Inspiração
Capítulo 34
Bruno
Passaram -se quatro dias desde que deixei Lay la em casa, e estava
m e afundando em tristeza. Sabrina ficou perguntando o porquê da m inha cara de velório, eu não quis conversa. A despachei sem m e im portar com nada, não queria conversar.
Nesse últim o dia m e sentia especialm ente depressivo. Minha
intenção era dorm ir e esquecer que aquilo tudo aconteceu.
O trabalho foi um a m erda, porque as pessoas vinham falar com igo
e eu não tinha ânim o de bater papo com ninguém . Alberto viu m eu rosto e deu m eia volta, sabia bem quando não m e provocar, j á tivem os nossa dose de brigas por causa do m eu m au hum or.
Eu trabalhei no autom ático, m eu corpo estava presente, m as
m inha m ente vagando. Ainda bem que não tive nenhum a cirurgia com plicada. O ponto alto foi quando eu soube que, por causa da denúncia, Andressa havia sido suspensa para averiguação da sua ética e m oral. Tinha certeza que depois de toda a investigação, ela seria expulsa, afinal a m ulher era louca.
Depois de um plantão que parecia não ter fim , m e arrastei de volta pra casa, não conseguia pensar em nada m elhor do que m inha cam a para m e chafurdar em tristeza e m ágoa. Quando estacionei logo vi que o esquadrão estava ali, tinha carro das três m ulheres que gostavam de se envolver em m inha vida na garagem . Droga, Sabrina era um a fofoqueira. Já fui m e preparando para a intervenção das dam as.
Desci do carro e bati a porta devagar, tentando não cham ar
atenção. Quanto m ais adiasse o confronto, m elhor seria para a m inha paz. Porém m eu alívio foi m om entâneo, m al dei dois passos em direção a casa e Ana Luiza veio em m inha direção, com um a carranca de dar m edo. Às vezes eu m e perguntava se ela tinha sido sem pre assim . Eu m e lem brava dela com o um a m enina doce e alegre.
— Você é um idiota, eu disse pra não estragar as coisas com a
Lay la. Aí o que você faz? Estraga tudo. — Jogou as m ãos para o alto, frustrada.
Eu não estava a fim de falar do que aconteceu com a Lay la. Mas
pelo visto não teria escapatória. Eu iria parar no m uro de fuzilam ento.
— Eu não estraguei nada. Aconteceram algum as coisas que não
m e deixaram confortáveis e tive que dar um tem po pra pensar.
Ana riu e se aproxim ou com aquele andar que dizia que iria
aprontar, eu parei no m eio do cam inho. Minha irm ã era um a fera, com o tínham os um a idade aproxim ada sem pre fom os m uito unidos, m as tam bém brigam os com o dois m oleques, ela tinha um gancho de direita sinistro. E era aquele rosto que eu m e lem brava.
— Ah, o senhor certinho. Agora ele é o correto da história...
Quando você vai aprender que nós m ulheres fazem os m erda? E que contam os com a “frieza” de vocês hom ens, para que possam os nos sentir seguras, sem ter que se preocupar se estarão lá ou não. E agora o quê? Vai ficar em casa se lam entando com o um bebê chorão? Bruno, acorda! Lay la foi a m elhor coisa que te aconteceu. Ela não te pressionou a nada, quem vê vocês j untos consegue entender o m otivo de ter sido tão rápido. Vocês têm um a coisa que m uita gente procura a vida toda e não encontra. Não desperdiça, não sej a arrogante.
Tudo o que m inha irm ã estava dizendo era verdade, Lay la foi a
m elhor coisa que aconteceu na m inha vida. Só com um sorriso, ela podia aquecer m eu coração. Nunca im aginei m e im portar tanto com alguém , a ponto de cuidar e am ar. Era tudo tão novo e assustador.
Na varanda de casa, m inhas outras irm ãs, j untam ente com m inha
m ãe, estavam observando Ana acabar com igo. Olhei-a atentam ente e vi m uita dor em seus olhos, o que quer que tenha deixado-a daquele j eito não foi com o um a visita ao parque. Ficaram cicatrizes profundas.
— Mas ela desconfiou de m im , Ana. Não acreditou quando eu
disse que não fiz nada. Doeu saber que a m ulher que eu am o, m e tinha com o um estranho.
