Inspiração
Capítulo 15
Layla
— Lay la, quem era aquele suj eito que te trouxe?
Levei um susto com a pergunta do m eu chefe, ele estava parado
na porta da sua sala, com as m ãos nos bolsos e um a carranca no rosto. Desde que Bruno m e deixou no trabalho, eu estava sentindo um a vibração estranha vindo do Dr. Silva.
— Não estou entendendo, doutor.
Ele tirou as m ãos dos bolsos e se aproxim ou da m inha m esa.
— Quem era aquele cara?
Fiquei assustada com a aspereza em que fez a pergunta. Nunca dei
espaço para m eu patrão se envolver em m inha vida pessoal. Não entendi o porquê disso agora.
— Não acho que sej a da sua conta, doutor.
O Dr. André estreitou os olhos e levantou o dedo em riste.
— Olha aqui, m ocinha, eu não gosto de nam orados cium entos
rondando o m eu escritório. Não sou a favor de você ter um relacionam ento.
Fiquei de boca aberta, indignada. Quem aquele velho pensava que
era para falar daquele j eito com igo? Sem pre fiz questão de m anter a linha profissional com ele. Nunca dem onstrei nem ao m enos am izade, sem pre fui educada e atenciosa com o um a boa secretária. Nada m ais que isso.
— Senhor, com todo o respeito, o que eu faço ou deixo de fazer
fora do escritório é problem a m eu. O senhor não tem que ser a favor ou não. Eu só trabalho aqui, não é m eu dono.
— Bom , se você não seguir as regras da em presa serei forçado a
m andá-la em bora. — Colocou as m ãos enrugadas na cintura e ficou m e observando com a cara fechada.
— Regras? Não m e lem bro de ter lido isso no contrato. Mas se o
senhor continuar se m etendo onde não deve quem vai pedir dem issão sou eu. Nunca perm iti que ninguém interferisse na m inha vida. O senhor não será o prim eiro.
Ele ia abrir a boca para falar m ais algum a coisa quando a porta se
abriu, entrando um cliente. O doutor disfarçou e entrou em seu escritório, não antes de m e lançar um olhar estranho.
Não estava gostando nada daquilo, ele tinha sido sem pre m uito
educado. Eu nunca tinha dado m otivos para m e questionar daquela m aneira, nunca o tratei diferente do que m andavam a boa educação.
Em breve iria procurar outro em prego, aquele j á tinha m e levado
ao lim ite. Nem pensar em ficar num lugar que m e incom odava, e ficava na defensiva o tem po todo.
Depois de horas em m eio a arquivos e processos, chegou enfim
m eu horário de alm oço. Já estava de saída quando o doutor m e cham ou em sua sala. Fui relutante, assustada com o que ele poderia fazer. Estávam os sozinhos no escritório.
Bati na porta e a abri, ele estava sentado atrás da m esa com a
cabeça encostada no encosto da cadeira.
— Com licença, o senhor queria falar com igo?
Abriu os olhos e m e olhou de cim a a baixo, m e deixando
incom odada. Seus olhos vidrados fixaram na abertura da m inha blusa de seda.
— Você está indo alm oçar? — Assenti. — Quando voltar quero ter
um a conversa séria com você. Desm arque m eus prim eiros horários para que possam os conversar sem serm os interrom pidos.
Todos os m eus alarm es dispararam , não gostava nada do tom que
usou. Mas com o não tinha escapatória, por enquanto assenti e pedi licença. Já na rua, peguei m eu celular a fim de ligar para o m eu irm ão, não o via desde segunda à noite, j á que não dorm i em casa.
Disquei o núm ero do Lucas e aguardei, àquela hora ele devia estar
indo para o refeitório. Era tão corrida sua vida de estudos que eu ficava um pouco confusa com os seus horários.
— Fala, Lala.
— Você tá ocupado?
— Não, estou alm oçando.
