Inspiração
Capítulo 10
Bruno
Depois de deixar Lay la em casa fiquei refletindo sobre tudo o que
estava acontecendo. Quando falei com ela sobre os m eus sentim entos, com o m exia com igo foi o m om ento que realm ente caiu a ficha: era verdade. Não foi um a coisa que você diz a fim de ganhar a garota, m as um sentim ento que crescia e m e deixava confuso. Não estava acostum ado a ficar tão ligado a um a m ulher assim . Sentia um frio na barriga cada vez que m e lem brava do seu sorriso doce, da sua voz angelical.
Sabrina ficou quieta durante toda a volta para casa, apesar de não
ser do seu feitio. Tinha um sorriso sonhador no rosto. Algum a coisa m e dizia que Lucas tinha algo a ver com aquilo. Fiquei preocupado, ela estava passando por tanta coisa desde o problem a com o antigo nam orado... Podia acabar m agoando o irm ão da Lay la e isso não era nada bom , pois além de o cara ser super gente boa, m eu anj o não ficaria feliz em vê-lo sofrendo.
Lucas era um estudante de m edicina aplicado, lem brava m uito eu
m esm o na época da faculdade. Seria um ótim o profissional, podia ver a paixão em seus olhos quando falava sobre o assunto. O país precisava de bons m édicos. Ele terá m uito sucesso em sua carreira, tenho certeza.
Estacionei o carro e, antes de sair, resolvi tirar satisfação com
Sabrina.
— Sá, o que tá rolando entre você e o Lucas? — Ela parou e olhou
pra m im franzindo a testa.
— Por que você quer saber? Vai bancar o irm ão superprotetor?
Respirei fundo e olhei para frente. Não queria m agoá-la, m as se o
que ela m e disse no outro dia for verdade — que estava querendo ser um a cópia fem inina m inha —, não podia deixá-la ir adiante. Não que eu sej a um hipócrita, m as Lucas não parecia ser um cara qualquer, m erecia m ais do que ser o brinquedinho de alguém .
— Não é com você que estou preocupado. Se só estiver a fim de
brincar, fica longe dele, não o m agoe à toa.
Olhei para ela, que tinha um a expressão triste em seu rosto.
— Eu sei — Suspirou. —, acho m elhor ser só am iga dele. Não
quero nada sério por m uito tem po. No m om ento, é tudo o que posso dar.
Sabrina m e deu um sorriso am arelo e abriu a porta, indo em
direção à casa. Fiquei ali m ais algum tem po. Minha irm ã era sem pre tão alegre, não consegui ver anim ação naquele com entário de ser só am iga do Lucas. Parecia forçada a negar algo que poderia ser legal.
Eu só esperava que não se arrependesse de ter deixado escapar
um ótim o partido.
***
O hospital estava um a bagunça. Teve um acidente de carro na via
principal da cidade que envolveu várias pessoas. Havia m uitos feridos na em ergência e casos graves na cirurgia. Apesar de j á estar acostum ado ficava tem eroso, atendim entos de em ergência sem pre precisavam de atenção extra, pois a vida das pessoas é um a responsabilidade gigantesca. Mas aquele era o m eu trabalho e fazia o m elhor que podia.
Fiquei com um caso delicado para cuidar: um dos envolvidos tinha
hem orragia interna e, se não achássem os a causa logo, seria fatal. Era um a m ulher de aparentem ente trinta e cinco anos. A batida tinha sido tão forte que seu corpo ficou preso entre as ferragens.
Depois de horas na cirurgia, consegui encontrar a causa. Após ter
estancado o sangram ento, só dependia de com o seria a recuperação da paciente. Era hora de dar notícias à fam ília. Deviam estar preocupados, com o sem pre. Ainda bem que eram novidades boas. A pior parte dessa profissão é perder paciente, ficava inconform ado por dias.
Fui à sala de descanso tom ar um café para conseguir encarar m ais
um a rodada de trabalho, m inha j ornada era até o outro dia. Mesm o estando vazia, a m áquina estava sem pre funcionando. Era raro algum m édico parar, sem pre tínham os m uito que fazer.
