Inspiração
Capítulo 22
Bruno
Era m uito engraçado ver a Lay la toda envergonhada. Desde que
saím os do banheiro, se refugiou no quarto até que Lucas parou de zom bar e fazer brincadeiras sobre estarm os com o adolescentes. Na m esa do café, ficou verm elha com o um pim então, se recusava a olhar o irm ão nos olhos até que ele disse que não era tão inocente quanto ela im aginava. Ficou horrorizada, abria e fechava a boca com um peixe fora d’água. Foi divertido vê-la tão em basbacada.
Estávam os no carro a cam inho da casa da m inha m ãe. Lay la
ainda não tinha dito m uita coisa, parecia m eio nervosa em conhecer a m inha fam ília. Lucas estava no banco de trás, m andando m ensagens de texto com um sorriso no rosto. Eu j á im aginava para quem poderia ser... Ainda tinha receio do envolvim ento dos dois. Sabrina andava m uito inconstante, poderia m achucá-lo sem querer.
Observei Lay la enquanto dirigia, era a m ulher m ais linda que eu
j á tinha visto. Seu rosto era sereno e doce, tinha um olhar m eigo e m isterioso. Quando a conheci pensei que seria um a gatinha m anhosa. Grande ilusão, a m ulher era um a fera tanto fisicam ente quanto em ocionalm ente. Não havia pessoa m ais forte do que ela. Meu anj o enfrentou tanta m erda ao longo da sua j ovem vida que era incrível que continuasse feliz e sorrindo.
Lay la virou o rosto na m inha direção e sorriu. Senti um frio na
barriga e m eu coração parou por um segundo. O que aquele lindo brilho em seus olhos verdes tinha que m e deixava feito um idiota?
— Tá nervosa?
Ela revirou os olhos e prendeu o lábio inferior entre os dentes.
— Nem fale, não consigo nem pensar direito.
— Fica tranquila, m eu anj o, m inha m ãe vai te adorar. Ana Luiza
que é um pouco chatinha, m as você se acostum a. — Esse adj etivo para a m inha irm ã do m eio era sacanagem . Ela era um a versão fem inina de m im , só que m uito m ais inconveniente e sarcástica.
— Ok, pelo m enos tem alguém que está confortável com tudo isso,
né? — Meu anj o sinalizou com o polegar para trás, onde Lucas estava rindo das m ensagens que recebia.
Não queria nem pensar o que eles poderiam estar conversando,
ter um a suspeita j á era ruim o bastante.
— Lay la, vai dar tudo certo. Prom eto não sair do seu lado, não vou
te j ogar às lobas — resolvi acalm á-la um pouco, estava parecendo que iria explodir a qualquer m om ento.
Lay la arregalou os olhos e abriu a boca, estupefata.
— Lobas? Oh, Deus. Vou m orrer. — Tapou o rosto com as duas
m ãos e balançou a cabeça.
Droga! Quis dizer aquilo para ela relaxar e rir. Não deu certo,
obviam ente.
— Anj o, estava brincando. São todas diferentes um a da outra, m as
são civilizadas. Só vão te encher de perguntas e querer saber o que você tem de especial, pois nunca trouxe um a m enina pra casa. Provavelm ente vão querer que você toque algum a coisa, Ana tam bém canta um pouquinho. Meu pai tocava violão e ela acom panhava com a voz, quando ele m orreu ela disse que não cantaria m ais. Mas faz tanto tem po que pode ser um risco.
Ela tirou as m ãos do rosto e m e olhou com o cenho franzido.
— Com o assim , não trouxe alguém para casa?
— Eu nunca nam orei sério. Você é a prim eira.
— Mas... não entendo. Olhe pra você, com o conseguiu ficar
sozinho?
Prendi m inha atenção na estrada. Precisava escolher as palavras
certas, não queria parecer nenhum filho da puta presunçoso.
— As m ulheres sem pre vieram m uito fácil, Lay la. Não precisava
m e preocupar em conquistar nenhum a delas. Antes de você, nunca tinha saído para j antar com alguém que estava interessado. Sabe aquele ditado: o que vem fácil, vai fácil? Era assim , nenhum a delas m e interessou o suficiente para ficar m ais do que um a noite ou duas. — Balancei a cabeça. — Eram m ulheres vazias, só queriam dar um a rapidinha e acabou. Não vou ser hipócrita e dizer que eu não queria isso tam bém .
