O Judeu
Capítulo VI · A fuga de Sara não descoroçoou o…
A fuga de Sara não descoroçoou o ânimo vingativo de D. Francisca Teles, nem esfriou as inculcas de D. Veríssimo de Lencastre, instigado pela ilustre dama, cujo desembaraço por gabinetes de deputados e conselheiros do Santo Ofício arguia a desenvoltura de costumes nos primeiros anos de casada.
Não obstante, a judia estava segura em companhia dos Sãs da Covilhã, ricos fazendeiros e laboriosos artífices, posto que ao conhecimento do bispo da Guarda chegasse a nova de existir uma cara desconhecida entre os familiares de Simão de Sã.
Porém, como quer que o bispo fosse criatura do duque de Cadaval, e os hebreus muito da amizade deste fidalgo grande privado do rei, a denúncia não surtiu efeito.
A Inquisição teria de envergonhar-se da sua impotência, se não descobrisse o paradeiro de Sara. Os agentes mais ladinos puseram peito a lavar esta nódoa do Santo Oficio, e vingaram o intento pelo mais fácil dos expedientes, bem que derradeiro na execução.
Um dominicano, confessor no Convento da Madre de Deus, ganhou facilmente a consciência das suas confessadas, empenhando-as no descobrimento do destino de Sara. Estas religiosas eram das mais reformadas e venerandas, usavam cilícios, e avergoavam as santas costas com disciplinas às sextas-feiras. A prioresa, ainda assim, guardara delas e de todas o segredo do destino da cristã-nova, porque assim o prometera ao seu parente e benfeitor Luís Pereira de Barros.
Possuídas do Lúcifer de Domingos de Gusmão — Lúcifer que, infernalmente engenhoso, andou aí três séculos enroupado nas túnicas apostólicas para escarnecer e desacreditar a mansidão triunfante do filho de Deus — , as três freiras predestinadas assediaram a confiança da prioresa com tais ardis, segredados pelo espírito das trevas — às vezes lucidíssimo — que a embaída soror Leonarda chegou a declarar que a serva do seu primo Luís Pereira estava da mão do duque de Cadaval. Não satisfaziam estas informações o Santo Ofício. Prosseguiram as possessas nas suas inculcas, e descobriram que a judia passara do convento para Oeiras. Daqui avante, começava a ineficácia do demónio no espírito das esposas do seu rival. Fez-se-lhe ver que era preciso envolver a cauda, esconder as pontas na cabeleira de algum familiar do Santo Ofício, e ingerir-se em Oeiras.
O feitor do duque, sujeito de entranhas ímpias, que por vezes fora encarregado de despejar um arcabuz no peito do conde de Castelo-Melhor, inimigo político do Cadaval, como estivesse a entrouxar para a eternidade, ofereceu a infâmia da perfídia como desconto dos seus pecados, e lançou-a no regaço da túnica de um frade de S. Domingos, delatando que a judia fora levada de Oeiras pelo hebreu Simão de Sã para a Covilhã.
Os agentes da Inquisição na Guarda receberam ordens; o bispo foi consultado no expediente da execução, e preveniu o hebreu de modo que a procedência do aviso ficasse ignorada.
Simão de Sã avisou o duque, assegurando-o do bom recado em que estava Sara, muito a salvo da perseguição. O duque inteirou disto o seu amigo Luís de Barros, aconselhando-o, sem impedimento da segurança do hebreu da Covilhã, a pensar no modo de transladar a sua afilhada ao Brasil. E juntava: “Se a filha de Vossa Senhoria não desistir desta pervicaz perseguição, mais hoje mais amanhã, a avezinha cai nas garras do milhafre.“
Reparou Jorge no riso ferino da sua mãe, e numas casquinhas que ela garganteava, quando podia ser ouvida do filho. Com esta mudança na torva catadura de D. Francisca Teles coincidiu o aviso do duque. O ancião decifrou a alegria satânica da filha, e cobrou-lhe rancor do íntimo.
Sobre-excitado pelo ardor do sangue, Luís Pereira sentiu-se um pouquinho avigorado, não já para jomadear, mas bastante para transferir-se com Jorge para casa do seu primo Diogo de Barros da Silva, bisneto como ele do grande historiógrafo João de Barros.
D. Francisca viu sair as arcas e contadores do pai. Correu alvoroçada à câmara dele, e perguntou:
— Que mudança é esta, meu pai?
