Os Fundamentos da Liberdade

Friedrich A. Hayek · Capítulo 14 de 49

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Os Fundamentos da Liberdade

Capítulo VIII — O Assalariado e o Homem Independente

CAPÍTULO VIII - O Assalariado e o

Homem Independente

“Not for to hide it in a hedge, Not for a train attendant, But for the glorious privilege Of

being independent.” (189)

ROBERT BURNS

 

1. O Aumento do Segmento Assalariado da População

Os ideais e os princípios reafirmados nos capítulos precedentes floresceram numa sociedade que, em alguns aspectos importantes, diferia da nossa. Tratava-se de uma sociedade na qual parte relativamente ampla da população, e a maioria dos indivíduos responsáveis pela formação da opinião, tirava o sustento de atividades

independentes. 189(1) Qual a validade desses princípios, que vigoravam naquela sociedade, nestes tempos em que a maioria é constituída por assalariados de grandes organizações, usando recursos que não possuem e, de modo geral, obedecendo a instruções? E, sobretudo, se os indivíduos que exercem uma atividade independente constituem agora uma parcela muito menor e menos influente da sociedade, será que, por esse motivo, sua contribuição se tornou menos importante, ou será ainda essencial ao bem-estar de uma sociedade livre?

Antes de abordar o assunto principal, precisamos libertar-nos do mito do crescimento da classe assalariada, que, embora seja sustentado em sua feição mais primária somente pelos marxistas, passou a ter ampla aceitação, a ponto de confundir a opinião pública. Trata-se do mito segundo o qual o aparecimento de um proletariado resultou de um processo de expropriação, durante o qual as massas foram despojadas dos bens que antes lhes permitiam ganhar a vida de maneira independente. Os fatos contam uma história muito diferente. Até o surgimento do capitalismo moderno, a maioria das pessoas só podia constituir uma família e criar filhos se herdasse um lar, terras e os implementos necessários à produção. O que mais tarde permitiu aos que não tinham herdado terra nem implementos dos pais sobreviver e se multiplicar foi o fato de que para os ricos se tornou exeqüível e rendoso usar seu capital de modo a dar emprego a multidões de pessoas. Se o “capitalismo criou o proletariado”, ele o fez permitindo que multidões sobrevivessem e procriassem. No mundo ocidental, hoje, a conseqüência deste processo não é mais, logicamente, o aumento de um proletariado no sentido tradicional, mas o crescimento de uma maioria de assalariados que, sob muitos aspectos, são alheios e freqüentemente inimigos de inúmeros fatores que constituem a força motriz de uma sociedade livre.

O aumento da população, durante os últimos duzentos anos, tem ocorrido basicamente entre os trabalhadores assalariados, urbanos e industriais. Embora o avanço tecnológico que favoreceu o aparecimento das grandes empresas e contribuiu para criar a nova e vasta classe dos empregados de escritório tenha, sem dúvida, estimulado esse crescimento do setor assalariado da população, o número crescente de indivíduos sem propriedades que ofereciam seus serviços, provavelmente, contribuiu, por sua vez, para a expansão das grandes organizações.

A importância política dessa evolução foi acentuada pelo fato de que, simultaneamente ao seu rápido crescimento numérico, a parcela da população desprovida de propriedades e dependente de salário adquiria também direito ao voto, do qual antes era, na maior parte, excluída. Consequentemente, em quase todos os países ocidentais, a atitude da grande maioria do eleitorado acabou sendo determinada pelo fato de que este se constitui de assalariados. Como agora é a opinião desse eleitorado que orienta, em boa parte, a politica de governo, as medidas adotadas tornam a posição de assalariado relativamente mais atraente e, em contrapartida, cada vez menos atraente a do indivíduo que não depende de salário. É natural que os assalariados então usem seu poder político. O problema é saber se, a longo prazo, redundará em seu benefício usá-lo para transformar progressivamente o restante da sociedade em uma vasta hierarquia de emprego. Provavelmente é isso o que acabará acontecendo, se a maioria assalariada não reconhecer que é a principal interessada em assegurar a preservação de um número substancial de pessoas independentes. Caso contrário, todos notaremos que nossa liberdade foi reduzida e os assalariados perceberão que, sem uma ampla variedade de empregadores entre os quais possam escolher, sua posição já não será a mesma.