Prendi a respiração. Tem ia que ela com eçasse a m e bater e m e
cham ar de idiota, babaca. Eu realm ente fui, m as não com ela. Desde o início, tinha a noção de que um a noite não era o bastante para nós dois. Arrisquei olhar de esguelha e m e surpreendi.
Lay la tinha um sorriso lindo no rosto, seus olhos brilhavam , m aliciosos.
— Então... eu fiz o garanhão suar um pouquinho? Isso quer dizer
que eu sou especial? — Seu tom de voz im plicava brincadeira, m as ao m esm o tem po percebi que perguntava sério.
Eu não podia acreditar. Um a m ulher forte, linda e deliciosa, não
sabia o quanto era especial? Crim e inafiançável, eu tinha que deixar bem claro sem som bra de dúvida que m e im portava.
— Anj o, nunca conheci ninguém com o você. Já disse isso, você é
m ais do que especial, é única. — Estacionei ao lado da calçada da m inha m ãe, nem percebem os o quanto dem orou porque nos entretem os com a nossa conversa. Estendi a m ão e peguei seu queixo, m e aproxim ando da sua boca. — Nunca duvide disso, não im porta o que possa acontecer. Você é perfeita.
Ela corou num rosa brilhante. Aproxim ou-se e m e beij ou com
tanto carinho que m eu peito doeu de em oção. Afastou-se, dando-m e um selinho estalado.
— Você tam bém é especial, m esm o que tenha sido tão safado.
Mas olha a boa notícia... Pode continuar sendo, só com igo. — Me lançou um sorriso cínico, e abriu a porta, saindo do carro, m e deixando ali m ais do que surpreso com a sua possessividade. Dei de om bros. Tam bém era cium ento com relação ao m eu anj o.
Olhei para trás e Lucas j á tinha saído. Ficava tão distraído com
aquela m ulher que perdia a noção de tudo ao m eu redor. Os dois estavam na calçada, rindo. Lay la abraçava a cintura do irm ão, ela am ava aquele garoto e era evidente a reciprocidade do sentim ento.
Fechei o carro ativando o alarm e e fui ao encontro deles. Antes
m esm o de poder falar qualquer coisa, m inha m ãe abriu a porta da casa e veio em nossa direção. Marisa Petri era linda, tinha os cabelos ruivos, olhos verdes e um a vivacidade de dar invej a em m uitas m eninas. Para um a m ulher que teve quatro filhos, e ainda os criou com tanto afinco, ela estava com tudo. Não se envolveu com ninguém após ficar viúva, dizia que o am or de sua vida era o m eu pai, m as m esm o assim não deixou de viver cada dia alegrem ente.
Aproxim ei-m e da Lay la e entrelacei m eus dedos nos dela, sabia o
quanto estava nervosa. Mam ãe olhou nossas m ãos j untas e sorriu. Sabia o que ela estava pensando, devia estar ouvindo os sinos da igrej a. E pensar nisso surpreendentem ente não m e dava um ataque de pânico, m esm o sendo tão cedo.
— Olá, querido. — Minha m ãe se aproxim ou, dando-m e um
abraço de lado. Beij ou o m eu rosto e se afastou, prendendo sua atenção em Lay la. — Me apresenta a esta m enina linda.
Olhei Lay la, que estava corada, e realm ente não cansava de
reparar com o era linda.
— Mãe, essa é a Lay la, m inha nam orada. — Ela olhou para m im
com seus olhinhos verdes brilhando. — Anj o, essa é a m inha m ãezinha, espero que se deem bem , pois am o as duas e não quero ter que escolher um a só.
Não escutei m ais nenhum ruído. Lay la estava séria, parecia
surpresa, então percebi o que tinha dito. Fiquei assustado com o m eus sentim entos eram expostos sem eu ter controle, não ficava confortável com aquilo, m as não iria voltar e m e desculpar, era a verdade.
Lucas pigarreou, tentando cham ar atenção, e notei que não a tinha
apresentado a ele ainda.
— Mãe, este garoto bonito aqui é o irm ão da Lay la. Lucas,
conheça a sua futura sogra. — Ele corou e se aproxim ou da m am ãe.
