Inspiração
15 anos depois...
— Lala, eu estou m orrendo de dor!
Acordei assustada com a voz baixa do Lucas ao m eu lado. Ele
tinha as m ãos espalm adas na barriga e um a expressão sofrida em seu rosto. Sentei-m e apressada espantando a sonolência totalm ente.
— O que foi, Lucas?
— Meu estôm ago está doendo. Não consigo identificar o que possa
ser, é m uita dor e não consigo pensar.
Claro que ele iria tentar adivinhar o que era a causa, com o
estudante de m edicina tinha essa m ania de diagnosticar qualquer sintom a que tivesse, antes de algum profissional fazer a análise. Dizia que era com o um a prática para quando se form asse não apanhar tanto na residência.
— Larga de ser bobo. Vam os ao hospital, agora. Você não vai ficar
aí sofrendo.
Levantei-m e rapidam ente e fui m e vestir, estava de pij am a e não
era um a roupa decente para um hospital, m esm o sendo de m anhã tão cedo. Apesar que não daria tem po para nada. Deixei Lucas se contorcendo de dor e corri para a sala. Pensei em pedir um a am bulância, m as dem oraria dem ais. Acabei optando por um táxi, j á que não tínham os um carro, então era m elhor do que esperar por um ônibus.
Voltei para m eu quarto e m eu irm ão estava gem endo baixinho.
Típico, tentava a qualquer custo não m e preocupar. Para chegar a m e cham ar no início da m anhã devia estar sentindo m uita dor e desconfiava que estivesse há m ais tem po, devia estar em seu lim ite.
Arrum ei-m e rapidam ente, vesti calça j eans e um a cam iseta
regata folgada. Corri para o quarto do Lucas, peguei seu cartão do plano de saúde e identidade. Estava no corredor quando a buzina do táxi soou do lado de fora. Meu irm ão apareceu na porta, pálido e segurando a barriga.
— Se apoia em m im que te aj udo.
Enlacei sua cintura e tentei aguentar seu peso. Saím os e logo
fechei a porta sem m e im portar em trancá-la, vivíam os num bairro de periferia, porém calm o. Os vizinhos nos conheciam bem e o índice de crim inalidade ali era quase inexistente.
Acom odei o Lucas no banco traseiro e entrei dando instruções ao
m otorista.
— Por favor, vá o m ais rápido possível. Pela dor que ele está
dem onstrando deve ser séria a situação — m inha voz denunciava o que sentia. Estava desesperada!
— Sim , senhora. Não vam os dem orar nada, na parte da m anhã o
trânsito tá fraco.
Assenti e observei o Lucas. Estava quieto e tentando se segurar.
Droga, odiava m e sentir im potente. Ele quase não ficava indisposto. Sem pre fora um garoto forte e saudável, m esm o porque eu ficava louca com as poucas vezes que adoecia.
A em oção m e engasgava e fazia m eus olhos lacrim ej arem , era difícil deixá-las transparecerem . Sem pre m e m antive forte e na linha. Não gostava de sentir dem ais. A única pessoa que deixei m e conhecer realm ente era a m esm a que estava m e preocupando profundam ente. Nunca dei m argem para ninguém m ais se aproxim ar, sem pre fora só nós dois. Às vezes era um pouco solitário, contudo m ais seguro.
Chegam os à porta do hospital e paguei ao m otorista a corrida, ele
deu a volta abrindo a porta do carro para o Lucas sair. Agradeci a Deus por sua alm a caridosa, coisa difícil de se encontrar nos dias de hoj e. O taxista nos acom panhou até a recepção e colocou m eu irm ão sentado num a cadeira enquanto eu ia ao balcão dar entrada no atendim ento.
— Olá, bom dia, em que posso aj udar? — A recepcionista sorriu
calorosa. Era um a garota com vinte e poucos anos, m orena e de olhos castanhos sim páticos.
— Meu irm ão tá com m uita dor no estôm ago e estou assustada.
Ele precisa de atendim ento urgente.
— Ok. Por favor, a senhora pode m e dar o cartão do plano de
saúde e a identidade dele?
Peguei na bolsa e entreguei a ela. A m ulher digitou os dados do
Lucas no com putador e observava atentam ente a tela. Eu estava em polvorosa, m inha perna não parava quieta e a todo instante observava m eu irm ão se contorcendo na cadeira. O taxista j á havia ido em bora.
— Pronto, senhora. Com o ele está com m uita dor, vai ser
encam inhado im ediatam ente para um clínico enquanto a senhora aguarda aqui.
