Os Fundamentos da Liberdade
Capítulo II— Os Poderes Criativos de uma Civilização Livre
CAPÍTULO II - Os Poderes Criativos de
uma Civilização Livre
“A civilização avança graças à ampliação do número de operações importantes que podemos realizar sem pensar. As operações da mente são como cargas de cavalaria em uma batalha - seu número é estritamente limitado, exigem cavalos novos e só devem ser
realizadas em momentos decisivos.”(44)
A. N. WHITEHEAD
1. A Civilização e o Desenvolvimento do Conhecimento
A máxima socrática, segundo a qual o reconhecimento da nossa ignorância é o começo da sabedoria, tem um significado profundo para a nossa compreensão da sociedade. Para isso, em primeiro lugar, é preciso que tomemos consciência da inevitável ignorância dos homens a respeito de muitas coisas que lhes permitem alcançar seus objetivos. A maioria das vantagens da vida em sociedade, especialmente em suas formas mais avançadas, que chamamos “civilização”, esta no fato de que o indivíduo se beneficia de um volume muito maior de conhecimentos dos que consegue perceber conscientemente. Poder-se-ia dizer que a civilização começa quando o indivíduo, na busca de seus objetivos, utiliza um volume de conhecimentos muito maior do que o adquirido por ele próprio, podendo transcender os limites de sua ignorância recorrendo a um conhecimento que não possui.
Pouco se atentou para o fato fundamental da inelutável ignorância dos homens a respeito da maioria das bases em que assenta o processo da civilização. Filósofos e estudiosos da sociedade têm geralmente atenuado sua importância, considerando-a uma imperfeição menor, que poderia ser mais ou menos desprezada. Mas, embora a análise de problemas sociais e morais baseada no pressuposto do conhecimento perfeito possa ocasionalmente ser útil como exercício preliminar de lógica, ela é de pouca utilidade quando se tenta explicar o mundo real. Tais problemas esbarram na “dificuldade prática” de que nosso conhecimento está, de fato, muito lònge da perfeição. Talvez seja perfeitamente natural que os cientistas tendam a salientar o que sabemos; mas no campo social, onde o que não sabemos é freqüentemente bem mais importante, o efeito desta tendência pode ser muito enganador. Muitas construções utópicas não têm nenhum valor porque seguem a orientação dos teóricos ao supor que dispomos de um conhecimento perfeito.
Deve-se admitir, porém, que nossa ignorância é um assunto particularmente difícil de ser analisado. Em princípio, parece até mesmo impossível, por definição, falar de modo racional a seu respeito. Evidentemente, não podemos discutir de maneira inteligente algo sobre o que nada sabemos. Precisamos, pelo menos, ser capazes de formular as questões, ainda que não conheçamos as respostas. Isso exige algum conhecimento autêntico do universo que estamos discutindo. Para compreender o funcionamento da sociedade, devemos tentar definir a natureza geral e o grau de nossa ignorância neste campo. Se não podemos enxergar no escuro, devemos ser capazes de distinguir os contornos das zonas escuras.
O equívoco do enfoque habitual aparece claramente quando examinamos o significado da afirmação de que o homem criou sua civilização e, portanto, também pode mudar as suas instituições a seu bel-prazer. Essa afirmação somente se justificaria se o homem tivesse criado deliberadamente a civilização em plena consciência dos efeitos de seus atos ou, pelo menos, se soubesse, efétivamente, como ela se estava perpetuando. Em certo sentido, o homem, de fato, criou sua civilização. Ela é o produto das suas ações, ou melhor, das ações de algumas centenas de gerações. No entanto, isso não quer dizer que a civilização seja o produto de um projeto humano, ou mesmo que o homem saiba do que
depende seu funcionamento ou existência através dos tempos. 45
Toda a teoria de que o homem já surge dotado de uma mente ca paz de conceber a civilização e logo trata de implantá-la é fundamentalmente errada. O homem não impôs, simplesmente, ao mundo um modelo criado por sua mente. Sua própria mente é um sistema em constante mudança, como resultado de seu esforço de adaptação ao ambiente. Seria um erro acreditar que, para alcançar um nível de civilização mais elevado, temos apenas de pôr em prática as idéias que hoje predominam. Para evoluir, devemos permitir uma revisão contínua das concepções e ideais presentes, que a experiência futura exigirá. Somos tão incapazes de imaginar o que será, ou poderá ser, a civilização daqui a quinhentos, ou até mesmo cinqüenta anos, como nossos antepassados medievais ou até
nossos avós eram incapazes de prever o nosso estilo de vida. 46
A idéia de que o homem constrói conscientemente sua civilização provém de um intelectualismo errado, que considera a razão humana algo externo à natureza, com conhecimento e capacidade de raciocínio independentes da experiência. Mas a evolução da mente humana faz parte da evolução da civilização; é o nível de civilização em dado momento que determina a dimensão e as possibilidades dos objetivos e valores humanos. A mente nunca pode prever seu próprio avanço. Embora devamos sempre lutar pela realização de nossos objetivos presentes, devemos também deixar que as novas experiências e os acontecimentos futuros decidam quais desses objetivos serão realizados.
