Inspiração

Gisele Souza · Capítulo 3 de 46

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Inspiração

15 anos depois...

 

— Lala, eu estou m orrendo de dor!

Acordei assustada com a voz baixa do Lucas ao m eu lado. Ele

tinha as m ãos espalm adas na barriga e um a expressão sofrida em seu rosto. Sentei-m e apressada espantando a sonolência totalm ente.

— O que foi, Lucas?

— Meu estôm ago está doendo. Não consigo identificar o que possa

ser, é m uita dor e não consigo pensar.

Claro que ele iria tentar adivinhar o que era a causa, com o

estudante de m edicina tinha essa m ania de diagnosticar qualquer sintom a que tivesse, antes de algum profissional fazer a análise. Dizia que era com o um a prática para quando se form asse não apanhar tanto na residência.

— Larga de ser bobo. Vam os ao hospital, agora. Você não vai ficar

aí sofrendo.

Levantei-m e rapidam ente e fui m e vestir, estava de pij am a e não

era um a roupa decente para um hospital, m esm o sendo de m anhã tão cedo. Apesar que não daria tem po para nada. Deixei Lucas se contorcendo de dor e corri para a sala. Pensei em pedir um a am bulância, m as dem oraria dem ais. Acabei optando por um táxi, j á que não tínham os um carro, então era m elhor do que esperar por um ônibus.

Voltei para m eu quarto e m eu irm ão estava gem endo baixinho.

Típico, tentava a qualquer custo não m e preocupar. Para chegar a m e cham ar no início da m anhã devia estar sentindo m uita dor e desconfiava que estivesse há m ais tem po, devia estar em seu lim ite.

Arrum ei-m e rapidam ente, vesti calça j eans e um a cam iseta

regata folgada. Corri para o quarto do Lucas, peguei seu cartão do plano de saúde e identidade. Estava no corredor quando a buzina do táxi soou do lado de fora. Meu irm ão apareceu na porta, pálido e segurando a barriga.

— Se apoia em m im que te aj udo.

Enlacei sua cintura e tentei aguentar seu peso. Saím os e logo

fechei a porta sem m e im portar em trancá-la, vivíam os num bairro de periferia, porém calm o. Os vizinhos nos conheciam bem e o índice de crim inalidade ali era quase inexistente.

Acom odei o Lucas no banco traseiro e entrei dando instruções ao

m otorista.

— Por favor, vá o m ais rápido possível. Pela dor que ele está

dem onstrando deve ser séria a situação — m inha voz denunciava o que sentia. Estava desesperada!

— Sim , senhora. Não vam os dem orar nada, na parte da m anhã o

trânsito tá fraco.

Assenti e observei o Lucas. Estava quieto e tentando se segurar.

Droga, odiava m e sentir im potente. Ele quase não ficava indisposto. Sem pre fora um garoto forte e saudável, m esm o porque eu ficava louca com as poucas vezes que adoecia.

A em oção m e engasgava e fazia m eus olhos lacrim ej arem , era difícil deixá-las transparecerem . Sem pre m e m antive forte e na linha. Não gostava de sentir dem ais. A única pessoa que deixei m e conhecer realm ente era a m esm a que estava m e preocupando profundam ente. Nunca dei m argem para ninguém m ais se aproxim ar, sem pre fora só nós dois. Às vezes era um pouco solitário, contudo m ais seguro.

Chegam os à porta do hospital e paguei ao m otorista a corrida, ele

deu a volta abrindo a porta do carro para o Lucas sair. Agradeci a Deus por sua alm a caridosa, coisa difícil de se encontrar nos dias de hoj e. O taxista nos acom panhou até a recepção e colocou m eu irm ão sentado num a cadeira enquanto eu ia ao balcão dar entrada no atendim ento.

— Olá, bom dia, em que posso aj udar? — A recepcionista sorriu

calorosa. Era um a garota com vinte e poucos anos, m orena e de olhos castanhos sim páticos.

— Meu irm ão tá com m uita dor no estôm ago e estou assustada.

Ele precisa de atendim ento urgente.

— Ok. Por favor, a senhora pode m e dar o cartão do plano de

saúde e a identidade dele?

Peguei na bolsa e entreguei a ela. A m ulher digitou os dados do

Lucas no com putador e observava atentam ente a tela. Eu estava em polvorosa, m inha perna não parava quieta e a todo instante observava m eu irm ão se contorcendo na cadeira. O taxista j á havia ido em bora.

— Pronto, senhora. Com o ele está com m uita dor, vai ser

encam inhado im ediatam ente para um clínico enquanto a senhora aguarda aqui.

