Inspiração
Capítulo 29
Layla
Assim que abri m eus olhos vi um bilhete de papel dobrado em
cim a do travesseiro ao m eu lado. Instantaneam ente procurei por Bruno no quarto, m as m e dei conta que j á era tarde e ele deveria ter ido para o hospital. Fiquei um pouco triste por não ter acordado e vê-lo partir, porém estava precisando de um sono rej uvenescedor.
Estendi a m ão e peguei o bilhete. Sentei na cam a e o abri, m eu
coração deu um salto quando vi m eu nom e com sua letra de m édico, parecia um a m enina com sua prim eira cartinha de am or.
Layla,
Adoro cada minuto que passo ao seu lado.
Vou, mas louco para voltar para os seus braços. Só pra você não
esquecer, irei te lembrar mais uma vez...
Amo você, anjo.
Sorri com o um a boba, suas palavras sim ples refletiam exatam ente
o que eu sentia. Adorava passar o tem po ao seu lado.
Levantei-m e e previ um dia m aravilhoso. Ultim am ente estava
m uito anim ada, desconfiei que essa alegria toda tivesse nom e e sobrenom e. Bruno era m uito carinhoso e atencioso, gostava de estar ao redor cuidando de m im . E se preocupava com m eu bem -estar, apesar de eu não estar acostum ada, eu gostava da sensação.
Iria ao bar pedir para o Heitor m e dar m ais um a função, naquela
hora da m anhã ele devia estar fazendo o balanço da noite passada. Ainda não entendi o porquê de ele esconder ter se tornado sócio no Beer, m as devia ter seus m otivos.
Vesti um pij am a e fui à cozinha tom ar café, Lucas sem pre fazia
quando levantava prim eiro. Peguei torradas e m anteiga e m e sentei, lem brei-m e do que fizem os a noite passada em cim a daquela bancada, senti m eu rosto esquentando, não saberia dizer se era de vergonha ou excitação. Provavelm ente os dois.
Estava m eio receosa com tudo que Bruno m e propôs, arrum ar
um a bolsa para o Lucas seria m uito bom . A faculdade de m edicina não era barata, se dim inuísse m inhas contas a pagar eu poderia ficar só com o que gostava de fazer. Por m ais que eu só cantasse à noite, adorava estar no bar, um trabalho regular num local em que m e sentia bem , seria gratificante. Nunca tive pretensão de ser fam osa ou gravar algum disco, na verdade nem queria se um a oportunidade aparecesse. Era m uita pressão e eu j á estava saturada de responsabilidades, prazos. Não queria essas coisas para m e estressar ainda m ais.
Tom ei um banho e vesti um a roupa casual, short e regata, era raro
eu sair à vontade. Mas poderia m e dar esse luxo j á que não estava m ais trabalhando num escritório de advocacia. A essa hora da m anhã, fora o “chefe”, o Beer estaria vazio, então não correria o risco de ser assediada por nenhum bêbado sem noção por causa da m inha vestim enta escassa.
O dia estava ensolarado e saí de casa anim ada, m inha vizinha
idosa estava com seu crochê habitual, sentada na varanda num a cadeira de balanço. Quando ela m e viu, abriu um sorriso am istoso.
— Bom dia, m inha filha. Hoj e vi seu nam orado andando no
quintal, aí entendi o m otivo desse brilho novo em seus olhinhos. Com tudo aquilo até eu estaria assim ... — Ela parecia sonhadora, suspirou e voltou para o crochê.
Franzi a testa, confusa. Com o assim , viu? Mas decidi nem entrar
em detalhes, m orria de vergonha por saberem que Bruno estava dorm indo com igo. Eu sabia que era idiotice, porque sou um a m ulher independente de vinte e sete anos. Mas m esm o assim não estava acostum ada com tudo aquilo.
Despedi-m e com um aceno e cam inhei para o ponto de ônibus, o
bar era relativam ente longe, j á que eu m orava no subúrbio da cidade. Pensei em com prar um carro num futuro próxim o, se Lucas conseguisse a bolsa, claro. Seria um conforto que eu adoraria.
Já a cam inho do Beer puxei o celular da bolsa e enviei um a
m ensagem de texto ao Bruno. Sorri ao im aginar sua cara quando a visse, provavelm ente seria após o plantão. Ele disse que procurava não olhar o telefone no trabalho, não gostava de ficar distraído, a não ser quando tinha um plantão prolongado. Então não havia escapatória, ficar três dias isolado não era relaxante.
Eu notei um casal adolescente se atracando no fundo do ônibus,
achei graça porque nunca fui assim . Não tinha tem po, era da escola para casa cuidar do Lucas. Porém não lam entava a vida que tive, talvez se fosse diferente não teria conhecido m eu m édico garanhão. Com eçava a achar que nada era por acaso, tudo tinha seu tem po e lugar para acontecer.
Desci do ônibus e parei em frente ao Beer, adorava trabalhar
naquele lugar. Sentia um a paz desde que com ecei há um ano e m eio atrás, parecia ser o lugar certo para m im .