— Prazer, senhora. Bruno é m eio engraçadinho às vezes, Sabrina e
eu som os só am igos.
Mam ãe bufou e balançou a m ão em frente ao rosto antes de
abraçá-lo.
— E eu não sei? Mas não se preocupe, você m e parece um bom
m enino para a m inha caçula. — Ela sorriu e sinalizou para a porta. — Vam os entrar, crianças, tenho um frango assando no forno. As m eninas estão loucas para te conhecer, Lay la. E os gêm eos estão aí... Maurício chega m ais tarde, está trabalhando, coitado.
Seguim os dona Marisa até a porta. Dei um aperto reconfortante na
m ão de Lay la e entram os para a bagunça que nos esperava. E cara, aquela m anada de m alucas tinham se superado. Estava tudo de pernas para o ar, podia escutar a falação e a gritaria na cozinha a quilôm etros de distância. Os gêm eos da Larissa, de três anos, estavam fazendo um a bagunça na sala; tinha m acarrão e farinha por todo lado.
Quando m e viram largaram tudo e correram em m inha direção
com suas perninhas gordinhas. Eram dois m eninos bagunceiros e pentelhos. Soltei a m ão da Lay la e m e agachei, abrindo os braços. Em m enos de um segundo depois eles se j ogaram em m im , quase m e derrubando.
— Ei, com o estão os m eus pestinhas preferidos? — Eles riram
baixinho e se afastaram . Artur e Gabriel eram idênticos, loirinhos com o a m ãe, e com os olhos castanhos do pai. Eu os com parava a um furacão, onde passavam deixavam sua destruição para trás.
— Tio, o senhor dem orou a nos visitar, estam os esperando... —
Gabriel interrom peu o irm ão, com pletando a frase:
— Aquela pista de corrida que o senhor prom eteu!
Eles faziam aquilo desde que com eçaram a falar, devia ser coisa
de gêm eos.
— Ah, m eninos, eu estou trabalhando m uito, m as prom eto levá-los
à pista assim que tiver outra folga. — Olhei para Lay la e sorri. — Quero apresentar a vocês um a pessoa m uito especial. Essa m oça bonita é a m inha nam orada, tratem -na bem , não façam nada que a assuste, pois o tio gosta m uito dela.
Artur fez um a careta engraçada que lem brou m uito o seu pai.
— Tem nam orada agora? Papai disse que o senhor é um galinha.
Que droga, eu ia m atar o m eu cunhado. Lay la riu e se abaixou.
— Vej o que a sua fam a o persegue. Olá, m eninos, é um prazer
conhecê-los, m as seu tio não é m ais galinha. Se ele for, eu o coloco de castigo. — Bateu em m eu om bro para frisar sua declaração. — Agora, será que eu ganho um abraço de boas-vindas?
Eles a olharam desconfiados, m as logo sorriram cheios de dentes,
e se j ogaram em cim a dela, derrubando-a de bunda no chão. Ela ria e acariciava suas cabecinhas. Lay la era um a m ulher totalm ente m aternal, vendo-a com eles m e deu um aperto no peito por um m otivo que não consegui identificar na hora.
Percebi um m ovim ento no canto da sala e levantei o m eu olhar,
m inhas irm ãs estavam enfileiradas, olhando Lay la interagir com as crianças. Sorri para elas e m e levantei. Apesar de serem um pé no saco em proporções diferentes, eu as am ava com todo o m eu coração.
Abracei as três e dei um beij o na cabeça de cada um a, eram todas
baixinhas perto de m im . Elas se afastaram e olharam para trás, onde Lay la estava com os m eninos. Meu anj o chegou ao m eu lado e encostou a m ão nas m inhas costas. Enlacei seu om bro e a puxei, colando nossos quadris.
— Meninas, conheçam a Lay la, ela é o m eu anj o. — Observei
m inhas irm ãs e pude perceber que aprovaram a m inha nam orada, pois estavam sorrindo felizes. — Sabrina você j á conhece, Lay la, e esta m orena de olhos cor de m el é a Ana Luiza. A loirinha chata e m andona é a Larissa.
Todas sorriram , anim adas.
