Inspiração

Gisele Souza · Capítulo 26 de 46

Páginas do PDF

Inspiração

Capítulo 23

 

Layla

 

A fam ília do Bruno era m uito barulhenta. Não estava acostum ada

a um a reunião tão grande, prim eiram ente eram som ente as m eninas e as crianças, depois foi chegando os vizinhos, que queriam ver a m ulher que tinha colocado a coleira no grande “pulador”, com o eles o cham avam .

Ainda tinha uns prim os e tios, que não perderam a chance de zoar

com a cara do Bruno. Ele até levou num a boa, aceitou os tapinhas nas costas com um sorriso no rosto. Com o prom etido, não saiu do m eu lado, parecia não conseguir tirar as m ãos de m im . O tem po todo m e acariciava enquanto escutava qualquer besteira que o cunhado dizia. O m arido da Larissa tinha aparecido exatam ente na hora do alm oço. Ele disse que sentia o cheiro do frango assado da dona Marisa de longe.

Maurício parecia um cara casca grossa por fora, m as era um

brincalhão. Tinha os cabelos espetados, era forte e m usculoso. A irm ã m ais velha do Bruno parecia m iúda perto dele, pois para m im ele era com parado a um urso. Mas o que m e encantou na relação do casal era que você podia ver o am or que tinham um pelo outro, a devoção que dem onstravam era linda de se ver. Mesm o com o tem po longo de relacionam ento, pareciam dois nam orados.

Lucas se enturm ou geral, m e surpreendi com o m eu irm ão.

Parecia sem pre tím ido e retraído, porém se m ostrou um verdadeiro galanteador. As m eninas que m oravam nas casas vizinhas vieram e não foram m ais em bora. Tinha um círculo de garotas em volta dele. Sabrina estava com um a trom ba do tam anho do m undo, fuzilava todas com o seu olhar azul m ortal.

Então, subitam ente, um a garota se aproxim ou dem ais e Sabrina

agiu. Se foi por im pulso eu não soube dizer, m as ela se levantou de sua cadeira ao lado da piscina e cam inhou vagarosam ente, com os olhos grudados na loirinha que flertava descaradam ente com o Lucas.

Chegou ao lado dela e se abaixou, sussurrando no ouvido da

m enina, que deu de om bros e voltou a se esfregar no m eu irm ão. Sabrina estreitou os olhos e em purrou a garota com cadeira e tudo dentro da piscina. Quando ela em ergiu, com eçou a gritar e xingar feito um a louca desvairada.

Sabrina colocou as m ãos no quadril e gritou de volta para que

ficasse bem longe do Lucas, depois se virou para ele e, com o dedo em riste, disse para que se danasse. Saiu pisando duro em direção à casa, batendo portas no cam inho. Após o episódio, todos ficaram de boca aberta, sem saber o que fazer. A garota saiu da piscina m olhada até a alm a e foi em bora, fum egando.

E o m eu irm ão? Ele estava com um sorriso estúpido no rosto, e

seus olhos verdes estavam brilhando. Levantei-m e e fui ao encontro daquele paspalho. Eu estava bem na sua frente, m as Lucas parecia não perceber. Tinha o olhar vidrado por onde Sabrina tinha sum ido. Tanto para criá-lo bem e ficava com o um bobo parado, quando a m enina que ele gostava tinha a crise de ciúm es do século.

— O que você ainda está fazendo aqui?

Ele piscou e m e olhou com o se fosse a prim eira vez que m e via.

Bufei, hom ens são todos uns idiotas.

— Com o assim , Lala? — Parecia realm ente confuso.

— A garota faz um a cena de ciúm es por sua causa e você fica

parado aqui igual a um m ané? Vai atrás dela! Será que não te ensinei tudo sobre m eninas?

Lucas arregalou os olhos e balançou a cabeça, sorrindo. Levantou-

se e correu para a casa. Apesar de toda a m inha relutância com relação aos dois, acabei percebendo que o m eu irm ão não era m ais um a criança. E, com o adulto, poderia resolver suas coisas sem a m inha interferência. Já estava na hora de deixá-lo voar, m esm o que m e doesse vê-lo se m achucando no cam inho.