Pode ser exagero afirmar, como um antropólogo moderno, que “não é o homem que controla a cultura, mas exatamente o oposto”. Mas é útil que ele nos lembre que “somente nossa profunda e total ignorância da natureza da cultura nos faz crer que nós a
dirigimos e controlamos”. 47Ele faz pelo menos uma importante correção à concepção intelectualista. Sua advertência nos ajuda a formar uma imagem mais verdadeira da incessante interação entre nossa luta consciente por aquilo que nosso intelecto supõe ser realizável e a influência das instituições, tradições e costumes que, em conjunto, muitas vezes acabam produzindo algo muito diferente daquilo que pretendíamos.
Em realidade, o conhecimento consciente, que orienta as ações do indivíduo, constitui apenas uma parte das condições que lhe permitem alcançar seus fins. Em primeiro lugar, sabemos que a própria mente do homem é produto da civilização na qual ele cresceu, quase sem se dar conta da experiência que a formou - experiência da qual se utiliza e que está incorporada nos hábitos, convenções, linguagem e princípios morais que a constituem. Em segundo lugar, é preciso considerar que o conhecimento que a mente individual coordena conscientemente é apenas uma pequena parte do conhecimento que, a cada momento, contribui para o êxito de seus atos. Quando nos damos conta de que o conhecimento de outras pessoas constitui uma condição essencial ao êxito da busca de nossos objetivos individuais, nossa ignorância das situações que condicionam os resultados da nossa ação parece simplesmente desconcertante. O conhecimento existe apenas enquanto conhecimento individual. Falar do conhecimento da sociedade como um todo não é mais que uma metáfora. A soma dos conhecimentos de todos os indivíduos não existe, em parte alguma, como um todo integrado. O grande problema está em descobrir de que modo todos podemos aproveitar esse conhecimento, que se encontra disperso, na forma de idéias separadas, parciais e, às vezes, conflitantes, nas mentes de todos os homens.
Em outras palavras, é principalmente porque a civilização nos permite aproveitar constantemente o conhecimento que não temos a nível individual e porque o uso que cada indivíduo faz de seu conhecimento particular pode contribuir para ajudar pessoas que ele não conhece a realizar seus objetivos, que os homens, enquanto membros de uma sociedade civilizada, podem prosseguir na busca de suas metas individuais com muito mais êxito do que se precisassem agir com seus próprios recursos. Sabemos muito pouco a respeito dos fatos específicos aos quais a atividade social como um todo se ajusta continuamente, para nos oferecer aquilo que nos acostumamos a esperar. Menos ainda sabemos das forças que produzem este ajustamento, coordenando de maneira apropriada a atividade individual. E nossa atitude, quando verificamos que mal sabemos por que motivos somos levados a cooperar, é, de um modo geral, mais de ressentimento do que de admiração ou curiosidade. Nosso impulso ocasional de arrebentar todo o complicado mecanismo da civilização deve-se em grande medida a essa incapacidade do homem de compreender o que está fazendo.
2. Os Diferentes Usos da Experiência
Seria, no entanto, um grande engano identificar a evolução da civilização com a evolução do conhecimento, se por “conhecimento” entendêssemos apenas o conhecimento explícito, consciente dos indivíduos, o conhecimento que nos permite dizer que isso ou
aquilo é desta ou daquela forma. 48 E um erro maior ainda seria limitar a definição deste conhecimento ao conhecimento científico. É importante para a compreensão da nossa tese, nos capítulos posteriores, lembrarmos que, contrariamente a uma corrente
moderna, 49o conhecimento científico não esgota nem mesmo todo o conhecimento consciente e explícito do qual a sociedade se serve continuamente. Os métodos científicos da busca do conhecimento não podem satisfazer todas as necessidades que a sociedade tem de um conhecimento explícito. Nem todo conhecimento dos fatos específicos em constante modificação e continuamente usado pelo homem se presta à organização ou exposição sistemática; ele existe em grande parte disperso por um número incomensurável de indivíduos. O mesmo se aplica ao importante campo do conhecimento especializado, que não constitui conhecimento substantivo, mas apenas conhecimento a
respeito de onde e como encontrar a informação desejada. 50Para o propósito de nossa análise, porém, o mais importante não é esta distinção entre os diferentes tipos de conhecimento racional, e, quando falarmos de conhecimento explícito, consideraremos esses diferentes tipos em seu conjunto.
A evolução do conhecimento e a evolução da civilização representam o mesmo fenômeno somente se encararmos o conhecimento como algo que inclui todas as formas de adaptação do homem ao meio ambiente, nas quais foi incorporada a experiência passada. Neste sentido, nem todo conhecimento faz parte do nosso intelecto, nem nosso intelecto constitui a totalidade do nosso conhecimento. Nossos hábitos e habilidades, nossas atitudes emocionais, nossos implementos e nossas instituições são, neste sentido, adaptações à experiência passada que evoluíram pela eliminação seletiva da conduta menos adequada. Elas constituem o requisito fundamental para o êxito de uma ação, assim como nosso conhecimento consciente. Nem todos estes fatores não racionais subjacentes às nossas ações levam sempre ao sucesso; Alguns permanecem muito depois de perder sua utilidade e até mesmo quando já são mais um obstáculo do que um recurso. Contudo, são fatores indispensáveis: a própria utilização correta de nosso intelecto depende de seu emprego constante.