— Ah, queria saber se você estava bem . Não te vi desde segunda-feira.
Pude ouvir seu sorriso e um a tosse, com o se estivesse tentando
disfarçar.
— É, eu sei. Você dorm iu fora ontem .
Droga, tudo o que não queria! Podia até parecer idiotice m inha,
m as não gostava de falar sobre aquilo com Lucas.
— É, saí com o Bruno ontem , eu te falei.
— Eu sei, Lala. Não estou te recrim inando, estava na hora de você
arrum ar um nam orado.
— Ah, m as não sei se estam os nam orando.
Ok, eu sou confusa.
— Lala, tudo bem . Eu sei que você passou a noite com ele e estou
feliz. Bruno parece um cara legal.
Se m eu irm ão m e visse agora não iria m e reconhecer. Eu estava
sentindo o m eu rosto pegar fogo. Nunca tinha conversado sobre essas coisas com ele. Não quis nenhum relacionam ento sério, e agora lá estava eu, falando sobre m eu nam orado. Devo ter ficado m uito tem po em silêncio, porque Lucas estava m e cham ando preocupado do outro lado da linha
— Oi, tô aqui. Distraí-m e um pouco, desculpa. Bom , eu tenho que
ir. Só queria falar contigo, hoj e tenho apresentação, não devem os nos encontrar.
— Ok. Am anhã vou dar um pulo no Beer. Com binei com Sabrina,
ela está m eio perdida nessa parte da cidade e pediu para acom panhá-la. Bruno vai estar de plantão até sábado.
— Hum , sei... Ok, te vej o no bar am anhã, então. Tenha um bom
dia, irm ão, estou m orrendo de saudades.
— Bom dia pra você tam bém , Lala. Te am o m uito. Você sabe, né?
Não podia evitar que m eus olhos se enchessem de lágrim as cada
vez que ele dizia que m e am ava.
— Eu sei, Luquinha. Beij o, tchau.
Desliguei o celular e voltei m inha atenção à rua. Ainda estava em
frente ao escritório, percebi que tinha pouco tem po para voltar ao trabalho. Corri até um a lanchonete por perto e sentei, esperando para fazer o m eu pedido. O que m e esperava essa tarde, tinha certeza: era só porcaria.
Deixei m inha m ente vagar um pouco do estresse que havia sido
aquela m anhã. Um sorriso despontou em m eu rosto com a lem brança do beij o no carro. Eu estava sendo um pouco diferente com Bruno. Talvez, essa seria realm ente a m inha personalidade. Um a m ulher despreocupada e sensual? Não tinha com o afirm ar com certeza, sem pre fui cheia de responsabilidades, não havia tido tem po de m e conhecer.
Mas era m uito bom m e soltar ao lado dele. Tive poucos am antes
na vida, m as nenhum m exeu com igo a ponto de querer um relacionam ento. Na verdade, sem pre fugi deste tipo de atração. Quando percebia um interesse m aior, logo m e afastava. Porém com ele foi inevitável. Foi um trem descarrilado que m e atropelou e nem vi de onde veio.
E quando Bruno disse para irm os devagar, “um relacionam ento
sem neuras”, logo abanou a bandeira verm elha do ciúm e na m inha frente. Morri de raiva só de im aginar a quantidade de m édicas e enferm eiras que deviam cair em sua cola. E não m e iludia quanto a isso, ele era lindo. Não tinha com o passar despercebido.
Então, decidi arriscar m esm o. Era tudo ou nada, m esm o sendo tão
cedo. Nem queria pensar no que passava dentro do m eu peito, ou era capaz de m e assustar e fugir com o um a louca. Meu m aior m edo era am ar e perder.
Sacudi esses pensam entos da m inha cabeça e foquei em m eu
alm oço, não podia m e distrair.
Tinha um confronto com o m eu chefe m e esperando.
***
Voltei ao escritório tensa, não gostava nada da ideia de estar com
ele sozinha num questionam ento chato sem cabim ento.