— O quê? Não, eu preciso acom panhá-lo. — Não conseguiria
aguentar esperar por notícias.
— Sinto m uito, m as só m enores de idade é perm itido
acom panhante. Assim que tiver algum a resposta do m édico, nós a avisarem os.
— Ok, então que sej a rápido.
Ela sorriu e se levantou com um a ficha de atendim ento em m ãos.
— É só aguardar que o m édico j á vai cham á-lo.
Assenti a contragosto e peguei os docum entos do Lucas. Sentei ao
seu lado e m urm urei palavras de conforto, que sabia que iria relaxá-lo, quando percebi j á estava cantarolando um a m úsica que costum ava entoar pra ele quando pequeno.
Logo o m édico o cham ou e fiquei nervosa esperando. Não parei
quieta, dei voltas pela sala da recepção lançando dardos com o olhar para a atendente. Meia hora depois, ela aproxim ou-se. Acom panhei-a até a m esa e ela se sentou m e olhando com cautela.
— Senhora, pelo que o doutor m e disse pelo telefone seu irm ão
está com pancreatite, é quando sofrem os de pedra na vesícula biliar e não é descoberto a tem po, então evolui para este estágio. Ele precisa ser operado urgente, m as j á foi encam inhado para o centro cirúrgico. Só tem um problem inha... — Ela torceu a boca fazendo um a careta sem graça. — O plano de saúde não cobre esse tipo de cirurgia. A senhora vai ter que pagar à parte.
— O quê? Com o assim ? Eu pago todo m ês certinho e sem pre
usam os sem nenhum problem a.
— É, m as, infelizm ente, não podem os fazer nada. Seu plano é
standard, não inclui esse tipo de serviço. Para isso teria que entrar em contato com a adm inistradora do plano e leva tem po, ele precisa de atendim ento urgente.
— Mas eu não tenho nenhum dinheiro, o que vou fazer? Meu
irm ão precisa ser operado.
A m oça franziu a testa e respirou fundo.
— Então, eu vou ter que m andar transferi-lo para um hospital
público — disse, j á digitando no com putador.
— Oh, Deus, isso é um absurdo. Com o assim ? Se m eu irm ão não
for operado agora, am anhã m esm o eu vou aparecer na im prensa e este hospital vai ser fechado. Eu trabalho num escritório de advocacia.
A m ulher m e olhou assustada e j á ia falar algum a coisa quando o
telefone tocou, ela pediu licença e atendeu. Escutou por algum m om ento e desligou.
— Senhora, tem os um a boa notícia. Tem um m édico cirurgião que
acabou de pegar o plantão do dia e escutou sobre o caso do seu irm ão, eu j á havia m andado o pedido de transferência, m as ele decidiu fazer a cirurgia sem custo e arcar com a dívida do hospital.
Fiquei sem palavras. Não consegui m ais conter as lágrim as que
am eaçavam transbordar em m eu rosto. Agradeci e fui m e sentar, aguardando para que a cirurgia do m eu irm ão term inasse bem .
Horas de angústia se passaram até que m e deram perm issão para
ver o Lucas. Ele estava deitado na cam a do hospital, com um lençol cobrindo o peito, de olhos fechados e dorm ia pacificam ente. Um a enferm eira estava pendurando seu soro e sorriu pra m im quando m e avistou no quarto.
— Olá, com o ele está? — sussurrei
— Ótim o, a cirurgia foi um sucesso. Ele foi operado por um dos m elhores do hospital.
Assenti e m e aproxim ei acariciando o rosto do Lucas.
— Onde o doutor está? Gostaria de dizer obrigada. — Nunca fiquei
tão agradecida por um estranho existir.
Ela balançou a cabeça discordando.
— Bom , ele j á passou por aqui assim que a anestesia do seu irm ão
term inou, segundo o próprio paciente, que é estudante de m edicina e passaria todas as inform ações pós-operatórios para a senhora. O doutor ainda tentou argum entar, m as Lucas pode ser bem persuasivo. — Ela sorriu observando o paciente que estava alheio à conversa em seu sono profundo. — Então com o ele terá o dia cheio, designou o Dr. Vilela para auxiliá-la em qualquer dúvida que venha a ter. Disse que j á fica feliz de ter salvado seu irm ão. A cirurgia é um pouco com plicada, m as graças a Deus deu tudo certo e agora é só aguardar a recuperação. Em algum as sem anas, ele vai estar ótim o.
— Mas eu queria tanto dar um abraço. Você pode pelo m enos
transm itir um recado?