2. As Condições de Liberdade do Assalariado

O problema é que o exercício da liberdade pouco interessa diretamente aos assalariados, e estes muitas vezes encontram grande dificuldade em perceber que sua liberdade depende da possibilidade de outros tomarem decisões que não influem diretamente em seu modo de vida. Por poderem — e até precisarem — viver sem tomar tais decisões, os assalariados não entendem sua necessidade e, como a oportunidade de decidir raramente se apresenta em sua vida, eles pouco a valorizam nos outros. Acham desnecessário o exercício da liberdade, essencial ao indivíduo independente, e suas opiniões sobre a recompensa e a justa remuneração diferem completamente das deste. Hoje, a liberdade está seriamente ameaçada pela tendência que tem a maioria assalariada de impor seu padrão de vida e seus pontos de vista aos demais. De fato, talvez se torne extremamente difícil persuadir as massas assalariadas de que, no interesse geral da sociedade e, portanto, no seu próprio interesse futuro, elas deveriam preservar as condições que permitem a alguns galgar posições que a elas se afiguram inatingíveis ou parecem não compensar o esforço e risco.

Se, na vida dos assalariados, determinados usos da liberdade têm pouca importância, isto não significa que eles não sejam livres. Toda escolha feita por um indivíduo quanto ao seu modo de viver e ganhar a vida significa que, conseqüentemente, certos tipos de atividade pouco o atraem. Inúmeras pessoas escolherão, então, um emprego fixo porque este, mais do que qualquer função independente, lhes oferece melhores oportunidades de propiciar o tipo de vida que desejam. Mesmo no caso daqueles que não exigem a relativa segurança e a ausência de risco e de responsabilidade que a posição de assalariado garante, freqüentemente o fator decisivo não é a impossibilidade de alcançar a independência, mas a possibilidade que um emprego lhes dá de uma atividade mais gratificante e de uma renda superior à que teriam se fossem, por exemplo, trabalhadores autônomos.

Liberdade não significa poder ter tudo como queremos. Quando escolhemos um modo de vida, sempre temos de escolher também entre uma série de vantagens e desvantagens e, uma vez feita a opção, devemos estar preparados para aceitar certas desvantagens em nome de um maior benefício. Quem prefere receber uma renda constante em troca de sua atividade precisa dedicar suas horas de trabalho às tarefas imediatas que lhe são determinadas. E fazer o que lhe é ordenado é, para o assalariado, a condição essencial para alcançar este objetivo. No entanto, mesmo que isso lhe pareça às vezes profundamente desagradável, em condições normais ele não deixa de ser livre, ou seja, não está sendo coagido. É verdade que o risco ou sacrifício que abandono do emprego implica freqüentemente são tão grandes, que o indivíduo continua nele, ainda que o deteste. Mas o mesmo ocorre em quase todas as ocupações, até as independentes.

O essencial é que, numa sociedade competitiva, o assalariado não está à mercê de um empregador, exceto em períodos de considerável de-sémprego. Sabiamente, a lei não reconhece contratos permanentes de venda do trabalho do indivíduo e, em geral, nem faz valer os contratos temporários. Ninguém pode ser coagido a trabalhar sempre com determinado patrão, mesmo que se tenha comprometido a fazê-lo; e, em uma sociedade verdadeiramente competitiva, haverá outras alternativas de emprego, ainda que menos

compensadoras. 190

Fica claro que a liberdade do assalariado depende da existência de grande número e variedade de empregadores quando comparamos esta situação àquela em que há apenas um empregador - o Estado - e na qual ter um emprego é o único meio legal de se ganhar a vida. A aplicação coerente de princípios socialistas, por mais que seja disfarçada em delegação do poder de empregar a corporações públicas só em nome independentes, e a outras empresas semelhantes, levaria, necessariamente, à existência de um único empregador. Agindo direta ou indiretamente, este empregador disporia de poder ilimitado de coagir o indivíduo.

