Inspiração
Capítulo 37
Layla
— Preciso conversar com você — falei assim que Lucas pisou na
cozinha, j á arrum ado para a faculdade.
Ainda tinha um a carranca em seu rosto. Mas, se ele queria ser
adulto e independente, iria tratá-lo com o tal, quando se tem responsabilidades não im porta se você está chateado ou com raiva, tem que encarar os problem as de frente.
— Pode falar — sentou no banquinho com um bufo audível.
— Você pode desam arrar essa trom ba. Já aconteceu e acabou,
não sej a um m enino m im ado.
Lucas abriu a boca e fechou novam ente. Não estava acostum ado a
m e ouvir assim , procurei ser sem pre gentil, m as estava na hora dele ficar ciente da realidade. Conversei m uito com Bruno antes de ele ir para o hospital, com binam os tudo o que faríam os. Decidi resolver as coisas prim eiram ente aqui e só depois iria pra casa dele.
— Bruno m e convidou para m orar com ele e eu aceitei. Nós gostaríam os m uito que você viesse conosco.
A princípio ele não m ostrou nenhum a reação. Ficou parado m e
olhando, m as depois sorriu — algo que eu não esperava —, se postou ao m eu lado e m e abraçou carinhosam ente. Eu só fiz o de sem pre, envolvi m eu irm ãozinho nos m eus braços.
— Estou feliz por você, Lay la. Se há alguém que m erece ser feliz
é você, m e desculpe por ontem . Fiquei m agoado e chateado, m as foi com igo m esm o.
Lágrim as se form aram em m eus olhos, estávam os j untos há anos.
Só nós dois, sem pre fom os m uito unidos e cúm plices. Mas há algum tem po as coisas m udaram , ele ficou m ais fechado. Devia ser porque se tornou hom em .
— Obrigada. Você vem conosco? — Tinha esperança dele não
querer se separar de m im , m as sabia que não seria possível.
Bruno disse que ele precisava de espaço e eu concordava.
Arriscava o palpite que se eu não fosse sair, ele iria arrum ar algum a m aneira de ir por conta própria.
Lucas respirou fundo e encostou a cabeça sobre a m inha.
— Não, Lala. Tá na hora de viver por m im m esm o. Tenho que
deixar você livre, j á fui um a carga m uito grande.
As lágrim as que estavam se form ando, desceram por m eu rosto,
m eu coração estava oprim ido antes da hora, só com a m enção de m e separar do m eu irm ão. Meu único am igo, com panheiro de luta. Sim , porque nossa vida não foi nada fácil.
— Mas com o você vai sobreviver? E a faculdade? — Ouvi sua risada e olhei pra cim a.
Meu irm ão tam bém estava chorando, autom aticam ente levei
m inha m ão para enxugar seu rosto bonito. Não gostava de vê-lo assim . Mas tam bém havia um sorriso divertido em seu rosto.
— Só você m inha irm ã, se preocupa com tudo. Eu vou ficar bem ,
a bolsa que Bruno conseguiu é integral e não vou m ais precisar pagar a faculdade, devido às boas notas que tirei nesses três períodos, não foi difícil conseguir que o reitor aceitasse. E foi oferecido um trabalho rem unerado com ele, o hospital precisa de assistentes. Então não precisa se preocupar.
Olhando para o rosto feliz do m eu irm ão, vi que havia feito a
escolha certa. Ele precisava de um a vida própria. Adm ito que fosse superprotetora dem ais, m as quando se tem um a criança de cinco anos sob seus cuidados sendo que você ainda é m uito j ovem , acaba agindo com cautela.
E o am or que sentia pelo Bruno só aum entou, ele não só havia
conseguido um a bolsa para o m eu irm ão — com m erecim ento —, m as tam bém m eios para que ele não ficasse sem rem uneração. E m esm o não gostando m uito da ideia, percebi que Lucas estava m uito feliz.
— Você vai ficar bem , né? — Não ficam os separados desde o dia
que ele nasceu. Já sentia saudades dem ais.
— O que você acha? Vou poder trazer um m onte de gatinhas pra
cá. — Tinha um sorriso brincalhão em seu rosto.
Dei um soco de brincadeira em seu braço e balancei a cabeça,
porém eu sabia que eventualm ente isso iria acontecer. Ele era um garoto m uito bonito, além de ser gentil. Caras assim não ficavam sozinhos por m uito tem po. Teria que m e acostum ar ao m eu irm ãozinho nam orando.
— Me poupe, Lucas. Inform ação dem ais.
— Então... Quando você vai se m udar?
Uau, ele estava bem apressadinho. Enxuguei m inhas lágrim as e
sentei ereta novam ente, voltando para o café. Lucas deu a volta e se acom odou m e acom panhando.