— Não ligue para ele, Lay la. Bruno m e cham a de chata porque eu
peguei em seu pé a vida toda, sou a irm ã m ais velha... Aliás, você é linda! É um prazer conhecer a garota que derrubou o m eu irm ão.
— Sim , m uito obrigada. Agora ele não tem tem po de nos
im portunar. — Ana Luiza abraçou Lay la, seguida por Larissa.
Olhei para o lado, e Sabrina tinha sum ido. Procurei-a pela sala e a
achei na cozinha, ao lado de Lucas. Eles sorriam e faziam brincadeiras com os rostos m uito próxim os. Nunca vi a m inha irm ã tão à vontade ao lado de um cara na vida. Era sem pre um pouco retraída, apesar de aparentar espevitada, seu m ecanism o de defesa.
— E cadê o seu irm ão? Sabrina nos falou m uito dele. — Larissa
era a que tinha m ais intim idade com a caçulinha. Portanto ouvia m ais suas ladainhas.
— Oh, é m esm o. Ele estava ao m eu lado... — Ela sorriu quando o
viu, m as pude perceber certa relutância com relação à am izade dos dois. Eu tam bém estava com receio. — Lucas, vem conhecer as m eninas.
Quando ouviu a irm ã lhe cham ar, ele se virou, corando, e se
aproxim ou. O garoto era tão alto quanto eu, e j á m ostrava o corpo forte. Lucas sorriu e as m eninas se derreteram um pouco, até m esm o Larissa, que era casada. Então eu notei, aquele era um a m erda de um sorriso m atador. Balancei a cabeça, Sabrina estava perdida.
— Olá m eninas, prazer. — Pegou as m ãos das m inhas irm ãs e
beij ou cada um a no rosto.
Porra! Com o eu não percebi? Ele j á tinha todo o charm e de
galanteador, só estava um pouco verde ainda. Olhei Sabrina na cozinha, tinha os olhos vidrados nele. Parecia que iria babar a qualquer m om ento.
Mam ãe apareceu de onde tinha sum ido com um álbum enorm e
nas m ãos. Gem i de frustração, sabendo o que se escondia debaixo daquela capa dura. Nosso álbum de infância. O que tinha nas m ães de m ostrar fotos nossas a todo m undo que chegava à nossa casa pela prim eira vez?
— Lay la, querida... Vem , antes de com eçarm os os preparativos
para o alm oço. Quero te m ostrar com o Bruno era fofo quando bebê. Assim você tem um a noção de com o vai ser o filhinho de vocês.
Cara, que porcaria! Minha m ãe ia assustar a Lay la, tinha certeza
de que a qualquer m inuto ela iria sair correndo pela porta e não voltaria m ais.
Lay la se desvencilhou dos m eus braços e foi se j untar à m am ãe
no sofá. Senti alguém se aproxim ando e olhei para o lado. Ana Luiza tinha os braços cruzados e um a expressão cúm plice no rosto.
— Espero que você não estrague as coisas com ela.
Franzi a testa e olhei para a Lay la. Nunca faria nada de propósito
pra atrapalhar o que tínham os.
— Por que eu estragaria? Ela é ótim a, não há m otivo para fazer a
saída de em ergência. — Bati m eu om bro no dela de brincadeira.
— Ok, só não faça burrada, tá? — Se afastou e foi se j untar à
Sabrina e à Larissa, que j á estavam rindo das nossas fotos.
Ana era m uito m isteriosa com relação ao am or, tinha tido
nam orados, m as nenhum ficou tem po suficiente para esquentar o lugar.
Lay la havia ficado m uito à vontade com a m inha fam ília, e o
Lucas tam bém se enturm ou legal. Os m eninos o pegaram para cobaia, m as ele levou num a boa. Era um a adição à nossa bagunça.
Meu coração acelerou quando Lay la levantou o olhar e sorriu
docem ente, dando um a piscadinha e voltou sua atenção ao que m inha m ãe dizia.
Meu anj o estava feliz, e era isso o que m ais im portava.
Um a coisa m e fez quase cair de j oelhos: percebi que a m inha vida
não teria m ais nenhum a graça sem aqueles dois fazendo parte dos m eus dias. Mesm o sendo tão rápido, tinha encontrado o com plem ento que faltava para a m inha felicidade plena.