O homem se orgulha da ampliação do seu conhecimento. Mas, como conseqüência de tudo que ele criou, as limitações do seu conhecimento consciente e, portanto, o grau de ignorância subjacente a sua ação consciente também foram crescendo. Desde o despontar da ciência moderna, os grandes pensadores reconheceram que “o grau de ignorância
aumentará com o avanço da ciência”. 51Infelizmente, o progresso científico deu origem ao conceito vulgar, aparentemente aceito por muitos cientistas, de que nossa ignorância diminui constantemente e de que, portanto, poderíamos controlar de maneira mais abrangente e deliberada todas as atividades humanas. É por este motivo que as pessoas intoxicadas pelo avanço do conhecimento tantas vezes se tornam inimigas da liberdade. Enquanto a evolução do conhecimento da natureza revela constantemente novas áreas, a crescente complexidade da civilização que este conhecimento nos permite edificar dificulta a compreensão intelectual do mundo que nos rodeia. Quanto mais os homens sabem, mais se reduz a parcela do conhecimento que qualquer indivíduo consegue absorver. Quanto mais civilizada a sociedade, tanto mais o indivíduo desconhece os elementos que sustentam o funcionamento de sua civilização. A própria divisão do conhecimento aumenta a ignorância do indivíduo.
3. Transmissão e Comunicação da Experiência
Quando discutimos a transmissão e a comunicação do conhecimento, tínhamos em mente os dois aspectos do processo da civilização, que já distinguimos: a transmissão, através do tempo, do conhecimento já adquirido, e a comunicação, entre as pessoas de uma mesma época, de informações que orientam seus atos. Estes dois aspectos não podem ser separados nitidamente porque os instrumentos de comunicação entre as pessoas de uma mesma época pertencem à herança cultural que o homem constantemente utiliza na perseguição de seus objetivos.
Conhecemos profundamente este processo de acumulação e transmissão do conhecimento no campo da ciência, na medida em que mostra as leis gerais da natureza e as características concretas do mundo em que vivemos. Mas, embora seja esta a parte mais óbvia do conhecimento herdado e a parte principal daquilo que sabemos necessariamente, no sentido comum da idéia de “conhecer”, ainda constitui apenas uma parte; pois, além disso, dispomos de muitos instrumentos, no sentido mais amplo da palavra, que foram aperfeiçoados pelo homem e permitem que nos relacionemos com nosso meio ambiente. Estes, que são resultado da experiência de sucessivas gerações, nos foram legados por elas. E, tão logo surja um instrumento mais eficiente, será utilizado sem que saibamos por que é melhor ou até mesmo qual seria a alternativa.
Estes “instrumentos”, que o homem aperfeiçoou e constituem um aspecto tão importante da sua adaptação ao meio ambiente, incluem muito mais do que implementos materiais. Consistem, em grande parte, em formas de conduta que ele segue habitualmente sem saber por quê. Consistem naquilo que chamamos “tradições” e “instituições”, das quais o homem se serve porque lhe estão disponíveis como produto de um crescimento cumulativo, sem jamais terem sido planejadas por mente alguma. O homem, geralmente, desconhece não apenas por que utiliza instrumentos que possuem uma forma e não outra, mas também quantas coisas dependem de ele agir desta ou daquela maneira. Em geral, não sabe até que ponto o êxito dos seus esforços é determinado pelo fato de ele se conformar a hábitos dos quais sequer tem consciência. Isso, provavelmente, ocorre tanto com o homem civilizado como com o homem primitivo.
Concomitantemente à evolução do conhecimento consciente, sempre ocorre uma acumulação igualmente importante de instrumentos, neste sentido mais amplo, de condutas jà testadas e adotadas em geral.
No momento, o objeto de nosso estudo não é tanto o conhecimento que desta forma nos foi transmitido, ou a formação dos novos instrumentos que serão utilizados no futuro, mas a maneira pela qual a experiência atual é utilizada para ajudar aqueles que não o desenvolveram diretamente. Na medida em que isto for possível, deixaremos a análise do progresso através do tempo para o próximo capítulo e concentrar-nos-emos, neste, na maneira pela qual este conhecimento disperso e as diferentes habilidades, os diversos hábitos e oportunidades dos membros da sociedade, considerados individualmente, contribuem para produzir o ajuste de suas atividades a circunstâncias em constante mutação.
Cada alteração das condições tomará necessária alguma mudança na utilização dos recursos, na orientação e tipo de atividades humanas, nos hábitos e costumes. E cada mudança nos atos dos indivíduos que a experimentaram em primeiro lugar exigirá ajustes ulteriores, que gradativamente se estenderão a toda a sociedade. Assim, cada mudança cria, em certo sentido, um “problema” para a sociedade, embora nenhum indivíduo o perceba como tal; problema que é gradativamente “solucionado” por um novo ajuste global. Aqueles que participam do processo mal entendem por que estão agindo de determinada maneira, e não temos nenhum modo de prever qüem será, a cada momento, o primeiro a tomar a medida adequada, ou as combinações especiais de conhecimentos e aptidões, atitudes pessoais e circunstâncias, que sugerirão a alguém a resposta conveniente, ou por que meios o seu exemplo será transmitido a outros que o seguirão. É difícil imaginar todas as combinações de conhecimentos e aptidões que deste modo passam a atuar e levam à descoberta de práticas adequadas ou expedientes que, uma vez encontrados, podem ser aceitos por todos. Mas a partir de incontáveis pequenos passos, que indivíduos anônimos realizam em seu comportamento rotineiro em circunstâncias modificadas, surgem os modelos que prevalecem, modelos tão importantes quanto as principais criações da mente, explicitamente reconhecidas e como tais transmitidas.
