Inspiração

Gisele Souza · Capítulo 23 de 46

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Inspiração

Capítulo 20

 

Bruno

 

Tentei ao m áxim o m e acalm ar. Minha vontade era de chegar às

vias de fato, m as não podia. Fui educado a respeitar os m ais velhos, m esm o que o ser em questão não m erecesse um pingo da m inha consideração.

O braço da Lay la estava roxo, e j á tinham se passado três dias, ou

sej a, ele usou m uita força para segurá-la. Eu não conseguia desviar m eu pensam ento de tudo o que ela devia ter sentido na hora e eu não fiquei sabendo, com isso não pude consolar nem protegê-la.

Lay la tinha os olhos fechados e parecia chateada, não era por

m enos, foi m uito chata a situação na delegacia. Tanta gente com problem as, o índice de violência dom éstica só fazia aum entar. Eu não m e conform o com esses caras que dizem am ar suas parceiras e tendem a m achucá-las, às vezes até m atá-las. E o pior é que m uitas m ulheres não dão queixa contra seus agressores, por m edo, ou até m esm o porque am a dem ais e acredita que tudo pode m udar. Grande ilusão, um hom em que bate um a vez não para por aí.

Isso não existia no m eu m odo de entender o am or. Am ar é cuidar,

respeitar, ser am igo e com panheiro, ouvir quando necessário, enfrentar os problem as com inteligência e calm a, sorrir nos m om entos de alegrias e chorar nos de tristezas. Enfim , quando se am a alguém não se deve m altratar ou hum ilhar, m as sim dar carinho e proteção, apoiar em todas as escolhas.

Eu não podia im aginar com o alguém podia m achucar um a

m ulher, era incom preensível para m im .

Olhei para Lay la. Parecia que estava nervosa, pois roía as unhas e

tinha os olhos arregalados. Estiquei a m ão e enlacei os m eus dedos nos dela, dando um aperto de conforto. Ela m e lançou um olhar agradecido e suspirou. Minha m ulher estava am edrontada, e a vontade que tinha era de socar o causador da sua angústia.

Segui todas as instruções e chegam os em frente à casa do velho

noj ento.

— Vem , Anj o. Vam os resolver isso tudo de um a vez. — Ela

assentiu, estendi a m ão e peguei o BO no porta-luvas.

Saím os do carro e a aguardei para que chegasse ao m eu lado.

Agarrei sua m ão e entrelacei os m eus dedos nos seus. Tinha certeza de que ela estava assustada com o que poderia acontecer. Queria passar a Lay la a m aior segurança possível.

A casa do filho da puta era bem esbanj adora, tinha até um chafariz

no m eio do quintal e um portão de ferro circulava toda a residência. Provavelm ente gastou m uito dinheiro na propriedade, claro, devia roubar m uito dinheiro dos clientes. Um cara que chega ao ponto de atacar um a j ovem que poderia ser sua filha, não tinha boa índole, porque era capaz de fazer todo o tipo de falcatrua.

Apertei o interfone e aguardei:

— Olá — um a voz infantil de um m enino respondeu no segundo

toque.

— Oi, pequeno, eu queria falar com o Doutor André. Ele se

encontra? — falei calm am ente, tentando não transparecer o estresse que sentia.

Lay la estava ao m eu lado apreensiva, pois eram evidentes a sua

respiração acelerada e seu corpo tenso.

— Hum -hum , o vovô está no escritório. Você quer entrar?

— Claro! Você pode abrir pra m im ?

Um zum bido ecoou e entram os. Lay la estava com as duas m ãos

agarrando o m eu braço. Ela não disse nada desde que saím os da delegacia. Seu silêncio j á com eçava a m e incom odar. Chegam os à porta e eu bati, não iria invadir a casa de ninguém . Ainda m ais com criança presente. Ouvi a voz de um a m ulher repreendendo o m enino por deixar estranhos entrarem .

A porta se abriu, um a senhora com seus sessenta anos e os olhos

arregalados nos encarou, receosa. Quando ela viu Lay la atrás de m im , abriu um sorriso aliviado colocando a m ão sobre o peito.

— Oh, Lay la. Por que não disse que era você? Já ia colocar o

Netinho de castigo por deixar estranhos entrarem . Veio falar com o André?

Lay la sacudiu a cabeça e deu um sorriso am arelo para a esposa

do cafaj este. Adm ito que aquela situação não seria nada confortável, eu odiava a ideia de m agoar um a m ulher tão sim pática com o aquela.

— Entrem , vou cham á-lo.

Ela foi em direção a um longo corredor, observei ao redor, a casa

do hom em era m uito bonita. Toda em m óveis planej ados e com cores neutras, típico de quem paga decorador e não tem o trabalho de se envolver com a construção do seu lar. Na verdade, aquilo parecia um hotel de tão im pessoal.

