Inspiração

Gisele Souza · Capítulo 42 de 46

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Inspiração

Capítulo 39

 

Layla

 

Estávam os a todo vapor com os preparativos da festa. Seria um a

loucura, a m ãe do Bruno — m inha sogra, ainda não tinha acostum ado ao título —, estava quase m e levando à insanidade total com tantas coisas pra fazer, o que era pra ser um a festinha virou um acontecim ento. Dona Marisa queria saber se tínham os algum parente que queríam os convidar. Até havia alguns tios e prim os, m as não valia a pena o incôm odo. Com o não tiveram a m ínim a consideração de nos procurar em anos, não os queria por perto num m om ento tão alegre.

Estava no processo de em pacotar há dois dias, só tinha o resto da

tarde pra term inar, j á que na m anhã seguinte estaria em novo endereço. Deparei-m e com um m onte de coisa que não queria levar. Estava separando e resm ungando — que ia ter que com prar um guarda-roupa inteiro se continuasse a achar só coisa velha —, quando Bruno entrou no quarto e m e envolveu em seus braços fortes.

Im ediatam ente larguei tudo e m e aconcheguei respirando seu

perfum e delicioso. Seu hálito em m eu pescoço provocava arrepios por toda m inha pele.

— Adivinha só, anj o? — falou m ordiscando o lóbulo da m inha orelha.

— Hum ... — gem i, o quão bem m e sentia com seus carinhos.

— Eu fiz um a pequena loucura.

— O quê? — m inha voz j á havia ficado rouca naquela altura,

tam bém pudera, né? Entre m ordidas, Bruno dava um a lam bida em cada ponto sensível que eu tinha no pescoço.

— Com prei um carro novo.

— Hum -hum ... — Inclinei m inha cabeça para o lado dando um

acesso m elhor. Bruno deu um a risadinha e m e virou de frente pra ele.

— Você não está prestando atenção, m ulher. — Seus olhos

brilhavam , divertidos.

— Ah, e o que você queria? Distraindo-m e desse j eito, só dá pra

pensar em um a coisa. — Coloquei as m ãos na cintura em frustração, por ter interrom pido algo que estava tão bom .

— E o que a m inha safadinha estava pensando?

— Não interessa, você perdeu o direito de saber, j á que m e

interrom peu.

Ele abriu um sorriso am plo m ostrando todos aqueles dentes

brancos, não m e cansava de adm irar com o ficava bonito descontraído. Desde o início o que m e m ais m e cham ou atenção foi esse ar de m enino travesso que carregava.

— Ok, sinto m uito, te com penso m ais tarde. Mas escuta, eu com prei um carro novo.

Arqueei um a sobrancelha em confusão. Pra que precisava de

outro carro?

— Pra que? O seu Honda tá novinho. — Olhei em seus olhos, que

estavam cheios de expectativa.

— Não é pra m im .

— Com o assim ?

— Vem . — Pegou m inha m ão m e arrastando quarto afora.

Chegam os à entrada e tinha um carro verm elho lindo estacionado ao lado do Civic do Bruno.

— Ué, resolveu trocar de carro?

— Claro que não, nem fale isso na frente do m eu bebê. — Revirei

os olhos. Homens e seus carros. Humpf! — Esse carro aqui é um Renault Clio, e é seu.

Juro que não captei logo de prim eira, fiquei olhando seu rosto

sorridente e olhos brilhantes. Parecia um m enino. Me apaixonei m ais um a vez, som ente por aquela expressão de puro contentam ento. Aí que m e dei conta do que ele disse.

— Pra m im ? Bruno você ficou louco? É m uito caro.

Ele se aproxim ou e m e abraçou apertado, apoiou o queixo no topo

da m inha cabeça.

— Não, Lay la. Eu só não quero você andando de ônibus tarde da noite após sair do Beer. Não vou ficar tranquilo fazendo plantão sabendo que você está desam parada.

Afastei-m e para olhar em seus olhos. Percebi que ele falava a

verdade, não era um capricho, m as um a necessidade pra que ficasse em paz.