— Ele quer o m ais breve possível. Fiquei de resolver com você
sobre as contas e depois m e m udar. Você não acha m uito cedo?
Meu irm ão sorriu por cim a da xícara e a apoiou na bancada.
— Lay la, vocês foram com o duas dinam ites. Fiquei até com m edo
de m e tornar titio antes da hora.
Uh, m e deu um frio na barriga. Mas não era um a coisa ruim ,
pensar em ter um bebê do Bruno com seus olhos azuis, aquecia m eu coração.
— Não conseguim os ficar separados. — Ainda ficava
envergonhada de falar sobre essas coisas com m eu irm ão.
— Eu entendo o sentim ento. Mas, sobre as contas... O que precisa
resolver?
— Eu vou receber um dinheiro bom da m inha saída do escritório.
Quero que fique com m etade.
Lucas levantou-se subitam ente derrubando o banquinho no chão,
fazendo um estrondo.
— Não, Lala. Eu não quero nada que venha daquele velho.
— Você não vai ter nada dele, o dinheiro é m eu. Direitos que
recebi porque trabalhei, e quero deixar você confortável por pelo m enos alguns m eses. Por favor, não m e deixe m ais preocupada. Preciso saber que você ficará bem . — Eu sabia que devia estar fazendo cara de pidona, m as era o único j eito dele aceitar m inha aj uda. Lucas havia se tornado um hom em m uito orgulhoso.
— Ok. Mas só dessa vez, porque depois eu vou viver sob as m inhas
custas.
Assenti e voltam os ao nosso café. Sentiria falta daquilo tam bém .
Então lem brei que duas datas se aproxim avam : um a de felicidade, m eu irm ão com pletaria vinte e um anos; e outra, que m arcou m inha vida pra sem pre que, por incrível que pudesse parecer, eu havia esquecido.
— Estou querendo ir ver m am ãe e papai hoj e. Não quero ir
próxim o ao seu aniversário.
Lucas parou com a torrada a m eio cam inho da boca e m e olhou
surpreso. Eu não tocava nesse assunto há m uito tem po, nunca havia pedido para que m e acom panhasse, pois era um a m aneira de protegê-lo. Mas eu sabia que ele ia sozinho, m esm o não se lem brando m uito bem do nosso pai fazia questão de levar flores todos os anos. Meu pai m orreu dois dias antes do aniversario de seis anos do m eu irm ão.
— Quero fazer um a festa pra você. Já com binei com o Bruno, vai
ser um a espécie de bota fora. — Ele assentiu. — Hoj e, você pode m e acom panhar ao cem itério?
Ele olhou pra m im com seus olhos brilhando, sabia o que se
passava por sua cabeça. A últim a vez que fom os j untos foi quando nos despedim os da nossa m ãe. Era a única coisa que fazia sozinha, deixando-o de lado, não ficava confortável em chorar na sua frente.
— Claro. Você quer ir agora? Só tenho aula m ais tarde.
— Vam os então.
Levantei-m e e peguei m inha bolsa no quarto. Não estávam os num
clim a am eno de brincadeiras, agora era tenso. Melancólico. Lucas m e esperava na sala com sua m ochila nas costas, tinha a cabeça baixa e olhava o celular em sua m ão.
Peguei sua m ão e olhei naqueles m esm os olhos, que quando
m enino eu quis proteger de todo o m al.
— Vam os ficar bem , ok? — Ele não ficava confortável indo lá.
Quem ficaria? Era um lugar que só havia tristeza. Decidi pegar um
táxi, j á que não era longe ficaria barato. Na esquina havia um ponto, cam inham os de m ãos dadas e encontram os um carro disponível. Durante todo o percurso, ficam os em silêncio, apoiando um ao outro com o sem pre.
Paguei ao taxista e param os em frente ao portão, olhei m eu irm ão
que j á tinha lágrim as em seu rosto. Lem brei-m e do m eu m enininho debaixo daquela m esa e m inha garganta se apertou. Abracei sua cintura e o im pulsionei para frente. Quanto m ais cedo acabássem os com isso, m ais rápido iríam os pra casa.
Lucas j á estava soluçando quando chegam os à lápide de nossos
pais, que tinham o m esm o epitáfio: Pais amados, que seu amor prevaleça por toda a eternidade. De seus filhos, Layla e Lucas.
Há m uito tem po não m e deixava chorar por causa deles, com o
quando criança deveria ter feito e m e segurei. Naquele m om ento foi im possível, caí de j oelhos na gram a e abaixei a cabeça soluçando.
Lem brava-m e do sorriso do m eu pai ao m e ver cantar. Da alegria
da m inha m ãe quando ele nos trazia flores todos os dom ingos, dizendo que belas m ulheres m ereciam lindas rosas. Quando cism ou de ensinar Lucas a j ogar bola, que foi um desastre, m as m eu irm ão ficou tão feliz que ainda podia ouvir suas gargalhadas de bebê.
