Os Fundamentos da Liberdade

Friedrich A. Hayek · Capítulo 3 de 49

Páginas do PDF

Os Fundamentos da Liberdade

Prefácio à Edição Americana

O objetivo desta obra acha-se explicado na Introdução, e meus agradecimentos estão registrados nos parágrafos que precedem as Notas. Tudo que me resta aqui é fazer uma advertência e uma ressalva.

Este livro não trata essencialmente do que a ciência nos ensina. Embora eu não pudesse escrevê-lo se não tivesse dedicado a maior parte de minha vida ao estudo da economia e, mais recentemente, não me tivesse esforçado para me familiarizar com as conclusões de várias outras ciências sociais, não trato aqui exclusivamente de fatos, nem me limito a questões de causa e efeito. Meu objetivo é retratar um ideal, mostrar como é possível realizá-lo e explicar o que sua realização significaria na prática. Para tanto, a discussão científica é um meio, não um fim. Acredito ter utilizado honestamente q meu conhecimento do mundo em que vivemos. Ao leitor cabe decidir se deseja aceitar os valores a serviço dos quais empreguei esse conhecimento.

A ressalva diz respeito ao resultado do meu trabalho, que decidi submeter ao leitor. É inevitável, talvez, que, quanto mais ambicioso o trabalho, mais inadequada seja sua execução. Tratando-se de um assunto tão amplo como o deste livro, adequar a qualidade da obra à capacidade do autor é u ma tarefa que nunca terminará enquanto ele puder usar suas faculdades mentais. Logo, sem dúvida, chegarei à conclusão de que deveria ter dito certas coisas de modo mais apropriado, que cometi erros que eu mesmo poderia ter corrigido se tivesse dedicado mais tempo a este trabalho. O respeito pelo leitor certamente exige que o autor apresente um produto razoavelmente acabado. Mas isto não quer dizer que ele só deva fazê-lo quando não tiver mais nenhuma esperança de melhorá-lo. Pelo menos quando se trate de problemas semelhantes àqueles que venham sendo intensamente estudados por muitas outras pessoas, poderia até estar exagerando sua própria importância se retardasse a publicação até o momento em que tivesse certeza de não poder aprimorar mais sua obra. Se alguém conseguiu — espero que seja o meu caso — levar a análise um passo adiante, provavelmente seu trabalho posterior terá retornos cada vez menores. Outros estarão, talvez mais bem preparados para colocar a próxima fileira de tijolos do edifício para cuja construção estou tentando contribuir. Posso dizer apenas que me esforcei até concluir que não saberia apresentar a tese principal deste livro de maneira mais sintética.

Talvez o leitor deva saber também que, embora eu esteja escrevendo nos Estados Unidos, onde resido há quase dez anos, não escrevo como um americano. Minha formação intelectual se deu na minha juventude, na Áustria, onde nasci, e na minha maturidade, durante as duas décadas em que vivi na Grã-Bretanha, país do qual me tornei e continuo sendo cidadão. Talvez o conhecimento desses fatos sobre minha pessoa ajude o leitor, pois, em grande parte, o livro é produto dessa formação.

AGRADECIMENTOS E NOTAS: A maior parte do que procurei dizer neste livro já se disse de uma maneira que eu não posso melhorar, embora de forma fragmentada, ou em obras que o leitor moderno talvez não conheça; por isto, pareceu-me desejável transformar as notas deste livro numa espécie de antologia do pensamento liberal individualista. As citações têm o objetivo de mostrar que muitas idéias que atualmente podem parecer estranhas ou pouco familiares já constituíram a herança comum de nossa civilização, mas também que, embora estivéssemos aprimorando esta tradição, ainda era preciso unificar tais idéias num pensamento coerente que pudesse ser diretamente aplicado à nossa época. Deixei que as notas se alongassem bastante, a fim de mostrar os elementos com os quais tentei construir um novo edifício. Contudo, não constituem uma bibliografia completa sobre o assunto. Uma útil e relevante bibliografia pode ser encontrada em The Free Man’s Library, de H. Hazlitt (Nova Iorque, 1956).

