Os Fundamentos da Liberdade

Friedrich A. Hayek · Capítulo 9 de 49

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Os Fundamentos da Liberdade

— O Sentido Comum do Progresso

CAPÍTULO III

 

O Sentido Comum do Progresso

 

“O homem nunca avança tanto como quando desconhece o caminho.” (64)

OLIVER CROMWELL

1. A Desilusão com o Progresso

Atualmente, os escritores que pretendem manter o prestígio conquistado nos círculos mais sofisticados quase não ousam mencionar a palavra progresso sem colocá-la entre aspas. A confiança implícita na ação benéfica do progresso, que caracterizou o pensador

de vanguarda 64durante os últimos duzentos anos, chegou a ser considerada sinal de uma mentalidade superficial. Embora a grande massa dos indivíduos, na maior parte do mundo, ainda deposite esperanças no progresso contínuo, os intelectuais costumam se perguntar se o progresso de fato existe ou, pelo menos, se é desejável.

Até certo ponto, era necessária esta reação contra o entusiasmo ingênuo pela inevitabilidade do progresso. Grande parte de tudo que se escreveu e falou sobre progresso não tinha fundamento e, por isso, é preciso pensar duas vezes antes de usar essa palavra, Nunca se justificou plenamente a idéia de que “a civilização caminha, está

caminhando e continuará a caminhar numa direção desejável”, 66 nem havia razões para se considerar toda mudança necessária, ou o progresso infalível e sempre benéfico. Muito menos se justificava falar em indiscutíveis “leis do progresso”, que nos permitiam predizer os estágios para os quais estávamos, necessariamente, caminhando, ou considerar cada tolice que os homens praticaram necessária e, por isso mesmo, certa.

Mas, embora seja fácil explicar a desilusão com o progresso, hoje em moda, nem por isso ela deixa de ser perigosa. Em certo sentido, civilização é progresso e progresso é

civilização. 67A preservação da civilização que conhecemos depende da ação das forças que, em condições favoráveis, produzem o progresso. Se é verdade que a evolução nem sempre conduz a uma situação melhor, também é verdade que, sem as forças que a produzem, a civilização e tudo que apreciamos - de fato, quase tudo que distingue o homem do animal - não existiriam, nem poderiam ser preservados por muito tempo.

A história da civilização é a história de um progresso que, no breve período de menos de oito mil anos, criou quase tudo aquilo que consideramos característico da existência do homem. Depois de abandonar a vida de caçador, a maioria dos nossos antepassados diretos, no começo da era neolítica, começou a se dedicar à agricultura e, em seguida, passou à vida urbana, isto talvez há menos de três mil anos, ou seja, há cem gerações. Não surpreende que, em diversos aspectos, o equipamento biológico do homem não tenha acompanhado uma mudança tão rápida, que a adaptação de sua parte não racional haja, de certa forma, sofrido algum atraso e que vários dos seus instintos e emoções ainda se encontrem mais adaptados à vida do caçador do que à vida civilizada. Se muitas características da nossa civilização nos parecem, hoje, inaturais, artificiais ou pouco salutares, o mesmo devia sentir o homem desde o momento em que passou a viver em cidades, ou, virtualmente, desde que a civilização começou. Todas as críticas costumeiras à industrialização, ao capitalismo ou à vida exageradamente refinada constituem, em grande parte, protestos contra um novo modo de vida que o homem iniciou há pouco tempo, após mais de meio milhão de anos de existência como caçador nômade, e do qual

decorrem problemas que ele ainda não conseguiu resolver. 68

2. Progresso e Melhoramento

Quando falamos de progresso em relação às nossas realizações pessoais ou de qualquer atividade humana organizada, entendemos um avanço em direção a uma meta

conhecida. 69Não é neste sentido que podemos chamar de progresso a evolução social, pois ela não é realizada pela razão humana empenhada em alcançar um fim certo por

meios conhecidos. 70Seria mais correto conceber o progresso como um processo de formação e modificação do intelecto humano, um processo de adaptação e de aprendizado, no qual não somente as possibilidades que conhecemos mas também os nossos valores e desejos mudam continuamente. Como o progresso consiste na descoberta de fatos ainda não conhecidos, suas conseqüências são necessariamente imprevisíveis. Ele sempre leva ao desconhecido e o máximo que podemos esperar é entender as forças que o tornam possível. Porém, embora uma compreensão geral do caráter desse processo de evolução cumulativa seja indispensável à criação de condições favoráveis a ele, nunca poderemos fazer previsões específicas mediante o conhecimento.

71 É absurda a idéia de que nosso conhecimento nos permite deduzir leis necessárias de evolução às quais deveríamos obedecer. A razão humana não pode predizer nem moldar seu próprio futuro. Suas conquistas consistem em descobrir seus erros.