— Claro. — A enferm eira m e olhou atentam ente.
— Diz que lhe agradeço m uito. E que Deus possa recom pensá-lo à
altura. O que ele fez pelo m eu irm ão não tem preço.
Ela sorriu e se aproxim ou colocando a m ão em m eu om bro.
— Pode deixar, querida. Ele ficará feliz.
Deixei m eu corpo relaxar, j á que m eu irm ão estava bem . O terror
que invadiu m eu coração com a am eaça que fosse algo sério quase m e sufocou. Se eu o perdesse tam bém desconfiava que não teria forças para prosseguir, pois doía só de im aginar. E era por esse m otivo que não poderia m e envolver com ninguém , era arriscado dem ais.
***
Havia acabado de pegar no plantão quando fui cham ado para um a
cirurgia de em ergência de pancreatite. Um rapaz de vinte anos reclam ou de dor no estôm ago e correu para o hospital. Ainda bem , porque era algo com plicado e com risco altíssim o de infecção.
Preparei-m e para entrar na sala onde seria realizada a operação
— o paciente j á estava sendo acom odado —, quando m eu bip soou com a inform ação que ele seria transferido para um hospital público por falta de cobertura do plano de saúde. Logo tom ei um a atitude que m e pareceu a única a ser considerada, arquei com todas as despesas. Reuni um a equipe disposta e nos preparam os para a cirurgia.
Entrei na sala antes do rapaz ser anestesiado. Seus olhos verdes m e
observavam , assustados.
— Olá, sou o Dr. Bruno Petri. Vai correr tudo bem com a sua
cirurgia, não fique alarm ado.
Ele assentiu com a cabeça e olhou em volta.
— Eu sei, m as sou estudante de m edicina e sei que a cirurgia é
com plicada. Tem o risco de infecção.
Estudantes de m edicina e m édicos eram os pacientes m ais difíceis
de tratar, porque eles sabiam dos riscos e recuperação.
— Não se preocupe porque vai dar tudo certo, sem m odéstia sou o
m elhor da área.
Ele assentiu e fechou os olhos, dei o sinal afirm ativo para o
anestesista, ele aplicou a solução intravenosa no paciente, que logo adorm eceu. Gostava de conversar antes do procedim ento. Era um a rotina m inha, dava m ais segurança para o enferm o.
Com ecei a cirurgia com plicada e m e concentrei totalm ente. E
com a equipe ótim a que havia ao m eu dispor, a m esm a foi um sucesso. Encam inhei o rapaz para o repouso com todos os cuidados pós-operatórios em m ãos e m e dirigi à sala onde a burocracia m e esperava.
Estava distraído quando Am anda, um a das enferm eiras que
acom panhou a intervenção, bateu na porta.
— Dr. Petri, tenho um recado da irm ã do paciente que você
operou a vesícula.
Levantei os olhos da papelada que estava preenchendo e observei.
Ela tinha um sorriso anim ado no rosto.
— Ah, é? Qual foi?
Ela se acom odou na cadeira à m inha frente, seus olhos estavam
brilhando de excitação. Era m uito bom encontrar profissionais sérios com seu trabalho.
— Ela disse para o senhor que lhe agradece m uito, e que Deus lhe
dê a recom pensa m erecida. A m ulher estava m uito agradecida, realm ente. Tinha lágrim as em seus olhos. Queria lhe dar um abraço.
Meu coração se encheu de felicidade. Esse era um dos m otivos
que escolhi a profissão de m édico. Sem pre quis fazer a diferença. Quando recebi a notícia de que o paciente teria que ser transferido por falta de pagam ento, fiquei incom odado. Quando fiz o j uram ento de Hipócrates não foi de brincadeira: “A saúde do meu doente será a minha primeira preocupação”.
Não seria por algum problem a financeiro que eu iria deixar um
rapaz j ovem e agonizando em dor. Além do m ais j á estávam os todos prontos para a operação. Meu desej o sem pre foi salvar vidas e seria assim até o fim da m inha carreira.
— Estou feliz que fiz o bem . Só o sucesso da cirurgia j á foi
agradecim ento suficiente. Disse a ela sobre o pós-operatório que inform ei ao irm ão?
— Sim , eu avisei tam bém que o Dr. Vilela passaria por lá para tirar
suas dúvidas. Bom , doutor. Já vou indo, m eu turno term inou, só fiquei para te auxiliar na cirurgia. Meu m arido j á está na recepção. — Se levantou cam inhando para a porta.