3. Os Padrões Morais do Assalariado

A liberdade dos assalariados depende, portanto, da existência de um grupo de indivíduos cuja posição é diferente da sua. No entanto, numa democracia em que os assalariados formam a maioria, é sua concepção de vida que determina se tal grupo poderá ou não existir e desempenhar suas funções. As concepções dominantes serão as da grande maioria, cujos membros pertencem a organizações hierárquicas e praticamente desconhecem os problemas e opiniões que regem as relações entre as distintas unidades dentro das quais trabalham. Os padrões criados pelos indivíduos que compõem tal maioria podem contribuir para torná-los membros efetivos da sociedade, mas não podem ser aplicados ao conjunto da sociedade, sem implicar perda da liberdade.

É inevitável que os interesses e valores dos assalariados sejam um tanto diferentes daqueles dos indivíduos que aceitam o risco e a responsabilidade de organizar o uso dos recursos. Um homem que trabalha sob a direção de outro por um salário fixo pode ser tão consciencioso, laborioso e inteligente quanto aquele que precisa escolher constantemente entre alternativas; mas dificilmente será tão criativo ou ousado, porque a margem de

escolha em seu trabalho é mais restrita. 191 Normalmente, não se espera que ele desempenhe tarefas que não sejam prescritas, ou que não sejam convencionais. Ele não pode ir além do que lhe é confiado, ainda que seja capaz de realizar muito mais. Uma função prescrita é necessariamente limitada, restrita a uma esfera de ação e baseada em uma divisão de trabalho predeterminada.

A condição de assalariado não afeta apenas a iniciativa e a inventividade de um indivíduo. Ele praticamente desconhece as responsabilidades daqueles que controlam os recursos e precisam preocupar-se constantemente com novas soluções e combinações; está pouco familiarizado com as atitudes e modos de vida decorrentes da necessidade de tomar decisões sobre o emprego da propriedade e da renda. Para o indivíduo independente não há distinção clara entre a vida privada e o trabalho, como ocorre com o assalariado que vendeu parte de seu tempo por um ganho fixo. Enquanto para o assalariado trabalhar significa adaptar-se a certa estrutura durante certo número de horas, para o indivíduo independente implica traçar e modificar continuamente seu plano de vida e descobrir soluções para problemas sempre novos. O indivíduo independente e o assalariado diferem fundamentalmente em seus pontos de vista a respeito do que se pode considerar renda, dos riscos a correr e do modo de vida a ser adotado tendo em vista o sucesso.

A principal diferença entre os dois está, no entanto, no fato de que ambos têm opiniões distintas quanto à maneira de determinar remunerações adequadas aos vários serviços; É difícil avaliar corretamente os serviços de um indivíduo que trabalha sob a supervisão de um chefe, como membro de uma grande organização. Outras pessoas julgarão em que medida ele obedeceu fiel e inteligentemente às regras e instruções e se enquadrou no mecanismo de produção. Freqüentemente, ele será remunerado de acordo com o mérito que lhe for reconhecido, e não de acordo com o resultado obtido. Para que os membros da organização se sintam satisfeitos é muito importante que a remuneração seja considerada justa, que esteja em conformidade com normas conhecidas e inteligíveis e que algum organismo seja responsável pela remuneração de cada indivíduo segundo aquilo que seus

colegas consideram seu direito. 192Entretanto, o princípio de remuneração de acordo com a avaliação de outros não se aplica a indivíduos independentes.