Estava de costas para a porta, com a xícara na m ão, quando senti
m ãos finas em m inhas costas. Dei um pulo de susto e olhei para trás. Andressa, a chefe da UTI, estava m e olhando com o se quisesse um pedaço de m im . A m ulher era bonita: loira, alta e olhos claros, m as tinha um a coisa nela que disparava um alarm e de perigo na m inha cabeça. Era com o um letreiro gigante que avisava insistentem ente para m e afastar.
Além do m ais, eu não precisava de outra m ulher, estava bem
ocupado correndo atrás de um a garota que iria m e colocar louco. Andressa tinha um j eito m eio estranho, seus olhos vidrados brilhavam , estava ficando incom odado com o m odo com o m e olhava.
— Er... Dra. Andressa, posso te aj udar? — Abanei a m ão na frente
do seu rosto.
— Hum , não sei. Será que pode, Bruno?
Arqueei um a sobrancelha. Ela estava querendo que eu tom asse a
iniciativa, porém não iria acontecer.
— Não sei o que você quer, doutora, m as eu não estou interessado,
tenho m uito trabalho a fazer. Dá licença. — Dei a volta para sair e voltar ao trabalho, m as não antes de receber um olhar sinistro da doutora louca.
Senti um calafrio, não queria m eu passado voltando para m e
assom brar. Apesar de sem pre dizer que não queria nada sério com ninguém , e de pegar todas as m ulheres disponíveis, Lay la tinha um a coisa que m e cativou desde o início. Acho que, enfim , seria realizada a previsão do m eu am igo Alberto: eu estava de quatro por um a m ulher. Só faltava colocar a língua para fora e babar.
Sorri com esse pensam ento. Quando Alberto descobrisse, ia m e
zoar até o fim dos tem pos. E com o dizem que pensam ento tem força, ele estava num a esquina do corredor flertando com um a enferm eira. Típico, não desperdiçava um rabo de saia. Cheguei ao seu lado e pigarreei.
Alberto m e olhou carrancudo e a enferm eira fugiu envergonhada.
Ele colocou as m ãos nos quadris, balançando a cabeça.
— Sem pre em patando, Bruno. Não tá na hora de correr atrás das
enferm eiras e m e deixar em paz?
— Você sabe que eu fiquei com poucas enferm eiras, não é legal quando elas querem algum a coisa diferente.
Ele balançou a cabeça, concordando.
— Mas o que eu posso fazer se elas vêm a m im tão facilm ente? —
Deu de om bros.
Alberto era pediatra, ele tinha um sorriso fácil e lidava m uito bem
com as crianças. As enferm eiras caíam m atando por isso. Deviam fantasiar que ele seria um bom pai e m arido.
Não podiam estar tão longe da realidade, pois Alberto tinha o
coração dilacerado. Sofrer por am or o deixou um pouco traum atizado, não gostava de pensar em com prom isso sem ter um ataque de urticária. Eu era sem elhante, porém tinha outros pensam entos agora.
— Ok, m as eu não quero m ais nenhum a enferm eira. Só consigo
pensar em um a m ulher, caí direitinho.
Ele arregalou os olhos e balançou a cabeça.
— O quê? Você só pode tá brincando! Bruno, o “garanhão”, foi
pego? — Ele caiu na gargalhada e eu fiquei esperando que term inasse a sua sessão de idiotice.
Contudo, m eu am igo era um idiota, não perderia a chance de se
acabar de tanto zoar com a m inha cara.
— Acabou? — Ele levantou a cabeça, enxugando os olhos. —
Ótim o, porque é sério. Eu estou preocupado, am anhã vou sair com ela e não sei o que fazer. Não estou acostum ado a ter que im pressionar alguém .
— Ainda não consigo acreditar, m as vam os ao que interessa.
Prim eiro, quem é ela? — Ele sorria abertam ente, dem onstrando sua diversão.
— A cantora do Beer.
Alberto deu um longo assobio.
— Uau, até eu cairia. Ela é linda. Bem , você tem que ser gentil e
nada de ficar se achando na frente dela. Mulheres do tipo da cantora não gostam de caras convencidos.
— E com o você sabe?
