Inspiração

Gisele Souza · Capítulo 19 de 46

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Inspiração

Capítulo 16

 

Bruno

 

As horas pareciam se arrastar. Era im pressionante, toda vez que

tinha um plantão prolongado o hospital ficava um caos. Havia gente por todo o lado, eu estava há doze horas sem descanso. Dei até um a m ãozinha na clínica. Muitos acidentes, cirurgias de em ergência... Eu estava exausto. Olhei no relógio, e estava na hora de dar um a pausa, tinha duas horas antes de voltar à ativa.

A cam inho da sala para m eu intervalo — m ais do que m erecido

—, quase trom bei com um a das enferm eiras da UTI. Tivem os um rolo há alguns m eses e ela ficava no m eu pé querendo m ais. Por este m otivo, evitava relacionam entos dentro do hospital, porém às vezes era im possível.

No caso daquela enferm eira não tive escapatória, ela se atirou em

m im num desses plantões prolongados e não m e deu chance de rej eitar — não que na época tenha ficado indignado com seu “ataque” —, m as agora não era confortável o j eito com o m e olhava.

— Ora, ora. Se não é o doutor Bruno “garanhão”. Está indo para o

intervalo?

Que m erda!

— Estou sim . Foram doze horas, direto. Estou cansado.

Ela colocou o dedo na boca, m e olhando descaradam ente. Franzi o

cenho. Há algum tem po um a atitude daquela m e colocaria em alerta de excitação. Estaria pronto para atacar. Mas agora era m eio ridículo esse dedo na boca, m uito infantil para o m eu gosto.

— Tam bém entrei na m inha pausa. Posso te fazer com panhia?

Eu teria aceitado num piscar de olhos, ela era boa de cam a. Mas

eu não queria m ais, tinha um a m ulher na m inha vida. Estava em m eu prim eiro relacionam ento sério e eu não ia estragar fodendo num quartinho qualquer.

— Sinto m uito, querida. Estou cansado, vou ficar sozinho. Dá

licença.

Ela ficou chocada. Eu tinha um a porcaria de fam a, que na m aioria

dos casos era exagerada. Levava m eu trabalho m uito a sério, não gostava de sair m e relacionando dentro do hospital. Não que todas as enferm eiras fossem fáceis, m as com o em todo lugar, havia as que não tinham nenhum problem a em tirar a calcinha em qualquer am biente.

Estava quase chegando até a porta da sala quando vi Alberto vindo

em m inha direção. Ele tinha a diversão estam pada em seu rosto. Já sabia que dali não vinha boa coisa.

— Então, eu soube que o “garanhão” negou a enferm eira gostosa

da UTI.

Poxa, as notícias corriam rápido nesse hospital! Pelo j eito ele viu a

ceninha no corredor.

— É, não estava interessado.

Ele franziu a testa, surpreso.

— Você caiu m esm o pela cantora? Não quer m ais ninguém ? —

Levantou um a sobrancelha, sarcástico.

— Cara, deixa de ser enxerido. Eu estou num relacionam ento com

a Lay la. Não preciso estragar tudo com um a rapidinha qualquer.

Ele com prim iu os lábios, segurando um sorriso.

— Você sabe que aqui não tem m uitas enferm eiras dispostas, né?

A m aioria só vem trabalhar, e as que gostam de um “rala e rola” você está dispensando. Com o vai ficar depois que você cansar da cantora?

— E quem disse que vou m e cansar dela, seu idiota? Nunca

conheci alguém com o a Lay la. A m ulher é incrível! — Será que era tão difícil para ele entender?

Alberto arregalou os olhos, abism ado.

— Você tá dizendo que ela é “a certa”?

Era isso que eu estava dizendo? Por m ais que eu insistisse em não

pensar m uito sobre tudo, ainda assim não podia im aginar alguém m elhor para m e relacionar do que m eu anj o.

— Não sei. Vam os viver um dia após o outro, m as se eu sei

algum a coisa sobre relacionam entos é que exige fidelidade. Coisa que você não sabe o que é.

Seu sem blante se fechou, e ele se aproxim ou, m e encarando

chateado.

— Com o assim ? O que ela te disse?