4. As Conseqüências da Legislação Determinada pelo Assalariado

Quando uma maioria assalariada determina a legislação e as diretrizes governamentais, as condições tenderão a sc adaptar aos padrões desse grupo e a se tornar menos favoráveis aos indivíduos independentes. A posição dos assalariados ficará, assim, cada vez mais atraente e seu poder relativo ainda maior. Pode ser até que as atuais vantagens das grandes organizações em relação às pequenas decorram, em parte, de uma política que tornou a posição de assalariado mais atraente para muitos que, no passado, buscariam a independência.

De qualquer modo, não há dúvida de que o emprego se tornou não apenas a situação efetiva, mas também a situação preferida da maioria da população, que encontra nele o que procura: a garantia de uma renda fixa para cobrir as despesas correntes, aumentos mais ou menos automáticos e aposentadoria. Com isso, os assalariados isentam-se de algumas das responsabilidades da vida econômica; e, naturalmente, acham que as dificuldades que resultam do declínio ou da falência da organização que os emprega não são de sua responsabilidade, mas de outrem. Não surpreende, portanto, que desejem um poder tutelar superior para controlar as atividades administrativas, que fogem ao seu conhecimento, mas das quais depende seu meio de vida.

Nos países em que essa classe predomina, o conceito de justiça social se ajusta, em grande parte, a suas necessidades. Isso se aplica não apenas à legislação, mas também às instituições e práticas econômicas. Os impostos passam a se basear em um conceito de renda que é, esscn-cialmente, o do assalariado. As medidas paternalistas da previdência social são elaboradas tendo em vista quase exclusivamente as exigências deste, e até os padrões e a sistemática do crédito ao consumidor servem, em primeiro lugar, a ele. E tudo que diz respeito à posse e ao emprego do capital como parte das atividades que permitem ganhar a vida passa a ser considerado interesse particular de um pequeno grupo de privilegiados, contra os quais se justificariam medidas discriminatórias.

Esse quadro ainda pode parecer exagerado para os americanos, mas para os europeus já é, em geral, mais do que familiar. A evolução nesse sentido geralmente se acelera quando os funcionários públicos se tornam o grupo mais numeroso e influente entre os assalariados e os privilégios especiais de que gozam começam a ser reivindicados por todos, como um direito. Privilégios, como a garantia de estabilidade e de promoção automática por tempo de serviço, de que se beneficia o funcionário público, não no seu próprio interesse mas no interesse do público, tendem a ser estendidos a outros. Além disso, a afirmação, feita anteriormente, de que o valor específico da prestação de serviço do indivíduo não pode ser determinado, sendo sua remuneração fixada, portanto, com base na avaliação do mérito, e não pelos resultados obtidos, é ainda mais pertinente no

caso da burocracia governamental do que no das grandes organizações. 193 Os padrões que prevalecem na burocracia tendem a se estender, basicamente em função da influência dos funcionários públicos sobre a legislação e as novas instituições que atendem às necessidades dos assalariados. Em muitos países europeus, a burocracia previdenciária, em particular, tornou-se fator político muito importante, ao mesmo tempo criador e instrumento de uma nova concepção de necessidade e de mérito, a cujos padrões a vida de toda a sociedade cada vez mais se sujeita.

5. A Liberdade é Impossível numa Hierarquia Unificada de Assalariados

A existência de múltiplas oportunidades de emprego depende, em última análise, da existência de indivíduos independentes que podem tomar iniciativas no processo contínuo de reforma e reorientação das organizações. A princípio, pode parecer que a multiplicidade de oportunidades também ocorreria no caso de diversas corporações, dirigidas por executivos assalariados e tendo como proprietários um amplo número de acionistas, sendo, portanto, dispensável a existência de proprietários individuais com grande volume de recursos. Mas, embora corporações desse tipo possam ser adequadas no caso de indústrias já instaladas, é muito improvável que as condições de competitividade se mantivessem, ou que se pudesse evitar a esclerose de toda a estrutura corporativa, sem a criação de novas organizações visando a novos empreendimentos, em que o capitalista capaz de assumir os riscos ainda é insubstituível. E essa superioridade das decisões individuais sobre a coletiva não se restringe aos novos empreendimentos. Por mais adequadas que sejam as decisões coletivas de um conselho diretor na maioria dos casos, o sucesso, até de grandes corporações com uma posição já firmada no mercado, muitas vezes se deve a um único indivíduo que conquistou uma situação de influência e independência pelo controle de grandes recursos. Ainda que a instituição da corporação possa, até certo ponto, ter contribuído para confundir a simples distinção entre proprietário-diretor e empregado, todo o sistema de empresas individuais- que oferece tanto a empregados como a consumidores alternativas suficientes para impedir que cada empresa exerça um poder coercitivo - pressupõe a propriedade privada

