Inspiração

Gisele Souza · Capítulo 35 de 46

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Inspiração

Capítulo 32

 

Bruno

 

É engraçado, quando você está apaixonado tudo que você faz e

pensa tem que ser relacionado ao ser causador da sua alegria. Nada na m inha vida seria igual depois da Lay la. Eu enxergava tudo de um a m aneira totalm ente distinta. Não se passava um segundo em que flashes dos m om entos que passam os j untos não viessem à m inha cabeça, m e atorm entando.

Em certo m om ento m e am aldiçoei totalm ente por ter sido um tolo,

deixei-m e levar por um sentim ento arrebatador que arrancou m eu coração. Minha existência dependia do seu sorriso lindo, dos olhos brilhantes e da voz rouca que encantava a todos. Em outro m om ento, eu a am aldiçoava por acreditar tão fácil num a vagabunda com o aquela. Devia ter tido m ais confiança em m im do que num a desconhecida.

Sabia que estava num hum or do cão, porém não poderia fazer

nada sobre isso. Um dia havia se passado e parecia um a eternidade. Ainda bem que tinha m eus pacientes que m e distraíam .

Resolvi procurar o chefe do conselho do hospital e ver qual seria

sua posição quanto a Andressa, j á que ele não estava presente no dia anterior. Os funcionários m e observavam enquanto eu andava pelo corredor. Claro, o show que havia feito foi digno de fofocas por um bom tem po.

Bati levem ente na porta do diretor e aguardei, logo foi aberta pelo

m eu m estre na residência, Dr. Ricardo Vieira, que não tinha um a expressão m uito boa.

— Bruno, que confusão você arrum ou... Quem diria que seria por

causa de um rabo de saia! — Seus olhos estavam brilhando, em reprovação.

O cara era um solteiro convicto, tinha por volta de cinquenta anos

e nunca se envolvia com ninguém por m ais de alguns dias. Nunca entenderia o que eu estava sentindo no m om ento. Ter Lay la longe era a pior m erda que poderia ter feito. Mesm o que tenha sido por decisão m inha.

— Não fale assim dela... Porém não vem ao caso, não foi por isso

que vim . O assunto é sério. Andressa passou dos lim ites, tem que ser punida. — Eu quase cuspia o nom e daquela m ulher. Não queria esbarrar com aquela víbora nunca m ais.

Ricardo deu um suspiro profundo e m e olhou com um a carranca

que j á conhecia bem . Ele estava chateado. Foda-se, eu tam bém !

— Entra, Bruno. Não vam os fazer m ais barraco no corredor.

Ele m e deu passagem e entrei m e acom odando na cadeira em

frente à sua m esa. Apoiei um a m ão no queixo e observei m eu antigo m entor se sentando e m e observando atentam ente.

— O que você quer exatam ente que o conselho faça?

— Dem ita aquela vaca! — Pra m im não havia outra opção.

Ele arqueou um a sobrancelha.

— Andressa é bonita. Tem certeza que não quer repensar? Talvez

você estej a apenas confuso. — Seu sorriso debochado quase m e tirou do sério.

— Não, Ricardo. Preferia arrancar m inhas m ãos a tocar naquela

m ulher. E te aconselho a fazer o m esm o. Aquilo é chave de cadeia. A situação é a seguinte, com o relatei pra quem estava de plantão: ela provocou um surto num a m ulher e recusou atendim ento. Isso vai totalm ente contra a nossa ética profissional. Quem m e garante que ela não fará isso na UTI?

Ricardo cruzou as duas m ãos, que estavam apoiadas na m esa,

pensativo.

— Realm ente é um a preocupação. Mas essa garota, pelo que

soube, era sua nam orada ou algo assim ?

— Sim , era — engoli em seco, com a perspectiva de Lay la não

ser m ais m inha.

— Era? Depois de ter feito todo aquele escândalo, você a

dispensou?

— Não que sej a da sua conta... m as eu não adm ito que duvidem

de m im . Com o ela pôde acreditar em alguém desconhecido?

— Cara, eu não te ensinei nada? Com o ela ia acreditar? Um a

desconhecida vem e fala da sua antiga fam a. O que a garota iria pensar?

Sim , eu entendia. Mas m eu orgulho filho-da-puta-m asculino

gritava alto em m inha cabeça, fazendo-m e prender os pés no chão e não ir correndo atrás dela com o era a m inha vontade.

— Tá, deixa m inha vida pessoal de lado. Você vai tom ar algum a

providência em relação à Andressa?

Ele suspirou pesadam ente, balançando a cabeça.

— Olha, vou ver o que fazer. O conselho vai se reunir em três dias

pra resolver. Enquanto isso ela continua trabalhando.

Com prim i os lábios para não falar nenhum a m erda. Iria tentar

evitar ao m áxim o passar pela UTI. Se eu visse aquela m ulher, nem sei o que faria.

— Agradeço, Ricardo. Vou aguardar seu retorno.

— Ok, se cuida.

Assenti e m e levantei. Antes de sair, ele m e parou com a m ão.

— Só um a coisa, Bruno. Não espera m uito tem po pra resolver essa

m erda de orgulho que tem aí dentro. A vida passa m uito rápido.

Nem respondi, saí apressado da sala. O que tinha das pessoas

quererem dar conselhos quando estávam os na pior. Eu não queria ouvir ninguém , estava m e afundando em m ágoa e era ali que queria ficar.

