Inspiração
Capítulo 38
Bruno
— Meu filho, Sabrina disse que você vai fazer um a festa de
aniversário para o Lucas na sua casa? Por que não faz aqui? É m aior e m ais perto pra todo m undo — a voz da m inha m ãe ao telefone era tão fina e alta que tive que desencostar o aparelho do ouvido um pouco. Ela gostava m uito de fazer festa, eu sabia que quando soubesse iria querer tom ar conta de tudo.
O aniversário do Lucas era no dom ingo e eu estaria de folga, então
era a oportunidade perfeita para tam bém com em orarm os a m udança da Lay la para m inha casa. Não via a hora de ter m eu anj o só pra m im , dava um frio na barriga com a aproxim ação do dia em que a teria em tem po integral. Porém não ficaríam os em casas separadas, com o m uita gente faz, para aum entar a expectativa, eu não conseguiria. Iríam os dorm ir j untos todas as noites, j á havia viciado em seu corpo quente.
— Mam ãe é um a boa ideia, até porque evita de dar trabalho a
Lay la logo no prim eiro dia que ela vai se m udar.
— O quê?!
Droga, dei um tapa na testa autom aticam ente. Ainda não tinha falado com m inha m ãe sobre Lay la estar indo m orar com igo. Na verdade, ninguém sabia, estávam os curtindo a ideia prim eiram ente. Mas agora eu iria ouvir até o próxim o ano.
— É, nós resolvem os j untar as escovas de dente. Mesm o sendo
cedo, não conseguim os ficar separados.
— Oh, filho, que ótim a notícia. — Sua voz doce não m e enganava,
sabia que a bronca estava por vir. — Mas você devia ter m e contado, garoto. Não se esconde isso da sua m ãe.
— Eu não escondi, m ãe. É que ficam os tão em polgados com tudo
que acabei esquecendo de avisar.
— Hum , tudo bem . Mas agora a festa vai ter que ser m aior para
com em orar vocês estarem j untando os trapos. — A deixei falar, não ia adiantar interrom per m esm o. Em anos aprendi a ficar quieto nas horas certas. — Tem os que convidar seus prim os e tios, eles vão querer estar presentes...
E por aí foi a ladainha de quem convidar, o que fazer para com er.
Se Lay la iria cantar pra alegrar a festa. Quando percebi tinha m eia hora que estava no telefone com a m inha m ãe. Meu intervalo estava quase no fim e m e despedi dizendo que retornaria m ais tarde. Um a m entira deslavada.
A única coisa que faria m ais tarde era correr para os braços do
m eu anj o. Joguei o celular em cim a da m esinha e com um suspiro encostei a cabeça no encosto do sofá. Estava pensando em todas as noites que teria ao lado dela quando Alberto entrou na sala. Ele não estava nada bem , m al-hum orado pra dizer no m ínim o.
— Que bicho te m ordeu?
— O que você tem a ver com isso? E com o sabe que tem algum a coisa errada? — explodiu.
Bom , fora o tem po em que eu o conhecia... Seus cabelos estavam
tão bagunçados que parecia sair de um furacão, o sorriso que sem pre estava presente — sua m arca registrada — tinha dado lugar a um a carranca de dar m edo, fora as roupas desalinhadas enquanto ele dava voltas pela sala com o se estivesse nervoso com algum a coisa.
— Ah, nada... É porque estou com vontade de im plicar com
alguém hoj e. Cara, larga de ser idiota, te conheço há anos. Desem bucha, antes de eu ter que voltar pro plantão.
Com um suspiro ele sentou ao m eu lado e deitou a cabeça, olhando
para o teto. Aguardei paciente, Alberto só falava quando tinha vontade.
— Eu estava no quartinho...
— Novidade — zom bei interrom pendo, ele virou pra m im com
um a careta. Levantei as m ãos em sinal de rendição.
— Bom , continuando. Essa enferm eira nova estava atrás de m im
há algum tem po, então decidi pegar. Mas... que droga! Eu não consegui.
— Com o assim ? Alguém pegou você antes? — Não seria nenhum a
surpresa, Alberto não tinha cuidado nenhum . Parecia gostar de viver perigosam ente
— Não, seu idiota. Eu não fiquei pronto, m eu pau não subiu,
entendeu? — Fez um a cara sofrida.