e a decisão individual quanto ao uso dos recursos. 194

6. A Importância do Indivíduo que Dispõe de Recursos

Próprios

A importância do proprietário individual de considerável soma de recursos não está, entretanto, no simples fato de sua existência ser condição essencial para a preservação da estrutura de iniciativas competitivas. O indivíduo que dispõe de recursos próprios é uma figura ainda mais importante para uma sociedade livre quando não se dedica exclusivamente a utilizar seu capital com a intenção de obter ganhos materiais, mas usa-o em favor de objetivos que não trazem retorno material. Em toda sociedade civilizada, o indivíduo com capital próprio tem um papel indispensável a cumprir - muito mais no que diz respeito ao apoio a objetivos que não podem ser adequadamente atendidos pelo

mecanismo do mercado do que à preservação deste. 196

Embora o mecanismo do mercado seja o método mais eficaz para a obtenção de serviços aos quais se pode atribuir um preço, há outros, de grande importância, que o mercado não oferece porque não podem ser vendidos ao beneficiário. Freqüentemente, os economistas querem, fazer crer que só tem utilidade aquilo que o público pode pagar ou mencionam as exceções a esta regra apenas para justificar a intervenção do Estado nas áreas em que o mercado não produziu o que se espera. Entretanto, mesmo que as limitações do mercado constituam um argumento válido para certos tipos de ação governamental, elas não justificam que só o Estado deva prover tais serviços. O próprio reconhecimento da existência de necessidades que o mercado não satisfaz deveria evidenciar que o governo não deve ser o único agente apto a oferecer serviços que não trazem lucro, e que, nessas atividades, não deve haver monopólio, e sim o maior número possível de centros independentes, capazes de satisfazer tais necessidades.

A liderança de indivíduos ou grupos que podem dar respaldo financeiro a suas idéias é particularmente essencial no campo da cultura, das artes, da educação e pesquisa, na preservação das belezas naturais e dos tesouros históricos e, acima de tudo, na divulgação de novas idéias políticas, morais e religiosas. Para que as opiniões da minoria possam tornar-se as opiniões da maioria, é necessário não apenas que os homens já detentores de prestígio junto à maioria possam tomar iniciativas, mas também que os representantes de todas as posições e tendências divergentes tenham condições de apoiar, com seus meios e sua energia, ideais ainda não compartilhados pela maioria.

Se porventura não descobríssemos maneira mais apropriada de apoiar financeiramente tais grupos, seria justificável que escolhêssemos, ao acaso, Um entre cem ou mil e lhe oferecêssemos os meios para que pudesse perseguir o objetivo que ele se propusesse. Na medida em que gostos e opiniões em geral fossem representados, e todo tipo de interesse tivesse sua oportunidade, isso valeria a pena, ainda que, dessa pequena parcela da população, apenas um em cem, ou em mil, utilizasse a oportunidade de forma que, futuramente, fosse julgada benéfica. Na seleção permitida pelo processo de herança, que em nossa sociedade produz de fato tal situação, há ao menos a vantagem (mesmo que não levemos em conta a probabilidade da transmissão do talento) de aqueles que receberam essa oportunidade especial terem, geralmente, sido educados para isso, num ambiente em que os benefícios materiais da riqueza são um dado corriqueiro e, por isso, deixaram de constituir a fonte principal de satisfação. Os prazeres menos refinados com que os novos-ricos freqüentemente se satisfazem não costumam atrair aqueles que herdaram riqueza. Se é válido afirmar que o processo de ascensão social deveria, em alguns casos, estender-se por várias gerações, e se admitimos que algumas pessoas não deveriam precisar dedicar a maior parte de seu tempo e energia ao seu sustento, mas a um objetivo previamente escolhido, então não podemos negar que a herança é, provavelmente, a melhor forma de seleção que conhecemos.