Estava tudo em silêncio, m as pude perceber o m ovim ento dele em
sua sala por debaixo da porta. Mal m e sentei e ele apareceu, m e cham ando com um m ovim ento no dedo. Que droga de atitude era aquela?!
Entrei e m e sentei, rígida. O doutor perm aneceu de pé ao lado da
m esa.
— Bom , o que eu quero te falar é o seguinte: você não vai poder se
encontrar m ais com esse suj eitinho que te trouxe aqui.
Arqueei as sobrancelhas, e m e deu um a vontade louca de rir. Só
podia ser brincadeira, m as não. Meu chefe estava estranho, descabelado e com um a cara de louco. Tentei soar o m ais calm a possível, afinal, a gente nunca sabe do que os outros são capazes.
— Senhor, eu não entendo o porquê deste dram a todo. O que eu
faço fora daqui não influencia no m eu trabalho.
— Não m e interessa. Você não vai m ais sair com ele —
esbravej ou, parecendo perder o controle a qualquer m inuto.
Acabou a graça para m im . Levantei-m e, pronta para sair e nunca
m ais pisar naquele escritório.
— Senhor, eu não adm ito que se envolva em m inha vida pessoal.
Peço a m inha dem issão, acerto as contas diretam ente pela contabilidade.
Virei-m e e tentei sair, m as ele m e puxou forte pelo braço, m e
fazendo cam balear. Doeu bastante, seus dedos apertavam m inha pele. Olhei o seu rosto, e ele tinha os olhos esbugalhados e turvos. Parecia um pouco louco.
— O quê? Você não pode m e deixar, Lay la. A gente tem m uito
que viver, não posso ficar sem te ver — ele soava louco e desesperado.
— Do que está falando? Eu trabalho para o senhor, só isso. Não há
nada para viverm os. Solta m eu braço que está m e m achucando.
Ele se aproxim ou e pude sentir cheiro de álcool em seu hálito.
Merda, não era um bom sinal.
— Não vou deixá-la ir — falou entre dentes. Tentou forçar m eu
rosto para m e beij ar.
Eu m e apavorei, educação não era m ais um a opção. Cravei
m inhas unhas em seu braço, forçando-o a m e soltar. Ele deu um grito e tentou se aproxim ar. Prevendo o seu m ovim ento, levantei o pé e afundei m eu salto em cim a do seu sapato.
— Se afaste de m im , senhor, senão vou gritar tão alto que vão
cham ar a polícia. Eu nunca dei nenhum m otivo para que tivesse expectativas ao m eu respeito.
— Você m e encantou com a sua voz. E agora fica se fazendo de
santa?
— Se o senhor apareceu no bar foi porque quis, nunca cantei para
você. Agora, não m e siga. Eu vou em bora e nunca m ais quero vê-lo na m inha frente. E não se atreva a aparecer no bar, j á vou deixar avisado com os seguranças.
Tentei m e m anter calm a, não podia m ostrar fraqueza. Apesar de
ele ser um velho, com certeza tinha m ais força do que eu. Peguei a m inha bolsa e saí o m ais depressa possível daquele lugar. Minhas m ãos trem iam enquanto ia para o ponto de ônibus. Nunca havia passado por algo sem elhante.
Ainda podia sentir as m ãos daquele hom em asqueroso em m eu
braço. Iria ficar roxo, com certeza. Ele era um louco varrido. Merda, que situação horrível. Estava envergonhada de que podia, sem querer, ter provocado aquela atitude.
Quase tive um ataque de ansiedade. Minha respiração saía forte e
estava com a sensação de sufocam ento. A única coisa que m e acalm ava um pouco era saber que em três dias poderia ver o Bruno outra vez, com certeza m e sentiria m ais segura em seus braços.
Porém ainda tentaria esconder de todos, era hum ilhante o que
passei.