Inspiração

Gisele Souza · Capítulo 27 de 46

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Inspiração

Capítulo 24

 

Bruno

 

Foi um pouco grosseira a declaração, m as aquilo estava m e

m atando. Sabe quando você tem um a coisa que parece que vai estourar no seu peito se não botar pra fora? Assim que estava m e sentindo desde que a vi cantando com a Ana. Senti todo o seu am or pela m úsica, o prazer que sentia ao derram ar aquelas palavras que sem pre significavam algum a coisa. Eu am ava aquela garota e ela não falava nada de volta. Estava inseguro. Que m erda, parecia um a m enininha reclam ona!

Lay la tinha os olhos arregalados e respirava apressadam ente,

parecia não acreditar que eu tinha dito aquilo. Na verdade, m e sentia com o se estivesse sonhando, nunca im aginei dizer isso a ninguém , exceto à m inha fam ília. Com o j á havia dito: é m uito poder na m ão de alguém .

— Você tá falando sério? — sua voz estava rouca, ela tinha

lágrim as escorrendo pelo seu rosto.

Aproxim ei-m e e passei a m ão por sua bochecha, olhando

intensam ente em seus olhos para que ficassem bem claros os m eus sentim entos. Com o não podia am ar um a m ulher com o aquela? Era im possível.

— Lay la, eu nunca senti isso por ninguém . Já te disse isso. E em

nenhum m om ento da m inha vida falei tão sério. Eu sei que nos conhecem os há pouco tem po, m as não é o que parece. Sei que você sente isso tam bém , tem algum a coisa que nos une e nos aproxim a, não há um segundo do m eu dia que eu não pense em você. Esse plantão em que ficam os longe foi a pior m erda pela qual tive que passar. Então, agora vou dizer com todas as letras, e espero que você acredite. — Suspirei e beij ei seus lábios levem ente, capturando um a lágrim a salgada que descia por seu rosto. — Eu te am o, Anj o.

Lay la m e presenteou com um sorriso lindo, daqueles que alegram

seu dia e faz tudo valer a pena. Eu não precisava de m ais nada para ser feliz, só daquela m ulher linda na m inha vida.

— Oh, Deus... eu... — Ela estava nervosa, desviou o olhar e baixou

os olhos, triste. — Vou m e vestir para o Beer. Você vai m e esperar?

Mas que m erda! Era isso que estava m e incom odando. Ela não

conseguia expressar seus sentim entos com relação a m im . Tentava m udar de assunto.

Olhei em seus lindos olhos verdes, percebendo am or e m edo.

Então, entendi o m otivo de não conseguir se abrir: Lay la tinha receio de m e perder.

Lógico, com o não tinha percebido aquilo antes? Ficou tão sozinha,

sem depender de ninguém a não ser dela m esm a. Quando percebeu se im portar por alguém j á era tarde dem ais. Foi m uito intenso o nosso encontro, para os dois. Eu tam bém estava m uito assustado.

Sorri ternam ente e acariciei o seu queixo pequeno.

— Eu vou te esperar, Anj o.

Lay la m e olhou com os olhos m arej ados novam ente. E sorriu,

assentindo, percebendo o duplo sentido do que eu disse. Aproxim ou-se e beij ou os m eus lábios com o j am ais havia feito. Pude sentir todo o seu am or naquele gesto sim ples.

Ela se afastou e sussurrou um obrigada que eu poderia ter perdido

se não estivesse tão próxim o. Lay la se virou e abriu a porta. Do lado de fora do carro, se abaixou na j anela e m e lançou um sorriso de m enina.

— Vem .

Não havia outra resposta. Desliguei o carro e saí, e a abracei.

Encaixávam o-nos perfeitam ente. Em todos os sentidos.

 

***

 

O Beer j á estava cheio quando chegam os. Ficam os tão distraídos

curtindo a com panhia um do outro na casa da Lay la que quase perdem os a hora. Meu anj o correu para o cam arim enquanto eu m e sentava no bar para pedir um a cervej a. Não tinha nenhum a m esa desocupada. Lay la estava estranha, parecia ansiosa com algum a coisa.

— E aí, sócio secreto? Tá cheio o bar, né?

Heitor levantou a cabeça e m e olhou carrancudo, não entendia o

porquê de querer esconder que era um dos chefes. Será que queria vigiar os funcionários? Dei de om bros, cada um com a sua m aluquice.

