Inspiração

Gisele Souza · Capítulo 31 de 46

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Inspiração

Capítulo 28

 

Bruno

 

Droga de despertador! Peguei o celular e o desativei, eram cinco

da m adrugada, tinha que levantar para ir ao hospital. Esse plantão diurno era legal porque eu ficava com a noite livre, porém não gostava da ideia de m e separar do aconchego no qual estava.

Estávam os de conchinha a noite toda, nunca pensei que dorm ir

com alguém seria tão prazeroso. Não queria nem um pouco desgrudar do seu corpo quente. Observei Lay la dorm indo, ela era linda de todas as m aneiras. Tracei o dedo por seu braço e alcancei seu seio m acio. Acariciei a curva da sua cintura e do quadril perfeito. Minha m ulher era m aravilhosa.

E essa sensação gostosa de contentam ento que tinha no peito, era

nova e surpreendente, porque nunca im aginei ficar feliz por estar enlaçado a alguém .

Seu rosto estava relaxado, era m uito bom vê-la bem e tranquila,

um sorriso suave pousava em seus lábios. Inclinei-m e e dei um beij o carinhoso em sua boca gostosa. O cheiro doce do m eu anj o invadiu m eus sentidos e fiquei pronto para tê-la novam ente, m as m e obriguei a levantar, tinha que trabalhar. Havia trazido um a m ochila com m inhas coisas para que pudesse passar a noite com ela. O problem a era que estava no carro do lado de fora. Não queria vestir calça j eans, estava com o corpo cansado da noite anterior e precisava de um banho antes de colocar qualquer roupa.

Levantei-m e devagar — para não despertar a Lay la — e enrolei

um a toalha na cintura, abri a porta e espiei o corredor. Lucas ainda não tinha levantado, m as provavelm ente em breve estaria de pé, sua aula na faculdade com eçaria cedo. Eu conhecia m uito bem a rotina de um estudante de m edicina, não era fácil.

O clim a estava fresco, m as pude sentir um friozinho pela falta de

roupa. Desativei o alarm e e abri a porta, peguei a m ochila no banco do carona e tranquei o carro novam ente. Quando m e virei, vi um a senhora idosa na casa vizinha, que tinha um sorriso no rosto.

— Bom dia, m eu filho. Puxa, faz tem po que não vej o um a coisa

dessas. — Apontou para m eu peito despido. — Obrigada pela bela visão de m anhã. — Sorriu e seguiu com o crochê que estava em suas m ãos

Assenti sem graça e segui m eu cam inho, corei

superenvergonhado. Droga tinha esquecido que Lay la tinha vizinhos idosos. Situação em baraçosa no m ínim o... Entrei e fui direto para o banheiro, tom ei um banho rápido e escovei os dentes.

Voltei para o quarto e m eu anj o continuava dorm indo, chegava a

ressonar. Pela noite m aravilhosa que tivem os, tam bém devia estar cansada enquanto eu m e sentia revigorado. Tê-la em m eus braços m e dava um a satisfação sem lim ites e m uita energia.

Vesti m inha calça e cam isa branca e sentei na beirada da cam a

para calçar o sapato. Resolvi não acordá-la, estava tão linda dorm indo, ela m erecia um descanso. Depois de tantos anos trabalhando duro, ficando tensa o tem po todo, cheia de responsabilidades e deveres, necessitava de um tem po para si m esm a. Se eu pudesse — e ela deixasse — a m anteria sem pre protegida.

Inclinei-m e e depositei um beij o em sua boca doce. Lay la

resm ungou e sorriu. Eu estava com pletam ente apaixonado. Aproxim ei-m e da cabeceira e encontrei papel e caneta, decidi deixar um a nota para que ela visse assim que abrisse seus lindos olhos verdes. Era bom deixar bem claro o tam anho dos m eus sentim entos para que não houvesse nenhum a dúvida.

Saí do quarto e m e deparei com um arom a de café fresco. Lucas

j á devia ter se levantado. Ele estava sentado na bancada que servia de m esa na cozinha com um a xícara na m ão. Levantou os olhos e sorriu.

— E aí, cunhado? Vai um café?

Sentei-m e e o observei. Lucas era um bom garoto e seria um

ótim o m édico. Eu gostava de ver futuros profissionais dedicados, nos dias atuais era m uito im portante encontrar alguém focado no verdadeiro trabalho que é exercer a m edicina e salvar as pessoas.

