Inspiração
Capítulo 39
Layla
Estávam os a todo vapor com os preparativos da festa. Seria um a
loucura, a m ãe do Bruno — m inha sogra, ainda não tinha acostum ado ao título —, estava quase m e levando à insanidade total com tantas coisas pra fazer, o que era pra ser um a festinha virou um acontecim ento. Dona Marisa queria saber se tínham os algum parente que queríam os convidar. Até havia alguns tios e prim os, m as não valia a pena o incôm odo. Com o não tiveram a m ínim a consideração de nos procurar em anos, não os queria por perto num m om ento tão alegre.
Estava no processo de em pacotar há dois dias, só tinha o resto da
tarde pra term inar, j á que na m anhã seguinte estaria em novo endereço. Deparei-m e com um m onte de coisa que não queria levar. Estava separando e resm ungando — que ia ter que com prar um guarda-roupa inteiro se continuasse a achar só coisa velha —, quando Bruno entrou no quarto e m e envolveu em seus braços fortes.
Im ediatam ente larguei tudo e m e aconcheguei respirando seu
perfum e delicioso. Seu hálito em m eu pescoço provocava arrepios por toda m inha pele.
— Adivinha só, anj o? — falou m ordiscando o lóbulo da m inha orelha.
— Hum ... — gem i, o quão bem m e sentia com seus carinhos.
— Eu fiz um a pequena loucura.
— O quê? — m inha voz j á havia ficado rouca naquela altura,
tam bém pudera, né? Entre m ordidas, Bruno dava um a lam bida em cada ponto sensível que eu tinha no pescoço.
— Com prei um carro novo.
— Hum -hum ... — Inclinei m inha cabeça para o lado dando um
acesso m elhor. Bruno deu um a risadinha e m e virou de frente pra ele.
— Você não está prestando atenção, m ulher. — Seus olhos
brilhavam , divertidos.
— Ah, e o que você queria? Distraindo-m e desse j eito, só dá pra
pensar em um a coisa. — Coloquei as m ãos na cintura em frustração, por ter interrom pido algo que estava tão bom .
— E o que a m inha safadinha estava pensando?
— Não interessa, você perdeu o direito de saber, j á que m e
interrom peu.
Ele abriu um sorriso am plo m ostrando todos aqueles dentes
brancos, não m e cansava de adm irar com o ficava bonito descontraído. Desde o início o que m e m ais m e cham ou atenção foi esse ar de m enino travesso que carregava.
— Ok, sinto m uito, te com penso m ais tarde. Mas escuta, eu com prei um carro novo.
Arqueei um a sobrancelha em confusão. Pra que precisava de
outro carro?
— Pra que? O seu Honda tá novinho. — Olhei em seus olhos, que
estavam cheios de expectativa.
— Não é pra m im .
— Com o assim ?
— Vem . — Pegou m inha m ão m e arrastando quarto afora.
Chegam os à entrada e tinha um carro verm elho lindo estacionado ao lado do Civic do Bruno.
— Ué, resolveu trocar de carro?
— Claro que não, nem fale isso na frente do m eu bebê. — Revirei
os olhos. Homens e seus carros. Humpf! — Esse carro aqui é um Renault Clio, e é seu.
Juro que não captei logo de prim eira, fiquei olhando seu rosto
sorridente e olhos brilhantes. Parecia um m enino. Me apaixonei m ais um a vez, som ente por aquela expressão de puro contentam ento. Aí que m e dei conta do que ele disse.
— Pra m im ? Bruno você ficou louco? É m uito caro.
Ele se aproxim ou e m e abraçou apertado, apoiou o queixo no topo
da m inha cabeça.
— Não, Lay la. Eu só não quero você andando de ônibus tarde da noite após sair do Beer. Não vou ficar tranquilo fazendo plantão sabendo que você está desam parada.
Afastei-m e para olhar em seus olhos. Percebi que ele falava a
verdade, não era um capricho, m as um a necessidade pra que ficasse em paz.
— Você é louco, Bruno. — Apesar da m inha relutância, fiquei
entusiasm ada em ter m eu próprio carro. — Mas eu am ei... Posso entrar?
— Claro. — Tirou a chave do bolso e m e entregou.
Dei pulinhos de felicidade indo em direção ao carro. Entrei e m e
sentei sentindo o cheirinho de novo. Olhei pra cim a e Bruno estava parado no m esm o lugar com as m ãos enfiadas nos bolsos, sorrindo. Levantei o dedo e o cham ei com m alícia no olhar. Ele arqueou um a sobrancelha e deu a volta sentando no banco do carona.
— Tem os que estrear esse carro — disse lam bendo os lábios em
antecipação daquela boca m aravilhosa sobre a m inha.
— Ah, é? E o que você está pensando fazer?
Aproxim ei-m e e rocei levem ente m inha boca na dele, ouvi um
gem ido fraco e sorri. Falei em seus lábios.
— Podem os com eçar com um beij o. — Nem dei tem po dele
responder.