Mesmo no campo em que é mais deliberada a procura de novos conhecimentos, isto é, na

ciência, ninguém pode prever quais serão as conseqüências de sua investigação. 72 De fato, cada vez mais o homem se dá conta de que até a tentativa de fazer com que a ciência busque conhecimentos úteis - isto é, conhecimentos cujo emprego futuro possa ser

previsto - provavelmente constitui um obstáculo ao progresso. 73O progresso, por sua própria natureza, não pode ser planejado. Seria, talvez, justificável falar em planejar o progresso em um campo determinado no qual pretendemos a solução de um problema específico e já nos encontramos perto de uma resposta, Mas chegaríamos logo ao fim de nossos esforços se tivéssemos de nos limitar a lutar por objetivos visíveis em dado momento e se novos problemas não estivessem surgindo sempre. O que nos torna mais sábios é a descoberta do desconhecido.

Mas isso, muitas vezes, também nos torna homens mais tristes. Embora o progresso consista, em parte, em conseguir coisas pelas quais estivemos lutando, isso nem sempre quer dizer que gostaremos de tudo aquilo que nos proporciona, ou que todos seremos ganhadores. E, já que nossos desejos e metas também estão sujeitos a mudanças no decorrer do processo, devemos questionar a afirmação de que as novas situações criadas pelo progresso são sempre melhores. O progresso, no sentido de um crescimento cumulativo de conhecimento e poder sobre a natureza, é um termo que não nos diz se o novo estado nos dará maior satisfação do que o anterior. O prazer pode estar, simplesmente, em conseguir aquilo por que lutamos, e sua posse, uma vez assegurada, pode proporcionar-nos pouca satisfação. Provavelmente é impossivel saber se seriamos mais felizes ou se estaríamos em melhores condições se tivéssemos de parar no atual estágio de nosso desenvolvimento ou se houvéssemos feito isto cem ou mil anos atrás.

Isto, porém, não tem importância. O que importa é vencermos a luta por aquilo que, a cada momento, nos parece possível alcançar. Não é pelos frutos dos sucessos passados, mas em viver no futuro e para o futuro que se comprova a inteligência humana. O progresso é o movimento pelo movimento, pois é no processo de aprendizado e nos efeitos da assimilação de algo novo que o homem desfruta o dom da sua inteligência.

O prazer do sucesso pessoal será desfrutado por um número maior de indivíduos somente em uma sociedade que, de um modo geral, progrida de forma relativamente rápida. Em uma sociedade estagnada, o número de pessoas que estão ascendendo será mais ou menos igual ao das que estão descendo. Para que a grande maioria possa participar individualmente do avanço, é necessário que este se dê com considerável rapidez. Portanto, não há dúvida de que Adam Smith tinha razão ao dizer: “A condição dos trabalhadores pobres, da grande maioria dos cidadãos, parece melhor e mais feliz quando há progresso, enquanto a sociedade está avançando em busca de novos bens materiais, e não quando já alcançou a riqueza plena. Sua condição é difícil no estado estacionário e deplorável no estado decadente. A situação de progresso é, realmente, a mais feliz e alegre para as diferentes classes da sociedade. A estacionária é entediante; a decadente,

melancólica”.74

Um dos fatos mais peculiares de uma sociedade progressista é que nela a maioria das coisas pelas quais as pessoas lutam poderá ser conseguida somente mediante novos progressos. Isto decorre da característica necessária do processo: os novos conhecimentos e seus benefícios podem expandir-se apenas gradualmente e as ambições da maioria serão sempre determinadas por aquilo que, até o momento, é acessível somente à minoria. É errôneo pensar que essas novas possibilidades são, desde o começo, um bem comum da sociedade, que seus membros poderiam partilhar imediatamente; transformam-se em um bem comum somente mediante aquele processo lento pelo qual as realizações de uma minoria se tornam acessiveis à maioria. Esse fato, muitas vezes, não é percebido por se dar atenção exagerada a algumas das conquistas importantes do processo de evolução. Na maioria das ocasiões, porém, as descobertas mais significativas servem apenas para abrir novos rumos, e novos e maiores esforços terão de ser feitos antes que o novo conhecimento, surgido em algum lugar, possa ser utilizado por todos. Ele precisará passar por um longo processo de adaptação, seleção, combinação e aperfeiçoamento antes que possa ser totalmente utilizado. Isto quer dizer que alguns sempre serão beneficiados pelas novas realizações antes que estas cheguem a outros.