— O quê? Não, eu preciso acom panhá-lo. — Não conseguiria

aguentar esperar por notícias.

— Sinto m uito, m as só m enores de idade é perm itido

acom panhante. Assim que tiver algum a resposta do m édico, nós a avisarem os.

— Ok, então que sej a rápido.

Ela sorriu e se levantou com um a ficha de atendim ento em m ãos.

— É só aguardar que o m édico j á vai cham á-lo.

Assenti a contragosto e peguei os docum entos do Lucas. Sentei ao

seu lado e m urm urei palavras de conforto, que sabia que iria relaxá-lo, quando percebi j á estava cantarolando um a m úsica que costum ava entoar pra ele quando pequeno.

Logo o m édico o cham ou e fiquei nervosa esperando. Não parei

quieta, dei voltas pela sala da recepção lançando dardos com o olhar para a atendente. Meia hora depois, ela aproxim ou-se. Acom panhei-a até a m esa e ela se sentou m e olhando com cautela.

— Senhora, pelo que o doutor m e disse pelo telefone seu irm ão

está com pancreatite, é quando sofrem os de pedra na vesícula biliar e não é descoberto a tem po, então evolui para este estágio. Ele precisa ser operado urgente, m as j á foi encam inhado para o centro cirúrgico. Só tem um problem inha... — Ela torceu a boca fazendo um a careta sem graça. — O plano de saúde não cobre esse tipo de cirurgia. A senhora vai ter que pagar à parte.

— O quê? Com o assim ? Eu pago todo m ês certinho e sem pre

usam os sem nenhum problem a.

— É, m as, infelizm ente, não podem os fazer nada. Seu plano é

standard, não inclui esse tipo de serviço. Para isso teria que entrar em contato com a adm inistradora do plano e leva tem po, ele precisa de atendim ento urgente.

— Mas eu não tenho nenhum dinheiro, o que vou fazer? Meu

irm ão precisa ser operado.

A m oça franziu a testa e respirou fundo.

— Então, eu vou ter que m andar transferi-lo para um hospital

público — disse, j á digitando no com putador.

— Oh, Deus, isso é um absurdo. Com o assim ? Se m eu irm ão não

for operado agora, am anhã m esm o eu vou aparecer na im prensa e este hospital vai ser fechado. Eu trabalho num escritório de advocacia.

A m ulher m e olhou assustada e j á ia falar algum a coisa quando o

telefone tocou, ela pediu licença e atendeu. Escutou por algum m om ento e desligou.

— Senhora, tem os um a boa notícia. Tem um m édico cirurgião que

acabou de pegar o plantão do dia e escutou sobre o caso do seu irm ão, eu j á havia m andado o pedido de transferência, m as ele decidiu fazer a cirurgia sem custo e arcar com a dívida do hospital.

Fiquei sem palavras. Não consegui m ais conter as lágrim as que

am eaçavam transbordar em m eu rosto. Agradeci e fui m e sentar, aguardando para que a cirurgia do m eu irm ão term inasse bem .

Horas de angústia se passaram até que m e deram perm issão para

ver o Lucas. Ele estava deitado na cam a do hospital, com um lençol cobrindo o peito, de olhos fechados e dorm ia pacificam ente. Um a enferm eira estava pendurando seu soro e sorriu pra m im quando m e avistou no quarto.

— Olá, com o ele está? — sussurrei

— Ótim o, a cirurgia foi um sucesso. Ele foi operado por um dos m elhores do hospital.

Assenti e m e aproxim ei acariciando o rosto do Lucas.

— Onde o doutor está? Gostaria de dizer obrigada. — Nunca fiquei

tão agradecida por um estranho existir.

Ela balançou a cabeça discordando.

— Bom , ele j á passou por aqui assim que a anestesia do seu irm ão

term inou, segundo o próprio paciente, que é estudante de m edicina e passaria todas as inform ações pós-operatórios para a senhora. O doutor ainda tentou argum entar, m as Lucas pode ser bem persuasivo. — Ela sorriu observando o paciente que estava alheio à conversa em seu sono profundo. — Então com o ele terá o dia cheio, designou o Dr. Vilela para auxiliá-la em qualquer dúvida que venha a ter. Disse que j á fica feliz de ter salvado seu irm ão. A cirurgia é um pouco com plicada, m as graças a Deus deu tudo certo e agora é só aguardar a recuperação. Em algum as sem anas, ele vai estar ótim o.

— Mas eu queria tanto dar um abraço. Você pode pelo m enos

transm itir um recado?