Escutei um burburinho de vozes um pouco alteradas vindas de

dentro da residência, observei o ex-chefe da Lay la cam inhando em nossa direção. Não saím os de perto da porta, pois não tínham os vindo para um a visita social. Quando ele a viu, deu um sorriso am arelo e se aproxim ou.

— Olá, querida. A que devo o prazer da sua visita? — O filho da

puta estava tentando ser cordial por causa da esposa. Mas aquele advogado m exeu com a m ulher errada.

— Não a cham e assim — falei entre dentes. — Nós não viem os

fazer um a visita. Eu vim aqui porque sou nam orado dessa m oça linda e porque o senhor abusou fisicam ente e m oralm ente da sua integridade. E isso não vai ficar assim . — Eu estava m e segurando para não partir pra cim a, que era o que cada osso protetor do m eu corpo gritava para fazer.

O doutor arregalou os olhos e sua esposa franziu o cenho, confusa.

— Com o assim ? Abusou?

Olhei para ela com pena, m as infelizm ente a vida é cruel. Quando

se faz escolhas ruins, pode acabar se decepcionando gravem ente, isso se porventura não acontecesse coisa pior.

— Sinto m uito, senhora. — Puxei Lay la de trás de m im e levantei

seu braço, deixando exposta a m arca roxa. — Ele a assediou quando viu que nós estávam os j untos. Disse que não podia ter um nam orado, pois estava obcecado por ela, e a m achucou quando tentou sair. Com o se não bastasse todo o absurdo, dem itiu-a por j usta causa, alegando não se sabe o quê.

A senhora se aproxim ou e olhou o braço de Lay la. A m ulher

estava pálida e tinha um a m ão na boca. Virou-se para o m arido, desconsolada.

— André, por que você fez isso? Olha o braço da m enina, tem até a m arca dos seus dedos aqui. — Virou-se para nós com lágrim as nos olhos. — Querida, ele fez m ais algum a coisa?

Lay la engoliu em seco e negou com a cabeça.

— Não, senhora. Eu não deixei, saí de lá correndo e não voltei

m ais.

— Oh, Deus. Com o você pôde fazer isso? — sua voz estava rouca

e parecia à beira de um colapso.

O velho estava pálido e com os olhos arregalados. Fez um a cara

feia para a esposa e olhou para Lay la.

— Você, sua putinha, fica encantando os outros com sua voz,

dando ideias que podem os tê-la e depois se faz de coitadinha... — Ele deu um passo am eaçador na direção dela e eu entrei na frente, iria protegê-la até o últim o m inuto.

— O senhor não se atreva a chegar perto dela. Eu não vim fazer

fofoca, dedurando-o para sua esposa, m as foi bom que a senhora estivesse presente. — Olhei para ela com pena. — Pelo m enos não continua sendo enganada por um velho que fica atrás de m eninas. — Estendi o envelope que estava na m inha m ão e ele pegou com grosseria. — Essa é a cópia do BO que fizem os. Eu sei que, com o advogado, você vai tentar contestar por ter passado dias do ocorrido, m as fique ciente de que se você se aproxim ar do m eu anj o de novo eu vou fazer um puta de um escândalo. O senhor vai perder toda a sua credibilidade entre seus clientes. Exij o que retire a dem issão por j usta causa e pague todos os direitos que ela tem .

Ele olhou por cim a do docum ento, com os olhos brilhando de

raiva.

— Você não teria coragem de ir à m ídia, seria um escândalo.

Estreitei os olhos e m e aproxim ei. Ele não sabia que com igo a

situação era m ais séria.

— Tente! Se aproxim e dela de novo... Ah, eu acho m elhor você

contratar um assistente, porque eu vou passar pelo seu escritório todos os dias. Se tiver um a garota e não um hom em lá, eu vou arrum ar um a confusão dos infernos. Teste a m inha paciência, Sr. Silva! Você não m e conhece...

Lay la apertava a m inha m ão, estava nervosa com tudo aquilo.

Com certeza procurando am paro. Ela era, na verdade, o m eu ponto de apoio para não fazer nenhum a loucura.

— Com o você teve coragem , André? E ainda por cim a ficar se

j ustificando dessa m aneira, cham ando a coitada da Lay la desses nom es horríveis? — A esposa do idiota era um a senhora legal. Coitada, só teve um m au casam ento.

Ele desviou o olhar de nós e encarou a esposa, com a raiva

evidente em seu rosto.

— O que você queria, Délia? Você envelheceu e ficou horrorosa,

eu tinha que procurar carne nova por aí. — Acenou com as m ãos para os lados. — Esta idiota que não quis nada com igo. Mas não m e faltam opções, é só acenar o talão de cheque que m e encho de m ulheres facinho.

Puta m erda! Agora ferrou tudo.