O ancião olhou-a muito no rosto, e respondeu:
— Perguntas se o anel também se muda, Francisca?
— Que me faz o anel?!... O que eu lhe peço, senhor, é que me diga a causa desta saída, que vai dar que falar na corte e na cidade!...
— Tenho medo de ti e da Inquisição... — murmurou o velho com alegre sombra. — Não vás tu acusar-me de judaizante, Francisca... O fanatismo e a vingança aboliram as leis da natureza. Não há pai por filho nem filho por pai. Agora deixa-me dirigir estas coisas... Jorge, manda preparar o meu coche.
Francisca trincou a língua até esvurmar sangue empestado. Para resfolegar do peito afogado de ira, lembrou-se do alvitre de Garcia no propósito de cavar e demolir até descobrir o tesouro. Saiu de ímpeto e afogueada da presença do velho, o qual, encostando a face ao peito, disse:
— Quanto eu quis a esta filha!... Como eu me separo dela às portas do tribunal do Altíssimo, onde vou dar contas do mimo com que foi criada nos meus braços!... Filha sem mãe... Não chegou a ouvir a virtuosa que lhe deu o leite... A minha santa mulher, que dor seria a tua no céu, se de lá pudesses ver esta filha de quem tu, quase morta, me dizias: “Deixo-te o coração no seio desta criancinha!“...
Enxugou as lágrimas, e pediu a Jorge e ao escudeiro que o vestissem. Depois, olhou em derredor de si, sobre as alfaias restantes dos seus aposentos, e disse:
— Naquele quarto nasci... Ao fim de oitenta e quatro anos daqui me vou... e ninguém amaldiçoarei em respeito à imagem do meu pai, que ali deixo pendente, para que nesta casa fique, ao menos, o retrato de um varão justo. Desce-me daquele prego o retrato da tua avó, Jorge: esse irá connosco... Desconfio que os teus irmãos, com as parceiras da sua libertinagem, cheguem até este recinto onde ela morreu.
Em seguimento, Luís de Barros, olhando muito de perto o retrato da sua esposa, apertou o painel ao seio, esteve-se alguns minutos a desabafar em soluços, e quase esvaído de alento acenou que o levassem dali. No trajeto ao coche ninguém lhe saiu ao encontro. E o velho ia dizendo a sós consigo:
— E, todavia, Deus sabe que eu não amaldiçoei esta família... nem vingança lhe peço... Misericórdia, misericórdia para eles e para mim...
Luís de Barros, na luxuosa aposentadoria que o primo lhe alfaiara, achou-se rodeado de parentes e amigos que o génio desabrido de Francisca Teles afugentara do palácio da Bemposta. Radiava o contentamento da paz em volta dele. Cada pessoa competia com as outras em adivinhar-lhe os desejos. E, não obstante, o ancião tinha saudades do seu quarto, e da soledade a que se afizera com o neto. Os importunos afetos dos parentes hospedeiros, e frequentes visitas doutros molestavam-no. Pesava-lhe a esvaída cabeça; era-lhe pouco o ar para o peito em que havia represa de muitas lágrimas, e receios por aquela pobre Sara que muito o agonizavam.
Passados dias, o duque deu-lhe aviso de ter sido assaltada a casa de Simão de Sã pelos esbirros do Santo Oficio. O assalto baldara-se. A casa do hebreu tinha subterrâneos com entradas inacessíveis à solércia dos quadrilheiros da Inquisição, bem que sagazmente afuroados em avenidas de calabouços.
Recresciam-lhe, pois, as angústias ao excruciado ancião, agravadas pelo silêncio consternador de Jorge, que não ousava lastimar Sara para não dilacerar a alma do avô. Tratos vãos! Não cabiam mais paixões naquele trespassado peito.
O inquisidor, já impacientado com as teimosas solicitações de D. Francisca, e informado pelo duque de Cadaval da índole vingativa da brava filha de Luís de Barros, recebeu-a de má sombra, e disse-lhe que a judia já não estava na Covilhã, segundo informações fidedignas. Os colegas dominicanos de D. Veríssimo, mais desconfiados e menos dobradiços a respeitos e rogos do duque, prometeram a D. Francisca não levantar mão da empresa piedosa. Com esta promessa de fogueira, cedo ou tarde, se foi alimentando o cancro roedor das entranhas da fidalga.