Minha irm ã gargalhou e colocou as m ãos nos quadris.
— E o que você queria? Um a m ulher aleatória vem e fala que
pegou o garanhão do hospital, coisa que você realm ente era. Qual a reação que um a m ulher apaixonada teria? Nós som os sentim entais, m eu irm ão. Você vai perder alguém especial por teim osia e orgulho?
— Foi isso que aconteceu com você e o Alberto, Ana? Você
perdoou? — Minha irm ã engoliu em seco e fez um a careta.
— Foi diferente, Bruno. Não foi tão sim ples quanto orgulho ferido.
— Sorriu tristem ente.
Assenti e m e aproxim ei ao seu lado olhando em seus olhos
castanhos.
— Nem am izade? Ele sente sua falta. Talvez se você o ouvisse,
deixasse ele se explicar, acertaria as coisas.
— Não consigo. Só quero distância.
Ela veio até m im e se despediu com um beij o no rosto. Foi para
seu carro e partiu. Larissa e m inha m ãe vieram na m inha direção. Eu j á estava caído m esm o, não faria m al que term inassem o serviço.
Larissa só sorriu e acenou, m am ãe se aproxim ou e m e abraçou.
— Vá buscar seu anj o, m eu filho — sussurrou e partiu.
Deixando-m e ali com o coração apertado, não tinha m e referido a
ela com o m eu anj o há quatro noites atrás, para evitar que doesse dem ais estar longe. Sabrina se aproxim ou e m e olhou atentam ente, ela tinha um sorriso no rosto.
— Você vai, né?
Assenti e corri pra casa, não poderia encontrá-la com cheiro de
hospital. Fui direto para o banheiro, tirei todas as roupas de um dia cansativo e entrei debaixo do chuveiro. Enquanto a água lavava m eu corpo percebi o quanto era idiota. A acusei de ser insegura e não confiar em m im . Mas acabei fazendo o pior, quando nossa relação deu problem a fui o prim eiro a sair.
Eu era um covarde. Iria com pensar m eu anj o de todas as lágrim as
que sabia que ela tinha desperdiçado por m inha causa. Prom eti algo a m im m esm o enquanto m e preparava pra ter m inha m ulher de volta. Nunca iria fazê-la chorar novam ente, não de tristeza.
Arrum ei-m e rapidam ente, olhei a hora e vi que Lay la j á devia
estar no bar. Corri para o carro e nem dei atenção a Sabrina que estava na sala. Só peguei um vislum bre de um a dancinha desengonçada quando passei correndo.
Entrei e dei partida, queria chegar o m ais rápido possível para
pegar m eu anj o de volta. Então m e bateu um a insegurança. Será que depois de tanto chorar e se lam entar, ela iria m e querer de volta? Decidi não pensar m uito.
Parei em frente ao bar cantando pneu, nem m e atreveria a olhar a
qual velocidade que dirigi. Mas tinha certeza que chegaria m ultas em casa por ter sido capturado por radares. Não estava nem ligando.
Do lado de fora pude ouvir sua voz doce, ela j á estava no palco. Eu
entrei vagarosam ente e m eu peito se contorceu ao ver sua expressão, tinha o rosto abatido e seus olhos, m esm o à distância, pude notar que estavam tristes.
Am aldiçoei-m e por ter feito aquilo. Eu e m inha arrogância. Ela
tinha acabado de cantar um a m úsica e abaixou a cabeça. Respirou fundo e m andou um sinal ao DJ.
— Bom pessoal, com o sabem eu canto o que estou sentindo...
Metade, de Adriana Calcanhoto.
Ela dedilhou a introdução e m eu coração afundou com a letra da
m úsica que ouviria em sua voz rouca.
“Eu perco o chão,
Eu não acho as palavras
Eu ando tão triste,
Eu ando pela sala
Eu perco a hora,
Eu chego no fim
Eu deixo a porta aberta
Eu não moro mais em mim...
Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos,
Eu estou ao meio
Onde será que você está agora?
Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos,
Eu estou ao meio
Onde será que você está agora?”
Sua voz estava triste enquanto ela cantava. Perm aneci longe para
que não atrapalhasse sua apresentação. Quando tivesse um a oportunidade, a abordaria.
Senti um peso nas costas e olhei em volta, não vi ninguém , m as
tinha certeza que havia alguém m e observando. Devia ser loucura da m inha cabeça. Cam inhei até o bar e Heitor tinha um a carranca em seu rosto.