— Claro. — A enferm eira m e olhou atentam ente.

— Diz que lhe agradeço m uito. E que Deus possa recom pensá-lo à

altura. O que ele fez pelo m eu irm ão não tem preço.

Ela sorriu e se aproxim ou colocando a m ão em m eu om bro.

— Pode deixar, querida. Ele ficará feliz.

Deixei m eu corpo relaxar, j á que m eu irm ão estava bem . O terror

que invadiu m eu coração com a am eaça que fosse algo sério quase m e sufocou. Se eu o perdesse tam bém desconfiava que não teria forças para prosseguir, pois doía só de im aginar. E era por esse m otivo que não poderia m e envolver com ninguém , era arriscado dem ais.

 

***

 

Havia acabado de pegar no plantão quando fui cham ado para um a

cirurgia de em ergência de pancreatite. Um rapaz de vinte anos reclam ou de dor no estôm ago e correu para o hospital. Ainda bem , porque era algo com plicado e com risco altíssim o de infecção.

Preparei-m e para entrar na sala onde seria realizada a operação

— o paciente j á estava sendo acom odado —, quando m eu bip soou com a inform ação que ele seria transferido para um hospital público por falta de cobertura do plano de saúde. Logo tom ei um a atitude que m e pareceu a única a ser considerada, arquei com todas as despesas. Reuni um a equipe disposta e nos preparam os para a cirurgia.

Entrei na sala antes do rapaz ser anestesiado. Seus olhos verdes m e

observavam , assustados.

— Olá, sou o Dr. Bruno Petri. Vai correr tudo bem com a sua

cirurgia, não fique alarm ado.

Ele assentiu com a cabeça e olhou em volta.

— Eu sei, m as sou estudante de m edicina e sei que a cirurgia é

com plicada. Tem o risco de infecção.

Estudantes de m edicina e m édicos eram os pacientes m ais difíceis

de tratar, porque eles sabiam dos riscos e recuperação.

— Não se preocupe porque vai dar tudo certo, sem m odéstia sou o

m elhor da área.

Ele assentiu e fechou os olhos, dei o sinal afirm ativo para o

anestesista, ele aplicou a solução intravenosa no paciente, que logo adorm eceu. Gostava de conversar antes do procedim ento. Era um a rotina m inha, dava m ais segurança para o enferm o.

Com ecei a cirurgia com plicada e m e concentrei totalm ente. E

com a equipe ótim a que havia ao m eu dispor, a m esm a foi um sucesso. Encam inhei o rapaz para o repouso com todos os cuidados pós-operatórios em m ãos e m e dirigi à sala onde a burocracia m e esperava.

Estava distraído quando Am anda, um a das enferm eiras que

acom panhou a intervenção, bateu na porta.

— Dr. Petri, tenho um recado da irm ã do paciente que você

operou a vesícula.

Levantei os olhos da papelada que estava preenchendo e observei.

Ela tinha um sorriso anim ado no rosto.

— Ah, é? Qual foi?

Ela se acom odou na cadeira à m inha frente, seus olhos estavam

brilhando de excitação. Era m uito bom encontrar profissionais sérios com seu trabalho.

— Ela disse para o senhor que lhe agradece m uito, e que Deus lhe

dê a recom pensa m erecida. A m ulher estava m uito agradecida, realm ente. Tinha lágrim as em seus olhos. Queria lhe dar um abraço.

Meu coração se encheu de felicidade. Esse era um dos m otivos

que escolhi a profissão de m édico. Sem pre quis fazer a diferença. Quando recebi a notícia de que o paciente teria que ser transferido por falta de pagam ento, fiquei incom odado. Quando fiz o j uram ento de Hipócrates não foi de brincadeira: “A saúde do meu doente será a minha primeira preocupação”.

Não seria por algum problem a financeiro que eu iria deixar um

rapaz j ovem e agonizando em dor. Além do m ais j á estávam os todos prontos para a operação. Meu desej o sem pre foi salvar vidas e seria assim até o fim da m inha carreira.

— Estou feliz que fiz o bem . Só o sucesso da cirurgia j á foi

agradecim ento suficiente. Disse a ela sobre o pós-operatório que inform ei ao irm ão?

— Sim , eu avisei tam bém que o Dr. Vilela passaria por lá para tirar

suas dúvidas. Bom , doutor. Já vou indo, m eu turno term inou, só fiquei para te auxiliar na cirurgia. Meu m arido j á está na recepção. — Se levantou cam inhando para a porta.