Determinar quem possuirá a combinação de aptidões e oportunidades que lhe permita encontrar as melhores soluções é algo tão imprevisível quanto determinar de que maneira ou por que processo tipos diferentes de conhecimentos e habilidades se combinam para
solucionar os problemas. 52 A combinação mais adequada de conhecimentos e aptidões não é algo que se escolha por deliberação comum, por pessoas que buscam uma solução para
os seus problemas mediante um esforço conjunto. 53Ela resulta de um processo individual da imitação daqueles que tiveram êxito e da orientação proporcionada a estes indivíduos por sinais ou símbolos, tais como os preços oferecidos por seus produtos ou expressões de aprovação moral ou apreciação estética, conferidos àqueles que observaram padrões de conduta — ou seja, do fato de que esses indivíduos utilizam os resultados das experiências de outros.
O funcionamento do processo exige que cada indivíduo possa agir conforme seu conhecimento pessoal, sempre inimitável, pelo menos no que se refere a certas circunstâncias específicas, e que seja capaz de utilizar suas aptidões e oportunidades, dentro dos limites que conhece e visando a seus próprios objetivos individuais.
4. A Justificativa da Liberdade Baseia-se no Reconhecimento
da Ignorância
Chegamos agora ao ponto em que a proposição principal deste capítulo ficará compreensível: a justificativa da liberdade individual fundamenta-se, principalmente, no reconhecimento da inevitável ignorância de todos os homens no que diz respeito à maioria
dos fatores dos quais depende a realização dos nossos objetivos e do nosso bem-estar. 55
Se existissem homens oniscientes, se pudéssemos conhecer não apenas tudo o que influi na realização dos nossos desejos atuais, mas também conhecer nossos desejos e necessidades futuras, não haveria muita razão para defendermos a liberdade. Por outro lado, a liberdade do indivíduo tornaria, evidentemente, impossível uma previsão perfeita. A liberdade é essencial para que o imprevisível exista; nós a desejamos porque aprendemos a esperar dela a oportunidade de realizar a maioria dos nossos objetivos. E, justamente porque o indivíduo sabe tão pouco e, mais ainda, como raramente podemos determinar quem de nós conhece mais, confiamos aos esforços independentes e competitivos de muitos a criação daquilo que desejaremos, quando tivermos a oportunidade de apreciá-lo.
Por mais humilhante que seja para o orgulho humano, devemos reconhecer que o progresso e até a preservação da civilização dependem de um máximo de oportunidades
para que as coisas possam 56acontecer. Estas casualidades ocorrem graças à combinação de conhecimentos e atitudes, aptidões e hábitos adquiridos pelos indivíduos e também quando indivíduos treinados se defrontam com problemas específicos que estão preparados para solucionar. Nosso inevitável desconhecimento de tantas coisas significa que teremos de lidar, em grande parte, com probabilidades e acasos.
Naturalmente, tanto na vida social quanto na individual, os acidentes favoráveis não
ocorrem simplesmente. Devemos estar preparados para quando acontecerem. 57 Mas, mesmo assim, ainda são acasos, e não se transformam em certezas. Envolvem riscos deliberada-mente aceitos, os possíveis reveses de indivíduos e grupos que têm tanto mérito quanto outros que prosperam, a possibilidade de fracassos ou de recaídas, até para a maioria, e apenas uma grande probabilidade de ganho. O máximo que podemos fazer é aumentar as possibilidades de que certa combinação de dons individuais e de circunstâncias leve à criação de algum novo instrumento ou ao aperfeiçoamento de um instrumento antigo e melhorar a perspectiva de que tais inovações se tornem rapidamente conhecidas por aqueles que podem beneficiar-se delas.
Todas as teorias políticas pressupõem, evidentemente, que a maioria dos indivíduos é muito ignorante. Aqueles que defendem a liberdade diferem dos outros porque se incluem entre os ignorantes e porque incluem também os mais sábios. Comparada com a totalidade do conhecimento que é continuamente utilizado no processo evolutivo de uma civilização dinâmica, a diferença que existe entre o conhecimento dos mais sábios e aquele que pode ser deliberadamente empregado pelos mais ignorantes é insignificante.
A tese clássica da necessidade de tolerância, invocada por John Milton e John Locke e reafirmada por John Stuart Mill e Walter Bagehot, baseia-se, obviamente, no reconhecimento desta nossa ignorância. Trata-se de uma aplicação especial de considerações gerais permitida por uma percepção não racionalista do funcionamento da nossa mente. Descobriremos ao longo deste trabalho que, embora não o percebamos habitualmente, todas as instituições da liberdade constituem adaptações a esta fundamental ignorância para que se possa lidar com possibilidades e probabilidades, mas não com a certeza. Não existe certeza na ação humana e é por esta razão que, para fazer o melhor uso do nosso conhecimento individual, devemos seguir as normas indicadas pela experiência como as mais adequadas de um modo geral, embora não saibamos quais serão as conseqüências de sua observância em casos específicos. (13)
13 Cf. A. P. Le rne r, “The Backward-le aning Approach to Controls”, J. P. E., LXV (1957), página 441: “As doutrinas do livre comé rcio são válidas como normas gerais, cujo uso é , ge ralme nte , be né fico. Como ocorre com todas as normas ge rais, e xiste m casos particulare s e m que , se algué m conhe ce sse todas as circunstâncias possíve is no caso e todos os e fe itos e m todas as suas ramificaçõe s, me lhor se ria que a norma não fosse aplicada. Todavia, isso não significa que a norma se ja e rrada, ne m justifica que se de ixe de aplicá-la quando, como normalme nte aconte ce , não conhe ce mos todas as ramificaçõe s que tornariam o caso e spe cífico uma re come ndáve l e xce ção”.
