Inspiração

Gisele Souza · Capítulo 45 de 46

Páginas do PDF

Inspiração

Capítulo 42

 

Layla

 

Estar no palco era um dos m eus m aiores prazeres. Não o único,

não m ais. Finalm ente, estava vivendo m eu sonho, sem saber que o tinha.

Estávam os m orando j untos há quase um ano. De vez em quando

nos estranhávam os. Muito norm al entre um casal tão diferente, m as a nossa reconciliação era a m elhor parte, pois não havia invenção m ais deliciosa do que sexo para fazer as pazes.

E fizem os, em todas as superfícies da casa. Já que Sabrina

realm ente tinha se m udado para m orar com Lucas, tínham os liberdade total para andarm os nus quando quiséssem os.

Eu nem queria saber com o eles estavam levando a convivência.

Mas a últim a notícia que tive era que Lucas havia se tornado galinha de carteirinha. Não iria m e envolver, m as não achava legal essa atitude dele. Bruno disse que j á previa essa atitude do m eu irm ão, ainda m ais se fosse rej eitado, o que parecia ser o caso.

A galera toda estava presente: Larissa com os gêm eos e o m arido,

sem pre m uito apaixonados e os m eninos encantadores. Ana Luiza tinha vindo com um a am iga enferm eira e, às vezes, lançava olhares furtivos na direção de Alberto, que por sua vez estava desacom panhado, coisa inédita de se ver. Não havia m ais tentado nenhum a investida para cim a de Ana após a festa do m eu irm ão, m as estava sem pre forçando sua presença. Parecia ser sua estratégia de com bate.

Heitor estava no bar servindo os pedidos dos clientes e sorrindo

secretam ente para o m eu lado, ele era o único que sabia do m eu plano. Lucas tinha trazido um a garota com ele — que não gostei nada. Sabrina parecia querer sufocar a garota no próprio copo de refrigerante. A relação daqueles dois era m uito com plicada de entender. Minha sogra estava linda, tinha saído de casa só para presenciar aquele m om ento. Disse ser o dia m ais feliz de sua vida, pois seu filho estava com pletando um ano de j uízo. Eu não podia discordar, pelas histórias Bruno não tinha sido nada fácil.

Eu estava planej ando fazer essa coisa há dias. Ainda não tinha tido

coragem . Mas depois de um a tentativa dele que eu fracassei há três m eses atrás — por um a trapalhada com o sem pre, quando ele ia fazer o pedido eu disse que queria esperar —, decidi tom ar à frente. Afinal, era um a m ulher m oderna. Minhas inseguranças tinham ficado anos-luz atrás. Levantei-m e da m esa em que estávam os com os am igos e fui m e preparar.

Tive um a espécie de déjà vu, estava no cam arim vestindo m inha

roupa de “estrela”. Preparando-m e para o show. Sentia um a euforia bem característica, sim ilar àquele prim eiro dia que o vi. Entendi o que era, som ente depois de um tem po refletindo, era o destino arrum ando um j eito de m e avisar que m inha vida iria m udar. E realm ente m udou.

Só que agora era por um m otivo bem diferente. Cam inhei para o

palco e m e acom odei, dei sinal para o DJ. Teria acom panham ento eletrônico, m esm o não sendo m uito m eu estilo, m as para aquela m úsica especialm ente precisaria.

— Boa noite, m eu nom e é Lay la Bonatti e hoj e vou cantar um a

m úsica m uito especial para alguém igualm ente im portante. Peço que prestem atenção à letra tão sensível. Com o sabem , quem m e conhece, canto o que m eu coração m anda, não sou com positora. Mas, às vezes, acho que certas m úsicas foram feitas exatam ente para certo tipo de situações. Vou cantar especialm ente a um a pessoa aqui presente. Halo, de Beyoncé.

 

“Se lembra daquelas paredes que construí?

Bem, querido, elas estão desmoronando

E elas nem sequer resistiram à queda

Elas nem sequer fizeram barulho

 

Encontrei uma maneira de te deixar entrar

Mas na verdade nunca tive dúvida

De pé em frente da luz da sua auréola

Consegui o meu anjo agora”

 

Esquadrinhei m eu olhar pelo bar e encontrei aqueles olhos azuis

que tanto ocupavam m eus sonhos. Que m e encantaram e m odificaram m eu interior no m esm o m om ento que cruzaram com os m eus. E agora o tinha para apreciar quando quisesse. Bruno estava sorrindo, adorava vê-lo sorrir. Era com o um bálsam o ao m eu coração, desde o início. Estar ao seu lado m e deixava flutuando.