3. Progresso e Desigualdade

O rápido avanço econômico com que passamos a contar parece, em grande medida, resultar dessa desigualdade e ser impossível sem ela. O progresso num ritmo tão rápido não pode ocorrer em uma frente uniforme, mas de forma escalonada, ficando alguns bem adiante dos outros. A razão disso nos é ocultada pelo nosso hábito de encarar o progresso econômico principalmente como um acúmulo de quantidades sempre maiores de bens e equipamentos. Acontece, porém, que a elevação do nosso padrão de vida se deve, pelo menos na mesma medida, a um aumento do conhecimento que nos permite não somente consumir maiores quantidades das mesmas coisas, mas também utilizar coisas diferentes e, muitas vezes, coisas que sequer conhecíamos anteriormente. E, embora o crescimento da renda dependa, em parte, da acumulação de capital, provavelmente depende muito mais do fato de aprendermos a usar os nossos recursos com maior eficiência e para novos fins.

O aumento do conhecimento é de fundamental importância porque, embora os recursos materiais sempre permaneçam escassos e devam ser reservados para fins limitados, o uso de novos conhecimentos é irrestrito (quando não os tornamos escassos artificialmente, com a concessão de patentes monopólicas). O conhecimento, uma vez assegurado, torna-se gratuitamente disponível para o benefício de todos. É por intermédio deste dom grtttuito do conhecimento, adquirido pelas experiências de alguns membros da sociedade, que o progresso geral se torna possível, que as realizações dos pioneiros facilitam o avanço dos que vêm atrás.

Em qualquer estágio deste processo haverá sempre muitas coisas que já sabemos como produzir, mas que ainda è demasiadamente oneroso oferecer à maioria. E, num estágio inicial, essas coisas só podem ser produzidas com um dispêndio de recursos muitas vezes maior que a parcela da renda total que, numa distribuição mais ou menos eqüitativa, caberia à minoria que delas poderia beneficiar-se. Inicialmente, um produto novo é, em geral, “o capricho dos poucos escolhidos, antes de se tornar algo desejado por todos, passando a fazer parte das necessidades da vida. Pois o luxo de hoje é a necessidade de

amanhã”. 75Além disso, essas novas coisas, muitas vezes, se tornarão disponíveis à maior parte das pessoas somente porque, por algum tempo, foram o luxo de uma minoria.

Se nos países mais ricos é possível, hoje, oferecer à maioria serviços e comodidades que, não faz muito tempo, teria sido fisicamente impossível produzir em grandes quantidades, isto é, em boa parte, conseqüência direta do fato de terem sido produzidos, inicialmente, para uma minoria. Inicialmente, só podíamos produzir em quantidades limitadas todos os aparelhos que tornam um lar confortável, os nossos meios de comunicação e transporte, os diferentes tipos de entretenimento e lazer. Mas foi somente assim que aprendemos, aos poucos, a fazer essas semelhantes coisas com um dispêndio muito menor de recursos e, dessa forma, nos tornamos capazes de oferecê-las à grande maioria. Boa parte dos gastos dos ricos, embora não intencionalmente, serve, desse modo, para custear as despesas das experiências com as novas coisas que, conseqüentemente, poderão, mais tarde, estar ao alcance dos pobres.

O importante não é apenas o fato de, gradativamente, aprendermos a produzir de maneira barata e em larga escala o que já sabemos fazer de maneira onerosa e em quantidades reduzidas, mas também o fato de que somente de uma posição avançada se tornam visíveis os novos desejos e possibilidades, de modo que a escolha de novas metas e o esforço exigido para a sua realização começarão muito antes de a maioria poder lutar por elas. Para que se torne em breve disponível aquilo que a maioria irá querer depois que seus objetivos atuais forem realizados, será necessário que os desdobramentos que resultarão em benefício para as massas, dentro de vinte ou cinqüenta anos, sejam orientados pelos pontos de vista de pessoas que já se encontram em condição de desfrutá-los.

Se, hoje em dia, nos Estados Unidos ou na Europa Ocidental, as pessoas relativamente pobres podem dispor de um carro ou de uma geladeira, viajar de avião ou ter um rádio, ao custo de uma parcela relativamente pequena de suas rendas, isso se tornou possível porque, no passado, existiram outros, cujas rendas eram mais elevadas, que podiam gastar no que, então, era considerado um luxo. O caminho do progresso é bastante facilitado pelo fato de já ter sido trilhado por outros. É graças à ação dos pioneiros de ontem que, hoje, os menos afortunados ou os menos dinâmicos podem percorrer novos caminhos. Aquilo que hoje pode parecer mera extravagância, ou até desperdício, porque é usufruído por uma minoria e nem mesmo sonhado pelas massas, é o preço da experimentação com um estilo de vida que, eventualmente, também se tornará acessível à maioria. A gama de empreendimentos lançados e posteriormente aperfeiçoados, a experiência que se tornará disponível a todos, ampliar-se-á significativamente como resultado da distribuição desigual dos atuais benefícios; e o ritmo do progresso crescerá bastante se os primeiros passos forem dados bem antes do momento em que a grande maioria possa beneficiar-se deles. De fato, muitas conquistas nunca se teriam transformado em possibilidade para todos se, bem antes disso, não houvessem estado ao alcance de alguns. Se todos precisassem esperar por coisas melhores até que estas pudessem ser oferecidas a todos, esse dia, em muitos casos, nunca chegaria. Até os mais pobres devem seu relativo bem-estar material aos resultados das desigualdades do passado.