Do lado de dentro estava tudo em silêncio e vazio, era engraçado
ver aquele local tão badalado daquele j eito. Era m uito difícil eu estar ali de dia, m as sabia da rotina, se Heitor era m esm o o chefe deveria estar nos fundos vendo arquivos e toda porcaria burocrática.
O encontrei m ergulhado em papéis, não parecia m uito
confortável, era engraçado ver o bad boy todo responsável. Bati com os dedos na porta de leve, Heitor olhou pra cim a e pareceu confuso em m e ver ali.
— Ei estrela, o que está fazendo aqui a essa hora? — Se encostou
na cadeira e colocou as m ãos atrás da cabeça, deixando à m ostra um a tatuagem no lado de dentro do braço. Não consegui identificar, m as parecia um nom e em m eio a linhas celtas.
— Eu vim pedir um em prego ao chefe. Um m osquitinho m e
contou que você é o tal, e eu quero trabalhar aqui um tem po a m ais que o norm al, j á que m eu am igo escondeu de m im , tenho certeza que não irá m e negar.
Sorri perspicaz, eu sabia que era um pouquinho de chantagem ,
m as gostava de brincar com ele. Heitor torceu a boca e balançou a cabeça.
— Aquele m édico idiota deu com a língua nos dentes, né? — Se
levantou e andou até a frente da m esa se encostando. — Mas por que você quer outro em prego aqui no bar? E o escritório?
— Eu saí. Não era pra m im , resolvi fazer o que eu gosto e, além
de cantar, adoro trabalhar no Beer — tentei disfarçar m eu desconforto ao m e explicar.
— Hum , entendi. Mas eu só tenho vaga de barman, estou ficando
louco sozinho naquele balcão. Até o horário em que você se apresenta seria um a ótim a aj uda. Vam os ter que m odificar seus horários, você vai continuar trabalhando nos m esm os dias, não quero exceder sua carga de trabalho. Só que não vai cantar quarta e quinta, som ente aos finais de sem ana.
Não gostei m uito, m as concordei, m esm o porque eu poderia
convencê-lo depois. Não m e cansava cantar, era o que tinha m ais prazer em realizar.
— Tudo bem , até am anhã então. Ah, e com o você está? Passou a
ressaca de dom ingo?
Seu rosto ficou duro de repente, m e arrependi de perguntar. Não
queria ser introm etida, só estava preocupada. Ele era sem pre tão alegre, vê-lo naquele estado m e deixou chateada, com o que quer que tenha acontecido.
— Sim , foi só aquele dia m esm o. Coisas que prefiro não ficar
lem brando, m as obrigado por perguntar. Agora vai em bora, m ulher. Não quero ser processado por trabalho escravo. — Se afastou da m esa m e enxotando com a m ão.
— Ok, m as se precisar conversar pode contar com igo.
Ele abaixou a cabeça e m ordeu os lábios.
— Lay la, existem coisas na vida que não tem os nenhum controle.
Às vezes não dam os im portância a coisas pequenas e quando percebem os j á se foi, sim plesm ente sum iu. — Suspirou pesadam ente e fechou os olhos por um segundo. — Mas não vam os ficar rem oendo o passado, vai logo antes que eu te arraste porta afora.
Sorri preocupada e m e despedi com um aceno, Heitor era um cara m uito legal, m e adm irava não ter ninguém . Porém podia perceber certo m istério e tristeza em seus olhos chocolate. Nossa am izade ainda era recente, m as pretendia aj udá-lo num futuro breve. Eu aprendi um a coisa com o passar dos anos, estar sozinha com seus problem as é m uito m ais com plicado do que dividi-lo com alguém , m esm o que sej a som ente para desabafar. Às vezes só precisam os ser ouvidos.
Não tinha nenhum a am iga para conversar. As m eninas que fazia
am izade na adolescência, logo que viam que eu tinha um a criança para criar se afastavam m ais que depressa. Com o se fosse pedir pra que aj udassem de algum a form a, Lucas sem pre foi m inha responsabilidade. Fazia tudo sozinha e m uito bem .
Dei de om bros, antes só do que m al acom panhada. Tinha am igas
agora, m e dei m uito bem com a fam ília do Bruno. Dali sairia boas am izades, com certeza. Suas irm ãs eram encantadoras, cada um a do seu j eito.
Resolvi dar um a volta no shopping e passar num a loj a de lingerie,
seria bom renovar m eu estoque de calcinhas. E ver algo especial, j á que m inhas noites não eram m ais solitárias e m eu nam orado garanhão teim ava em rasgar algum as das que eu tinha.
Um a vendedora sim pática veio m e atender na loj a e disse que se
eu precisasse de algum a coisa era só cham ar. Agradeci e ela voltou para seu posto em frente à porta. Dei um a volta e observei m inhas opções. Peguei algum as calcinhas avulsas de várias estam pas, m odelo e cores. E uns sutiãs confortáveis para o dia. Mas estava à procura de algo sexy.