— Você é louco, Bruno. — Apesar da m inha relutância, fiquei

entusiasm ada em ter m eu próprio carro. — Mas eu am ei... Posso entrar?

— Claro. — Tirou a chave do bolso e m e entregou.

Dei pulinhos de felicidade indo em direção ao carro. Entrei e m e

sentei sentindo o cheirinho de novo. Olhei pra cim a e Bruno estava parado no m esm o lugar com as m ãos enfiadas nos bolsos, sorrindo. Levantei o dedo e o cham ei com m alícia no olhar. Ele arqueou um a sobrancelha e deu a volta sentando no banco do carona.

— Tem os que estrear esse carro — disse lam bendo os lábios em

antecipação daquela boca m aravilhosa sobre a m inha.

— Ah, é? E o que você está pensando fazer?

Aproxim ei-m e e rocei levem ente m inha boca na dele, ouvi um

gem ido fraco e sorri. Falei em seus lábios.

— Podem os com eçar com um beij o. — Nem dei tem po dele

responder.

Levei um a m ão até seu pescoço e ataquei sua boca frenética. Com

a m ão livre, espalm ei aberta em seu peito. Mordisquei seus lábios e acariciei sua língua m acia. Bruno tinha um gosto m aravilhoso, era com o um afrodisíaco. Toda vez que sentia o calor de sua boca ficava em brasa.

Mas logo interrom pi nosso beij o e m e afastei deixando-o atônito,

ainda de olhos fechados, ele sorriu.

— Acho que vou te dar m ais presentes. Se receber um

agradecim ento desses, você vai ter m ais coisas que a rainha da Inglaterra.

Aproxim ei m eus lábios de sua orelha e sussurrei:

— Espere até à noite pra ver o que é agradecim ento.

Bruno gem eu e j ogou a cabeça pra trás no encosto do banco.

— Cara, eu acho que vou m orrer antes de com pletar trinta anos.

Você j á é insaciável, im agina m orando j untos, vam os ficar igual coelhos.

— Não exagera, foi você que m e transform ou num m onstro

guloso por sexo. O que eu posso fazer? Toda vez que vej o esses olhos lindos e o corpo m usculoso, eu só quero lam ber todinho.

— Porra, Lay la. Se você ainda quer levar suas coisas pra m inha

casa é m elhor parar de falar isso. Ou então eu vou ter que estrear seu carro novo em outras m odalidades.

Não era um a m á ideia. Mas eu tinha toneladas de tralhas pra

carregar. Íam os ter tem po de sobra.

— Ok, seu chato. Vam os recolher aquele m onte de coisa e encher

seu quarto m asculino de flores.

Bruno arregalou os olhos e abriu a boca.

— Droga, m eu quarto vai virar de m ulherzinha.

— Tá se arrependendo? Ainda dá tem po...

— Nunca, anj o. Quero ficar ao seu lado todos os dias da m inha

vida. — Acariciou m eu rosto com o dorso dos dedos.

— Bom , porque senão eu teria que te bater até voltar à razão.

— Você ficou bem atrevida depois que nos conhecem os, né?

— Aprendi com o m elhor...

Saí do carro, rindo da cara dele. Eu tinha m udado m uito ao longo

do nosso relacionam ento, não que eu fosse um a garota chata que ficava se lam entando pelos cantos. Mas estava m ais confiante e então tinha liberdade de brincar.

Bruno m e seguiu ao quarto para term inar de arrum ar as m alas.

Trabalham os entre brincadeiras e beij os roubados. Em um a hora term inam os e carregam os aquele m onte de bagagem , e dividim os entre os dois carros.

Fazia tem po que não dirigia, m as era com o andar de bicicleta. Dei

partida e o ronco do m otor m e deu um a excitação estranha. Estava louca pra correr com ele. Bruno m e observava pelo outro carro com um sorriso largo no rosto. Dei sinal para que saísse e o acom panhei. Decidi não abusar, afinal nem conhecia o carro direito.

Fom os num a velocidade razoável até sua casa, quer dizer nossa.