4. Experiências com Estilos de Vida

Em uma sociedade progressista como a nossa, os indivíduos relativamente ricos estão apenas um pouco à frente dos outros quanto às vantagens materiais que desfrutam. Eles já estão vivendo em uma fase de evolução à qual os outros ainda não chegaram. A pobreza tornou-se, conseqüentemente, um conceito relativo, e não um conceito absoluto, o que, entretanto, não a torna menos amarga. Embora em uma sociedade avançada as necessidades não satisfeitas não constituam mais necessidades físicas, mas os resultados da civilização, ainda assim, em cada fase, algumas das coisas que a maioria das pessoas deseja só podem ser oferecidas a poucos, tornando-se acessíveis a todos apenas mediante novos progressos. A maior parte dos bens que buscamos são coisas que desejamos porque outros já as têm. Contudo, uma sociedade progressista, embora baseada nesse processo de aprendizado e imitação, considera os desejos que desperta somente um estímulo para um renovado esforço. Ela não garante que estes bens se tornem automaticamente acessíveis a todos. E permanece insensível ao sofrimento do desejo insatisfeito despertado pelo exemplo de outros. Ela parece cruel porque aumenta os anseios de todos na mesma proporção em que aumenta os seus dons para alguns. Todavia, enquanto ela for uma sociedade progressista, alguns irão à frente e os outros terão de segui-los.

A idéia de que, em qualquer fase do progresso, os ricos, ao experimentar novos estilos de vida que ainda não se encontram ao alcance dos pobres, desenvolvem um serviço necessário sem o qual o progresso destes seria muitíssimo mais lento, parecerá a alguns uma justificativa artificial e cínica. Entretanto, um pouco de reflexão mostrará que é inteira-mente válida e que, nesse particular, uma sociedade socialista precisaria imitar uma sociedade livre. Em uma economia planificada, seria necessário (a não ser que se pudesse, simplesmente, imitar o exemplo de outras sociedades mais adiantadas) designar indivíduos cuja obrigação seria experimentar as últimas invenções, bem antes que estas se tornassem disponíveis a todos os outros. Não existe uma forma de tornar acessíveis, de maneira geral, meios de vida novos e ainda onerosos, a não ser que sejam primeiro testados por alguns. Não seria suficiente permitir que alguns indivíduos experimentassem determinadas coisas novas. Estas têm utilização e valor adequados somente enquanto parte integrante do avanço geral, no qual representam novo produto a ser desejado. Para conhecer qual das novas possibilidades teria de ser desenvolvida em cada estágio, como e quando certos melhoramentos precisariam ser aplicados dentro do avanço geral, uma sociedade planificada teria de criar e manter toda uma classe, ou mesmo uma hierarquia de classes, que sempre estaria alguns passos à frente das demais. Essa situação diferiria da que se verifica em uma sociedade livre apenas pelo fato de que as desigualdades seriam o produto de um plano e a seleção de certos indivíduos, ou grupos, seria feita pelas autoridades e não pelo processo impessoal do mercado e pelos acidentes de nascimento e de oportunidade. Deve-se ainda acrescentar que só seria permitido o estilo de vida aprovado pelas autoridades e que este, por sua vez, só seria proporcionado aoses-pecialmente escolhidos. Mas, para que uma sociedade planificada pudesse alcançar o mesmo nível de progresso de uma sociedade livre, o grau de desigualdade que teria de prevalecer não seria muito diferente.

Não existe nenhuma medida prática êm termos do grau de desigualdade desejado neste caso. Naturalmente, não queremos que a posição dos indivíduos seja determinada por decisões arbitrárias ou um privilégio concedido pela vontade humana a pessoas específicas. É difícil, entretanto, perceber em que sentido seria legítimo dizer que qualquer pessoa está muito à frente dos outros, ou que seria prejudicial para a sociedade se o progresso de alguns ultrapassasse demais o dos seus concidadãos. Isto se justificaria caso se verificassem hiatos exagerados na escala de progresso. No entanto, enquanto as distâncias forem mais ou menos constantes e todos os degraus da pirâmide de renda estiverem razoavelmente ocupados, não se pode negar que os que se encontram nos degraus inferiores da escala se beneficiam materialmente do fato de que outros estão mais à frente.

