Os Fundamentos da Liberdade
Capítulo 55
Cf. W. A. Lewis, The Theory of Economic Growth (Londres, 1955), página 148: “Esses inovadores são sempre uma minoria. As novas idéias são postas em prática inicialmente por uma ou duas ou bem poucas pessoas, seja no caso de inovações no campo da tecnologia, seja no de novas formas de organização, novas mercadorias ou outras novidades. Essas idéias podem ser aceitas rapidamente pelos demais indivíduos. O mais provável é que sejam recebidas com ceticismo e desconfiança, a princípio, abrindo lentamente seu caminho, quando isto é possível. Na medida em que as novas idéias começam a se afirmar, as pessoas passam a aceitá-las. Assim, costuma-se dizer que mudança é função de uma elite ou que as dimensões da mudança dependem do nível de liderança numa comunidade. Isto é verdadeiro quando significa, unicamente, que a maioria das pessoas não é inovadora, mas apenas imita as outras. Todavia, é de certa forma falso quando pretende expressar que certa classe ou grupo de indivíduos produz todas as idéias novas”. Também página 172: “O julgamento coletivo das idéias nòvas é errado na maioria das vezes, a ponto de ser discutível afirmar que o progresso depende da liberdade dos indivíduos de sustentar suas próprias opiniões, apesar da desaprovação coletiva. (...) A concessão de um monopólio de decisões a um comitê governamental teria as desvantagens dos dois métodos”.
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Um dos poucos autores que perceberam com clareza pelo menos uma parte desse problema foi F. W. Maitland. Ele enfatizou (Collected Papers [Cambridge: Cambridge University Press, 1911], I, página 107) que “o argumento mais poderoso é aquele que aponta a ignorância, a inevitável ignorância, dos nossos governantes”. Ver também B. E. Kline e N. H. Martin, “Freedom, Authority and Decentralization” , Harvard Business Review, XXXVI (1958), particularmente a página 70: “A característica principal da hierarquia de comando, ou de qualquer grupo da nossa sociedade, não é o conhecimento mas a ignorância. De fato, qualquer pessoa pode conhecer apenas uma fração do que ocorre ao seu redor. Grande parte daquilo que essa pessoa conhece ou crê será falso, e não verdadeiro.(...) Em qualquer momento, o que desconhecemos é muito maior do que aquilo que conhecemos, tanto no caso de uma pessoa que se encontra em uma posição de comando, quanto no caso de toda a organização. Parece possível, então, que ao nos organizarmos em uma ordem hierárquica, a fim de aumentar a eficiência, poderemos estar, na realidade, institucionalizando a ignorância. Embora façamos uso melhor daquilo que poucos conhecem, estamos garantindo que a grande maioria seja impedida de explorar as áreas que estão além do nosso conhecimento”.
Em um aspecto importante, o termo “ignorância” é, de certa forma, muito limitado para os nossos propósitos. Existem ocasiões em que seria preferível falar em “incerteza”, ao nos referirmos à ignorância em torno do que é certo, pois é duvidoso que possamos falar logicamente a respeito do que é certo, se ninguém sabe o que é certo no contexto concreto. Em tais casos, pode ocorrer que a moral existente não ofereça respostas a um problema, embora possa haver alguma resposta que, se conhecida e amplamente aceita, sem dúvida seria de muito valor. Muito devo a Pierre F. Goodrich, cujas observações, durante uma discussão, me ajudaram a esclarecer esse ponto importante para mim, embora não esteja convencido de que devo, em termos gerais, falar em “imperfeição” quando pretendo referir-me a ignorância.