A questão que habitualmente deixamos de levar em consideração a esse respeito é que a ação decidida por consenso coletivo se limita a casos em que atividades prévias já criaram uma atitude comum, em que já se fixou a opinião sobre o que se deveria buscar, e o problema consiste na escolha entre possibilidades já reconhecidas praticamente por todos, e não na descoberta de novas possibilidades. A opinião pública não pode, entretanto, decidir para onde devem ser dirigidos os esforços que visam a despertar a própria opinião pública, nem o governo, ou outros grupos organizados, deve ter o poder exclusivo de fazê-ló. Tais esforços precisam ser desenvolvidos por indivíduos que dispõem dos recursos necessários ou têm o apoio daqueles que os possuem; sem a contribuição desses indivíduos, as idéias que hoje pertencem a uma pequena minoria talvez nunca venham a ser adotadas pela maioria. O inadequado apoio dado às artes, sempre que patronos generosos são substituídos pela maioria, mostra como é insignificante a liderança que se pode esperar desta última. Isso é ainda mais válido em relação aos movimentos filantrópicos ou idealistas responsáveis pela mudança dos valores morais da maioria.

Não vamos lembrar aqui a longa história de todas as grandes causas que só foram reconhecidas depois que pioneiros solitários devotaram vida e fortuna a despertar a consciência da sociedade, das extensas campanhas que conquistaram finalmente amplo apoio para a abolição da escravatura, a reforma penal e penitenciária, que acabaram com atos de crueldade contra crianças e animais, ou conseguiram tratamento mais humano para os loucos. Essas causas foram, por muito tempo, o objetivo de um punhado de idealistas que se bateram para mudar a opinião esmagadora da maioria sobre um comportamento já estabelecido.

7. O Sistema de Valores dos Ricos

Entretanto, os ricos só podem desempenhar esta função quando a comunidade não considera a única missão de indivíduos abastados investir e aumentar seu capital, e quando a classe alta não se compõe exclusivamente de homens que se preocupam apenas com o emprego lucrativo de seus recursos. Em outras palavras: é absolutamente necessário tolerar a existência de um grupo de ricos ociosos - ociosos não no sentido de que não fazem nada de útil, mas no sentido de que seus objetivos não são inteiramente pautados pelo interesse de ganho material. Se a maior parte das pessoas precisa trabalhar para ganhar seu pão, disto não decorre ser menos recomendável que algumas não devam ter de fazê-lo, que possam perseguir objetivos não apreciados pelas demais. Seria sem dúvida irracional se, por esse motivo, a riqueza fosse arbitrariamente tomada de uns e entregue a outros. Também não teria sentido que a maioria se reservasse o direito de conceder esse privilégio, pois escolheria indivíduos com cujos objetivos já concorda. Isso criaria, meramente, nova modalidade de emprego ou uma forma adicional de reconhecimento ao mérito, mas não uma oportunidade de perseguir objetivos ainda não considerados dignos de atenção.