Eu fiquei olhando, atônito. Então com ecei a rir, j oguei a cabeça
pra trás e segurei a barriga. Gargalhei até sair lágrim as dos m eus olhos. Com o no m undo, Alberto negava fogo?
— E por quê?
— Ah, foda-se. Se você for ficar rindo, não vou falar m ais nada. A
m ulher saiu brava e disse que eu era um a porra de propaganda enganosa — A cara dele só m e fez rir m ais. — É séria a m inha situação, Bruno.
— Tá, vai term ina. Prom eto não fazer m ais nada. — Com prim i os
lábios tentando segurar a risada, m as era côm ico vê-lo daquele j eito.
— Desde a m erda do dia em que Ana veio aqui, não consigo parar
de pensar nela. E não pude estar com m ulher nenhum a depois disso.
Uau, apesar de ser m uita inform ação do que provavelm ente ele
fez após ver m inha irm ã, m eu am igo estava um pouco ferrado. Se havia m ulher teim osa com o um a m ula, era m inha irm ãzinha.
— Então você não consegue foder ninguém , porque fica pensando
na m inha irm ã? — Fiz um a careta de noj o.
— É, cara, ela m e irritou m uito. E você sabe que com a gente
sem pre foi assim , entre brigas e nam oros atrás do carro.
— Ah, droga Alberto. Sem m ais detalhes, cara. É m inha irm ã.
Ele sorriu com algum a m erda de lem brança.
— Eu sei, m as o problem a é que eu preciso m e reconciliar com
ela. Pelo m enos para serm os am igos, não vou aguentar ficar assim por m uito tem po.
Arqueei um a sobrancelha, curioso. Não entendia m uito bem o
raciocínio dele.
— Quer dizer, sem foder pelos cantos do hospital? Não tá na hora
de você encontrar alguém e sossegar?
Alberto m e olhou com o se estivesse louco. Há algum tem po atrás,
eu seria o prim eiro a m e internar por estar delirante, m as agora não m e via m ais ciscando por aí.
— Não tem ninguém pra m im , cara.
Meu am igo parecia desolado. Eu fiquei com um pouco de pena
porque a separação com Ana quase o destruiu. Lem bro-m e m uito bem do desespero em que ficou. Desde então nunca m ais se envolveu sério com ninguém . Só transava ocasionalm ente sem se envolver em ocionalm ente.
— Por que você não vai à festa na casa da m inha m ãe, no
dom ingo? É aniversário do irm ão da Lay la, m as tam bém vam os com em orar nossa união.
De repente, ele levantou a cabeça.
— União? Você vai se casar?
— Ainda não. Vam os m orar j untos, tenho certeza que se eu pedir
ela não vai aceitar. Lay la é m eio cautelosa.
— Pelo m enos alguém é — bufou.
— E o que você quer dizer com isso, idiota?
Ele respirou fundo e acenou com a m ão.
— Deixa pra lá, cara. Eu estou sendo um babaca. Fico feliz por
você. Mas será que sua irm ã não vai se chatear por m e ver na festa? — Parecia preocupado.
— Com certeza. Mas você liga? — Ele sorriu confirm ando que
não. — Ela não vai poder falar m uito, é aniversário do garoto. E ele vai trabalhar com o assistente aqui no hospital, então faz de conta que se conhecem . É um a oportunidade de conversar com ela em território neutro.
Ele pensou um pouco e um sorriso m alicioso despontou em seu
rosto. Eu não gostei m uito, o que ele poderia estar pensando em aprontar poderia m e colocar em m aus lençóis.
— Até que você é inteligente, irm ão. Vou sim , que horas vai ser?
— Por volta das 18h. — Me levantei porque j á estava na hora de ir
trabalhar. — Então, te vej o lá.
Ele assentiu e ficou com um sorriso travesso no rosto. Eu só
esperava que Ana não m e m atasse depois daquilo. Já podia até ver as notícias nos j ornais da m inha execução. Mas tinha as m elhores intenções, m inha irm ã foi m uito feliz quando eles estavam j untos, agora era cheia de m ágoas e ressentim entos. Tornou-se um a m ulher am arga. E tanto ela quanto Alberto ficaram sozinhos todos esses anos. Nunca a vi com ninguém sério, apenas esporadicam ente com caras m anés e sem noção. Realm ente não sabia o que tinha rolado. Mas será que não valia a pena perdoar?
