levará para a sepultura... Nós teremos cuidado.

— E se Jorge lho apanha?...

— Deixa-te disso. O velho há de morrer insensivelmente sem julgar que morre. Não o desampares tu, assim que o vires mais enfraquecido. Eu vou tratar de obter um governo no ultramar para Jorge. O caso é desviá-lo daqui.

— Um governo! E logo um governo! — interrompeu a esposa.

— E Garcia? E Filipe? Que carreira começam?

— Não querem sair de Lisboa. As mulheres, as freiras de Odivelas, as de Chelas, as comendadeiras, enfim, as funçanatas da corte não os deixam tratar da vida. Deixá-los, que estão novos, e têm futuro independente. A nossa casa está grande, e o tesouro do teu pai, segundo o que lhe ouvi, quando ele calculou os cabedais que o teu avô trouxe da Índia, e a herança do teu tio, que morreu em Alcácer Quibir, deve orçar por cento e cinquenta mil cruzados em dinheiro e pedras.

— Pois então — condescendeu D. Francisca — não te descuides: deixá-lo ir para o ultramar, e depressa antes que ele pratique alguma indignidade. Mas o pior é se o pai nos embarga a ida de Jorge...

— Qual? Eu encarrego-me de convencê-lo. Este diálogo fora escutado involuntariamente por Sara. Estava ela numa alcova riçando e anelando a cabeleira da sua ama, quando os dois esposos entraram à sala contígua. Susteve-se, indecisa se sairia; mas, desde as primeiras palavras, ficou estupefacta e como chumbada ao pavimento, e sem respiro.

Azado a oportunidade, disse pelo alto a Jorge quanto ouvira. O jovem deu-se pressa em avisar o avô. Sorriu-se o velho da ansiedade do neto, e disse-lhe:

— Este anel tem feitiço: ele te salvará, rapaz. Enquanto a Maria, se ela for despedida, nós a salvaremos. És tu homem de bem?

— Peça-me provas, meu avô! — acudiu o jovem.

— Olha para essa infeliz menina como eu olho. Quando a tentação te dobrar, ergue-te e diz: “O meu avô quer que eu seja homem de bem!“