Inspiração

Gisele Souza · Capítulo 33 de 46

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Inspiração

Capítulo 30

 

Bruno

 

Tinha um sorriso no rosto desde a hora que recebi o SMS da Lay la.

Ela dizia que estava louca para provar o crem e de chocolate em m im , não via a hora de lam ber cada pedacinho do m eu corpo. Já estava ansioso para que chegasse à noite e a encontrasse em casa. E essa perspectiva m e deixou com a adrenalina elevada.

Fui cham ado na em ergência para atender um a paciente que teve

um colapso nervoso no shopping e desm aiou. Quando cheguei à sala, um dos m édicos m e olhou agradecido, j á que eles estavam sem pessoal e precisavam de toda a aj uda possível. Eu nunca m e im portei em auxiliar.

— Qual o prognóstico, Sandro?

— Parece que a garota teve o ataque no m eio de um shopping,

algum as pessoas viram e disseram que ela saiu de um a loj a chorando. Estava soluçando alto e parecia nem perceber, e do nada ela caiu e apagou. Cham aram a am bulância e ela despertou enlouquecida porque iriam trazê-la para o hospital, disse que queria ir pra casa e ninguém ia obrigá-la a vir. Eles a sedaram por m edo de outro colapso. Ah, e ela bateu a cabeça na queda, tem que fazer um a checagem . Por favor, quebra esse galho pra m im ? Vai chegar pacientes com traum as de acidentes e eu tenho que ver.

— Claro, sem problem as vou verificar a paciente.

Ele se afastou e eu fui pro lado de fora aguardar a am bulância.

Podia ouvir a sirene de longe. O problem a de fazer os “bicos” ao redor nas áreas do hospital era que tom ava m eu tem po, poderia m e atrasar para chegar em casa e ver m eu anj o. Mas era um a boa causa, eu não recusava quando alguém precisava de m im .

A am bulância estacionou e m e posicionei ao lado para verificar

em prim eiro m om ento os sinais vitais, os param édicos saltaram puxando a m aca com ele. Tive um vislum bre de um cabelo castanho que eu conhecia m uito bem , e quando vi seu rosto m eu coração parou. Fiquei sem reação por um m inuto, não podia acreditar que era Lay la quem teve o colapso nervoso.

Sacudi a cabeça saindo do transe, com os param édicos cham ando

para que m e aproxim asse. Corri e parei ao seu lado.

— Com o estão os sinais vitais? — Aj udei a em purrar a m aca pra

sala de em ergência, assim seria m ais rápido o atendim ento.

— Ela está bem doutor, até j á acordou. Queria ir pra casa e se

desesperou. Ficam os com m edo que tivesse outro colapso, então a sedam os. Está com um galo no lado direito da cabeça, quando ela caiu no chão bateu forte. Mas não creio que tenha concussão.

— Ok, obrigado. Podem voltar ao trabalho — tentei soar o m ais

profissional possível.

Quando eles saíram deixei transparecer m eu desespero de ver

m eu anj o ali naquela m aca desacordada, se eles descobrissem que era m inha nam orada iriam tirá-la dos m eus cuidados — por estar envolvido em ocionalm ente — e eu não perm itiria. Naquele caso especifico só confiava em m im m esm o.

Verifiquei tudo e ela estava bem , apliquei um rem édio para dor de

cabeça em seu soro. Mas não havia nenhum sinal que havia ocorrido algo sério, com o um a concussão. Mas o que estava m e incom odando era o que a fez ter um colapso no m eio do shopping. Eu sabia que tinha m uito estresse em sua vida, m uita preocupação. Poderia ser que a m ente não aguentou, e era um dos m eios que o corpo pedia aj uda.

Iria dem orar m ais ou m enos m eia hora para que ela despertasse,

resolvi avisar que não atenderia m ais ninguém , não arredaria o pé do seu lado até que ela acordasse e eu tivesse certeza que estava bem .

Eu sabia que ela não corria nenhum risco, m as era m uito ruim vê-

la daquele j eito. Agora entendia o que os fam iliares dos pacientes sentiam quando seus entes queridos estavam adoentados. Nunca m e senti tão oprim ido e im potente na vida.