As objeções decorrem da concepção errônea de que os que estão liderando reivindicam o direito a algo que, numa sociedade igualitária, seria disponível aos demais. Isso poderia ser verdade se pensássemos em termos de uma única redistribuição dos frutos do progresso passado e não em termos daquele avanço contínuo que a nossa sociedade, baseada na desigualdade, promove. Com o tempo, a existência de grupos à frente dos demais constitui, certamente, uma vantagem para os que estão atrás, assim como, se pudéssemos, de repente, nos beneficiar de um conhecimento mais avançado, que outros homens em um continente desconhecido, ou em outro planeta, houvessem alcançado graças a melhores condições, todos nos beneficiaríamos enormemente.

5. Aspectos Internacionais

É difícil discutir desapaixonadamente problemas de igualdade no que diz respeito a membros de nossa própria comunidade. Tais problemas se tornam mais claros quando os consideramos em seu aspecto mais amplo, ou seja, a relação entre países ricos e pobres. Nesse caso, é menos provável que nos deixemos enganar pela idéia de que todo membro de uma comunidade tem um direito natural a uma parcela determinada da renda de seu grupo. Ainda que, hoje em dia, a maioria das pessoas no mundo inteiro se beneficie dos esforços recíprocos, certamente não temos razão alguma para considerar a produção mundial o resultado de um esforço unificado da humanidade.

Embora a posição tão avançada em que se encontram, hoje, os povos do Ocidente em relação aos demais, em termos de riqueza, seja em parte consequência de um maior acúmulo de capital, isto decorre, principalmente, do fato de que eles utilizam o conhecimento de maneira mais eficiente. Não há dúvida de que a perspectiva de os países mais pobres, “subdesenvolvidos”, atingirem o nível atual dos países do Ocidente é muito melhor do que seria se o Ocidente não tivesse dado tão grande salto à frente. Além disso, é bem melhor do que seria, caso, no decorrer do surgimento da sociedade moderna, alguma autoridade mundial tivesse tomado medidas para que nenhuma nação se adiantasse demais em relação às outras, assegurando., a cada passo, que os benefícios materiais fossem distribuídos eqtiitativamente em todo o mundo. Se, hoje em dia, algumas nações podem chegar, em poucas décadas, a um nível de conforto material que custou aos países do Ocidente centenas ou milhares de anos para ser conseguido, não é evidente que seu caminho se tornou mais fácil pelo fato de tais países não terem sido forçados a compartilhar suas conquistas materiais com os demais - por não terem sido freados, mas por terem conseguido passar tão à frente?

Os países do Ocidente não só são mais ricos porque têm um conhecimento tecnológico mais avançado, como têm um conhecimento tecnológico mais avançado porque são mais ricos. O dom gratuito do conhecimento que tanto custou àqueles que estão na vanguarda permite, aos que vêm depois, alcançar o mesmo nível a um custo muito menor. De fato, na medida em que alguns países lideram, todos os outros podem segui-los, embora talvez neles as condições de progresso espontâneo estejam ausentes. Uma das razões pelas quais a importância da liberdade não é melhor entendida é que até países ou grupos que não têm liberdade podem beneficiar-se de seus frutos. Para várias regiões do mundo, o avanço da civilização, há muito tempo, se dá de forma reflexa e, com os modernos meios de comunicação, tais países podem progredir, ainda que a maioria das inovações venha de fora. Há quanto tempo a União Soviética ou o Japão vivem na tentativa de imitar a tecnologia americana! Na medida em que outros produzam a maior parte do conhecimento novo e realizem a parcela mais ampla das experiências, será até possível aplicar todo esse conhecimento de maneira a beneficiar a maioria dos membros de determinado grupo ao mesmo tempo e no mesmo grau. Mas, embora uma sociedae igualitária pudesse avançar neste sentido, seu progresso seria essencialmente parasitário, porque emprestado daqueles que arcaram com o ônus.