Peguei m eu café e dei um a golada, estava forte do j eito que eu

gostava. Era ótim o para despertar e com eçar um dia de m uito trabalho.

— Então Lucas, qual especialização você vai seguir?

Ele sorriu, parecia m uito satisfeito consigo m esm o.

— Quero ser ortopedista. Gosto de toda a com plexidade dos ossos,

e consertar as coisas sem pre foi com igo, então sem pre m e vi fascinado por essa parte do corpo hum ano.

Assenti, ser um ortopedista não queria dizer só enfaixar m em bros

quebrados. Mas quando um bom profissional pega um caso quase im possível, com o um a coluna quebrada e faz alguém , que não tinha nenhum a chance ou esperança de andar, cam inhar com seus próprios pés, era inacreditável. Mas tam bém necessitava de m uito j ogo de cintura e um a m ente m uito focada, porque qualquer erro m ínim o poderia colocar alguém saudável num a cam a perm anentem ente.

— Legal, você vai ser um bom profissional, aproveite e estude

bastante nesses quatro anos que faltam para a residência. — Depositei a xícara em cim a da bancada. — Eu queria falar um a coisa com você, Lucas. Lay la saiu do em prego no escritório e eu sugeri para que ficasse som ente no bar e, claro, ela relutou. Mas eu fiz um a proposta que vou tentar com o reitor da sua faculdade um a bolsa parcial, para que fique m ais leve pra ela. Porém eu queria falar com você prim eiro.

Lucas abaixou a cabeça e parecia envergonhado.

— Eu fico m uito chateado com o tanto que Lay la teve que

trabalhar para poder m e criar, Bruno. Por isso fico feliz, se eu puder dim inuir sua carga. Ela nunca se divertiu, só cuidou de m im , com isso eu sem pre m e senti na obrigação de ser o m elhor em tudo e não arrum ar m ais problem as do que ela j á tinha.

Eu j á sabia que Lucas era um garoto legal, m as depois dessa

afirm ação que não foi só m eu anj o que se esforçou, m as ele tam bém , adm irei ainda m ais aqueles dois.

— Ok, hoj e m esm o vou ligar para o reitor e indicar um a vaga para

a bolsa. Mas, provavelm ente, ele vai querer que você faça algum trabalho ou atividade, que nem sem pre é m uito fácil, eu sei disso. Deixa o núm ero do seu celular com igo que eu repasso pra ele. — Estendi m eu telefone em sua direção.

Lucas assentiu e pegou o aparelho digitando na tela, devolvendo

em seguida.

— Fico grato com o que vier. Eu iria desistir da m edicina e

trabalhar há um tem po atrás. — Sorriu tristem ente. — Mas Lay la quase m e bateu, disse que eu não desistiria de ser o que sem pre quis. Eu continuei por ela, m as m e sinto m enos hom em por ter que ser sustentado por m inha irm ã e não poder aj udar em nada.

Olhei pra ele e tentei soar o m ais claro possível. Com o um garoto

inteligente tinha certeza que com preenderia o que eu iria lhe dizer.

— Lucas, não se lam ente, sua irm ã fez a escolha dela. Você não é

m enos hom em por isso, m as m elhor do que m uitos por aí. O que queria? Estar vadiando, dando preocupação a ela? Eu acho que não, Lay la é m uito orgulhosa do irm ão que tem e te am a m uito. Não dê o desgosto de se sentir m enos por algo que ela lutou tanto. Mostre a todos que você faz por m erecer, nunca se lam ente.

Lucas abaixou a cabeça e assentiu, m e levantei e passei por ele

depositando a xícara na pia, dei um tapa em suas costas o encoraj ando. Apesar de dizer tudo aquilo, eu entendia m uito bem o que sentia. Não era legal se sentir pra baixo, m as eu não iria deixá-lo dim inuir o esforço da Lay la por vergonha.

Peguei m inha m ochila e saí pronto para m ais um dia de trabalho,

m as louco pra voltar aos braços do m eu anj o novam ente.

 

***

 

Assim que estacionei na garagem do hospital encontrei Alberto à

m inha espera. Ele tinha um a expressão nada am istosa em seu rosto, parecia m uito nervoso.

Nem bem saí de dentro do carro, ele veio em m inha direção

pisando duro e bufando igual um touro encarcerado enquanto passava as m ãos pelos cabelos num estado de inquietação evidente.

