Inspiração

Gisele Souza · Capítulo 5 de 46

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Inspiração

Capítulo 2

 

Bruno

 

Fiquei observando Lay la se afastar, ela parecia furiosa. Mas era

linda até em burradinha. Quando sum iu na esquina, balancei a cabeça com um sorriso no rosto. A m ulher era o paraíso. Não resisti, tive que beij ar aquela boca verm elhinha. Eu podia m e perder naquele corpo. Quando a vi cantando, com aquela voz rouca, parecia um anj o. Fiquei enfeitiçado. Essa insistência de não m e querer, sua negação, abanou um a bandeira de desafio na m inha frente. Logo eu, um cara que nunca deu as costas para um desafio.

Andei até o estacionam ento ao lado do bar. Se havia um a coisa da

qual eu tinha ciúm es era do m eu carro. Depois de anos estudando e trabalhando com o um condenado, m erecia um a recom pensa. Entrei e dei partida, o ronco baixo do m otor era com o m úsica aos m eus ouvidos. Minha casa ficava afastada da cidade, então o cam inho era relativam ente longo. Com o escolhi viver distante de toda a loucura para ter um pouco de paz, era um preço pequeno a se pagar.

Passei em frente ao hospital e percebi que estava bem cheio, teria

bastante trabalho pela m anhã. Depois de term inada a m inha residência, fui contratado com o cirurgião-chefe — era quase im possível de acontecer com um m édico tão j ovem , m as sem pre m e esforcei ao m áxim o para ocupar este cargo.

Não havia m uito trânsito àquela hora da noite, portanto cheguei

bem rápido em casa. Ao sair da garagem , quase fui derrubado por Elvis, um Bull Terrier chato e lam bão. Abaixei e acariciei sua cabeça lisa.

— Ei, m eu garotão, ficou com saudades, né? — Ele deitou de

barriga pra cim a e colocou a língua pra fora. Balancei a cabeça, m eu cachorro era um bonachão. Brinquei um pouco com ele e entrei em casa.

Ainda na porta, percebi a secretária eletrônica piscando e suspirei

resignado. Isso só significava um a coisa: m inhas m eninas estavam atrás de m im . Com o não havia para onde fugir, m e sentei no sofá e apertei o botão. O prim eiro bip soou:

“Bruno, onde você se enfiou? Estou tentando falar com você há

séculos. Me liga, seu idiota.”

Nossa, Sabrina era tão exagerada!

Segundo:

“Cadê você? A Sabrina está te procurando igual a um cachorro

perdigueiro, não tô aguentando não.”

Larissa sem pre explicativa, à sua m aneira.

Terceiro:

“Puta m erda, cara. Se você não resolver isso eu j uro que m ato

um a aqui.”

Ana Luiza era a m ais intolerante.

Quarto:

“Querido, esquece tudo o que você ouviu. Essas m eninas são

loucas. Mam ãe te am a, beij os.”

Balancei a cabeça em descrença. Um cara com o eu,

independente, bem -sucedido, com vinte e nove anos nas costas, tinha que dar satisfação diariam ente para que elas não enlouquecessem . E ainda por cim a resolver toda a porcaria que aprontavam . Sou filho único num a casa com quatro m ulheres, que se acham no direito de m andar e desm andar em tudo. Eu am o m inhas irm ãs e m inha m ãe, m as bem que podiam m e dar um a folga, né?

Por este m otivo que não queria nada com relacionam entos. Ter

m ais um a para se m eter no que faço ou deixo de fazer? Não, obrigado! Tinha a m ulher que queria, quando queria. Não que eu estivesse sendo convencido, m as era um fato. O que podia fazer?

Resolvi deixar pra lá. No final de sem ana eu resolveria essa

m erda. Apesar que, até lá, toda vez que chegasse em casa, teria um a enxurrada dessas para escutar. Tinha que ir pra cam a e rápido, pois o plantão seria puxado pelo que pude ver na porta do hospital. Me levantei do sofá porque, pelo cansaço que sentia, podia acabar dorm indo ali m esm o. Um banho era tudo o que m eu corpo pedia.

Minha casa era m oderna e confortável, quis tudo o que havia de

m elhor. Porém o que dei m ais atenção foi ao banheiro. Era espaçoso e bem organizado, tinha contratado um a decoradora só para ele. Sei lá, depois de dividir um banheiro com três irm ãs fiquei traum atizado. Tirei a roupa e j oguei no cesto, entrei debaixo do chuveiro e deixei a água lavar m eu dia.

De banho tom ado, fui para o quarto. Com o vivia sozinho, não

precisava de m odéstia, dorm ia pelado m esm o. Entre os lençóis, m eu últim o pensam ento foi para um anj o doce e raivoso. Um sorriso despontou dos m eus lábios.

***

 

Com o previsto, o hospital estava lotado. Parecia ter um surto de

gripe, com o tem po m udando constantem ente era esperado que m uitos adoecessem . Tive até m esm o que atender na clínica. Apesar de ser cirurgião, quando tínham os m uitas pessoas no pronto socorro eu dava um a m ãozinha.

Peguei as fichas na recepção e cham ei o prim eiro paciente. O

consultório da clínica era sim ples e prático, tinha a m aca para exam es e todos os instrum entos necessários. Sentei-m e atrás da m esa e aguardei, entrou um m enino gordinho com os olhos inchados, segurava a m ão de sua m ãe, que tinha um sem blante preocupado.