— Porque eu j á errei com alguém e sei tudo sobre isso. Onde você
vai levá-la?
Torci a boca para os dois lados e bati o dedo no queixo, pensativo.
Não era acostum ado a ter que im pressionar alguém .
— Estava pensando num restaurante italiano? — saiu m ais com o
um a pergunta do que com o um a afirm ação.
— Ótim o, m assas são sem pre as m elhores escolhas, porque se ela
for vegetariana não tem erro de você horrorizar a coitada com um a picanha sangrenta.
— Dá pra ser m enos idiota? Eu estou m orrendo aqui.
— Relaxa, cara, é só você ser natural, m as não m uito... — Ele
sorriu e olhou o seu bip. — Me deixa ir, em ergência na pediatria. Depois m e conta com o foi e, claro, com todos os detalhes sórdidos.
Fiz um gesto m al-educado para ele e fui para a m inha próxim a
cirurgia. A expectativa de estar com ela outra vez m e deixava nervoso. Ainda m ais no m eu estado de excitação, estava pegando fogo.
***
Depois de um plantão de vinte e quatro horas, queria cam a, m as
com o eram cinco horas da tarde de um a terça-feira, eu só tinha tem po de tom ar banho e m e preparar para o encontro com a Lay la.
Você pode im aginar a m erda que foi encontrar Sabrina, Ana Luiza
e Larissa na m inha sala, com vidros de esm alte espalhados por todo lado e cacarej ando com o galinhas? Elas falavam dem ais. Im agina aguentar aquilo na adolescência? Era um pesadelo.
— Cheguei, suas loucas, podem parar de falar de m im .
Ana Luiza levantou a cabeça e m e m ostrou a língua.
— Com o se a gente fosse perder tem po falando de você, idiota.
Ela parecia tanto com igo, não tinha m edo nenhum de falar o que
queria. Ana era diferente das m eninas, a única de olhos escuros. Tinha um rosto doce, m as a língua era puro veneno. Nós tínham os pouca diferença de idade, dois anos nos separavam de serm os quase gêm eos na personalidade.
— Tá, falar de m im é sem pre m uito bom , querida. Mas deixa isso
para quando eu estiver presente, adoro ouvir elogios.
Ela arqueou um a sobrancelha e levantou-se para m e dar um
abraço, apesar de brigarm os com o cães e gatos, nos am ávam os m uito.
— Com o foi seu plantão? Pegou m uita enferm eira sem cérebro?
Ana conhecia bem a rotina das enferm eiras atrás dos m édicos, ela
era a chefe de enferm agem de um hospital m ais afastado da cidade.
— Não, sua boba. Isso eu deixei para o Alberto. — Quando vi sua
cara se fechando percebi que tinha falado besteira. — Desculpe, Ana.
— Quem é a sortuda, então? — m udou de assunto prontam ente.
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Sabrina se adiantou,
fofocando.
— É a cantora do Beer, ela é linda e sim pática.
— Oh, alguém que vale a pena então. Não a deixe escapar. — Ana
m e olhava com as sobrancelhas arqueadas e um a expressão séria em seu rosto.
— Não pretendo. Sabrina você tratou do cachorro? Por que não
para de fofocar e vai cuidar dele? — Ela m e m ostrou a língua e voltou à conversa com Larissa. — Vem cá, quero falar com você um m inuto. — Puxei Ana para o canto da sala, sob os olhares atentos das outras duas. — Será que você poderia levar a Sabrina para sua casa?
— Hum , m eio convencido, não? Tá achando que vai se dar bem
no prim eiro encontro?
— Não é ser convencido, Ana. Tem os um a quím ica incontrolável,
só quero trazê-la para um a bebida e quem sabe talvez...
Ela tapou os ouvidos com as duas m ãos.
— Ok, inform ação dem ais. Não quero saber da sua quím ica. Mas tudo bem , eu levo a pentelha.
Agradeci com um abraço e fui para o quarto m e preparar. Tinha
um a noite m aravilhosa pela frente, m al podia esperar para sentir o gosto daquela boca de novo. E seu corpo quente j unto ao m eu, de preferência sem roupa nenhum a.