Para m im , que sou um cara apaixonado, sem pre dá pra ter m ais
um a chance.
Meu telefone tocou e olhei o visor. Era m eu anj o. Desviei para
um a saleta perto do Centro de Unidade Intensiva e atendi, sentando na cadeira da sala de espera.
— Oi, m eu anj o. Já sentindo m inha falta?
Pude ouvir sua risada do outro lado da linha e m eu corpo
respondeu no m esm o instante. O que tinha naquela voz que m e deixava tão louco?
— Claro, m as não é pra isso que estou ligando. Sua m ãe m e ligou
com m il perguntas sobre quem eu vou convidar, não tenho a m ínim a ideia. Ela m e deixou louca.
— Você vai ter que se acostum ar com a ansiedade da dona
Marisa. Ela adora tom ar conta de tudo. — Lay la não estava habituada a esse tipo de interesse m aternal.
— É, eu sei, fiquei de perguntar ao Lucas. Eu só tenho Heitor e a
Elisa do bar, m eus únicos am igos.
— Que bom , vai ser legal tê-los lá. — Mesm o tendo poucas
pessoas com quem contar, Lay la adorava o pessoal do Beer.
— Ah, e Sabrina tam bém ligou.
— Ih, o que ela queria? — Não podia ser boa coisa.
— Me parabenizar e dar os pêsam es por estar m orando com você.
Disse que é o m aior desorganizado.
Não pude evitar em gargalhar com aquilo, era m esm o o estilo da
caçulinha dar esse tipo de entusiasm o a m inha m ulher.
— E você acreditou, anj o?
— Sim , m as não m e im porto. Já estou acostum ada a m orar com
um garoto. Vou gostar de cuidar de você.
— Mas não dessa vez. Quem vai cuidar de alguém nessa história
serei eu. Você vai viver com o um a princesa.
Lay la ficou em silêncio e cheguei a olhar a tela para ver se havia
desligado. Até que falou baixinho:
— Eu fui ver m eus pais.
Droga, isso não era bom . Meu anj o ficava m uito triste quando
falava sobre sua fam ília.
— E você está bem ? — Fiquei realm ente preocupado.
— Por incrível que pareça, sim . Libertei-m e de m uita coisa
naquele lugar hoj e. Sinto-m e leve. É com o se eles estivessem abençoando m inha escolha e estivessem felizes por m im .
— Claro que estão, Lay la. Onde quer que estej am acredito que
estão m uito orgulhosos de você e do Lucas. Mas... você foi sozinha? Devia ter m e esperado que eu fosse j unto.
— Não, Lucas m e acom panhou. Conversam os hoj e cedo, ele não
quer m orar conosco. Vai ficar sozinho.
Eu j á im aginava isso, m as não queria alarm á-la. Lucas j á tinha
idade de querer liberdade, por m ais que am asse a irm ã ainda assim precisava ter seu próprio espaço.
— E você está bem com isso? Não se arrependeu, né?
Ok, adm ito que estivesse soando com o um a garotinha insegura.
Mas não podia evitar quando se tratava do am or da m inha vida. Ainda éram os m uito recentes para ter certeza do que ela queria realm ente.
— Claro que não, seu bobo. Eu estou bem sim , j á está na hora dele
viver sua própria vida e eu a m inha. Na verdade, eu só troquei de com panheiro de casa.
— Uh, m as esse aqui pode ser m uito m ais divertido.
— Ah, assim eu espero, Dr. Garanhão.
De início eu não gostava desse apelido, m e lem brava da m inha
época de galinha. Mas depois da noite passada acabei gostando da ideia dela cavalgar em m im o quanto quisesse.
— Mal posso esperar para estar com você, m eu anj o. Já term inou
m eu intervalo. Vej o-te em casa à noite.
— Ok, te am o. Você sabe, né?
— Sei sim . Eu tam bém am o você.
— Eu tenho um a coisa para te dizer, m as você vai ter que esperar
até a festa do Lucas.
— Droga, vou ficar curioso. O que é?
— Espera, seu apressadinho. — Ouvi sua risada gostosa do outro
lado da linha.
— Ok, até m ais.
Desliguei o telefone com o peito cheio de felicidade. Minha vida
ao lado dela não seria perfeita, porque a de ninguém é. Mas conseguiríam os contornar nossos problem as.
Agora era só esperar para chegar em casa e beij ar m eu anj o.