Vale a pena lembrar, neste contexto, que o que permite a um país liderar este desenvolvimento mundial são suas classes economicamente mais avançadas e que um país que deliberadamente nivela tais diferenças também abdica de sua posição de liderança -como o desmonstra o trágico exemplo da Grã-Bretanha. Neste país, todas as classes se haviam beneficiado do fato de que uma classe rica, com antigas tradições, exigira produtos de qualidade e bom gosto não superados em qualquer outro país, cujo fornecimento para o resto do mundo passou, em con-seqüência, a ser feito pelos britânicos. Sua liderança extinguiu-se com o desaparecimento da classe cujo estilo de vida os outros imitavam. É possível que os operários britânicos não tardem a descobrir que foram beneficiados pelo fato de pertencer a uma comunidade que abrigava muitas pessoas mais ricas do que eles e que se seu padrão de vida era mais elevado do que o dos operários em outros países isto ocorria, em parte, porque os ricos de seu país eram mais ricos do que os ricos de outros países.

 

6. A Redistribuição da Renda e a Rapidez do Progresso

Se, em escala internacional, até grandes desigualdades podem auxiliar o progresso de

todos, pode haver dúvida de que o mesmo ocorra em âmbito nacional? Neste caso, também, a rapidez do progresso geral aumentará graças àqueles que avançam mais depressa. Ainda que, inicialmente, muitos fiquem para trás, o efeito cumulativo dos esforços daqueles que, mais à frente, abrem caminho contribuirá para que, em breve, todos possam avançar no mesmo ritmo. Os membros de uma comunidade à qual pertencem muitos indivíduos ricos têm, de fato, uma grande vantagem que não desfrutam aqueles que, por viver em um país pobre, não podem dispor do capital e da experiência propiciados pelas classes mais abastadas. Por isso, é difícil entender por que essa situação deveria justificar o direito do indivíduo a uma maior parcela da renda. De fato, geralmente parece ocorrer que, depois que o rápido progresso se instalou há algum tempo, a vantagem cumulativa para os que vêm atrás é suficiente para permitir-lhes avançar mais rapidamente do que os que estão à frente e, em conseqüência, as longas fileiras do progresso humano tendem a se fechar. A experiência dos Estados Unidos, pelo menos, parece indicar que, uma vez que a ascensão das classes baixas se acelera, atender à demanda dos ricos deixa de ser a principal fonte de grandes lucros, dando lugar a atividades econômicas dirigidas para as necessidades das massas. As mesmas forças que, a princípio, contribuem para acentuar a desigualdade, mais tarde tendem a diminuí-la.

Por isso, deve haver duas maneiras diferentes de encarar a possibilidade de reduzir a desigualdade e abolir a pobreza mediante uma redistribuição deliberada - a curto ou a longo prazo. A qualquer momento poderíamos melhorar a posição dos mais pobres, dando-lhes o que tiramos dos mais ricos. Mas, embora tal nivelamento de posições na coluna do progresso apressasse temporariamente o fechamento das fileiras, em breve contribuiria para tornar mais vagaroso o avanço do conjunto e, no decorrer do tempo, para retardar o daqueles que se encontram no final da coluna. Experiências européias recentes confirmam enfaticamente esse fato. Um dos aspectos mais notáveis do pós-guerra na Europa foi a rapidez com a qual as sociedades ricas se tornaram estáticas, senão estagnadas, por causa de sua política igualitária, enquanto países pobres, mas altamente competitivos, se tornaram dinâmicos e progressistas. Nesse sentido, o contraste entre os Estados previdenciários mais avançados da Grã-Bretanha e dos países escandinavos, de um lado, e países como a Alemanha Ocidental, Bélgica ou Itália, de

outro, começa a ser reconhecido até mesmo pelos primeiros. 76Se houvesse necessidade de demonstrar que a melhor maneira de tornar estacionária uma sociedade é impor a todos o mesmo padrão médio ou que o meio mais eficaz de frear o progresso é permitir aos que têm mais êxito um nível apenas um pouco acima da média, a experiência européia o comprova.

É curioso que, enquanto no caso de uma sociedade primitiva, qualquer observador neutro provavelmente reconheceria que, se toda a população se encontrasse no mesmo nível de pobreza e estagnação, sua situação seria desesperadora, e que a primeira condição de progresso seria permitir que alguns passassem à frente dos demais, poucos estão dispostos a admitir o mesmo em relação aos países mais adiantados. É claro que uma sociedade na qual somente as pessoas politicamente privilegiadas têm condições de ascender, ou na qual aqueles que se projetam ganham poder político e o usam para manter os outros em posição inferior, não seria melhor que uma sociedade igualitária. Mas todos os obstáculos à ascensão de alguns constituirão, com o tempo, obstáculos à ascensão de todos; e não são menos prejudiciais aos verdadeiros interesses das

