Inspiração
Capítulo 7
Layla
Ele m ordia o m eu pescoço e eu m e contorcia em seus braços.
Sentia seu corpo quente j unto ao m eu, sua respiração queim ava por onde passava. Seus m úsculos rígidos m e deixavam em êxtase total. Estava m e afogando em seus olhos azuis.
Ele m e puxou pela cintura, nos encaixando perfeitam ente. Eu j á
estava perdida em sensações. Sua voz rouca m e levou até a borda:
— Você tam bém sonha com igo, anj o?
Abri m eus olhos subitam ente. Droga, era um sonho! Mas que
porcaria, não conseguia tirá-lo da cabeça nem pra dorm ir!
Eu estava num estado deplorável de necessidade. Meu corpo
latej ava, ainda podia sentir suas m ãos pelo m eu corpo, passeando com o se tivesse liberdade total.
Com um gem ido frustrado, afastei as cobertas e levantei
em burrada, pressentia um dia chato e irritante. Fui direto ao banheiro, espantar m inha excitação em ebulição. Me enfiei debaixo do chuveiro e tom ei um banho gelado. Mas que droga, estava parecendo um a adolescente na puberdade.
Na verdade, nem adolescente eu fui, pois não tinha tem po. Devia
ser por causa disso que sentia esse desej o desenfreado agora, ele estava atrasado. Então um pensam ento m e acom eteu, eu iria ver o Bruno no dom ingo e, nesse estado que m e encontrava, seria bem capaz de m e j ogar em cim a dele com tudo, sim plesm ente hum ilhante. Porém m eu corpo dem onstrava outras ideias, só de m e lem brar daquele sorriso cínico m eu sexo latej ava em antecipação.
Droga!
Resolvi usar o sábado para relaxar e arrum ar algum as coisas, j á
que não tinha m uito que fazer, visto que o Lucas tinha aula o dia todo. Eu estava de folga do trabalho no escritório, m inha apresentação com eçava às dezenove horas, tinha bastante tem po para m im m esm a. O que há m uito não acontecia.
Depois de arrum ar a bagunça na cozinha, fui para o quarto, m eu
arm ário há tem pos não via um a boa organização. Vasculhando algum as caixas, peguei um álbum de fotos antigo e engoli em seco, pois sabia o que havia ali. Tentava m antê-lo longe da m inha vista o m áxim o possível, m as no fundo com preendia que estava sendo um a covarde.
Tom ando coragem , apertei o álbum contra o peito e sentei na
cam a. Apoiei-o em m eu colo e o abri. Na prim eira foto m eu coração quase parou, era um retrato do casam ento dos m eus pais. Pareciam tão felizes! Mam ãe j á estava grávida na época, eles disseram que foi a surpresa m ais m aravilhosa de suas vidas. Eu poderia im aginar só pela alegria que dem onstravam em seus rostos.
Virando a página, tinha um a foto m inha com o m eu pai, quando eu
era criança. Já estava dando m eus prim eiros passos na m úsica, papai tinha um violão pequeno nas m ãos e eu dedilhava, encantada. Lágrim as silenciosas deslizaram pelo m eu rosto enquanto a saudade apertava m eu peito ao ponto de doer.
A próxim a foto era um a com a m inha m ãe e o Lucas pequeno,
devia ter uns três anos, m e recordava bem quando m eu pai tirou. Estávam os tão felizes, m eu irm ão encantava a todos ao redor. Tinha um rostinho angelical e todo educadinho, eu o am ei desde que deram a notícia de que m am ãe estava grávida. Ela tinha um sorriso lindo nas fotos, não conseguia m e lem brar do seu últim o sorriso. Lutou tanto nos seus últim os anos de vida — após papai falecer —, que sua personalidade sum iu totalm ente. Parecia que perder o am or de sua vida sugou toda sua vontade de viver, som ente existia.
Acho que quando finalm ente ela partiu não foi um grande choque,
claro que sentim os m uito a sua falta, contudo m inha m ãe m orreu j unto com o m eu pai, só ficando um a casca. O am or deles era lindo de se ver, aquele com panheirism o m útuo, eram verdadeiras alm as gêm eas. Pode até soar clichê, m as não havia definição m elhor para eles. E só o que restou da nossa fam ília se resum ia a Lucas e eu.