5. A Liberdade como Oportunidade para um Pequeno
Número de Desconhecidos
O homem aprende pela frustração de suas esperanças. É óbvio que não devemos aumentar a imprevisibilidade dos acontecimentos com a criação de tolas instituições humanas. Na medida do possível, deveríamos eleger como objetivo a melhoria das instituições humanas, a fim de aumentar as possibilidades de previsão correta. Todavia, acima de tudo, deveríamos proporcionar o máximo de oportunidades para que indivíduos que não conhecemos aprendessem fatos que nós mesmos ainda desconhecemos e utilizassem este conhecimento em suas ações.
É graças aos esforços harmônicos de muitas pessoas que se pode utilizar uma quantidade de conhecimento maior do que aquela que um indivíduo isolado pode acumular ou do que seria possível sintetizar intelectualmente. E graças a essa utilização do conhecimento disperso é que se tornam possíveis realizações superiores às que uma mente isolada poderia prever. É justamente porque liberdade significa renúncia ao controle direto dos esforços individuais que uma sociedade livre pode fazer uso de um volume muito maior de conhecimentos do que aquele que a mente do mais sábio governante poderia abranger.
A partir destas premissas básicas sobre as quais se fundamenta a justificativa da liberdade, segue-se que não poderemos alcançar suas metas se limitarmos o uso da liberdade às circunstâncias especiais nas quais sabemos que será benéfica. Não é liberdade aquela concedida somente quando seus efeitos benéficos são conhecidos de antemão. Se soubéssemos de que forma a liberdade seria usada, não teríamos necessidade de justificá-la. Nunca conseguiremos os benefícios dà liberdade, nunca alcançaremos os avanços imprevisíveis que ela possibilita, se ela não for também concedida nos casos em que sua utilização parecer indesejável. Portanto, não se pode alegar como argumento contra a liberdade individual que as pessoas freqüentemente abusam dessa liberdade. Liberdade significa, necessariamente, que cada um acabará agindo de uma forma que poderá desagradar aos outros. Nossa fé na liberdade não se baseia nos resultados previsíveis em determinadas circunstâncias, mas na convicção de que ela acabará liberando mais forças para o bem do que para o mal.
Segue-se, também, que a importância de termos liberdade de ação não está de modo algum relacionada com a perspectiva de nós, ou a maioria, estarmos, algum dia, em condições de utilizar tal possibilidade. Conceder apenas o grau de liberdade que todos têm a possibilidade de exercer significaria interpretar sua função de modo totalmente errado. A liberdade utilizada apenas por um homem entre um milhão pode ser mais importante para a sociedade e mais benéfica para a maioria do que qualquer grau de
liberdade que todos nós poderíamos desfrutar. 58
Poder-se-ia dizer até que, quanto menor a oportunidade de se fazer uso da liberdade para determinado fim, mais preciosa ela será para a sociedade como um todo. Quanto menor a oportunidade, tanto mais grave será perdê-la quando surgir, pois a experiência que oferece será quase única. Por outro lado, é provavelmente correto dizer que a maioria não se interessa diretamente senão por uma parcela mínima das coisas importantes que uma pessoa deveria ter liberdade de fazer. A liberdade é tão importante justamente porque não sabemos como os indivíduos a usarão. Se não fosse assim, também seria possível chegar aos resultados da liberdade se a maioria decidisse o que os indivíduos deveriam fazer. Mas a ação da maioria está necessariamente restrita ao que já foi testado e averiguado, a questões que já obtiveram o consenso no processo de análise que deve ser precedido por diferentes experiências e ações de indivíduos diferentes.
Os benefícios que a liberdade me concede são, assim, em grande parte, o resultado do uso que outros fazem dela e, principalmente, dos usos dos quais eu nunca me poderia valer. Por isso, o mais importante para mim não é necessariamente a liberdade que eu próprio posso exercer. É muito mais importante que alguém possa experimentar tudo, do que a possibilidade de todos fazerem as mesmas coisas. Não é porque gostamos de poder fazer determinadas coisas, nem porque consideramos algum tipo de liberdade essencial à nossa felicidade, que temos direito à liberdade. O instinto que nos faz reagir contra qualquer restrição física, embora seja um aliado útil, nem sempre representa padrão seguro para justificar ou delimitar a liberdade. O importante não é o tipo de liberdade que eu próprio gostaria de exercer e sim o tipo de liberdade de que alguém pode necessitar para beneficiar a sociedade. Só poderemos assegurar essa liberdade a uma pessoa desconhecida se a conferirmos a todos.