— Quem cara? Só estou dizendo isso por você estar m e

questionando sobre foder ou não com outra pessoa.

Ele respirou fundo e balançou a cabeça, m as eu pude perceber

que ficou m exido com m inha declaração.

— Agora eu vou descansar, tem m ais um a m aratona pela frente.

Você term ina hoj e o plantão?

— Sim , saio em três horas. Boa sorte com a sua cantora, Bruno.

Ele andou com os om bros arriados e olhando para o chão. O que

quer que tenha acontecido em seu passado, aquilo o m achucava profundam ente. Seu sorriso descontraído não m e enganava. Alberto era um cara triste e solitário.

Entrei na sala para, enfim , descansar. Peguei no arm ário o m eu

celular, j á eram um a e m eia da m adrugada e Lay la devia estar em casa. Disquei ansiosam ente o telefone que havia gravado, soou três vezes antes de ela atender:

— Alô — sua voz sonolenta era um bálsam o para os m eus ouvidos.

— Olá, m eu anj o. Com o passou a noite?

— Bruno? Aconteceu algum a coisa? — Escutei um farfalhar de

cobertas sendo afastadas.

— Não, só queria ouvir a sua voz. Você j á estava dorm indo?

Ela suspirou.

— Sim , term inei no bar m ais cedo. Não estava m e sentindo bem .

Em pertiguei-m e, preocupado. Não podia pensar em m eu anj o

passando m al sozinha.

— O que foi? Está com algum a dor? Corre pra cá que eu te

exam ino.

Pude ouvir sua risadinha baixa.

— Calm a, doutor. Estou bem fisicam ente, só com a cabeça cheia.

— Hum , e tem algum a coisa a ver com a gente?

— Não. Está tudo bem neste departam ento.

Respirei aliviado, não percebi que estava tão tenso até ter a

confirm ação que não tinha nada a incom odando com relação a nós dois.

— Ok, Anj o. Vou deixar você dorm ir. Não vej o a hora de te ver,

estou com saudades.

Lay la ficou um pouco em silêncio, até pensei que tinha dorm ido

ao telefone.

— Eu tam bém estou com saudades. Beij o. — Desligou.

Estranhei sua atitude, Lay la estava diferente. Parecia tensa e

preocupada. Porém era norm al este tipo de sentim ento, ela estava em constante inquietação.

Ainda com o telefone na m ão, percebi que tinha um a m ensagem

de texto da m inha m ãe.

“Querido, fiquei sabendo pelas suas irmãs que você está

namorando. Por que não disse pra mim? Quero conhecer essa garota, ela deve ser incrível para você deixar essa atitude de mulherengo. Vou fazer um almoço no domingo e quero que você a traga. Sem desculpas!”

Agora, sim , eu estava ferrado. Quando a m inha m ãe e as m inhas

irm ãs colocassem os olhos sobre Lay la, iriam exigir logo que a pedisse em casam ento.

Só o pensam ento m e dava um arrepio na espinha. Sem pre fui um

m ulherengo assum ido. Acho que, para com pensar os anos estudando, extravasei quando a faculdade term inou. Minha m ãe ficava louca com igo, dizia que a vida de pegador era m uito solitária — eu concordava em parte —, m as eu não tinha encontrado nenhum a m ulher que valesse a pena m e prender.

Lay la era tudo o que um a m ãe podia sonhar para seu filho. Doce,

linda, gentil, educada, responsável e vários outros adj etivos que poderia enum erar eternam ente. Sorri ao im aginar com o ela ficaria quando se reunisse com a m inha fam ília. Éram os tão loucos e barulhentos que Lay la ficaria desesperada para fugir em dez segundos. Minha m ãe era daquelas que adotam todos com o seus filhos, era um pouco sufocante, na verdade.

Pensando bem , seria bom para o m eu anj o ter um a figura tão

m aternal. Tom ou com o filho seu irm ão com apenas doze anos. Não devia ter m uita noção do que era ser perseguida pelo am or de m ãe.

Resolvi descansar, tinha dois dias de trabalho antes da folga. E eu

iria passar todo o m eu tem po livre ao lado da m ulher que estava bagunçando com a m inha cabeça.

Fechei os olhos para sonhar com m eu lindo anj o de olhos verdes.