Inspiração
Capítulo 33
Layla
Depois de ensopar m eu irm ão com litros de lágrim as, fui pra
cam a e dorm i por um a eternidade. Passaram -se dois dias e não saí do quarto até que um sonho invadiu m inha m ente.
Eu tinha por volta de quinze anos e Lucas uns oito. Estávam os
deitados na rede da varanda e eu lia um livro, fazendo barulhos dos bichos e im itando vozes. Ele adorava, não tinha aquela coisa de por estar crescido tudo era m ico. Sem pre fora um m enino doce e não ligava para m odism os.
Já era tarde por volta de onze da noite e nossa m ãe ainda não havia
retornado do trabalho. Eu estava preocupada, m as não disse nada, para não alarm ar m eu irm ão. Então no m eio da leitura Lucas adorm eceu. Apesar de ainda ser tão novo era bem grande, m as m esm o assim eu o peguei e levei para o quarto, retirei sua cam isa e o cobri com um lençol leve, estava fresco e ele era bem calorento.
Voltei à cozinha para recolher o restante do nosso j antar, quando
m inha m ãe entrou pela porta cabisbaixa e parecendo extrem am ente cansada. Olheiras negras escondiam seus olhos verdes, outrora extrem am ente brilhantes. Em três anos de luto pelo m eu pai ela se tornou um a som bra do que j á havia sido.
Olhou pra cim a e pareceu surpresa em m e ver ali. Às vezes
parecia que ela esquecia que nós existíam os.
— Oi, Lay la. Ainda de pé? Já está tarde — falou num sussurro.
— Eu estava na varanda com o Lucas. Acabei de levá-lo para a
cam a.
Ela assentiu com a cabeça e parou em frente à geladeira,
observando o seu conteúdo. Não pegou nada e fechou a geladeira. Ela fazia essa rotina todos os dias, parecia que fosse com er algum a coisa e nada. Depois ia pra cam a e chorava até dorm ir. Eu ficava m orrendo de pena, m as ao m esm o tem po tinha raiva por ser tão fraca. Eu am ava m eu pai tanto quanto ela. Porém continuei com a m inha vida e não m e deixei afundar em pura tristeza.
Achei que iria para o chuveiro, contudo ela parou no m eio do
corredor e m e olhou. Senti um frio na barriga, por um instante parecia a m ãe que havia perdido há três anos. Um esboço de sorriso apareceu em seu rosto. Ela estendeu a m ão m e cham ando. Prontam ente atendi. Assim que nossas m ãos se tocaram , percebi o quanto havia em agrecido. Seus ossos estavam m ais pronunciados do que nunca.
Minha m ãe m e puxou para um abraço que eu sentia falta. Fechei
os olhos e apenas apreciei o conforto e o carinho que sabia que ainda tinha por nós, só não era forte o suficiente para dem onstrar.
— Obrigada por tudo, m inha filha. Sei que não está sendo fácil,
m as você é m ais forte do que eu. É m ais parecida com seu pai do que im agina.
Fisicam ente eu era a cópia da m inha m ãe, m as no restante era
quase idêntica ao m eu pai. E adorava aquilo. Mas entendi o que ela quis dizer. Se fosse ao contrário, ele não estaria acabado e afundado em m ágoa.
— Mãe, não foi nada, eu am o você e o Lucas, faço porque gosto.
— Eu sei. Perdoa sua m ãe, vou tentar segurar até você estar com
idade o suficiente. E espero que não m e odeie quando acontecer.
Acordei sobressaltada e chorando copiosam ente com a
lem brança. Deus, com o m eu coração estava cheio. Depois disso m inha m ãe só m e soltou e se trancou em seu quarto, nem se deu ao trabalho de tom ar um banho. E chorou m ais do que nunca. Fiquei sentada em frente ao seu quarto esperando que acabasse. Só assim m e j untei ao Lucas para dorm ir.
Fazia m uito tem po que não sonhava com eles, nem ao m enos
tentava m e lem brar. Doía dem ais. Contudo, eu sabia o que tinha m e feito ter aqueles pensam entos: toda a confusão com o Bruno. Eu o am ava tanto quanto m inha m ãe ao m eu pai. Porém nunca teria um final com o o dela. Eu tinha pelo que viver. Meu irm ão não dependia m ais de m im , m as eu, sim , necessitava do seu om bro. Precisava de todo o seu am or naquele m om ento.
Era no m eio da noite, então im aginava que Lucas estava
dorm indo. Saí do m eu quarto, m e arrastando pelo corredor até chegar à sua porta. Era o m esm o de quando éram os pequenos. Abri a porta devagar e o avistei esparram ado na cam a.