Os benefícios da liberdade não são, portanto, limitados aos homens livres - ou, pelo menos, um homem não se beneficia apenas daqueles aspectos da liberdade dos quais ele próprio tira vantagem. Não há dúvida de que, ao longo da história, maiorias não livres se beneficiaram com a existência de minorias livres e as sociedades não livres de hoje se beneficiam daquilo que podem obter e aprender de sociedades livres. Evidentemente, os benefícios que obtemos com a liberdade de outros tornam-se maiores na medida em que cresce o número daqueles que podem exercer a liberdade. A tese que justifica a liberdade para alguns aplica-se, portanto, à liberdade para todos. Mas é ainda melhor para todos que alguns sejam livres do que ninguém, e, também, bem melhor que muitos possam gozar de plena liberdade do que todos terem uma liberdade restrita. O mais significativo é que a importância da liberdade de agir de determinada maneira nada tem com o número de pessoas que querem agir assim: a proporção poderia ser inversa. Uma consequência disto é que uma sociedade pode ser agrilhoada por controles, embora a grande maioria possa não se dar conta de que a sua liberdade foi restringida de forma considerável. Se agíssemos a partir do pressuposto de que só é importante o uso que a maioria venha a fazer da liberdade, estaríamos criando uma sociedade estagnada com todas as características da falta de liberdade.
6. Liberdade de Pensamento e Liberdade de Ação As inovações imprevistas que aparecem constantemente ao longo do processo de adaptação consistirão, primeiramente, em novos arranjos ou modelos, em que se encontram coordenados os esforços de diferentes indivíduos, e em novas organizações para o uso de recursos, por natureza tão passageiras quanto as condições específicas que permitiram seu aparecimento. Haverá, em segundo lugar, modificações de instrumentos e de instituições, adaptadas às novas circunstâncias. Algumas delas serão também meras adaptações temporárias às condições do momento, enquanto outras constituirão melhoramentos que, por aumentar a versatilidade dos instrumentos e hábitos existentes, serão mantidos. Estes últimos representarão uma adaptação melhor, não apenas às circunstâncias específicas de tempo e espaço, mas a uma característica permanente do
nosso meio. Nestas “formações” espontâneas 59está incorporada uma percepção das leis gerais que governam a natureza. Esta incorporação cumulativa da experiência em instrumentos e formas de ação permitirá uma evolução do conhecimento explícito, de normas genéricas expressas que podem ser transmitidas pela linguagem de uma pessoa a outra.
Este processo de surgimento do novo pode ser melhor entendido na esfera intelectual quando seu resultado são idéias novas. Neste campo a maioria de nós percebe pelo menos alguns estágios individuais do processo; sabe necessariamente o que está ocorrendo e, por esta razão, em geral, reconhece a necessidade de liberdade. A maioria dos cientistas compreende que não podemos planejar o avanço do conhecimento, que na busca rumo ao desconhecido - e é isso que constitui a pesquisa - dependemos, em grande parte, dos caprichos dos gênios e das circunstâncias, e que o avanço científico, assim como uma idéia nova que surge na mente de um indivíduo, será a conseqüência de uma combinação de conceitos, hábitos e circunstâncias que a sociedade proporciona a um indivíduo, resultando tanto de acasos felizes quanto de um esforço sistemático.
Como percebemos mais facilmente que nossos avanços na esfera intelectual muitas vezes são fruto do imprevisto e do não planejado, somos levados a exagerar a importância da liberdade de pensamento e a ignorar a importância da liberdade de ação. Mas a liberdade de pesquisa e de opinião e a liberdade de expressão e discussão, cuja importância é plenamente compreendida, são significativas somente no último estágio do processo de descoberta de novas verdades. Enaltecer o valor da liberdade intelectual, em detrimento do valor da liberdade de ação, equivaleria a tomar o topo de um edifício como o todo. Novas idéias devem ser discutidas, diferentes pontos ajustados, porque estas idéias e pontos de vista surgem dos esforços, em circunstâncias sempre novas, de indivíduos que se valem, em suas tarefas concretas, dos novos instrumentos e formas de ação que eles assimilaram.
O aspecto não intelectual deste processo - a formação do meio ambiente material modificado, no qual o novo emerge - exige, para a sua compreensão e apreciação, um esforço de imaginação bem maior do que os fatores destacados pela perspectiva intelectualista. Embora às vezes possamos identificar os processos intelectuais que conduziram a uma idéia nova, provavelmente nunca poderíamos reconstituir a se-qüência e a combinação das contribuições que não levaram à áquisição do conhecimento explícito; provavelmente nunca poderíamos reconstituir os hábitos adequados e as aptidões que foram empregadas, os meios e as oportunidades utilizadas e o ambiente peculiar dos atores principais que permitiram aquele resultado. As nossas tentativas de compreender essa parte do processo não podem ir além de mostrar, em modelos simplificados, as forças que nele operam e de indicar o princípio geral e não o caráter específico das influências
que atuam no caso. 60 Os homens sempre se preocupam apenas com o que sabem. Portanto, as características que, durante o processo, não são conhecidas ao nível da consciência costumam ser ignoradas e provavelmente nunca podem ser identificadas em detalhe.