— E aí, doutor? — Me cum prim entou de cabeça e observou a m ultidão que estava se am ontoando no bar. — Eles vieram por causa da sua nam orada, pelo que fiquei sabendo.

Franzi a testa, confuso. Tudo bem que Lay la era boa, m as j á

cantava no bar há m ais de um ano. Por que esse repentino sucesso, agora?

— Então, bom para os negócios, j á que ela canta só aqui. — Ele

concordou com um aceno, estava tenso e com um a cara feia. — O que foi Heitor? Aconteceu algum a coisa?

— Nada que eu não possa consertar, cara. Mas obrigado por

perguntar. Então, o que vai querer?

— Só um a cervej a. Vou tentar encontrar um a m esa.

Um burburinho cham ou a m inha atenção. Lay la estava

cam inhando para o palco. Linda, num vestido bege curto e decotado. O m onstro do ciúm e deu as caras. Algum as sem anas atrás eu estaria babando igual aos outros im becis pelo bar, m as agora só queria esconder o seu corpo m aravilhoso daqueles olhares esfom eados.

— Ela é linda, cara. Não a deixe escapar — Heitor falou atrás de

m im , só concordei com a cabeça e cam inhei em direção ao palco.

Estava enfeitiçado, sua energia era com o um im ã. Eu estava

sedento, precisava dela por inteiro, cada pedacinho. Cheguei próxim o o suficiente para capturar cada palavra que diria. Não perderia a chance de vê-la tocar de perto. Lay la brilhava no palco.

— Olá, pessoal. Nossa, com o tá cheio hoj e! Devo estar fazendo

sucesso. — Ela sorriu, linda, era incrível a desenvoltura que tinha naquele palco. — Bom , acho que todos j á m e conhecem , m as para quem está aqui pela prim eira vez... sou Lay la Bonatti, e espero que gostem das canções e voltem sem pre. O chefe agradece. — As pessoas ao redor estavam encantadas, e era assim : ela falava e você ficava perdido. — Eu uso a m úsica para expressar os m eus sentim entos, foi assim desde que eu era um a m enina. Hoj e, quero cantar para alguém especial que está presente, espero que sej a clara o bastante. Preciso dizer que te amo, do Cazuza.

Meu coração parou por um segundo. Senti um frio na barriga

com o nunca havia sentido. Nem quando dei m eu prim eiro beij o fiquei tão nervoso.

Quando ela com eçou a cantar com sua voz doce, m eu corpo todo

se arrepiou, todas as outras m úsicas eram insinuações, m as não esta. Meu anj o estava se declarando através daquela canção.

Lay la m e localizou no canto e sorriu. Eu estava encostado num a

pilastra, olhando ela se derram ar no palco. Quando cantou o verso que eu tanto precisava ouvir, estava pleno:

 

“E eu não sei em que hora dizer

Me dá um medo, que medo

 

É que eu preciso dizer que eu te amo

Te ganhar ou perder sem engano

Eu preciso dizer que eu te amo tanto”

Não conseguia desgrudar m eus olhos dos dela. Abri um sorriso que

chegou a doer as m inhas bochechas. Ela sorriu de leve e piscou, fazendo m eu peito se com prim ir. Meu coração estava apertado de tanto am or que sentia.

Lay la term inou a m úsica e passou para outras. Eu continuei onde

estava, adm irando o m eu anj o.

De repente, senti um a m ão em m eu braço e olhei para o lado,

curioso. Andressa, a chefe da UTI, estava m e olhando com aquele brilho vidrado novam ente. Dali vinham problem as.

— Que surpresa te encontrar aqui, Bruno.

Achei que ela não estava tão surpresa assim com o dizia.

— O que você está fazendo aqui, Andressa? — Estava tenso por

antecipação. Por toda a tensão que passam os naquele dia, Lay la poderia ter um a crise de ciúm es.

Ela passou o dedo pela extensão do m eu braço, m e dando asco. Só

um a m ulher podia m e tocar daquele j eito.

— Eu vim ouvir essa gracinha cantar. Você não achou fofa a

declaração que fez?

— Ela é linda, e m inha.

Franziu o cenho, confusa.

— Sua? Com o assim ? Irm ã?

Balancei a cabeça e bufei, j á tinha a m inha cota de irm ãs.

— Não, Lay la é a m inha nam orada. Agora, se m e der licença, ela

tá com eçando o intervalo.