Entrei e m e aproxim ei, observei o quanto ele cresceu. Tantas vezes
dei colo e agora era m inha vez. Deitei ao seu lado vagarosam ente para não assustá-lo. Não dem orou um segundo para ele despertar. Espantado levantou nos cotovelos e m e observou ao seu lado. Seu sem blante estava preocupado e tive certeza que ele viu as m arcas de lágrim as em m eu rosto.
— O que foi, Lala? – sua voz rouca pelo sono soou extrem am ente
preocupada.
— Eu sonhei com a m am ãe.
Lucas arregalou os olhos e balançou a cabeça.
— Faz tem po que isso não acontece, né? — Assenti. — E por que
agora?
— Eu não quero ficar igual a ela — um nó havia se form ado em
m inha garganta e estava difícil de falar.
Meu irm ão deitou acom odando sua cabeça ao m eu lado no
travesseiro. Passou a m ão por m eu rosto enxugando as lágrim as rem anescentes.
— E por que você diz isso?
— Eu am o o Bruno dem ais. Está doendo m uito essa distância.
— Lay la, não é porque você está sofrendo que vai ficar igual à
m am ãe. Você é forte, nada parecida com ela.
Fechei os olhos, não gostava de falar sobre isso. Mas estava m e
sufocando.
— Será? Doí dem ais, irm ão.
— Olha, eu sei que não. Você passou por tanta coisa e ainda assim
perm anece de pé. Cuidou de m im , e sei que não foi fácil. Desistiu de tudo, Lala. O que diz de você? Que é um a m ulher fraca? Claro que não, há algo em você, m inha irm ã, que libera um a luz envolvendo a todos nós, acalm ando nossos corações. Sabe com o m e sentia quando criança? — Neguei com a cabeça. — Sem pre senti com o se você fosse um anj o de luz que Deus havia enviado som ente para cuidar de m im .
Mais lágrim as transbordaram dos m eus olhos. Meu irm ão tinha um
j eito todo doce de lidar com tudo.
— Estou sentindo m uita falta dele.
Lucas suspirou e colocou um a m echa do m eu cabelo atrás da
orelha.
— Eu não ia te contar nada, m as j á que você está sofrendo tanto...
Ele m e ligou hoj e cedo para saber de você. Bruno está preocupado e creio que sofrendo com a distância entre vocês. Só é m uito orgulhoso para adm itir isso.
Sentei-m e subitam ente assustando o Lucas.
— Ele te ligou? Por que não a m im ?
— Disse que ainda estava m uito chateado. Mas não estou contando
para fazer fofoca, só para você saber que ele tam bém sente sua falta.
Assenti. Um pouco da dor em m eu coração se dissipou, m e
deixando m ais leve.
— Será que ele vai dem orar m uito pra perder esse “orgulho”?
Meu irm ão sorriu.
— Lay la, por que você não o procura?
— Ele disse que precisava de tem po. É o que vou dar a ele,
m esm o que sej a tão difícil.
Am ar era difícil dem ais, por esse m otivo m e m antinha à distância
das pessoas. Era m ais fácil quando você não se im portava. Porém com o Bruno foi im possível controlar m eu coração, ele o capturou com seu j eito sarcástico e sorriso safado. Sem falar naqueles olhos azuis que m e enlouqueceram . A sensação de estar sufocada ainda perm anecia fazendo m eu peito com prim ido.
— Posso dorm ir com você hoj e?
— Claro, Lala. Trocar os papéis vai ser bom . Que tal se eu cantar
um a m úsica pra você dorm ir?
Concordei e m e acom odei ao seu lado. Lucas deitou de barriga pra
cim a com o braço estendido na m inha direção. Acariciando m eus cabelos, ele com eçou a cantarolar um a m úsica que fez os m eus olhos encherem d’água. Frisson. Mas que droga, até assim ele queria m e pegar.
Sua voz grave e rouca, ponto m arcante que tínham os em com um ,
m e em ocionou profundam ente. Um soluço am eaçou subir quando ele cantou um a parte que denunciava totalm ente o que tinha acontecido entre eu e o Bruno.
“... Pra renovar meu ser
Faltava mesmo chegar você
Assim, sem me avisar
Pra acelerar um coração
Que já bate pouco
De tanto procurar por outro
Anda cansado
Mas quando você está do lado
Fica louco de satisfação
Solidão nunca mais...”
Eu não sabia com o iria seguir em frente se caso Bruno resolvesse
que nós não valíam os a pena.
Só com esse pensam ento j á sentia com o se estivesse faltando algo.
Era im pressionante com o ele fazia parte da m inha vida agora. Voltaria para o trabalho em breve e estava num a depressão de dar dó.
Mas prom eti a m im m esm a que não iria continuar nessa.
Perm itiria chorar por m ais essa noite e não m ais. Eu não term inaria m eus dias com o m inha m ãe. Nem m esm o pelo am or da m inha vida.
Só m e restava esperar que o sentim ento de Bruno por m im fosse
tão grande e intenso quanto o que eu sentia por ele.