Na realidade, estas características inconscientes, além de geralmente desprezadas, muitas vezes são consideradas um obstáculo e não uma contribuição ou uma condição essencial. Porque não são “racionais”, no sentido de serem utilizadas em nosso raciocínio, freqüentemente são consideradas irracionais, contrárias à ação inteligente. Todavia, embora a maior parte dos elementos não racionais que afetam nossa ação possa ser irracional neste sentido, a maioria dos “meros hábitos” e “instituições sem sentido”, que usamos e pressupomos em nossas ações, representa condições,essenciais para a realização de nossos objetivos, constituindo formas de adaptação da sociedade que já demonstraram sua eficácia e utilidade, que estão sendo constantemente aperfeiçoadas e das quais depende a dimensão daquilo que podemos realizar. Embora seja importante descobrir suas falhas, nem por um momento poderíamos ir em frente sem confiar nelas constantemente.
A maneira pela qual aprendemos a organizar nosso dia, vestir-nos, comer, arrumar nossas casas, falar, escrever e utilizar outros incontáveis instrumentos e implementos da civilização, sem esquecer o know-how da produção e do comércio, dá-nos constantemente os fundamentos nos quais se devem basear nossas próprias contribuições ao processo de civilização. E, no novo uso e aperfeiçoamento dos instrumentos que nos são oferecidos pela civilização, surgem as novas idéias que serão empregadas finalmente na esfera intelectual. Embora o uso consciente do pensamento abstrato, uma vez iniciado, tenha até certo ponto uma vida própria, não poderia perdurar e desenvolver-se por muito tempo sem os desafios constantes que se apresentam, porque os indivíduos são capazes de agir de uma maneira nova, de experimentar outras maneiras de fazer as coisas e de mudar toda a estrutura da civilização, na tentativa de se adaptar à mudança. O processo intelectual é, com efeito, apenas um processo de elaboração, seleção e eliminação de idéias já formadas. E o fluxo de novas idéias nasce, em grande parte, da esfera na qual a ação, muitas vezes não racional, e acontecimentos materiais se influenciam reciprocamente. Este fluxo estancaria se a liberdade fosse confinada à esfera intelectual.
A importância da liberdade, portanto, não depende do caráter ele vado das atividades que torna possíveis. A liberdade de ação, mesmo nas coisas simples, é tão importante quanto a liberdade de pensamento. Tornou-se comum desmerecer a liberdade de ação apelidando-
a de “liberdade econômica”. 61Mas o conceito de liberdade de ação é muito mais amplo do que o de liberdade econômica, que aliás engloba; e, o que é mais importante, é extremamente duvidoso que haja ações que possam ser consideradas meramente “econômicas” e que as restrições à liberdade possam ficar limitadas aos chamados aspectos “econômicos”. Considerações econômicas são apenas aquelas pelas quais conciliamos e ajustamos nossos diferentes objetivos, nenhum dos quais, em última análise, é econômico (exceto os do avarento ou do homem para o qual ganhar dinheiro se tornou
um fim em si mesmo). 62
7. Liberdade e Mudanças na Escala de Valores
O que dissemos até agora se aplica, em grande parte, não apenas ao uso dos meios para a realização dos objetivos individuais, mas também a estes mesmos objetivos. Uma sociedade é livre, entre outras razões, porque as aspirações dos indivíduos não são
limitadas, 63uma vez que o esforço consciente de alguns indivíduos pode gerar novos objetivos, que posteriormente serão adotados pela maioria. Devemos reconhecer que mesmo o que agora consideramos bom ou bonito pode mudar - se não de uma forma perceptível que nos permita adotar uma posição relativista, pelo menos no sentido de que, em muitos aspectos, não sabemos o que será bom ou bonito para outra geração. Também não sabemos por que consideramos isto ou aquilo bom, nem quem está com a razão quando há divergência acerca do que é bom ou não. Não somente em termos do seu conhecimento, mas também em termos dos seus objetivos e valores, o homem é um produto da civilização; em última análise, é a importância destas aspirações individuais para a perpetuação do grupo ou da espécie que determinará se persistirão ou mudarão. Evidentemente, é um erro acreditar que podemos tirar conclusões acerca da qualidade dos nossos valores apenas porque compreendemos que são produto da evolução. Mas dificilmente poderiamos duvidar que estes valores são criados e alterados pelas mesmas forças evolutivas que produziram nossa inteligência. Nós podemos apenas saber que a decisão final a respeito do que é bom ou ruim não caberá à sabedoria de indivíduos, mas à decadência dos grupos que adotaram idéias “erradas”.
É na busca dos objetivos que o homem se propõe em determinado momento que podemos comprovar se os instrumentos da civilização são adequados; os ineficazes serão abandonados e os eficientes mantidos. Mas não se trata apenas do fato de que, com a satisfação de necessidades antigas e com o aparecimento de novas oportunidades, surgem constantemente novas finalidades. O sucesso e a perpetuação deste ou daquele indivíduo ou grupo dependem tanto dos objetivos por eles perseguidos, dos valores que governam suas ações, como dos instrumentos . e da capacidade de que dispõem. A prosperidade ou extinção de um grupo dependerá tanto do código de ética ao qual obedece, ou dos ideais.de beleza e felicidade a que se atém, como do grau em que aprendeu, ou não, a satisfazer suas necessidades materiais. Em qualquer sociedade, certos grupos podem ascender ou declinar de acordo com as metas que perseguem e os padrões de conduta que observam. E as metas do grupo que teve êxito tenderão a ser adotadas pelos demais membros da sociedade.