Eu m ais do que ninguém sabia com o doía ficar longe do m eu anj o.

Nunca havia nam orado sério e estava m e sentindo um idiota por ter m e entregado tão depressa. Não era um a coisa boa se achar um babaca total.

Fui m e preparar para a m inha próxim a cirurgia. Coisa sim ples,

porém m inha cabeça estava a m il. No m eio do cam inho, um flashback m e acossou e quase m e derrubou de j oelhos. Revivi nossa prim eira noite j untos. Tentei desviar a atenção daquilo, pois doía dem ais. Contudo parecia ser algo fora do m eu controle.

Senti suas m ãos em m im novam ente. Sua voz doce de anj o gritando m eu nom e enquanto eu afundava dentro do calor do seu corpo. E m e m aravilhei com tudo o que senti novam ente.

Naquele dia, nós m al nos conhecíam os. Foi algo assustador e que

não tive nenhum controle. Foi m ais do que sexo, tenho certeza que para Lay la tam bém . Depois nos envolvem os tão rapidam ente que nem tive m aneira de fugir, com o estava acostum ado. Na verdade, não quis m e afastar. Pela prim eira vez na vida soube onde era o m eu lugar. E ela tinha que desconfiar de m im tão facilm ente?

Para m im a base de um relacionam ento é a confiança. Nem o

benefício da dúvida eu tive. Foram acusações logo de cara.

Balancei a cabeça e tentei m e concentrar no trabalho, era o

m elhor a ser feito no m om ento.

Entrei na sala de higienização e olhei m inhas m ãos sendo lavadas.

Observei atentam ente a água escorrendo entre m eus dedos. Minha m ente estava em outro lugar, especificam ente em um par de olhos verdes brilhantes.

O que ela estava fazendo? Havia dado um descanso de no m ínim o

quatro dias, para que ficasse em casa em repouso. Será que realm ente tinha seguido m inhas instruções?

Tentei controlar o im pulso de telefonar e saber do seu bem -estar.

Meu coração acelerou com a ideia. Decidi então term inar rapidam ente a intervenção cirúrgica e ligar para o Lucas. Seria apenas algo profissional. Ok, sei que estou dizendo isso só para aplacar m eu orgulho idiota. Mas era a única m aneira.

Arrum ei-m e rapidam ente e fiz o m eu m elhor. Era um

procedim ento relativam ente rápido. Com a equipe ótim a que eu tinha ao m eu dispor, term inei em m eia hora.

Deixei as enferm eiras cuidando do paciente — m ais tarde passaria

para verificar a recuperação do m esm o —, m e desfiz de toda a roupa descartável, lavei as m ãos e cam inhei até m inha sala, onde havia deixado o celular.

Sentei-m e na cadeira reclinável e encostei fechando os olhos.

Estava nervoso com o um adolescente, fazendo algo escondido.

Estendi a m ão e peguei o telefone em cim a da m esa. Olhei para a

tela e passei o dedo abrindo a agenda de contatos até que localizei o núm ero do Lucas, apertei discar e aguardei, dois toques depois a voz grossa do irm ão do m eu am or atendeu com um alô de m á vontade.

— Oi, Lucas.

— O que você quer Bruno? — falou ríspido.

Não o culpava por estar sendo grosseiro, sabia que fiz Lay la

chorar e, com o irm ão preocupado que era, estava chateado com igo por isso.

— Desculpe estar te incom odando, im agino que estej a na

faculdade.

— Não, pedi licença hoj e. Lay la não está nada bem , ela precisa

de um om bro.

Porra, m eu coração quase saiu pela boca de tanto que batia

acelerado.

— Hum -hum , e com o ela está? Nenhum sintom a que indique outro

ataque?

— Não, apenas chafurdada no quarto gastando todas as lágrim as que não deixou rolar por quinze anos.

Engoli em seco. Sabia que ele estava j ogando tudo na m inha cara.

E eu m erecia.

— Sinto m uito, Lucas. Não queria fazê-la sofrer.

— Então, não faça. Não sej a idiota Bruno, pensei que você fosse

m elhor que isso. Será que m e enganei com o cara que peguei com o exem plo? Será que vou ter que reconsiderar m inhas avaliações com as pessoas?

O garoto sabia com o m e fazer sentir um m erda.

— Lucas, não posso fazer nada agora. Ainda estou chateado com

tudo. Liguei apenas pra saber se ela está bem fisicam ente. E pra dizer que se precisar traga-a im ediatam ente para o hospital.

Ele ficou em silêncio do outro lado da linha, achei que tinha

desligado. Mas a estática indicava que não.

— Olha, Bruno. Im agino que você tam bém estej a m agoado, m as

não dem ora m uito pra engolir essa m erda de orgulho. Minha irm ã pode ser tão teim osa quanto. E ela está bem , não se preocupe. Tenho conhecim ento suficiente para atendê-la se precisar. Agora vou indo, não quero incom odá-la em saber que você ligou pra m im e não pra ela. Tchau.

Desligou na m inha cara m e deixando com a alm a despedaçada.

Larguei o telefone de qualquer j eito e cobri o rosto com as m ãos.

Minha vontade era gritar e extravasar toda a dor em m eu peito. Sentia com o se m eu coração estivesse em pedacinhos e não batesse m ais, m esm o que fosse im possível, porque ainda estava vivo. Parecia que um a parte de m im se recusava a continuar.

Eu não existia m ais sem m eu anj o.