Levei um a m ão até seu pescoço e ataquei sua boca frenética. Com
a m ão livre, espalm ei aberta em seu peito. Mordisquei seus lábios e acariciei sua língua m acia. Bruno tinha um gosto m aravilhoso, era com o um afrodisíaco. Toda vez que sentia o calor de sua boca ficava em brasa.
Mas logo interrom pi nosso beij o e m e afastei deixando-o atônito,
ainda de olhos fechados, ele sorriu.
— Acho que vou te dar m ais presentes. Se receber um
agradecim ento desses, você vai ter m ais coisas que a rainha da Inglaterra.
Aproxim ei m eus lábios de sua orelha e sussurrei:
— Espere até à noite pra ver o que é agradecim ento.
Bruno gem eu e j ogou a cabeça pra trás no encosto do banco.
— Cara, eu acho que vou m orrer antes de com pletar trinta anos.
Você j á é insaciável, im agina m orando j untos, vam os ficar igual coelhos.
— Não exagera, foi você que m e transform ou num m onstro
guloso por sexo. O que eu posso fazer? Toda vez que vej o esses olhos lindos e o corpo m usculoso, eu só quero lam ber todinho.
— Porra, Lay la. Se você ainda quer levar suas coisas pra m inha
casa é m elhor parar de falar isso. Ou então eu vou ter que estrear seu carro novo em outras m odalidades.
Não era um a m á ideia. Mas eu tinha toneladas de tralhas pra
carregar. Íam os ter tem po de sobra.
— Ok, seu chato. Vam os recolher aquele m onte de coisa e encher
seu quarto m asculino de flores.
Bruno arregalou os olhos e abriu a boca.
— Droga, m eu quarto vai virar de m ulherzinha.
— Tá se arrependendo? Ainda dá tem po...
— Nunca, anj o. Quero ficar ao seu lado todos os dias da m inha
vida. — Acariciou m eu rosto com o dorso dos dedos.
— Bom , porque senão eu teria que te bater até voltar à razão.
— Você ficou bem atrevida depois que nos conhecem os, né?
— Aprendi com o m elhor...
Saí do carro, rindo da cara dele. Eu tinha m udado m uito ao longo
do nosso relacionam ento, não que eu fosse um a garota chata que ficava se lam entando pelos cantos. Mas estava m ais confiante e então tinha liberdade de brincar.
Bruno m e seguiu ao quarto para term inar de arrum ar as m alas.
Trabalham os entre brincadeiras e beij os roubados. Em um a hora term inam os e carregam os aquele m onte de bagagem , e dividim os entre os dois carros.
Fazia tem po que não dirigia, m as era com o andar de bicicleta. Dei
partida e o ronco do m otor m e deu um a excitação estranha. Estava louca pra correr com ele. Bruno m e observava pelo outro carro com um sorriso largo no rosto. Dei sinal para que saísse e o acom panhei. Decidi não abusar, afinal nem conhecia o carro direito.
Fom os num a velocidade razoável até sua casa, quer dizer nossa.
Era engraçado, ainda dem oraria um pouco até m e acostum ar. Bruno desceu e foi descarregar o porta-m alas, eu fiz o m esm o. Por fim teríam os que fazer um as duas viagens cada pra poder colocar tudo dentro de casa.
Assim que abrim os a porta, escutam os um burburinho vindo da
cozinha. Sabrina e Ana estavam m ontando pizzas e falando pelos cotovelos, seria legal tê-las em casa para m e anim ar.
— O que as gralhas estão fazendo aqui? — Bruno tinha um a
m aneira engraçada de tratar as irm ãs, podia ser sarcástico, m as eu percebia seu am or por elas.
Ana o fuzilou com os olhos.
— Ah, não sej a babaca. Estam os aqui para receber nossa cunhada
com pizza e nada pra você. — Sorrindo, m e aproxim ei e abracei cada um a.
— Meninas, vocês são dem ais.
— Espera até com eçarem a te im portunar com seus problem as de
m ulherzinha. — Tinha a leve im pressão que Bruno era traum atizado com as “coisas de m ulherzinha”.
— Se você não percebeu irm ão, Lay la tam bém é m ulher e não
vai se im portar de ouvir nossas lam úrias, não é cunhada? — Sabrina tinha um j eito todo característico de falar, sem pre gesticulava m uito. Muita em polgação num corpo tão pequeno.
— Ok, sou m inoria. O que m e resta é carregar as m alas. — Se
aproxim ou e deu um beij o estalado no m eu rosto. — Fica aí, anj o, que eu levo as m alas pro quarto. Divirta-se com essas loucas.
Observei ele subir as escadas, tinha um a bundinha de dar água na
boca. Prendi os lábios nos dentes para não correr atrás e m e trancar no quarto o dia todo.
Ouvi um pigarro e algum as risadinhas, olhei pra trás, percebendo
que havia com etido um a gafe, corei envergonhada. Estava cobiçando o irm ão delas na m aior cara dura.
— O que eu posso fazer, ele m e deixa louca! — Dei de om bros.