Na melhor das hipóteses, podemos entender somente em parte a razão pela qual os valores que defendemos ou as normas éticas que observamos contribuem para a perpetuação da nossa sociedade. E nem podemos ter certeza de que, em condições de mudança constante, todas as normas que, comprovadamente, contribuem para a consecução de um determinado fim continuarão desempenhando esta função. Embora se costume supor que todo padrão social estabelecido contribui, de certa forma, para preservar a civilização, o único meio de confirmá-lo será averiguar se, concorrendo com os padrões adotados por outros grupos ou indivíduos, ele continua a se mostrar adequado.
8. Organização e Concorrência
A concorrência, na qual se baseia o processo de seleção, deve ser entendida no seu mais amplo sentido. Ela implica não apenas a concorrência entre indivíduos como também a concorrência entre grupos organizados e não organizados. Encará-la como algo que se contrapõe a cooperação ou a organização seria interpretar incorretamente sua natureza. O esforço para conseguir certos resultados mediante a cooperação e a organização ê tão inerente à concorrência quanto os esforços individuais. As relações de grupos que melhor atendem a determinada necessidade também revelam sua eficácia na concorrência entre grupos organizados de modo diferente. A distinção relevante não está entre a ação individual e a ação de grupo mas, por um lado, entre as condições em que seja possível experimentar alternativas, baseadas em diferentes pontos de vista ou métodos, e, por outro lado, as condições nas quais um organismo detém o direito exclusivo e o poder de impedir que outros participem. Somente quando tais direitos exclusivos são conferidos na pressuposição de que certos indivíduos ou grupos possuem conhecimento superior, o processo deixa de ser experimental e as convicções que prevalecem em dado momento podem tornar-se um obstáculo ao progresso do conhecimento.
Defender a liberdade não significa opor-se à organização, que constitui um dos meios mais poderosos que a razão humana pode empregar, mas opor-se a toda organização exclusivista, privilegiada ou monopólica, ao emprego da coerção para impedir que outros tentem apresentar melhores soluções. Toda organização baseia-se em certos conhecimentos; organização significa dedicação a um objetivo específico e a métodos específicos, mas até a organização destinada a aumentar o conhecimento só será eficiente na medida em que o conhecimento e as convicções nas quais seu plano se baseia forem verdadeiros. E, se qualquer fato vier a contradizer as convicções nas quais está alicerçada a estrutura da organização, isto só se tornará evidente se ela fracassar e for suplantada por outro tipo de organização. A organização, por este motivo, poderá ser benéfica e eficiente enquanto for voluntária e se der em uma esfera livre, e terá de se ajustar a circunstâncias que não foram consideradas em sua concepção, ou então fracassar. Transformar toda a sociedade em uma única organização, criada e dirigida conforme um único plano, equivaleria a extinguir as próprias forças que formaram as mentes humanas que a planejaram.
Vale a pena parar por um momento e analisar o que aconteceria se fosse empregado em todas as ações somente aquilo que o consenso geral considerasse o conhecimento mais avançado. Se fossem proibidas todas as tentativas que parecessem supérfluas à luz do conhecimento aceito pela maioria, e se se indagasse apenas a respeito das coisas consideradas significativas pela opinião dominante ou se realizassem apenas as experiências ditadas por esta opinião, a humanidade chegaria talvez a um ponto em que seu conhecimento permitiria prever as conseqüên-cias de todas as ações comuns e evitar todas as desilusões ou fracassos. Então, aparentemente, o homem teria sujeitado seu ambiente à sua razão, pois somente empreenderia aquelas tarefas cujos resultados fossem totalmente previsíveis. Poderíamos imaginar que a civilização teria deixado de evoluir, não por se terem esgotado as possibilidades de um crescimento futuro, mas porque o homem teria conseguido sujeitar tão completamente todas as suas ações e o meio ambiente imediato ao seu nível de conhecimento, que novos conhecimentos não teriam qualquer oportunidade de surgir.
9. O Racionalismo e as Limitações da Razão
O racionalista que deseja sujeitar tudo à razão humana encontra-se, assim, diante de um verdadeiro dilema. O uso da razão visa ao controle e à possibilidade de previsão. Mas o processo evolutivo da razão baseia-se na liberdade e na imprevisibilidade da ação humana. Aqueles que exaltam os poderes da razão humana normalmente vêem apenas um lado da interação do pensamento e da conduta, na qual a razão atua na prática e, ao mesmo tempo, é modificada por esta prática. Eles não percebem que, para haver progresso, o processo social que possibilita a evolução da razão deve permanecer livre do seu controle.
Resta pouca dúvida de que o homem deve parte de seus maiores sucessos ao fato de não ter sido capaz de controlar a vida social. Seu avanço contínuo provavelmente dependerá de sua renúncia deliberada aos controles que agora estão em seu poder. No passado, as forças evolutivas espontâneas, embora muito limitadas pela coerção organizada do Estado, ainda podiam afirmar-se contra este poder. Dados os meios tecnológicos de controle hoje à disposição do governo, talvez já não seja possível afirmar isso; de qualquer forma, em breve poderá tornar-se impossível. Não estamos longe do momento em que as forças deliberadamente organizadas da sociedade poderão destruir as forças espontâneas que tornaram possível o progresso.