— O que eu te falei, doutor? Não a faça sofrer. E você fez
exatam ente isso. — Deslizou um a garrafa de cervej a pelo balcão e a peguei.
Suspirei chateado, não precisava de ninguém dizendo sobre m eu
erro. Eu j á estava sentindo todo o peso por ter sido tão arrogante.
— Com o você sabe?
Ele arqueou um a sobrancelha, que notei ter um piercing e bufou.
— Todo m undo pode perceber, até agora ela só cantou m úsicas
tristes. E eu sei bem a causa.
Merda, a situação era pior do que eu im aginava.
— Eu vou consertar isso.
— Eu espero que conserte m esm o, senão eu vou quebrar a sua
cara — Heitor falava sério, e eu gostava daquela superproteção. Sabia que ele a tinha com o irm ã.
Assenti e desviei m eu olhar, não gostava da sensação de ser o
babaca. Mesm o que fosse verdade, ainda podia sentir um olhar estranho em cim a de m im , varri os olhos pelo bar e não encontrei ninguém . Aquilo estava ficando m uito sinistro, não gostava de ser observado. Lay la ainda cantava e não tinha m e notado. Então, quem poderia ser?
Andressa não se atreveria a vir atrás de Lay la, não depois do
tapaço que levou. Não pude evitar que surgisse um sorriso em m eu rosto. Minha pequena era um furacão.
— Você fez algum a coisa errada, doutor?
Virei m eu rosto para Heitor e ele ainda tinha a carranca no rosto,
parecia que ele iria m anter aquelas rugas até eu resolver toda a m erda com Lay la.
— Não, um a vadia arm ou pra m im e Lay la acreditou. Eu só fui
estúpido por ficar chateado.
Ele balançou a cabeça e sorriu.
— As m ulheres são assim m esm o, você tem que saber levar. Não
pode ficar chateado a cada ataque, ou então sua vida vai ser um inferno. Tem que saber contornar a situação.
Heitor parecia saber com propriedade o que dizia, olhei sua m ão e
não vi nada que indicasse um a com panheira.
— Com o você sabe tanto? Está sem pre sozinho.
Deu de om bros e olhou em m eus olhos, percebi que, apesar de
toda a pom pa de cara m au, ele tinha sofrido na vida.
— Eu j á fui casado. Sei com o é lidar com ciúm es e insegurança.
Não é um sentim ento legal, eu te garanto. Pode ficar perigoso...
Uh, isso era novo. Não disse m ais nada, m as pude perceber a
tristeza em seu olhar.
— Então, Bruno... Valorize sua m ulher e não deixe qualquer m erda
atrapalhar suas vidas. Ela é única, não a faça sofrer senão vou quebrar a sua cara feia. — Ele estava sorrindo, m as eu sabia que falava sério.
Assenti e continuei bebendo m inha cervej a. Me virei e observei
m eu anj o m ais um pouco, em breve tiraria aquela tristeza do seu olhar.
Ela se despediu e disse que iria para o intervalo, percebi que tinha
lágrim as nos olhos. Estávam os sofrendo à toa, por m inha culpa, por eu ser tão idiota achando que poderia ficar longe dela.
Lay la era m eu anj o. Algo que quis m uito, m as não tinha percebido
até ela aparecer. Não iria ficar longe m ais um segundo. Preparei-m e para ir ao seu encontro quando Heitor segurou m eu braço. Olhei para ele confuso.
— Faz isso direito, cara. Não a perca. Eu sei o que é
arrependim ento. Não é algo que você quer para sua vida.
— Pode deixar. Não tenho a m enor intenção de perder o m eu
anj o.
Heitor balançou a cabeça e sorriu. Cam inhei por entre as pessoas,
o bar estava lotado. Meu anj o estava fazendo m uito sucesso.
Quando m e aproxim ei do cam arim pude ouvir vozes. Lay la estava
falando com alguém , então resolvi esperar um pouco, m as fiquei próxim o à porta. Ouvi um baque e franzi a testa, estava a ponto de entrar quando gritos desesperados m e alarm aram .
Agi prontam ente e arrebentei a porta. O que vi ali m e fez ficar furioso.
O filho da puta do advogado estava ali tentando agarrá-la.