Saí de perto dela o m ais rápido que pude. A m ulher ficou m eio

louca, com eçou a contorcer o rosto num ângulo estranho. Ainda bem que não a peguei, ia ser outra grudenta no m eu pé. Agora só tinha olhos para o m eu anj o.

Lay la j á tinha saído do palco, e vinha em m inha direção com um

sorriso contido. Parecia com receio do que eu poderia dizer. Confesso que quando m e declarei e ela não disse nada fiquei frustrado. Mas não chateado. Entendia seus m otivos. Porém , ao ouvir aquela m úsica, m eu coração se acalm ou e se encheu de felicidade.

Encontram o-nos a m eio cam inho um do outro. Ela parou na m inha

frente com o pescoço inclinado para cim a. Eu era uns bons centím etros m ais alto. Levei a m ão até o seu rosto e acariciei a sua pele m acia, escorreguei os dedos pelos seus cabelos cheirosos e os prendi num punho, guiando o m eu rosto até o dela.

— Você é a m ulher m ais linda que poderia existir. Obrigado pela

m úsica.

Ela sorriu e seus olhos verdes tinham um brilho diferente. Parecia

com pleta.

— Parece que tirei um peso das costas, m e j ulgava forte, m as era

um a covarde. Tinha m edo de adm itir o que sentia e por fim acabar perdendo, m as percebi que a m inha recusa era o m aior em pecilho. Pensei m uito sobre isso, Bruno. Resolvi abrir os m eus braços e pular.

— Eu estou aqui para te segurar, Anj o.

Desci a m inha boca num beij o apaixonado. Seu gosto era delicioso. Lay la se aproxim ou, colando seu corpo quente ao m eu. Segurei a sua cintura e a prendi, ela era m inha. Mordi seus lábios e passei a língua por sua carne m acia, nunca m e cansaria de provar daquela boca. Nossa aproxim ação deixava tudo em suspenso.

Perdia totalm ente a noção de onde estava e que tinha pessoas à

nossa volta. Ela enlaçou m eu pescoço e aum entou o ritm o do nosso beij o. Eu tinha que dizer, essa doçura angelical era tam bém um a fera pronta para atacar. Gem i em frustração. Se continuássem os naquele ritm o, eu iria m e envergonhar publicam ente.

Afastam o-nos, ofegantes, m as não era para m enos. No

arrebatam ento em que nos envolvíam os perdíam os toda a nossa força, só faltava os m eus j oelhos fraquej arem . Lay la tinha os lábios inchados e verm elhos. Adorava ver as m arcas dos m eus beij os em sua boca. Era um sentim ento de hom em das cavernas que inevitavelm ente carregava com igo.

— Quando eu era criança, sonhava com príncipes encantados...

Algum cara m aravilhoso que viesse m e resgatar de um a torre, coisas de m enininha. — Sorriu e abanou com a m ão. — Mas, quando m eu pai m orreu, perdi todo o sonho de encontrar alguém pra m im , estava ocupada dem ais sendo responsável. Hoj e eu percebi um a coisa, eu não quero nenhum príncipe, porque eles não existem , sim plesm ente. São im possíveis de encontrar. Prefiro os cafaj estes, bad boys, esses sim são reais. Eu encontrei m eu m édico garanhão e vou ficar com ele, custe o que custar. O que m e diz?

Perdi a fala, m inha respiração parou e acelerou ao m esm o tem po.

O que ela estava dizendo era m uito m ais sério do que adm itir seus sentim entos. Era um a prom essa. Sorri e encostei a testa na dela, olhando em seus olhos, que estavam brilhando de excitação.

— Eu digo que encontrei o m eu anj o. E tam bém não vou abrir

m ão dele. Você é a m inha luz, Lay la.

Sabe quando você fica orgulhoso de si m esm o? O sorriso que ela

estam pou no rosto encheu o m eu peito de am or por ter feito aquilo, m inha vontade era de virar para aquela gente toda e bater no peito dizendo: eu fiz isso, eu coloquei esse lindo sorriso em seus lábios, eu deixei seus olhos lindos brilhantes. Meio Neandertal, m as o que poderia fazer? Era a m inha vontade.

Lay la se aproxim ou e sussurrou no m eu ouvido:

— Eu te am o. Não tenho m ais m edo, pode m e levar.

Eu a levaria onde ela quisesse.