— Urgh, sem inform ações. Não é legal. — Ana Luiza fez um a
careta e abanou a m ão à sua frente. — Mas diz aí, anim ada? Am anhã vai ser um a festa e tanto. Mam ãe tá preparando m uita coisa, parece que vem um m onte de prim os ver o Bruno se enforcar. Ops, foi m al.
Tive que rir, Ana não tinha nenhum a trava na língua. E aquele era
seu m aior atrativo, adorava pessoas sinceras e que falavam o que queriam .
— Tudo bem , entendo o que quer dizer. Então o que vocês têm pra
fazer?
— Vai picando o queij o e presunto, m am ãe e Larissa virão m ais
tarde. Elas querem que você fique à vontade com a gente. Ah, seu irm ão tam bém foi convidado. — Ana indicou Sabrina com o polegar.
Engraçado, ela estava em relativo silêncio e parecia pensativa.
— Sabrina, o que foi? — Me aproxim ei com o m aterial nas m ãos
para com eçar a trabalhar. — Você tá quietinha, tem algum a coisa acontecendo? Tá desconfortável por eu vir m orar aqui?
Ela se assustou com a m inha pergunta e sorriu.
— Claro que não, Lay la. Adoro você. Mas é que estou pensativa.
Acho que vou arrum ar um lugar pra m orar, não quero incom odar vocês, vai ser com o se estivessem recém -casados.
— Im agina, Sabrina. Não vai nos incom odar.
— Tá na hora de m e desligar da m inha fam ília. Eu vou procurar
um a casa ainda hoj e. Tenho algum as am igas que m oram sozinhas, apesar de achar não ser um a boa ideia j á que sem pre tem vários caras circulando por lá.
Pensei um pouco e um a ideia surgiu na m inha cabeça. Poderia ser
um a furada, pois via o interesse evidente nos olhos do m eu irm ão.
— Por que você não fala com o Lucas? Ele vai ficar sozinho na
casa, e não precisa pagar aluguel, vai ser som ente as despesas diárias. Fica leve para os dois.
Ela arregalou os olhos e m ordeu o lábio inferior pensativa.
— Não sei se é um a boa ideia.
— Está com m edo de quê? Meu irm ão é um cara legal, nem é
m uito bagunceiro. Vocês não são am igos? — Arqueei um a sobrancelha.
Todos podiam perceber a energia que rolava entre os dois, m as se
fosse acontecer algo ia ser natural.
— Sim , m as...
— Nada de m as, vou falar com ele quando chegar. Vai ser bom
pra am bos, vão ter a independência que desej am e ainda não ficarão sozinhos.
Ela ficou quieta e continuou a picar os tom ates e as azeitonas. Pela
quantidade de coisas que j á tinham prontas, e ainda o que fazer, seria um batalhão de pizzas.
Aproxim ei-m e da Ana para m ontarm os os recheios nas m assas.
Ela estava concentrada e levou um susto quando m e viu ao seu lado.
— Desculpa, estava concentrada. — Sorriu, m e em purrando com
o quadril.
— O que foi? Parece preocupada?
— Não, é que fiquei sabendo que o Alberto vai na festa e não
gostei da notícia. — Desviou o olhar observando o m olho de tom ate.
— Hum , por quê? Acho-o tão legal.
— Ah, nós nam oram os na faculdade e não deu certo. Não gosto de
estar próxim a a ele. Foi algo bem sério e que m e m agoou m uito.
Assenti surpresa, eu sabia que eles tinham se envolvido. Porém
im aginei que tivesse acabado bem . Pelo j eito não. Ela estava realm ente chateada com aquilo.
Bruno desceu após alguns m inutos, resm ungando o quanto m ulher
fala.
— Dava pra ouvir vocês lá de cim a. Caram ba!
— Pode se acostum ar, m aninho, vam os estar sem pre por aqui
agora que tem um a presença estim ulante. — Arregalou os olhos provocando-o.
Era m uito engraçado ver Ana Luiza e Bruno interagindo. Eram
iguais em tudo, o que um dizia o outro rebatia.
E a desordem se com pletou quando Larissa chegou trazendo os
gêm eos e o m arido a tiracolo. Lucas veio logo depois e se postou ao lado de Sabrina. A m ãe do Bruno não viria, pois estava enrolada com os preparativos para a festa, m e ofereci para ir aj udar, m as as m eninas m e pararam dizendo que ela não gostava de ninguém interferindo em sua cozinha.
Colocam os as pizzas no forno e aguardam os tom ando um a
cervej a. Bruno sentou ao m eu lado na longa m esa que havia na copa. E ficam os conversando, contando casos da infância, eles tinham com etido m uitas traquinagens.
Por um instante parei e observei m inha nova fam ília. Lucas estava
com Sabrina rindo de algum a coisa que ela dizia. Ana estava entretida, brigando com Bruno pra variar. Larissa e o m arido estavam sem pre ocupados com os gêm eos para que não fizessem m uita bagunça. Um sorriso despontou em m eus lábios.
Ali era onde eu pertencia: num a fam ília grande, barulhenta e
louca.