— Bom dia, o que o rapazinho tem ?

A m ãe acariciou o cabelo do m enino com um olhar carinhoso.

— Ele tá tossindo m uito e o nariz não para de escorrer.

— Ok, senta ele na m aca para eu exam inar.

O m enino ficou olhando para m im com os olhinhos caídos, parecia

extrem am ente cansado.

— Vam os lá, pequeno, respira fundo. — Ele fez o que pedi e

auscultei seu pulm ão. — Isso m esm o, garotão. Bom , o pulm ão está lim po. Abre a boca e coloca a língua pra fora. Isso, a garganta está verm elha, é norm al por causa da tosse. Tá m e parecendo um resfriado, estam os tendo m uitos casos nesta sem ana. Vou passar um as vitam inas e rem édio para febre e dor. Qualquer problem a a senhora volta, sim ?

Ela assentiu e agradeceu. Depois dele vieram vários com os

m esm os sintom as. Íam os ter m uito trabalho no hospital por conta desse surto viral.

A cam inho da m inha pausa, dei de cara com um a das enferm eiras

que peguei no quartinho sem ana passada. Desviei antes que ela m e visse. Não gostava de ter relações no hospital, m as ela estava tão disposta... O único problem a era que as m ulheres ficavam pegaj osas, querendo m ais. Se fosse só sexo seria fácil, porém sem pre esperavam m uito de m im .

Sem contar com a chata da Letícia, que grudou igual um carrapato

no m eu braço. Cara, que pé no saco! Eu querendo ver o m eu anj o cantar e ela m e atrapalhando. Quando o Alberto m e cham asse para beber de novo ia deixar bem claro pra não levar aquela m ala.

Na sala de descanso dos m édicos j á tinha alguns colegas em seus

intervalos. Peguei o café e m e sentei, depois senti alguém m e observando e olhei por cim a da xícara. Andressa, a chefe da UTI, estava m e olhando com um brilho que conhecia bem : ela m e queria. A m ulher era bonita, loira, gostosa, alta e com o adicional que todos da profissão possuíam em com um : não tinha m uito tem po para relacionam entos, então seria sexo fácil e descom plicado.

Só que não estava sentindo nada por ela. Que m erda era aquela?

De súbito, um a im agem surgiu em m inha m ente, um anj o de olhos

verdes cantando no m eu ouvido. Prontam ente fiquei excitado, e estava num a sala cheia de m édicos distraídos em seus afazeres e m ulheres atentas. Droga!

Mexi-m e, tentando disfarçar, e term inei m eu café. Desviei m eu

pensam ento da cantora que estava m e atorm entando, não queria passar por nenhum inconveniente. Olhei o relógio e j á estava na hora de voltar para o trabalho. Levantei-m e e tentei esconder m inha ereção furiosa. Droga, andando de pau duro em pleno hospital, cheio de gente doente, era só o que m e faltava!

O dia passou arrastando, m uitos pacientes, cirurgia m arcada...

Acabei saindo atrasado, não ia dar para passar no bar, com o prom eti ao anj o. Peguei m eu carro e fui dar um a rodada na esperança de vê-la saindo do trabalho. Passei em frente ao Beer, m as j á estava fechado.

Mal-hum orado era pouco para definir o m eu estado de espírito.

Não podia im aginar aquela boquinha se m over, era quase um pecado. Droga! Bati as m ãos no volante frustrado. Aquela m ulher ia ser m inha de qualquer j eito. Iria fodê-la de todas as m aneiras possíveis. E algum a coisa m e dizia que não ia m e contentar com um a vez só.

Um sorriso despontou em m eu rosto. Ia fazer com que Lay la fosse

m inha, custe o que custasse. Resignado, parti para casa em busca de um pouco de conforto, nem que fosse com m inhas próprias m ãos.

Para com pletar m inha noite m aravilhosa, tinha um carro bem

conhecido na frente de casa. Estacionei ao lado e desci para cum prim entar a visitante indesej ada. Ela saiu com seus cabelos negros revoltos e um a cara assassina.

— Porra, Bruno! Estou te esperando há horas. Onde você estava?

Com algum a vadia?

Respirei fundo e contei até dez, não podia perder a paciência.

Sabrina era quase um a criança: m im ada, m as m uito j ovem para reconhecer o perigo im inente. A vontade que tinha era de lhe dar um a surra para que aprendesse boas m aneiras.

— Oi pra você tam bém , m aninha. E respondendo ao que você

disse tão educadam ente: não, eu estava atarefado no hospital e, se você não sabe, tenho um a vida, não preciso dar satisfação dos m eus passos à m inha caçulinha.

Ela arqueou um a sobrancelha.

— Tá, m as vim te dizer um a coisinha.

— O quê? — Já fiquei desconfiado, coisa boa não vinha.

— Eu vou m orar com você!

Fiquei confuso. Será que estava ouvindo direito?

— Não entendi. Explica direito. — Sabrina j ogou as m ãos para o

alto, frustrada.

— Não tenho a liberdade da qual preciso na casa da m am ãe, então

resolvi vir m orar com você, m eu irm ãozinho querido.

Arregalei os olhos, não acreditava que aquilo estava acontecendo.

Só podia ser um a brincadeira de m au gosto. Mas, pela quantidade de tralha que tinha no banco traseiro do seu carro, não era.

Droga, estava ferrado!