multidões somente porque podem satisfazer à sua paixão do momento. 77 78

7. Progresso Material e Outros Valores

Sobre os países avançados do Ocidente, por vezes, o que se afirma é que seu progresso é rápido demais ou, então, exclusivamente material. Provavelmente, esses dois aspectos estão estreitamente relacionados. As épocas de progresso material muito grande e rápido raramente constituíram períodos de florescimento das artes, e a capacidade de apreciação da criação artística e intelectual e seus melhores produtos surgiram, freqüentemente, quando o ritmo do progresso material havia diminuído. Nem a Europa Ocidental do século XIX, nem os Estados Unidos do século XX, se destacam por suas realizações artísticas. Contudo, os grandes surtos de criação de valores não materiais jmrecem pressupor uma melhora anterior das condições econômicas. É talvez natural que, geralmente após esses períodos de crescimento rápido da riqueza, surja a necessidade de se preocupar com coisas não materiais ou, então, que, quando a atividade econômica não mais ofereça o fascínio do progresso rápido, alguns dos indivíduos mais dotados passem a buscar outros valores.

Este é, naturalmente, apenas um, e talvez nem mesmo o aspecto mais importante do rápido progresso material, que torna céticos em relação a seus valores muitos dos que estão na vanguarda. Temos também de admitir que não sabemos ao certo se a maioria das pessoas deseja todos os resultados do progresso ou mesmo a maior parte deles. Para a maioria, trata-se apenas de um acontecimento involuntário, o qual, se de um lado lhe oferece muitas das coisas pelas quais luta, também a obriga a uma série de mudanças que absolutamente não deseja. O indivíduo não tem o poder de escolher se participará ou não do progresso; este sempre traz novas oportunidades, mas também priva muitos daquilo que desejam, daquilo que lhes é caro e valioso. Para alguns isto pode ser uma verdadeira tragédia e, para todos aqueles que prefeririam viver dos frutos do progresso passado, sem tomar parte do seu curso futuro, pode parecer mais uma maldição do que uma bênção.

Existem em todos os países, em todos os tempos, grupos que alcançaram uma posição mais ou menos estacionária, na qual os costumes e estilos de vida foram mantidos durante gerações. Esses estilos de vida podem, de repente, ser ameaçados por acontecimentos com os quais nenhuma relação tiveram e não somente os membros desses grupos, mas freqüentemente também os estranhos a eles, desejam que sejam preservados. Muitos camponeses da Europa, particularmente aqueles que vivem em remotos vales nas montanhas, constituem um exemplo. Eles gostam de sua maneira de viver, embora esta se tenha tornado um beco sem saída, e, para se preservar, se deva manter muito dependente da civilização urbana, que muda constantemente, Mas o camponês conservador, como qualquer outra pessoa, deve seu estilo de vida a um outro tipô de indivíduo, a homens que foram inovadores em seu tempo e que, com suas inovações, impuseram um novo modo de vida ao estágio anterior de cultura. Os nômades provavelmente lamentaram o aparecimento, em suas pastagens, de campos cercados, assim como o camponês lamenta a expansão da indústria.

As mudanças a que tais pessoas devem sujeitar-se são parte do custo do progresso, o que demonstra que a evolução da civilização conduz não apenas as massas mas, em sentido estrito, todo ser humano por um caminho que ele não escolheu. Caso se consultasse a opinião da maioria sobre todas as mudanças que o progresso implica, esta, provavelmente, tentaria impedir muitas das suas condições e cònseqüências indispensáveis, acabando, assim, por estancar o próprio progresso. Eu ainda não tenho notícias de um caso em que o voto deliberado da maioria (distinta da resolução de certas elites governantes) tomou decisões sobre tais sacrifícios no interesse de um futuro melhor com a competência demonstrada pelas sociedades de mercado livre. Todavia, isto não significa que a realização da maioria das coisas que os homens realmente desejam não dependa da continuação daquele progresso, que, se pudessem, provavelmente deteriam, impedindo os efeitos que não aprovam de imediato.

Nem todo conforto que, hoje, podemos oferecer a uma minoria se tornará, mais cedo ou mais tarde, disponível a todos; no caso dos serviços pessoais isto seria, obviamente, impossível. São algumas das vantagens de que os ricos são privados pelo progresso. No entanto, a maior parte dos benefícios do progresso que primeiramente são desfrutados pela minoria, com o tempo, torna-se acessível a todos. De fato, todas as nossas esperanças de redução da miséria e da pobreza atuais repousam nesta expectativa. Se abandonássemos o progresso, teríamos, também, de abandonar todos aqueles melhoramentos sociais que esperamos ainda conseguir. Todos os avanços esperados nos campos da educação e da saúde, a realização de nosso desejo de que pelo menos uma grande parcela do povo possa alcançar os objetivos que almeja, dependem da continuação do progresso. Basta lembrar que impedir o progresso dos que se encontram em uma posição superior logo implicaria impedi-lo em toda a estrutura social, para perceber que