Tenho a maior admiração pela tradição moral que desaprova a ociosidade, quando esta significa falta de uma ocupação útil. Por outro lado, não ter necessidade de trabalhar para ganhar a vida não significa, necessariamente, ociosidade; também não há qualquer razão para que ocupações que não produzem ganho material não devam ser consideradas honrosas. Se a maior parte de nossas necessidades pode ser atendida pelo mercado e se, ao mesmo tempo, isto dá à maioria das pessoas a oportunidade de ganhar a vida, tal fato não implica que se deva proibir uma pessoa de devotar toda esta energia a fins não lucrativos, ou que apenas a maioria ou grupos organizados devem ter a oportunidade de perseguir tais fins. O fato de apenas alguns indivíduos terem essa oportunidade não significa que deixe de ser recomendável.

É duvidoso que uma classe rica, cujo sistema de valores exige que pelo menos todos os homens que a integram provem sua utilidade ganhando mais dinheiro, justifique com isso sua própria existência. Por mais importante que seja o possuidor de recursos próprios para a ordem econômica de uma sociedade livre, sua importância é talvez maior no campo do pensamento e da opinião, dos costumes e das crenças. Falta uma relevante dimensão à sociedade cujos líderes intelectuais, morais e artísticos pertencem todos à classe assalariada, especialmente se forem, na maioria, funcionários do governo. E, no entanto, em todos os países está-se caminhando para isso. Embora alguns líderes na formação de opinião ainda venham surgindo entre os escritores e artistas independentes, médicos e advogados, os que deveriam constituir tal liderança - os estudiosos nos campos das ciências exatas e humanas - estão em sua grande maioria, hoje, em muitos países, na

condição de assalariados a serviço do Estado. 197 Houve, a esse respeito, notável mudança desde o século XIX, quando intelectuais, que também pertenciam à melhor sociedade,

como Darwin 198 e Macaulay, Grote e Lubbock, Motley e Henry Adams, Tocqueville e Schliemann, eram figuras de grande relevo, e mesmo um crítico heterodoxo da sociedade, como Karl Marx, podia encontrar um patrono rico que lhe permitia devotar sua vida à elaboração e propagação de doutrinas que a maioria de seus contemporâneos abominava.

199

O desaparecimento quase completo dessa categoria - e sua virtual inexistência nos Estados Unidos - provocou uma situação em que a classe dos proprietários, agora composta quase exclusivamente de homens de negócios, carece de liderança intelectual e mesmo de uma filosofia de vida coerente e defensável. Uma classe abastada, que seja em parte uma classe que não precisa trabalhar para ganhar a vida, abrigará grande número de acadêmicos e estadistas, literatos e artistas. O relacionamento com homens que tinham o mesmo estilo de vida permitiu aos ricos preeminentes, no passado, participar do movimento de idéias e dos debates que moldaram a opinião pública. O observador europeu, que não pode deixar de se espantar com a aparente impotência daquela que, nos Estados Unidos, ainda é considerada, por vezes, a classe dominante, talvez seja levado a crer que isso se deve sobretudo ao fato de as tradições americanas impedirem a ascensão de um grupo que não vive do trabalho, no interior dessa classe: um grupo que usa a independência propiciada pela riqueza para outros fins que não os vulgarmente chamados econômicos. Entretanto, essa ausência de uma elite cultural no interior da classe mais afluente é hoje clara também na Europa, onde o efeito conjunto da inflação e da taxação destruiu em grande parte os integrantes daquela antiga classe e impediu o crescimento de uma nova.

8. A Liderança no Campo dos Valores Não Materiais

É inegável que um grupo que não depende do trabalho produzirá um número proporcionalmente bem maior de bons vivants do que de estudiosos e de pessoas de destaque a serviço da sociedade, e que eles chocarão a consciência pública, por desperdiçar abertamente sua riqueza. Mas esse desperdício constitui o preço da liberdade; e não seria possível afirmar que o padrão pelo qual o consumo dos mais ociosos entre os ricos ociosos é considerado um desperdício condenável seja realmente diferente daquele pelo qual o consumo das massas dos Estados Unidos é julgado um desperdício pelos camponeses egípcios ou pelo trabalhador braçal chinês. Em termos quantitativos, o desperdício causado pelo entretenimento dos ricos é, na verdade, insignificante, comparado ao entretenimento, também “desnecessário”, das massas, que desvia recursos

muito maiores de fins considerados importantes, segundo certos padrões éticos. 200 O desperdício que notamos na vida normal dos ricos ociosos parece tão condenável somente porque é manifesto e de natureza diversa.