Depois de quase vinte e cinco m inutos contados em aflição, Lay la

com eçou a despertar, prim eiram ente abriu os olhos confusa. Varreu o olhar pelo quarto com a testa franzida e os lábios com prim idos. Levantei-m e e m e aproxim ei da cam a. Tinha transferido ela para um quarto particular, queria privacidade para que pudesse ficar esperando-a acordar.

Quando ela m e viu, seu rosto congelou num a expressão de m uita

tristeza e dor. Não entendi de onde vinha aquilo, ela fechou os olhos e lágrim as correram por seu rosto bonito.

— O que foi, anj o? O que aconteceu com você?

— Fica longe de m im — pediu num fio de voz.

Franzi a testa, confuso. Por que eu deveria m e afastar? Estava

preocupado. Tentei segurar sua m ão, m as ela puxou se apartando. Não queria olhar em m eus olhos.

— Por que, Lay la? O que está acontecendo?

Ela com prim iu os lábios e balançou a cabeça.

— Eu quero ir em bora. Não posso ficar perto de você.

Estava cada vez m ais com plicado para eu entender, tivem os um a

noite m aravilhosa. Só queria estar ao seu lado, estava preocupado. E não podia ficar perto de m im ?

— Com o assim ? Eu não fiz nada, não estou entendendo...

Ela virou subitam ente em m inha direção com os olhos flam ej antes

de raiva.

— Não fez? O que m e diz do vestiário?

Lay la devia ter batido a cabeça m uito forte, eu deveria fazer um

check-up novam ente pra conferir se estava realm ente bem . Ela não estava sendo coerente. Que história era essa agora?

— Não sei do que você está falando.

— Eu encontrei um a am iga sua de profissão, ela nem sabia que

éram os nam orados. Foi falando das peripécias do que fizeram no vestiário ontem à tarde. Porra, Bruno! Com o você teve coragem ? Depois ainda foi pra m inha casa... Nós transam os! E antes disso você estava fodendo m édicas por aí? Pelo m enos usou cam isinha?

Merda, Andressa. Mas não era nada daquilo, eu rej eitei a vadia.

Ela disse que iria ter volta, que não deixaria assim . Devia ter dado m ais atenção, pessoas loucas não tem m uita noção. Atingiu diretam ente no m eu calcanhar de Aquiles. Mexer com m eu anj o foi seu m aior erro.

— Eu não fiz nada disso, Lay la. Ela m entiu pra você.

Lay la endureceu o corpo e se sentou, parecia não estar nada

confortável com tudo aquilo. Na verdade, eu estava um pouco chateado com a pouca fé que m inha m ulher tinha em m im .

— Você é um babaca total, Bruno. Por que ela ia m entir? Nem

sabe quem sou eu. Encontram o-nos por acaso.

— Foi por isso que você desm aiou?

Ela fez um a careta e abaixou a cabeça, corando.

— O quê, tá querendo se vangloriar?

— Nada disso, parece até que você não m e conhece — aum entei

a voz, estava ficando realm ente aborrecido. — Eu sei quem ela é, o nom e é Andressa, chefe da UTI. Ela m e abordou ontem no vestiário m esm o, só que a rej eitei. Não ficou m uito conform ada, disse que teria volta. Que não deixaria barato. Então, Lay la... você vai acreditar nela? Alguém que você nem conhece?

Sorriu tristem ente e levantou seus lindos olhos verdes que estavam

vazios.

— Eu tam bém não conheço você.

Aquilo doeu, nós tínham os um a conexão desde o prim eiro

m om ento. Apesar do pouco tem po, eu confiava nela plenam ente. Mas pelo j eito não era recíproco.

— Entendi. Mas você tem que acreditar, anj o. Eu não fiz nada. —

Eu soava patético e desesperado m esm o para m im .

— Não m e cham e m ais assim , eu não sou um anj o. E por que eu

deveria acreditar? Com o ela m e conhecia? Eu nunca a vi. O que ela ganharia em m entir para um a estranha?