este resultado é, na verdade, a última coisa que desejamos. 79

8. A Civilização Depende do Progresso Constante

Até aq u i tratamos principalmente de nosso país, ou dos países que consideramos membros da nossa civilização. Mas temos de levar e m conta que as conseqüências do progresso passado — a extensão a todo o mundo da comunicação rápida e fácil de conhecimentos e ambições nos privaram, em grande parte, da possibilidade de escolher se queremos ou não um progresso rápido e constante. O fato novo em nossa situação atual, que nos obriga a continuar, é que os feitos da nossa civilização se tornaram objeto de desejo e inveja de todo o resto do mundo. Independentemente do fato de nossa civilização ser, de um ponto de vista ideal, a melhor, temos de reconhecer que seus resultados materiais são desejados praticamente por todos aqueles que chegaram a conhecê-los. Os indivíduos que não pertencem à nossa civilização podem não querer adotar todos os seus aspectos mas, certamente, pretendem poder optar pelos aspectos que lhes convêm. Podemos lamentar, mas não desprezar, o fato de que, mesmo nas regiões em que diferentes civilizações ainda são preservadas e dominam as vidas da maioria, a liderança quase sempre passou para as mãos daqueles que mais

integralmente adotaram o conhecimento e a tecnologia da civilização ocidental. 80

Embora, superficialmente, possa parecer que dois tipos de civilização hoje competem pela lealdade dos povos do mundo, o fato é que as promessas que fazem às massas, as vantagens que lhes oferecem, são essencialmente as mesmas. Embora tanto os países livres quanto os totalitários afirmem que seus respectivos métodos têm condições de oferecer mais rapidamente o que os povos desejam, os objetivos em si parecem-lhes idênticos. A principal diferença é que somente os países totalitários parecem saber, com total clareza, de que maneira pretendem conseguir aquele resultado, ao passo que o miindo livre tem apenas seus feitos passados a mostrar, sendo por sua própria natureza incapaz de oferecer qualquer “plano” detalhado para o progresso futuro.

Mas, se as realizações materiais de nossa civilização despertaram ambições em outras, também as dotaram de um novo poder para destruí-la, caso aquilo a que supõem ter direito não lhes seja dado. Uma vez que o conhecimento das possibilidades se espalha mais rapidamente do que os benefícios materiais, a maioria dos indivíduos está, hoje, mais insatisfeita do que nunca e determinada a tomar o que considera seu direito. Como os pobres de qualquer país, eles acreditam, tão equivocadamente quanto aqueles, que sua meta pode ser alcançada mediante uma redistribuição da riqueza já existente, e suas idéias foram corroboradas pelos ensinamentos dos intelectuais do Ocidente. À medida que sua força cresce, essa maioria terá condições de arrancar tal redistribui: ção, caso o crescimento da riqueza produzida pelo progresso não seja suficientemente rápido. Contudo, uma redistribuição que torne mais vagaroso o avanço daqueles que estão na vanguarda conduzirá a uma situação na qual as novas conquistas cada vez mais terão de ser sustentadas pela redistribuição, já que o crescimento econômico produzirá menos.

As aspirações da grande massa da população mundial só podem ser satisfeitas, hoje, por um rápido progresso material. Não há dúvida de que, no seu estado de espírito atual, a profunda frustração de suas esperanças levaria a sérias divergências internacionais na realidade, provavelmente, até à guerra. A paz do mundo e a própria civilização dependem, pois, de um progresso constante a um ritmo acelerado. Nessa conjuntura, somos não apenas os filhos, como os prisioneiros do progresso; mesmo que quiséssemos, não poderíamos ficar apenas sentados, gozando aquilo que já conseguimos obter. Nossa tarefa é continuar a liderar, avançar pelo caminho que tantos outros estão tentando percorrer seguindo nossas pegadas. Quando no futuro, depois de um longo período de progresso mundial dos padrões materiais, os condutos pelos quais ele flui estiverem tão saturados que, até quando a vanguarda reduzir sua marcha, os que se encontram na retaguarda continuarão por algum tempo a mover-se sem diminuir sua velocidade, talvez possamos decidir se queremos manter este ritmo. Mas, neste momento, quando a maior parte da humanidade mal despertou para a possibilidade de acabar com a fome, a sujeira e a doença; quando a humanidade foi apenas tocada pela onda crescente da moderna tecnologia, após centenas ou até milhares de anos de uma estabilidade relativa; e, como primeira reação, começou a crescer a um ritmo assustador, até um leve declínio do nosso ritmo de progresso poderia ser fatal.