— Ok, Am anda. Bom descanso. — Sorri e a olhei agradecido pela

aj uda que havia oferecido.

— Obrigada, e parabéns por ser um m édico tão bom . O país

precisa de m ais exem plos com o o senhor.

— A você tam bém , afinal tam bém não cobrou nada do hospital

para m e aj udar nessa cirurgia. Aliás, a equipe inteira j á estava em final de plantão e m e acom panharam . — Quando ouviram o caso do paciente e que eu iria fazer tudo por m inha conta, reuniram seus equipam entos e fizeram sua parte.

— Claro, doutor. O senhor é um exem plo. Tão j ovem e dedicado...

Bom , até am anhã.

— Até.

Observei-a sair e fiquei pensando no que disse, sobre a irm ã do

rapaz. Recom pensa... Nunca pensei em algo assim , não precisava. Minha retribuição consistia em salvar um a vida e fazer o bem .

Com um sorriso no rosto voltei m inha atenção à papelada na

m inha frente. Tinha m uitos prontuários para ler e pacientes para visitar o dia todo, fora as várias cirurgias m arcadas.

Escutei um a batida na porta.

— Pode entrar — disse e olhei por cim a dos papéis.

Alberto enfiou o rosto e sorriu pra m im , daquele j eito debochado

de sem pre.

— E aí, senhor bom sam aritano? Fiquei sabendo da boa ação do

dia.

— Ha-ha... Muito engraçadinho. Com o se você não fosse fazer o

m esm o.

Eu e Alberto estudam os j untos e fizem os residência no m esm o

hospital. Juram os fazer o nosso m elhor com o dom que era colocado em nossas m ãos. Salvaríam os o m aior núm ero de vidas possíveis.

— Aham , m as não vem ao caso — desconversou e arqueou um a

sobrancelha. — Só vim te dizer que espalhou por todo o hospital. As enferm eiras estão em polvorosa. Você sabe, adoram um cara de boa índole que as pega no quartinho.

Encostei-m e à cadeira, colocando os braços atrás da cabeça, e

observei m eu am igo atentam ente.

— Cara, você é m uito idiota. Com o se aguenta? Eu não quero

ninguém por m otivo de fam a ou glória. Fiz o que tinha que fazer. A irm ã do paciente queria m e agradecer, m as eu nem fui lá. Não quero esse tipo de notoriedade.

— Eu sei, m as você pode aproveitar com as m eninas. Tem um as

novatas na área.

— Alberto, você é m uito galinha. Sabe que não gosto de m e

envolver com enferm eiras, depois elas ficam no pé. — Arqueei as sobrancelhas sabendo que ele iria retrucar de algum a m aneira.

— É, m as quando elas te j ogam no quartinho você não foge.

Sorri e balancei a cabeça, m eu am igo não tinha j eito. Se ele pegou

todas as enferm eiras do hospital era pouco.

— Claro que não. Com o recusar quando a m ulher vem pegando

em você e j á tirando a roupa?

— Hum -hum ... Isso que tô falando. Porém você nunca teve nada

sério com ninguém . Na verdade, nunca te vi nam orando. — Ele inclinou a cabeça de lado m e observando, fiquei incom odado com seu escrutínio atento. Apesar de ele ser galinha, às vezes se envolvia com algum as delas por algum tem po. Não que fosse ser fiel, m onogam ia não era o seu forte.

— Nunca viu porque eu nunca quis. Tô fora. Deus m e livre ficar

com m ulher atrás de m im , querendo saber cada passo que dou.

Não queria relacionam entos, estava m uito bem com m inha vida

de solteiro e m inha profissão. Realizado era pouco.

— Rá, quero ver o dia que alguém te pegar de j eito. Acho que vou

rir m uito. — Coisa que j á estava fazendo.

— Para isso acontecer, m eu am igo, só se for um anj o enviado por

Deus.

— Se você diz... Tá pronto para um intervalo? Estou indo à sala de

repouso tom ar um café.

Olhei aquele m onte de papel e decidi aceitar. Levantei-m e e

acom panhei Alberto corredor afora. Estávam os num a conversa anim ada e, quando passam os em frente a um dos quartos de repouso, senti um arrepio na espinha. Olhei de esguelha pra dentro do aposento e um par de olhos verdes brilhantes m e fizeram perder o rum o por um segundo. Tive um a sensação de déjà vu.

Contudo, logo desviei o olhar e saí do m eu estado de transe, e fui à

cafeteria com Alberto, que j á m e esperava a algum a distância.

Juro que pensei ter visto um anj o.