Percebi que estava chorando desesperada quando ouvi um soluço
sufocado. Não chorava há m uito tem po, tinha que m e m anter forte para o m eu irm ão e acabei m e acostum ando. Meu coração doía e um a saudade asfixiante com prim ia m inha alm a. Não m e perm itia sentir dem ais, tinha m uita responsabilidade, m eu irm ão dependia de m im sã. Nunca poderia fraquej ar. Meus olhos transbordavam no que m eu peito estava cheio.
Escutei um barulho na porta e vi Lucas parado lá, com um a
expressão confusa. Baixou o olhar até o m eu colo e seu rosto bonito se contorceu num a careta triste. Ele se aproxim ou e sentou ao m eu lado, enlaçou m eu om bro com um braço e beij ou a m inha testa.
— Tá na hora de deixar alguém cuidar de você, Lala.
Observei-o com cuidado; ele cresceu e se transform ou num lindo
hom em , m as eu ainda não conseguia tirar da cabeça que era um m enininho assustado. Por isso tanto cuidado em protegê-lo. Enxuguei as lágrim as do m eu rosto com os dedos.
— Estou bem , Lucas. Não se preocupe.
Fechei o álbum e m e levantei para guardá-lo. Não gostava que
presenciasse m om entos de fraqueza da m inha parte. Quando m e virei, ele estava m e olhando, irritado.
— Lay la, eu j á sou adulto. Você não precisa m ais ser forte por
m im . Eu te am o e quero o seu m elhor. Não acha que está na hora de ter alguém cuidando de você, para variar?
— Eu não preciso de ninguém — dizendo isso, m e virei e o deixei
sozinho no quarto. Mas que m entira m ais deslavada! Eu queria alguém para m im , só não tinha coragem de adm itir.
***
Acordei cedo no dom ingo. Com toda a agitação que iria ter
naquele dia, tinha que m e organizar para não surtar com o um a louca. Estava fazendo o café e resm ungando com igo m esm a passo a passo do nosso itinerário, quando Lucas entrou todo am arrotado de sono.
— Ei, Lala. Levantou cedo. O que foi? — Aproxim ou-se e m e deu
um beij o no rosto.
— Nada, precisava pensar no dia. E você? Tá de folga da
faculdade e não dorm iu m uito.
— Não consigo acordar tarde, você sabe... Já m e acostum ei.
Balancei a cabeça concordando, ele sem pre foi assim , desde o
m aternal. Se acostum asse a acordar num horário, não im portava se era feriado ou final de sem ana, repetia com o um relógio.
— Senta aí, o café tá quentinho, tem torrada no pote e m anteiga na
geladeira. — Ele se virou e pegou as coisas para se sentar.
— Então, o que vam os fazer hoj e? — Lucas tinha um a curiosidade
nata, era de fam ília. Não conseguíam os fazer nada sem planej ar todos os detalhes.
— Pensei em ir alm oçar fora, depois pegar um cinem a. À noite
tenho apresentação no Beer, então se você quiser vir para casa, sem problem as.
Ele negou, bebericando o café.
— Não, eu vou com você. Quem sabe a gente não faz um dueto?
— O quê? Faz tem po que você não canta. Tem certeza? — Meu
irm ão cantava tão bem quanto eu, além do fato de tocar piano lindam ente, m as não gostava m uito de se apresentar em público, foram poucas as vezes que tive o prazer de realizar um dueto com ele.
— Sim , estava querendo fazer isso há algum tem po. Era um a coisa
que gostávam os, lem bra?
Eu m e lem brava. Lucas era m ais solto quando adolescente. Não
tinha preocupação com nada — eu tom ava conta de tudo —, então m eu irm ão relaxava deixando seu talento fluir. As m inhas m elhores apresentações foram com ele. Quando ficou m ais velho parecia se ressentir de algo e ficou m ais travado.
Depois de m uita conversa, fom os nos arrum ar para o alm oço.
Escolhi um restaurante fam iliar que ficava perto do cinem a, assim não teríam os que andar m uito. Um a com idinha caseira que não foi feita por m im era o que eu m ais precisava, não ter que enfrentar o fogão era um a fuga que gostava às vezes. Fiquei observando Lucas e resolvi m e introm eter um pouco na sua vida, afinal sem pre fom os m elhores am igos antes de qualquer coisa.