“É como se eu tivesse sido acordada

Cada regra que tive que quebrar

É o risco que estou correndo

Nunca vou te deixar de lado

 

Em todos os lugares que estou olhando agora

Você me cerca com o seu abraço

Amor, posso ver sua auréola

Você sabe que é a minha graça salvadora”

 

Tudo o que eu havia sonhado se resum ia a um a só pessoa. Era

im pressionante com o ele havia se tornado tão im portante em tão pouco tem po. O am or que sentia, cada vez m ais crescia em m eu peito. Eu cantava com todo m eu coração e alm a. Ele era m eu anj o.

 

“Me atingiu como um raio de sol

Queimando pela noite mais escura

Você é o único que quero

Acho que estou viciada na sua luz”

 

A cada m uro que erguia ele desm oronava um a parede. E sem pre

seria assim . Aquele hom em foi feito para m im . Me levaria em seus braços e cuidaria de m im . Nunca m e deixaria sozinha, nunca m ais sentiria saudade de algo que não tive.

 

“Em todos os lugares que estou olhando agora

Você me cerca com o seu abraço

Amor, posso ver sua auréola

Você sabe que é a minha graça salvadora”

 

Dem onstrou várias vezes todo o m eu am or por todo esse tem po,

tinha tanta gratidão por Deus ter separado alguém tão certo. Não havia pessoa m elhor destinada a estar ao m eu lado. Eu não era m uito boa com palavras, m as na m úsica eu conseguia expressar tudo o que sentia.

A canção continuou e não desgrudei os olhos do m eu garanhão.

Seu sorriso tinha esm orecido e estava sério e em ocionado. Tinha entendido tudo o que eu queria dizer. Lágrim as desciam por seu rosto bonito e senti m inha garganta apertando com tanto que sentia. Com m inha voz ainda m ais enrouquecida, dem onstrei todo o am or que sentia por aquele hom em m aravilhoso.

Quando term inei, respirei fundo e m e preparei para o que viria a

seguir. Esperei os aplausos term inarem , sabia que iriam gostar, era um a m úsica conhecida. Badalada nas rádios. Porém não era por isso que cantei, m as pela em oção que a letra m e trouxe.

— Obrigada, pessoal. Fico feliz que tenham gostado. Mas o m otivo

de estar aqui desnudando m inha alm a, é que hoj e é um dia m uito especial pra m im , faz um ano que conheci um a pessoa que virou m inha vida totalm ente pelo avesso. E eu adorei. Ele m e irritou, m e deu vontade de socar aquela cara presunçosa. — Bruno sorria com os olhos brilhantes. Sabia bem do que eu estava falando. — Mas m e am ou com o nunca fui am ada. Eu tinha um sonho que nem m esm o sabia. Você diz que sou seu anj o? Mas é o contrário. Foi em você que vi m eu protetor, m inha salvação. Vivia um a vida vazia e nem sabia.

Levantei-m e e apoiei o violão na caixa de som . Peguei o

m icrofone e cam inhei até o m eio do bar. Prontam ente, ele veio em m inha direção. Lindo, seu andar não m e deixava esquecer que era um predador. E m eu!

— Eu nunca tive am bição. Para conseguir sobreviver, cada dia foi

um a luta. E m e sentia realizada quando term inava e deitava a cabeça no travesseiro. Ao seu lado m e libertei e pude conhecer a m im m esm a. Tive a chance de m e am ar. Você é m inha inspiração. Acho que cada um tem a sua. A m inha é inevitavelm ente o hom em lindo de olhos azuis que m e encantou num a noite no bar. Agora preciso que m e responda um a coisa... — A essa altura conseguia ver m uitas pessoas chorando, principalm ente eu. Olhei naqueles olhos que tanto m e perturbaram e que agora m e acalm avam . — Casa com igo?

Engoli em seco. Bruno, que estava sorrindo, ficou sério de repente,

e balançou a cabeça parecendo chateado ou desconfortável. Não saberia dizer por que, estava m uito nervosa.