— Porque ela foi na porra do Beer e te viu cantando. Ela está atrás

de m im faz tem po. Eu não quero nada com ela e deixei bem claro. Porque eu só tenho olhos para você, caralho. Dá pra entender? — gritei exasperado. Estava ficando nervoso com toda a situação.

Lay la nem olhou pra m im , continuou sentada e virou de costas em

silêncio. Percebi que o único j eito era trazer a vagabunda da Andressa para que se explicasse. Eu acharia aquela vadia nem que fosse a últim a coisa que fizesse na vida.

Saí do quarto e passei na recepção, queria ter certeza que Lay la

estaria ali quando voltasse. Ela teria alta em breve. Dei ordens expressas para que só eu pudesse liberá-la. A enferm eira concordou assustada, nunca fui grosseiro ou autoritário. Mas não estava no hum or de ser educado.

Dirigi-m e a UTI porque sabia que ela estava de folga, j á que

aprontou m erda, m as lá eu pegaria o seu endereço e a traria nem que fosse arrastada pelos cabelos.

Fiquei com o um louco varrendo o com putador da UTI e

finalm ente encontrei. Fui direto para m eu carro, nem via as pessoas m e cham ando, tentando m e parar, querendo saber o que estava acontecendo. Meu desespero se m esclava em ódio e tristeza por Lay la não acreditar em m im .

Saí em disparada cantando pneu, a casa dela não era longe do

hospital. Estacionei na calçada de qualquer j eito. Cam inhei a passos largos e bati na porta, não esperei m uito e esm urrei m ais um a vez. Estava a ponto de derrubar, quando foi aberta por um a Andressa de olhos arregalados.

— O que você está fazendo aqui, Bruno?

— Você tá de brincadeira, né vadia? — Nem dei chance dela falar

m ais nada, peguei-a pelo braço arrastando para o carro. — Eu não quero ouvir nenhum pio seu no cam inho para o hospital. Você vai desm entir toda a m erda que disse para a m inha nam orada, vai dizer a ela que a viu no bar outro dia e que decidiu se vingar porque eu não te quis. — Parei no m eio do cam inho e olhei em seus olhos. A m ulher era bonita, m as alguém que se rebaixava assim não m erecia nenhum a consideração. — E sabe do que m ais? Mesm o se eu não tivesse a Lay la nunca iria pegar você, gente do seu tipo eu quero distância.

— O quê? Com o eu vou voltar para casa? Estou sem sapatos,

Bruno. — Aquela voz estava m e irritando.

— Não é problem a m eu, você se m eteu com a pessoa errada. Fui

ensinado a proteger o que é m eu. E cala a boca, não quero ouvir sua voz grasnada até chegarm os ao hospital.

Joguei-a no banco traseiro e dei a volta, não queria ficar nem ao

lado daquela m aluca. Dei partida e corri com o um louco, ignorando os seus protestos.

Em frente ao hospital, as pessoas nos olhavam abism adas com a

cena. Eu estava literalm ente arrastando Andressa. Ela iria dizer a Lay la toda a verdade, nem que eu tivesse que arrancar fora daquela boca noj enta.

— Bruno, espera. Eu não posso entrar assim , é m eu local de

trabalho não vai ficar legal.

— Pensasse nisso antes de fazer m erda com a m inha nam orada.

Eu não quero nem saber, por m im seria expulsa daqui, um hospital bom com o esse não pode ter víboras com o você.

Ignorei o restante dos seus protestos. E m e apressei pelo corredor,

todos os colegas de trabalho, enferm eiras e pacientes nos olhavam assustados. Eu estava pouco m e lixando. Tinha m uita raiva em m eu peito.

Invadi o quarto da Lay la e entrei sem nem ao m enos bater. Ela

estava deitada de lado, chorando desconsolada. Meu coração apertou com a cena. E fiquei triste por tudo que ainda iríam os passar. Estávam os tão bem para um a vadia vir e se introm eter.

Em purrei Andressa pra frente e Lay la se sentou em alerta.

— Agora conta toda a verdade, Andressa. Confessa a ela a

m entira que você disse.