— O quê? Você m e trai? Com m eninas que tem idade para serem

suas filhas? Com que espécie de m onstro eu m e casei? Todos esses anos que m e dediquei som ente a você e a nossa fam ília! E é isso que ganho em troca? Não pensa em nossos filhos? — gritou exasperada. A esposa do advogado olhou para nós e fez um a careta. — Me desculpe por tudo, eu vou obrigá-lo a te ressarcir, Lay la. E espero que o processo tenha validade. Agora, se vocês m e derem licença, é um assunto particular.

Fiquei receoso. O hom em era violento, poderia m achucar aquela

doce senhora. Tirei do bolso m eu cartão e o entreguei na m ão dela.

— Se ele tentar m achucá-la, por favor, entre em contato com igo a

qualquer hora. — Ela pegou o cartão e agradeceu com um aceno.

— Não se preocupe, eu sei lidar com ele. Mil perdões por tudo.

Assenti e puxei Lay la. Ainda estava m uito chateado com tudo. O

cara era um filho da puta total, falar com a esposa que estava há anos com ele daquele j eito... Merecia todo o tipo de m erda que provavelm ente iria ouvir.

Passei o braço nos om bros do m eu anj o e a puxei de encontro ao

m eu corpo. Cam inham os para o carro em silêncio. Eu estava m eio anestesiado. Abri a porta e a deixei entrar, ela não olhava pra m im . Agachei-m e e estendi a m ão, segurando seu queixo. Ela estava chorando.

— O que foi, Anj o?

Sacudiu a cabeça e enxugou as lágrim as com o dorso da m ão.

— Eu fiquei triste pela dona Délia, ela é um a pessoa legal — falou

num fio de voz, entre soluços.

Inclinei-m e e dei um selinho em seus lábios doces.

— Lay la, eu tam bém , m as é m elhor que fique sabendo de tudo do

que viver um a vida de m entiras. Não se sinta culpada por nada disso.

Ela olhou para m im com seus olhos verdes tristes, parecia um a

m enina perdida. Me deu um a vontade louca de em balá-la no m eu peito e cantar um a m úsica de ninar para espantar a sua dor.

— Eu sei, m as m esm o assim é m uito ruim . — Colocou sua

pequena m ão em m eu rosto, e m e inclinei para sentir o seu toque. — Dorm e com igo esta noite?

Olhei em seus olhos e am aldiçoei o que tinha que dizer a seguir.

Estávam os tanto tem po longe um do outro e acontecia um a m erda daquelas...

— Anj o, eu adoraria... Mas não estou no clim a para transar. Minha

anim ação foi por água abaixo depois de toda essa m erda, estou m uito chateado por não ter te protegido com o deveria.

Ela riu baixinho e m e abraçou apertado.

— Bruno, você é m uito convencido. Eu tam bém não estou no

clim a para isso, m as quero que você m e abrace a noite toda. E você m e protegeu m uito m ais do que eu m esm a! Depois de tudo o que fez, queria ficar em seus braços.

Meu coração afundou com tudo o que disse agarrada ao m eu

pescoço. Lay la era um a parte im portante da m inha vida agora. Não tinha nenhum a intenção de m e separar do m eu anj o lindo. E depois de nossas “quase declarações”, a única coisa que queria era abraçá-la a noite toda. Afastei-m e um pouco e beij ei seus lábios com ternura.

— Vam os para casa, então. — Sorri satisfeito por ter m inha

m ulher com igo.

Ela assentiu e se encostou ao banco. Contornei o carro e sentei,

dando partida. Percorrem os todo o cam inho num silêncio confortável. Foi só na entrada da sua casa que m e lem brei do alm oço de dom ingo.

— Ah, Anj o... Minha m ãe nos convidou para alm oçar na casa dela

am anhã. E não m e deu chance de recusar. Você não se im porta, não é?

Lay la arregalou os olhos, parecendo apavorada, e encostou a testa

no painel do carro.

— Oh, Deus. Por que você não m e disse antes? — Levantou a

cabeça, m e olhando com os olhos arregalados. — Caram ba, e se sua m ãe não gostar de m im ? Porcaria, Bruno! Agora fiquei nervosa.

Franzi a testa, era im possível m inha m ãe não gostar da Lay la. Ela

encantava a todos que a conheciam . Coloquei a m ão em suas costas, m assageando levem ente.

— Não há um a pessoa que não goste de você, Anj o. É im possível

não se apaixonar. — A m ais pura verdade, Lay la era um a daquelas pessoas raras de se encontrar.

Ela sacudiu a cabeça, concordando, e deu um sorriso presunçoso.

— Eu sei. — Saiu do carro rebolando.

Fiquei olhando de boca aberta até ela entrar na casa. Droga, ela

sabia m e m anipular com o ninguém havia conseguido.