Bruno sorria e balançava a cabeça em descrença. Sabrina era um

foguetinho. Cam inhei até ele e sentei no m eio das suas pernas abertas, enlaçando m eus dedos em seu pescoço. Não cansava de adm irar seus olhos azuis tão lindos. Aproxim ei-m e e beij ei sua boca levem ente, não m e fartaria nunca de seus lábios firm es e m acios. Afastei-m e e abri os olhos.

Ele tinha um a expressão de contentam ento puro por estar no m eio

das pessoas que am ava. Desde que chegam os percebi o carinho que rolava entre a sua fam ília. Fiquei orgulhosa ao perceber que m eu nam orado era lindo por dentro e por fora. Pensar naqueles sentim entos que havia dentro de m im m e dava um frio na barriga. Quando ele disse à sua m ãe que nos am ava quase m orri, podia ser que tivesse saído sem querer, que foi apenas um m odo de falar, m as o m eu coração disparou e não voltou ao seu ritm o norm al. Depois de observá-lo interagindo com tanta gente e sendo tão sim pático, ver o sorriso em seu rosto quando brincava com os sobrinhos, constatei um a coisa que devia ter desconfiado: eu o am ava!

E tinha m uito m edo de tudo o que isso acarretava. Não gostaria de

perder algo tão bonito com o o que estava sentindo.

— Por que está franzindo a testa desse j eito, Anj o? — Bruno

acariciou o m eu rosto com o dorso da m ão. Inclinei-m e na direção do seu toque autom aticam ente, era com o um a droga no m eu sistem a, não podia recusar.

— Estou feliz, nunca tinha interagido com tanta gente assim .

Obrigada, Bruno. — Estava em ocionada com a receptividade da sua fam ília.

Ele sorriu lindam ente, e deu um selinho na ponta do m eu nariz.

— Você é incrível, Anj o. Estão todos encantados contigo, e ainda

m e agradece? — Me puxou pela nuca e m e beij ou deliciosam ente, sua língua quente acariciava a m inha num m ovim ento sensual. Afastou-se e m e olhou com os olhos brilhando de desej o. Eu j á o conhecia bem . — Eu que devo agradecer por ter ido ao bar naquele dia. Não queria sair de casa, tinha term inado um plantão prolongado e chato, m as, quando o Alberto insistiu para que eu fosse, pensei em apenas aproveitar um a noite com os m eus am igos. Acabei encontrando o anj o da m inha vida.

Engoli em seco. Se o m eu coração estava disparado antes, agora

parecia que tinha um a escola de sam ba dentro de m im . Já no m eu estôm ago, havia m il borboletas batendo suas asinhas. Resolvi brincar um pouco para distrair da m inha reação, era m uito insegura para adm itir qualquer coisa ainda.

— Sei, você foi só por seus am igos... E aquela loira siliconada que

eu vi grudada no seu braço? — Levantei um a sobrancelha, e ele riu.

— Hum , você reparou bastante em m im , né? — Revirei os olhos e

sorri. — Letícia é alguém que saí há algum tem po e que é chata dem ais. Quando Alberto quer m e irritar, ele a cham a para grudar em m im .

— É, ela parecia um pouco íntim a m esm o.

Bruno m e lançou um sorriso presunçoso e apertou a m inha

bochecha.

— Você ficou com ciúm es, Anj o? — Ele se inclinou e sussurrou

em m eu ouvido: — Eu fiquei louco com aquela m úsica que você estava cantando. Não conseguia desgrudar os olhos dessa sua boca linda e sua voz rouca m e levou ao delírio. — Mordiscou o lóbulo da m inha orelha e lam beu o m eu pescoço. — Você sabe? Naquele dia tive um a fantasia: você sentada num banquinho, nua, com um violão em seu colo, tocando um a m úsica sexy só pra m im .

Eu tive que apertar as coxas j untas para aliviar a dor que sentia,

aquela fantasia m e pegou em cheio. Virei o rosto e encostei a boca em seu pescoço, raspei os m eus dentes e vi a sua pele se arrepiando.