Por outro lado, estas notas estão longe de ser um agradecimento adequado para exprimir minha dívida de gratidão. O processo de formação das idéias expressas neste livro necessariamente antecedeu a decisão de apresentá-las da maneira como o fiz. Tomada a resolução, pouco li do trabalho de autores com os quais tenho afinidades, pois já havia aprendido muito com eles no passado. Em minhas leituras, procurei sobretudo descobrir as objeções que precisaria enfrentar, os argumentos que teria de debater, bem como as formas em que essas idéias foram expressas no passado. Por isto, os nomes dos que mais contribuíram para a formação de minhas idéias, seja como mestres ou como companheiros de luta, raramente aparecem nestas páginas. Se eu me tivesse proposto agradecer a todos aqueles para com os quais tenho uma grande dívida de gratidão, estas notas teriam inúmeras referências à obra de Ludwig von Mises, Frank H. Knight e Edwin Cannan; Walter Eucken e Henry C. Simons; Wilhelm Rõpke e Lionel Robbins; Karl R. Popper, Michael Polanyi e Bertrand de Jouvenel. Na verdade, se eu não quisesse exprimir meu objetivo, mas minha gratidão na dedicatória deste livro, teria sido mais correto dedicá-lo aos membros da Sociedade Mont Pélerin, especialmente a seus dois líderes intelectuais, Ludwig von Mises e Frank H. Knight.

Entretanto, agradecimentos mais específicos devem ser feitos. E. Banfield, C. I. Barnard, W. H. Book, John Davenport, P. F. Goodrich, W. Fröhlich, David Grene, F. A. Harper, D. G. Hutton, A. Kemp, F. H. Knight, William L. e Shirley Letwin, Fritz Machlup, L. W. Martin, L. von Mises, A. Morin, F. Morley, S. Petro, J. H. Reiss, G. Stourzh, Ralph Turvey, C. Y. Wang e R. Ware leram diversos trechos de uma primeira versão deste livro e auxiliaram-me com seus comentários. Muitos deles, juntamente com A. Director, V. Ehrenberg, D. Forbes, M. Friedman, M. Ginsberg, C. W. Guillebaud, B. Leoni, J. U. Nef, Margaret G. Reid, M. Rheinstein, H. Rothfels, H. Schoeck, Irene Shils, T. F. T. Plucknett e Jacob Viner, ofereceram-me importantes referências ou fatos, embora eu hesite em citar seus nomes, pois é quase certo que me esquecerei de muitas pessoas que contribuíram ao meu trabalho desta forma.

Nos estágios finais de preparação do livro tive a preciosa assistência do Sr. Edwin McClellan. Graças à simpática colaboração dele e da Sra. McClellan no sentido de simplificar meu estilo, este livro se tornou mais legível. Para tanto colaborou também um amigo, Henry Hazlitt, que teve a bondade de ler e comentar parte do texto final. Devo agradecer também à Sra. Lois Fern pela verificação de todas as citações contidas nas notas e à Srta. Vernelia Crawford pela elaboração do índice de assuntos.

Embora o livro não seja produto do esforço coletivo que está muito em voga atualmente — não cheguei a ter nem a ajuda de um pesquisador assistente —, foi consideravelmente enriquecido pelas oportunidades e contribuições prestadas por várias fundações e instituições. Nesse sentido, devo agradecer às seguintes fundações: Volker, Guggenheim, Earhart e Reim. Conferências proferidas no Cairo, Zurique, Cidade do México, Buenos Aires e Rio de Janeiro, bem como em diversas universidades e faculdades americanas, deram-me o ensejo não apenas de testar algumas das idéias expostas neste livro junto ao público, mas também de adquirir experiência relevante para a elaboração do trabalho. As publicações em que foram divulgadas as versões iniciais de alguns dos capítulos são mencionadas nas notas, e agradeço aos diversos organizadores e editores a autorização para reproduzi-las. Gostaria também de agradecer a contribuição da biblioteca da Universidade de Chicago, que utilizei quase exclusivamente durante a elaboração do livro e cujo Serviço de Empréstimo entre Bibliotecas me propiciou tudo de que necessitei; agradeço ainda à Comissão de Pesquisa de Ciências Sociais e ao serviço de datilografia do Departamento de Ciências Sociais da Universidade de Chicago, que me ofereceram os fundos e prestaram o serviço de datilografia nas sucessivas versões deste livro.

Entretanto, minha maior dívida é para com a Comissão para o Pensamento Social da Universidade de Chicago e seu presidente, o professor John U. Nef, que me permitiram dar prioridade à conclusão deste livro, tarefa que me foi facilitada — e não prejudicada — por minhas outras funções perante a Comissão.

Chicago, 8 de maio de 1959

F. A. HAYEK