Por outro lado, também é verdade que, embora os gastos extravagantes de alguns repugnem aos demais, dificilmente podemos ter certeza de que, em determinadas circunstâncias, até a mais absurda experiência de vida não possa produzir resultados benéficos em geral. Não deve surpreender que a vida num novo contexto de possibilidades leve, a princípio, a uma ostentação despropositada. No entanto, não tenho dúvidas - ainda que, ao dizer isso, me esteja expondo a zombarias - de que a própria fruição do ócio exige certo pioneirismo e de que devemos muitas das formas de vida, hoje comuns, a pessoas

que dedicaram todo o seu tempo à arte de viver; 201 muitos jogos e equipamentos esportivos que se tornaram posteriormente instrumentos de recreação das massas foram inventados por playboys.

Nossa avaliação da utilidade de diferentes atividades passou a ser curiosamente distorcida pela onipresença do padrão pecuniário. Com frequência surpreendente, as pessoas que mais protestam contra o materialismo de nossa civilização são as mesmas que não admitem outra medida da utilidade de determinados serviços além da disposição de pagar por eles. Entretanto, será mesmo tão óbvio que o jogador profissional de tênis ou golfe seja mais útil à sociedade do que os ricos amadores que devotaram seu tempo ao aperfeiçoamento desses jogos? Ou' que o curador assalariado de um museu público seja mais útil do que um colecionador particular? Antes que o leitor responda apressadamente, eu pediria que pensasse se haveria profissionais do tênis ou do golfe, ou curadores de museus, se amadores abastados não os tivessem precedido. Não podemos esperar que surjam novos interesses a partir das experiências dos que com elas se podem deleitar durante a curta duração de uma vida? É natural que a arte de viver e os valores não materiais se tenham aperfeiçoado sobretudo graças àqueles que não tinham

preocupações materiais. 202

É realmente trágico que as massas tenham chegado a acreditar que devem seu alto padrão de bem-estar material ao fato de terem eliminado os ricos, e que temam que a preservação ou o reaparecimento de tal classe as privariam de algo que teriam (e a que julgam ter direito) se esta não existisse. Já vimos por que, numa sociedade progressista, não há razões para crer que a riqueza desfrutada por poucos existiria se estes não pudessem dela usufruir. Esta riqueza não é algo que lhes foi tirado, tampouco ê algo que lhes era devido e lhes foi negado; ela é o primeiro sinal de um modo de vida inaugurado pela vanguarda. De fato, os que têm o privilégio de apontar novos caminhos que só os filhos, ou netos, de outros poderão palmilhar não são geralmente os indivíduos mais merecedores, mas simplesmente os que a sorte colocou nessa posição invejada. Este fato é, porém, inseparável do processo de evolução, que ultrapassa tudo que qualquer indivíduo ou grupo pode prever. Ao impedir, desde o início, que alguns gozem de certas vantagens, podemos acabar privando delas todos os demais. Se, por inveja, tornamos impossível a existência de certos estilos excepcionais de vida, terminaremos todos condenados ao empobrecimento material e espiritual. Também não podemos eliminar as manifestações desagradáveis do sucesso individual sem destruir, ao mesmo tempo, as forças que tornam possível o progresso. Podemos desprezar a ostentação, o mau gosto e o desperdício de muitos novos-ricos e, no entanto, reconhecer que, se eliminássemos tudo o que nos desagrada, possivelmente estaríamos suprimindo, desta forma, um número muito maior de benefícios que ainda não conseguimos vislumbrar. Um mundo em que a maioria pudesse impedir o surgimento de tudo que ela própria não aprovasse seria um mundo estagnado e, provavelmente, em decadência.