— Hum , posso pensar em realizar essa sua fantasia. Nada seria

m ais prazeroso do que ver você se contorcendo de tesão com a m inha voz. Acho que seria um a via de m ão dupla.

Ele se afastou e encostou sua testa na m inha. Seus olhos estavam

escuros, era o prim eiro sinal de que estava ligado.

— Você vai m e m atar, m ulher. Se não fosse por essa gente toda eu

ia te levar pro m eu antigo quarto e te foder até am anhã.

Ficávam os tão ligados um no outro que perdem os a noção de onde

estávam os. Quando percebi, j á estava quase sentada no colo dele e provavelm ente as pessoas nos observavam .

— Fica calm o, garanhão. Tem os m uito tem po para realizar essa

sua fantasia. — Sorri e o beij ei estalado.

Virei e m e encostei em seu peito m usculoso. Ele m e abraçou,

apoiando o queixo na m inha cabeça. Ficam os ali um tem po, apenas curtindo a com panhia um do outro. Avistei Ana Luiza vindo em nossa direção com um violão na m ão. Senti os m eus dedos form igando com a vontade de tocar.

Ela parou em frente à espreguiçadeira com um sorriso no rosto.

— Canta pra gente?

Sorri e balancei a cabeça.

— Só se m e acom panhar, fiquei sabendo que você canta tam bém .

Ana estreitou os olhos e fuzilou Bruno, sabendo quem a tinha

delatado.

— Ok, não canto tão bem quanto você... Mas posso escolher a

m úsica?

— Claro. Qual você quer?

— Shania Twain, Man! I Feel Like a Woman, porque é um a m úsica

especial para m im . Marcou um a fase na qual m e libertei de certos pré-conceitos...

Levantei um a sobrancelha e concordei na hora. Dei um tchauzinho

para o Bruno e a acom panhei enquanto ela reunia o pessoal.

Sentei-m e em um a cadeira em frente à piscina e afinei o

instrum ento, pelo tem po que estava parado até que fazia um bom som . Ana reuniu os vizinhos e parentes, sentou ao m eu lado e sorriu. Bruno estava encostado num a pilastra ao lado da varanda, nos observando atentam ente.

— Eu com eço a prim eira estrofe e cantam os o refrão j untas, a

segunda parte é sua.

Com ecei a introdução. Aquela m úsica era m uito legal, falava de

um a m ulher se divertindo e se deixando levar no ritm o que quiser. Então, relaxei e cantei com tudo.

Quando chegou sua vez, sinalizei para que ela m e acom panhasse

no refrão, e cara, quando abriu a boca e soltou sua voz, quase perdi o ritm o. Era m aravilhosa, rouca no tim bre certo, e totalm ente afinado para o estilo country de Shania Twain.

Ana cantou a segunda parte sorrindo, e a deixei levar pela

em oção, parecia se divertir cantando aquela m úsica. Ela era com o o Bruno: sarcástica e brincalhona, m as tinha certeza de que por dentro era doce. Só não gostava de dem onstrar. Derram ava todo o seu sentim ento enquanto cantava, e senti que queria m andar um recado a alguém . Talvez fosse o tal pré-conceito que ela m encionou. Não saberia dizer para quem , m as estava arrasando.

Finalizam os, e eu a abracei. Foi um pouco im pulsivo da m inha

parte. Não costum ava dem onstrar m eus sentim entos em público, m as m e sentia alguém diferente j unto com essas pessoas, parecia parte da fam ília.

— Garota, você canta m uito! Espero que se apresente no Beer

com igo algum dia.

— Que é isso, só dou um a arranhada. Mas quem sabe um dia

anim o de ir ao bar? Muito obrigada, Lay la. Eu estava precisando cantar um pouco. — Me deu um beij o no rosto e se afastou. Dona Marisa tinha lágrim as nos olhos e sorriu para m im , agradecida.

Peguei um vislum bre do Bruno com os braços cruzados, m e

olhando intensam ente. Não podia esconder a m inha reação a ele: era sem pre m uito intenso o que sentia quando via seus olhos azuis grudados em m im .

