O Judeu
Capítulo IX · Estavam ainda à mesa, quando um lacaio…
Estavam ainda à mesa, quando um lacaio de Diogo de Barros da Silva chegou com a notícia de que tinha passado da vida às oito horas da manhã o senhor Luís Pereira de Barros.
— O coche na rua! — exclamou Francisca Pereira. E correu para o toucador a vestir-se. Os filhos, um momento perplexos, perguntavam ao pai:
— Vamos lá? Plácido não os ouviu. Reconcentrara-se com doloroso rosto, e disse:
— Pobre velho!... Santo homem... Devia expirar nos braços da filha, que ele tanto amou...
— E o anel? — perguntou Filipe.
— Não fales agora em anel, filho! — disse o pai. — Reza por alma do teu avô, que foi um português dos que já não há...
— Ora!... — resmoneou Filipe, e saiu com Garcia pressurosamente a perguntarem à mãe, de fora da recâmara:
— Nós que fazemos, mãe?
— Vesti-vos de luto para me acompanhardes. Entretanto, o genro de Luís de Barros encerrou-se no seu quarto para chorar, e pedir à alma do seu sogro que lhe perdoasse a fraqueza com que se ele deixara maniatar pela condição despótica da sua mulher.
Urna hora depois, D. Francisca e os filhos apearam do coche à porta de Diogo de Barros.
As senhoras da casa perguntaram secamente à sua parenta se queria que o saimento se fizesse dali ou do palácio da Bemposta.
D. Francisca não respondeu à pergunta, e disse que queria ver o pai.
— Eu vou conduzi-la, prima Francisca Teles — disse Diogo.
— Jorge está lá? — perguntou ela.
— Não, minha senhora. Jorge está com dois médicos à cabeceira, porque perdeu o alento às seis horas, quando o avô lhe disse adeus, e não o recobrou ainda. Ao pé do cadáver estão os meus filhos, e o escudeiro António Soliz.
— Vamos, primo Diogo — disse D. Francisca. Entraram ao quarto iluminado ainda pelos círios, que ardiam ao lado do Crucificado. Dir-se-ia que daquele recinto saíra, tangida por mão invisível, uma clava de ferro, que bateu no peito daquela mulher. Saltou ela um passo a trás, e amareleceu como se o cadáver se levantasse para amaldiçoá-la. Avançou amparada no braço de Diogo, e retrocedeu ainda, murmurando:
— Não posso...
— Pois não entremos, prima... Eu compreendo o seu horror...
— O meu horror? — perguntou ela assombrada.
— Sim!... Vossa Senhoria encheu de fel aquele honrado coração que ali está morto.
— Não me diga essas coisas nesta ocasião! — exclamou ela.
— É quando Deus manda que lhas diga, minha senhora.
— Expulsa-me, não é assim? — disse ela, desprendendo-se-lhe do braço.
— Não, minha prima, não a expulso, porque é filha de Luís de Barros; porém, quando aquele cadáver tiver saído, as nossas relações, minha senhora, fecham-se no jazigo dele.
D. Francisca relanceou os olhos aos dois filhos, que fitavam sinistramente Diogo. Retrocederam à sala. A filha de Luís de Barros sentou-se ofegante e disse:
— Posso saber que destino teve um anel que o meu pai tinha no dedo?
— Pode, minha senhora. Desse anel, que o duque de Bragança tinha dado ao seu pai, ficou herdeiro seu filho Jorge.
— Herdeiro!... Veremos isso! — exclamou ela.
— Pois veremos, minha senhora — tomou Diogo — , lembro-lhe, todavia, que é muito imprópria a ocasião para discutir-se a herança do anel.
— Mas há de discutir-se! — interveio Garcia. — E há de entregá-lo, que o tesouro é da mãe, e de todos por morte dela — disse Filipe.
— Respeitem o cadáver do seu avô, senhores! — exclamou Diogo de Barros erguendo-se hirto e formidável de majestade. — Respeitem o cadáver do santo homem que apunhalaram com desgostos!
D. Francisca levantou-se, e disse:
— Vamos, meus filhos! Primo Diogo, queira dizer a Jorge — continuou ela cacarejando um riso repulsivo — que vá buscar o tesouro quando quiser.
— Lá o esperamos... — acrescentou Garcia.
— E o cadáver? — perguntou o velho fidalgo a D. Francisca. — Dá-me Vossa Senhoria a honra de lhe dar sepultura?
— Sim, como queira, e eu pagarei as despesas — respondeu ela já da porta.
— É uma mulher que fala... — disse um filho de Diogo de Barros.
— E um homem! — replicou Garcia.
— Dois! — disse Filipe. — Eu já sei como o mais possante dos dois se dobra debaixo de um joelho... — redarguiu o filho de Diogo.
— Basta! — exclamou o velho, impondo silêncio ao filho. — Quem dirá o infame espetáculo que vem dar uma filha do primeiro sangue de Portugal ao pé do seu pai morto!
D. Francisca já tinha descido com os filhos.
O contador-mor, pela primeira vez na sua vida conjugal, deliberou sem consultar a esposa. Assim que soube o sucedido na casa dos parentes do seu sogro, saiu, fechado na sege, com o intento de conduzir o cadáver para a Bemposta.
— Isto é um opróbrio! — disse ele à mulher, que não ousou contrariá-lo.
Diogo de Barros recebeu-o com fria cerimónia, e acedeu à trasladação do defunto, vendo a compunção com que Plácido de Castanheda de Moura beijara a mão do seu sogro.
Depois, como ele perguntasse pelo seu filho Jorge, encaminhou-o ao quarto em que o jovem chorava e secava as lágrimas no rubor febril das faces. Disse Plácido algumas palavras afetuosas ao filho, e acrescentou:
— Não estejas a incomodar esta generosa família: vem para a tua casa, assim que puderes.
Jorge respondeu:
— Não irei, meu pai: beijo-lhe as mãos por essa caridade; mas a vontade do meu avô pode tanto comigo como se ele vivesse. Eu não caibo na casa dos meus pais; mas tenho o restante do mundo como casa. A terra à grande, e não há aí infeliz que não tenha uma parte do céu que o cubra.
Poucas mais frases se trocaram. Plácido saiu a providenciar os aprestos para o saimento; e, ao cair da tarde, o esquife de Luís de Barros foi assentado na essa da capela da Bemposta.