— Lucas, por que você não tem um a nam orada?
Ele franziu a testa e term inou de beber seu refrigerante.
— Por que você está m e perguntando isso agora? — Estava
surpreendido e divertido com m inha súbita curiosidade.
— Nada dem ais. — Dei de om bros. — Só que você é um cara
bonito, educado, gentil, deve ter um m onte de m eninas correndo atrás de você.
Ele sorriu, envergonhado. Seu rosto realm ente corou num
verm elho forte.
— Lala, é estranho falar disso com você, m as para que fique
sabendo, as m eninas que “correm ” atrás de m im não são exatam ente o que eu procuro.
— Com o assim ?
Ele torceu a boca num a careta.
— Bem , j á que você quer m esm o saber... Ainda não achei a
pessoa certa, não encontrei alguém que fizesse m eu coração acelerar e m inhas m ãos suarem . E pode parar de fazer essa cara de espanto, eu tam bém sonho em am ar e ser am ado. Só não tenho tido sorte nesse departam ento.
— Entendo o que você quer dizer. — Sorte era um a coisa que não acontecia frequentem ente em nossas vidas.
Ficam os em silêncio por um tem po, depois Lucas m e contou sobre
a faculdade. Ele estava adorando e tinha acertado em cheio por ter escolhido a m edicina, não via a hora de com eçar a residência, que ainda ia dem orar alguns anos. Eu só poderia ficar anim ada com tudo, a felicidade desse m enino sem pre foi a m inha própria.
Fom os ao cinem a e nos divertim os bastante. Nós tínham os gostos
praticam ente iguais, então fom os de desenho anim ado. Eu adorava. Sem pre chorava no final, era um a boba.
A cam inho do Beer, com binam os a m úsica que iríam os cantar. Eu
era m ais para MPB, m as Lucas adorava um a balada internacional. Então deixei que escolhesse, disse que ia m e fazer um a surpresa. Só m e restava esperar pra ver o que ele iria aprontar.
Não foi de adm irar que o bar estivesse lotado, os dias de m ais
m ovim ento eram sexta e dom ingo. Era bem legal com partilhar esse pedacinho da m inha vida com o m eu irm ão.
Denunciando m inha ansiedade, não pude evitar que m eu olhar
vagasse pelas m esas. Bruno disse que viria para com binarm os de sair, m as eu ainda tinha m inhas dúvidas. Não o encontrei em lugar algum , fiquei instantaneam ente decepcionada. Bem contraditórios m eus sentim entos, em um m om ento estava eufórica com nosso encontro, em outro queria distância pelo tanto que m exia com igo. Ficava totalm ente confusa com qualquer coisa que fosse relacionada a ele.
Disse ao Lucas que ia m e trocar e m e virei na direção do
cam arim , trom bando em um peito m usculoso coberto por um a cam isa preta. Reconheci-o pelo cheiro, o hom em era m uito perfum ado.
Olhei para cim a e encontrei os olhos azuis que m e enlouqueciam .
Maldição, o cara era m uito gostoso!
— Oi, anj o. Estava m e procurando?
— Lá vem você com sua arrogância! Claro que não. Estava indo
m e trocar.
Ele sorriu e se inclinou perto do m eu ouvido.
— Se precisar de aj uda, estou aqui. Ok?
E a im agem de nós dois no cam arim m e acom eteu. Ele deu um a
risada gostosa e olhou em m eus olhos, sabia exatam ente o que eu estava pensando.
— Te espero no bar... Quando estiver no seu intervalo, vem falar
com igo.
— E por que eu deveria? — Sabia que estava fazendo doce, m as
não podia evitar, provocá-lo era m uito bom .
— Porque você sabe que vam os ser m uito bons j untos.
Apertou m inha bochecha, sorriu e foi em direção ao bar. Segui-o
com o olhar e vi quando parou ao lado de um a m enina j ovem . Acariciou seu rosto e deu de om bros para algum a coisa que a garota havia dito, ela fez um a cara engraçada e deu um tapa em seu braço. Com o ele podia estar com alguém e vir flertar com igo?
Babaca! Fique esperando, querido.
Saí pisando duro e fui m e trocar, pois o m eu irm ão j á devia estar desconfiado com toda aquela cena.
E o pior era que a m inha raiva só tinha um a explicação: ciúm es!