— Cara, vou te dizer, sua irm ã ainda vai m e m atar — disse logo

que m e alcançou.

Franzi a testa em confusão.

— Qual delas, Alberto? Fica m eio difícil adivinhar, sendo que as

três são capazes dessa proeza.

— Ana Luiza, claro — bufou e j ogou as m ãos pro alto em

frustração. — Você acredita que ela veio trazer um paciente transferido e fingiu que não m e conhecia? Fui falar com ela no corredor e Ana com eçou a gritar que não m e conhecia, que devia ser louco de falar com ela achando que era fácil de levar igual às “vadias” que eu andava.

Eu j uro que tentei segurar m inha gargalhada, m as foi im possível.

A risada explodiu em m eu peito que eu tive que m e curvar de tanto que doeu m inha barriga. Mas pela cara do m eu am igo, ele não estava achando nenhum a graça. Era bem a cara da Ana fazer aquilo. Ela não aceitava nenhum tipo de desaforo e, depois de tanto tem po, ainda guardava m ágoas sobre o que quer que tenha acontecido entre os dois.

— Desculpe, cara, m as não pude evitar. Só fiquei im aginando sua

cara de panaca quando ela com eçou a gritar.

Ele balançou a cabeça chateado.

— O pior que acertou em cheio, Bruno. Eu senti tudo de novo

sobre o que aconteceu. Exatam ente igual quando ela term inou tudo com igo, voltou tudo de um a vez que quase m e pôs de j oelhos. — Sua expressão era de sofrim ento, e era verdade, m eu am igo sofreu m uito com o rom pim ento do seu relacionam ento com Ana.

Parei de rir e o observei, Alberto estava desesperado. Seu rosto

estava contorcido num ângulo estranho e os olhos baixos, tristes.

— E o que foi que aconteceu? Se eu não souber, não tem com o

aj udar.

Ele balançou a cabeça, e cobriu o rosto com as duas m ãos em

desânim o.

— Eu não posso te contar, é um a coisa que prom eti m anter em

segredo. Mas eu não aguento, Bruno. Estava pensando em ir em bora, m e m udar. Não consigo ficar tão próxim o a ela desse j eito e não poder ser ao m enos seu am igo.

As coisas eram m uito difíceis para os dois, m as eu achava que

fugir não era a m elhor solução.

— Acho que vocês devem conversar. Tentar resolver essa coisa

toda. Não pode ter sido tão grave.

— Você nem im agina... Mas eu queria saber se você pode

conversar com ela? Eu queria só um a chance de explicar tudo, tentar resolver nem que sej a um pouco do problem a. Não aguento essa m erda, j á se passaram sete anos. Eu preciso de um pouco de paz.

Engoli em seco, poderia até ser covardia, m as enfrentar Ana Luiza

não era um a coisa boa pra fazer. E pelo desespero do Alberto, ele tam bém tinha um pouquinho de m edo.

— Vou tentar, m as não prom eto nada. Aquela m ulher é m ais

teim osa que m ula em pacada.

Ele assentiu e abaixou a cabeça, derrotado. Conhecia m inha irm ã m uito bem , sabia que era quase im possível que ela voltasse atrás na sua decisão. O que quer que tenha sido.

Entram os e fui direto para o vestiário deixar m inhas coisas, no

m eio do cam inho peguei um j ornal na recepção, sem pre dava um a olhada antes de com eçar o dia. Na prim eira página tinha um a notícia que quase m e fez cair pra trás.

Um escândalo envolvendo o ex-chefe da Lay la, sua esposa pediu

divórcio e descobriu um m onte de falcatruas dele envolvendo clientes e prostitutas que bancava. Parecia que m antinha até m esm o um a boate para que tivesse acesso livre. A m ulher arrancou tudo que o advogado tinha e ainda o estava processando por danos m orais, fora o m onte de clientes que estava querendo explicações. Dizia na nota que ele recebia os honorários e não dava entrada nos processos, assim enriqueceu facilm ente à custa dos outros.

Soltei um longo assovio, não pude evitar um a satisfação em m eu

peito, a j ustiça era feita de um m odo ou outro. O velho teria o que m erecia. Guardei o j ornal no arm ário para levar pra Lay la ver. Ela ficaria tranquila quando soubesse que o advogado não faria nada de m al para m ais nenhum a garota inocente.