Depois de atender a alguns pedidos, m e levantei e fui em direção

ao m eu m édico delicioso. Já estava na hora de ir para casa, ainda tinha apresentação no bar.

Ele levantou e veio ao m eu encontro. Enlaçou a m inha cintura e

segurou o m eu queixo com um a m ão.

— Você é linda, Lay la. Eu não sei o que fiz para m erecer alguém

com o você, m as vou fazer o possível para não te perder. — Se aproxim ou e m e deu um beij o m olhado nos lábios.

Olhei em seus olhos e m e perdi. Se havia algum lugar onde eu

pertencia, era ao lado dele.

— Você m e leva em casa? Preciso m e trocar para ir ao Beer.

Ele assentiu, e sua expressão ficou estranha. Parecia decepcionado

com algum a coisa que eu disse, ou deixei de dizer. Não podia expor os m eus sentim entos, não ainda. Tinha m edo dem ais.

Fom os à cozinha nos despedir da m ãe do Bruno. Eu tinha m e

apaixonado por ela, além de ser sim pática era carinhosa. Ela estava m exendo em suas panelas, devia estar preparando a j anta. Quando nos ouviu sorriu am plam ente.

— Mãe, nós j á estam os indo. Lay la tem que se aprontar para

cantar no bar.

— Ah, m as que pena! Querida, apareça m ais vezes, adoram os te

conhecer.

Assenti e a abracei, realm ente tinha apreciado conhecer todo

m undo, fazer parte daquela fam ília seria m uito legal. Me despedi do resto do pessoal e procurei por Lucas, que havia sum ido desde o episódio com Sabrina. Ana disse que ela tinha saído com ele de carro. Nem m e preocupei, afinal ele não era inocente, certo?

Acom panhei Bruno até o carro, com as nossas m ãos entrelaçadas.

Ele estava silencioso e estranho. Não estava acostum ada a vê-lo daquele j eito. Ainda tinha um as três horas antes de ir ao bar, ia convidá-lo para entrar e aproveitar que estávam os sozinhos.

Ele percorreu, tenso e arredio, todo o cam inho, eu podia ver um

m úsculo saltando em sua m andíbula. Seus olhos estavam presos na estrada, e segurava o volante com força. Quando chegam os em frente à m inha casa, Bruno nem olhou para m im .

— O que tá acontecendo, Bruno? Você vai entrar?

Ele negou e continuou com o olhar fixo num ponto do painel. Para

m im , j á bastava daquela m erda. Aproxim ei-m e e segurei o seu queixo, forçando-o a olhar para m im . Bruno tinha os olhos azuis frios e tristes.

— Me fala o que foi, porra! Eu não posso adivinhar. O que eu fiz?

— Nunca havia m e descontrolado daquela m aneira, m as sua indiferença m e m achucava dem ais.

Prendeu os lábios num a linha fina e soltou o volante, m e

abraçando forte.

— Merda, estou parecendo a garotinha aqui. Desculpe, Anj o. Não

vou continuar sendo um otário.

Em purrei seu peito, m e afastando do seu abraço.

— Não venha m e distrair, você vai m e dizer o que está

acontecendo.

Bruno suspirou e apoiou a cabeça no encosto do banco.

— É idiotice m inha... Mas, quando eu digo o que estou sentindo, na

m aioria das vezes você desconversa, m uda de assunto. Estou inseguro, ok? Nunca aconteceram essas coisas com igo, não quero pressionar, porém não m e sinto m uito bem falando o que há no m eu coração e você não dizer nada.

Engoli em seco e olhei pela j anela. Se eu não dissesse o que sentia,

corria o risco de ele ficar chateado. Passam os dias sem nos ver, só queria aproveitar os m om entos em que estávam os j untos.

Mas, antes de qualquer coisa, ele não tinha sido totalm ente claro

sobre o que sentia. Algum as insinuações sim , m as não a coisa real.

— E o que você sente, Bruno?

Virei o rosto e encontrei um par de olhos azuis brilhantes. Ele

estava sério com o nunca tinha visto.

— Eu am o você, porra!