Lucas se aj oelhou ao m eu lado e m e abraçou apertado, m e
aconcheguei em seus braços e deixei as lágrim as de saudade livres. Meu coração estava oprim ido, m eus pais se foram m uito cedo, m as deixaram lem branças m aravilhosas.
Houve um Natal que m eu pai se vestiu de Papai Noel e m inha
m ãe de Mam ãe Noel. Fiquei assustada em acordar sozinha procurando por eles, m as logo que irrom peram pela porta com brinquedos e doces tive a m aior alegria. Meu irm ão tinha três anos e ficou m uito feliz por ganhar tanta coisa, ainda m e lem brava de seus olhinhos brilhando e seus gritos a cada presente aberto.
Olhei para o lado e um a brisa levantou folhas pelo chão, senti
alivio em m eu peito. Um aconchego que há m uito não experim entava. Ouvi um leve m urm úrio do m eu pai cantando para eu dorm ir, sorri ao im aginar que, talvez por algum a obra de Deus, eles estavam ali nos vendo j untos, com o tinha certeza que sem pre desej aram . Deixei m eu coração leve de toda a carga que levei, m inha tristeza foi j unto com a brisa. Finalm ente, eu estava feliz.
Roguei aos céus que um dia, quem sabe, encontrasse m eus pais
novam ente. Sentia m uitas saudades.
Fechei os olhos e fiz um a prece de agradecim ento, não queria
pedir nada.
— Lay la, você lem bra quando ganhou aquele concurso de canto
na escola, que papai nos levou a um a pizzaria e disse que você seria incrível?
Fiquei surpresa que ele se recordasse, era m uito j ovem . Porém
m eu pai era um hom em difícil de esquecer.
— Lem bro sim , m am ãe ficou tão anim ada. E você com eu tanto
que quase foi parar no hospital.
Ele sorriu em m eio às lágrim as e acariciou m eu braço, m e
confortando.
— Ele disse um a coisa que nunca vou m e esquecer. Mesm o sendo
tão pequeno, aquilo ficou gravado em m inha m em ória. É um a das poucas lem branças que tenho dele. — Lucas tinha a voz em bargada de em oção. E m inhas lágrim as com eçaram a se form ar em antecipação.
— O que foi?
— Quando eu tive que ir ao banheiro, ele m e levou pela m ão e,
quando chegam os lá, ele se agachou à m inha altura e disse: “Meu filho, tenha a sua irmã sempre perto de você, nunca a deixe sofrer. Ela é uma menina muito doce, você é o homem da casa. Proteja-a, cuide dela para que seja feliz”. Eu tom ei aquilo com o algo que nunca pude cum prir, afinal, foi você que sem pre cuidou de m im . Por isso fiquei tão irado quando descobri sobre seu ataque.
— Aí que você se engana, Lucas. Só por não m e deixar sozinha,
por m e am ar de volta foi a m aneira m ais linda que poderia haver de cuidar de m im . Nosso pai estaria orgulhoso do hom em que você se tornou. Não m enospreze a confiança dele, você fez o seu m elhor. Eu só tenho a agradecer pelo irm ão m aravilhoso que m e deram .
Ele engoliu em seco e assentiu abrindo um sorriso.
— Agora você não está m ais sozinha. Está feliz, m inha irm ã? Com
o Bruno?
— Eu nunca im aginei encontrar um am or, Lucas. Achava que m e
bastava ter você e m inha m úsica. Mas realm ente não im agino recom pensa m elhor do que o am or daquele hom em .
Ele balançou a cabeça, e um sorriso agradecido se form ou em seu
rosto bonito.
— Eu nunca falei nada pra vocês porque acho que ele não m e
reconheceu. Mas foi o Bruno que fez m inha cirurgia. Ele foi o m édico que salvou m inha vida. Não te disse antes porque você estava confusa e não queria te influenciar de m aneira algum a. Contudo, achei que j á estava na hora de você saber.
— Oh, Deus. E ele nunca te disse nada?
— Não, Lala. São m uitos pacientes, é natural você confundir
rostos. Mas o que eu quero que fique claro pra você, é o quanto você acertou em cheio e não precisa ter m edo. Bruno é um hom em m uito bom . Sem vocês saberem , o destino arrum ou um a m aneira de j untá-los. Fico feliz por m inha irm ã estar em tão boas m ãos.
Minha alm a estava cheia do m ais puro am or. Estava louca para
encontrar o causador de tanta alegria em m inha vida.
Lucas sorriu e se levantou estendendo a m ão. Dei um a últim a
olhada aonde j aziam m eus pais e senti um a paz em m eu coração. Levantei e fui em direção ao m eu futuro, m eu irm ão estaria sem pre ao m eu lado. Mas agora era a m inha vez de viver.