Avistei algo que m e deixou m uito anim ada. Um espartilho preto
com um a cinta-liga e um a calcinha fio dental cham ou m inha atenção, logo im aginei a reação do Bruno ao m e ver naquela roupa íntim a. Um sorriso travesso abriu em m eu rosto e m e aproxim ei do m anequim observando atentam ente. Só estava indecisa na cor, preto ou verm elho, até o branco m e parecia prom issor. Na verdade, eu gostava m ais da im agem dele as tirando, ofegante e excitado.
Notei um a presença ao m eu lado e m e virei, um a m ulher bonita
estava parada observando a m esm a peça que eu. Ela virou o olhar pra m im e sorriu, era loira, olhos escuros, corpo curvilíneo e bem -vestida.
— Olá.
Cum prim entei-a com um sorriso e aceno de cabeça, voltei m inha
atenção à peça que estava em m inhas m ãos.
— Tá pensando em com prar? — Apontou para o m anequim .
— É, estava querendo fazer um a surpresa para o m eu nam orado.
Ela sorriu e se virou de lado m e observando.
— É legal inovar. Eu conheço você de algum lugar... Você canta no
Beer, né?
Assenti e sorri educada, j á estava acostum ada a algum as pessoas
m e reconhecerem . Porém , o entusiasm o daquela m ulher estava m e incom odando, não sabia por que, m as não era confortável estar ao seu lado.
— Sim , você j á foi lá?
— É, estive por lá com alguns am igos. Um cara que estou tendo
um rolo estava lá e resolvi dar um a sondada.
Murm urei um som de com preensão e virei para continuar
observando a lingerie. Mas ela parecia não ter percebido que eu queria encerrar a conversa, por m ais sim pática que parecesse eu não costum ava ficar falando m uito com estranhos. Às vezes aparecia alguém que valesse a pena conversar, o que não era o caso.
— Tive um dia tão excitante ontem à tarde. Peguei o cara no
vestiário do trabalho. Nossa m enina, ele é delicioso. Nunca tive tantos orgasm os na vida.
Eu estava desinteressada, não gostava de ficar escutando da vida
sexual dos outros — não que eu fosse chata com essas coisas, m as eu ficava envergonhada. Ainda m ais de quem eu não conhecia.
— Naquele hospital ele é um dos m ais com entados entre as
enferm eiras, elas sem pre m e diziam que o Dr. Bruno Petri era m uito gostoso. Não podia perder m inha oportunidade quando o vi no chuveiro deliciosam ente nu.
Eu parei com m inha m ão a m eio cam inho de um a calcinha
verm elha, quando ouvi aquele nom e m eu coração afundou. Não conseguia respirar, m eus ouvidos estavam zum bindo com tudo que aquela m ulher disse. Mas eu tinha que ter certeza, estávam os j untos na noite anterior. Foi m aravilhoso. Não podia ser verdade. Eu m e recusava a acreditar.
— Você é m édica? — falei num fio de voz.
— Sim , eu trabalho no hospital. Sou chefe da UTI. Sem pre quis
pegar esse cara, m as deixei rolar. Porém valeu a pena cada segundo presa naquele azulej o do vestiário enquanto ele estocava em m im . Pretendo fazer de novo várias vezes. — Arregalou os olhos e sorriu m aliciosa. Parecia m uito feliz consigo m esm a.
Larguei a calcinha e m urm urei um a despedida. Saí daquela loj a
antes que m e envergonhasse, não conseguia conceber a ideia daquilo estar acontecendo. Por que ele faria isso depois de j urar m e am ar? Por quê? Eu j á tinha m inha resposta antes m esm o de m e questionar m ais. Ele era um a porra de um m édico garanhão!
Era por esse m otivo que eu não gostava de relacionam entos, m eu
coração estava partido. Nem quando perdi m eus pais doeu tanto. Sentia-m e vazia. Não conseguia respirar direito. Minha visão estava escurecendo e m eu peito estava com prim ido.
Andei pelo shopping em transe total, à beira de um ataque de
pânico. Lágrim as escorriam pelo m eu rosto e não fiz nada para im pedir. Ainda tinha que chegar em casa, era um cam inho longo. Estava desesperada. Queria gritar, socar alguém . Percebia as pessoas que passavam e m e olhavam , não estava nem aí para o que poderiam estar pensando. Só sentia m uita dor.
Com o fui idiota de acreditar que um m ulherengo seria fiel? Que
ficaria com igo com o m esm o com prom isso que eu carregava?
Nunca tive nada m eu na vida, até que ele apareceu. Eu realm ente
acreditei que seria feliz, que m eus sonhos se tornariam realidade. Doce ilusão!
Eu aparentem ente era m uito ingênua no j ulgam ento das pessoas.
Tinha que ficar seca e sozinha. Não devia ter m e envolvido sentim entalm ente, o resultado era só sofrim ento.
Senti um a pontada na cabeça e nem dei atenção, a dor que sentia
no peito era m uito m ais intensa. Meu coração batia m uito acelerado e m e senti hiperventilando. Minha visão em baçou e ficou tudo escuro, a últim a coisa que pensei foi nunca m ais querer ver Bruno, nem que fosse para se explicar, não m erecia nem um a chance.