— Ok, Am anda. Bom descanso. — Sorri e a olhei agradecido pela
aj uda que havia oferecido.
— Obrigada, e parabéns por ser um m édico tão bom . O país
precisa de m ais exem plos com o o senhor.
— A você tam bém , afinal tam bém não cobrou nada do hospital
para m e aj udar nessa cirurgia. Aliás, a equipe inteira j á estava em final de plantão e m e acom panharam . — Quando ouviram o caso do paciente e que eu iria fazer tudo por m inha conta, reuniram seus equipam entos e fizeram sua parte.
— Claro, doutor. O senhor é um exem plo. Tão j ovem e dedicado...
Bom , até am anhã.
— Até.
Observei-a sair e fiquei pensando no que disse, sobre a irm ã do
rapaz. Recom pensa... Nunca pensei em algo assim , não precisava. Minha retribuição consistia em salvar um a vida e fazer o bem .
Com um sorriso no rosto voltei m inha atenção à papelada na
m inha frente. Tinha m uitos prontuários para ler e pacientes para visitar o dia todo, fora as várias cirurgias m arcadas.
Escutei um a batida na porta.
— Pode entrar — disse e olhei por cim a dos papéis.
Alberto enfiou o rosto e sorriu pra m im , daquele j eito debochado
de sem pre.
— E aí, senhor bom sam aritano? Fiquei sabendo da boa ação do
dia.
— Ha-ha... Muito engraçadinho. Com o se você não fosse fazer o
m esm o.
Eu e Alberto estudam os j untos e fizem os residência no m esm o
hospital. Juram os fazer o nosso m elhor com o dom que era colocado em nossas m ãos. Salvaríam os o m aior núm ero de vidas possíveis.
— Aham , m as não vem ao caso — desconversou e arqueou um a
sobrancelha. — Só vim te dizer que espalhou por todo o hospital. As enferm eiras estão em polvorosa. Você sabe, adoram um cara de boa índole que as pega no quartinho.
Encostei-m e à cadeira, colocando os braços atrás da cabeça, e
observei m eu am igo atentam ente.
— Cara, você é m uito idiota. Com o se aguenta? Eu não quero
ninguém por m otivo de fam a ou glória. Fiz o que tinha que fazer. A irm ã do paciente queria m e agradecer, m as eu nem fui lá. Não quero esse tipo de notoriedade.
— Eu sei, m as você pode aproveitar com as m eninas. Tem um as
novatas na área.
— Alberto, você é m uito galinha. Sabe que não gosto de m e
envolver com enferm eiras, depois elas ficam no pé. — Arqueei as sobrancelhas sabendo que ele iria retrucar de algum a m aneira.
— É, m as quando elas te j ogam no quartinho você não foge.
Sorri e balancei a cabeça, m eu am igo não tinha j eito. Se ele pegou
todas as enferm eiras do hospital era pouco.
— Claro que não. Com o recusar quando a m ulher vem pegando
em você e j á tirando a roupa?
— Hum -hum ... Isso que tô falando. Porém você nunca teve nada
sério com ninguém . Na verdade, nunca te vi nam orando. — Ele inclinou a cabeça de lado m e observando, fiquei incom odado com seu escrutínio atento. Apesar de ele ser galinha, às vezes se envolvia com algum as delas por algum tem po. Não que fosse ser fiel, m onogam ia não era o seu forte.
— Nunca viu porque eu nunca quis. Tô fora. Deus m e livre ficar
com m ulher atrás de m im , querendo saber cada passo que dou.
Não queria relacionam entos, estava m uito bem com m inha vida
de solteiro e m inha profissão. Realizado era pouco.
— Rá, quero ver o dia que alguém te pegar de j eito. Acho que vou
rir m uito. — Coisa que j á estava fazendo.
— Para isso acontecer, m eu am igo, só se for um anj o enviado por
Deus.
— Se você diz... Tá pronto para um intervalo? Estou indo à sala de
repouso tom ar um café.
Olhei aquele m onte de papel e decidi aceitar. Levantei-m e e
acom panhei Alberto corredor afora. Estávam os num a conversa anim ada e, quando passam os em frente a um dos quartos de repouso, senti um arrepio na espinha. Olhei de esguelha pra dentro do aposento e um par de olhos verdes brilhantes m e fizeram perder o rum o por um segundo. Tive um a sensação de déjà vu.
Contudo, logo desviei o olhar e saí do m eu estado de transe, e fui à
cafeteria com Alberto, que j á m e esperava a algum a distância.
Juro que pensei ter visto um anj o.