— Você tinha que estragar m inha surpresa, né m ulher? O que eu

vou fazer com você?

Meu Deus, ele vai dizer não. Mas Bruno se aj oelhou e tirou um a

caixinha do bolso.

— Quando eu digo que você é m eu anj o, não estou m entindo.

Quero todos os dias ouvir sua voz doce cantando ao m eu ouvido. Sentir seu corpo quente e m acio ao m eu quando acordo. Ter sua luz natural m e envolvendo. Agora quem tem que pedir algum a coisa aqui sou eu. Eu sou o hom em nessa relação, poxa! — Sorriu com o um m enino, lindo e feliz. — Quer casar com igo, am or da m inha vida?

Ele abriu a caixinha e duas alianças lindas estavam presas na

alm ofadinha. Um a era lisa, e na outra havia três diam antes cravados. Ele estendeu a m ão e se levantou.

— E então, o que m e diz? — Seus olhos azuis brilhavam em

expectativa.

Apaixonei-m e por ele novam ente, com o acontecia todos os dias.

Observei atentam ente e vi que tinha um a gravação por dentro. Em cada um a tinha a m esm a frase: Você é meu Anjo. Meus olhos se encheram de lágrim as. E só havia um a resposta a ser dita.

— Sim . Eu quero passar todos os dias ao seu lado, m eu garanhão.

— Escutei um a risada coletiva e percebi que ainda segurava o m icrofone.

Larguei-o em um a m esa qualquer e enlacei o pescoço do m eu

futuro m arido. Beij ei sua boca com fom e, com o sem pre, parecia ser a prim eira vez. Não m e cansava do gosto m aravilhoso que tinha. Ele m e levantou pela cintura e rodou fazendo-m e ficar tonta. Nossa alegria era tão grande que m e esqueci das pessoas em volta.

Afastam o-nos em m eio a aplausos e assovios. Recebem os os

parabéns de todos do bar. Dem orou bastante até que conseguíssem os falar com todas as pessoas que ali se encontravam em m eio à nossa felicidade.

Enfim , fom os liberados e cam inham os pro lado de fora de m ãos

dadas. Bruno encostou-se no carro e m e cham ou para que m e acom odasse entre seus braços. Aproxim ei-m e e aspirei seu perfum e. Ele era o único que m e tirava do sério. Ficava desnorteada só em ouvir sua voz grave e rouca.

— Feliz, anj o? — Acariciou m eu rosto com o dorso dos dedos.

Ele sem pre m e tratou com m uito carinho. Não tinha o que

reclam ar.

— O que você acha? Meu garanhão finalm ente resolveu m e fazer

um a m ulher honesta. — Dei de om bros, com o se não m e im portasse. Ele sorriu e beliscou a ponta do m eu nariz.

— E quer dizer que você não era honesta? Será que fui enganado?

E você m e frustrou três m eses atrás.

— Não sei bem , por todas as traquinagens que fizem os todo esse

tem po. Não posso dizer que sou um a santa. — Sorri m aliciosam ente.

Ele pegou m eu queixo e levantou até seu rosto roçando a boca na

m inha, levem ente.

— Eu te am o m uito, Lay la — falou em m eus lábios.

— Eu tam bém , m eu anj o. — Nos beij am os com todo am or que

havia em nossos corações.

Todos têm um sonho. O m eu se resum ia a encontrar um am or. Ser feliz. Ser cuidada... Nunca havia alm ej ado fam a ou nada parecido. Apenas a alegria de estar com aqueles que am ava m e deixava satisfeita.

Porém Bruno m e m ostrou outro patam ar de felicidade. Tornou-m e

plena. Fui m ulher com pletam ente em seus braços, conheci o prazer da carne e da alm a. Naquele m om ento de j úbilo lem brei-m e da senhora que encontrei no ônibus, quando m e disse que teria um a escolha a fazer. Não foi nada m aterial.

A m inha escolha foi interiorm ente: continuar sendo um a m ulher

retraída, insatisfeita, insegura, m edrosa e sozinha; ou abrir os braços para um am or sem lim ites, entregando-m e totalm ente, m ergulhando de cabeça e confiando?

Minha escolha estava bem na cara.

Encontrei m inha inspiração. Abri os braços e pulei.

E você? O que te inspira?