Era engraçado, ainda dem oraria um pouco até m e acostum ar. Bruno desceu e foi descarregar o porta-m alas, eu fiz o m esm o. Por fim teríam os que fazer um as duas viagens cada pra poder colocar tudo dentro de casa.

Assim que abrim os a porta, escutam os um burburinho vindo da

cozinha. Sabrina e Ana estavam m ontando pizzas e falando pelos cotovelos, seria legal tê-las em casa para m e anim ar.

— O que as gralhas estão fazendo aqui? — Bruno tinha um a

m aneira engraçada de tratar as irm ãs, podia ser sarcástico, m as eu percebia seu am or por elas.

Ana o fuzilou com os olhos.

— Ah, não sej a babaca. Estam os aqui para receber nossa cunhada

com pizza e nada pra você. — Sorrindo, m e aproxim ei e abracei cada um a.

— Meninas, vocês são dem ais.

— Espera até com eçarem a te im portunar com seus problem as de

m ulherzinha. — Tinha a leve im pressão que Bruno era traum atizado com as “coisas de m ulherzinha”.

— Se você não percebeu irm ão, Lay la tam bém é m ulher e não

vai se im portar de ouvir nossas lam úrias, não é cunhada? — Sabrina tinha um j eito todo característico de falar, sem pre gesticulava m uito. Muita em polgação num corpo tão pequeno.

— Ok, sou m inoria. O que m e resta é carregar as m alas. — Se

aproxim ou e deu um beij o estalado no m eu rosto. — Fica aí, anj o, que eu levo as m alas pro quarto. Divirta-se com essas loucas.

Observei ele subir as escadas, tinha um a bundinha de dar água na

boca. Prendi os lábios nos dentes para não correr atrás e m e trancar no quarto o dia todo.

Ouvi um pigarro e algum as risadinhas, olhei pra trás, percebendo

que havia com etido um a gafe, corei envergonhada. Estava cobiçando o irm ão delas na m aior cara dura.

— O que eu posso fazer, ele m e deixa louca! — Dei de om bros.

— Urgh, sem inform ações. Não é legal. — Ana Luiza fez um a

careta e abanou a m ão à sua frente. — Mas diz aí, anim ada? Am anhã vai ser um a festa e tanto. Mam ãe tá preparando m uita coisa, parece que vem um m onte de prim os ver o Bruno se enforcar. Ops, foi m al.

Tive que rir, Ana não tinha nenhum a trava na língua. E aquele era

seu m aior atrativo, adorava pessoas sinceras e que falavam o que queriam .

— Tudo bem , entendo o que quer dizer. Então o que vocês têm pra

fazer?

— Vai picando o queij o e presunto, m am ãe e Larissa virão m ais

tarde. Elas querem que você fique à vontade com a gente. Ah, seu irm ão tam bém foi convidado. — Ana indicou Sabrina com o polegar.

Engraçado, ela estava em relativo silêncio e parecia pensativa.

— Sabrina, o que foi? — Me aproxim ei com o m aterial nas m ãos

para com eçar a trabalhar. — Você tá quietinha, tem algum a coisa acontecendo? Tá desconfortável por eu vir m orar aqui?

Ela se assustou com a m inha pergunta e sorriu.

— Claro que não, Lay la. Adoro você. Mas é que estou pensativa.

Acho que vou arrum ar um lugar pra m orar, não quero incom odar vocês, vai ser com o se estivessem recém -casados.

— Im agina, Sabrina. Não vai nos incom odar.

— Tá na hora de m e desligar da m inha fam ília. Eu vou procurar

um a casa ainda hoj e. Tenho algum as am igas que m oram sozinhas, apesar de achar não ser um a boa ideia j á que sem pre tem vários caras circulando por lá.

Pensei um pouco e um a ideia surgiu na m inha cabeça. Poderia ser

um a furada, pois via o interesse evidente nos olhos do m eu irm ão.

— Por que você não fala com o Lucas? Ele vai ficar sozinho na

casa, e não precisa pagar aluguel, vai ser som ente as despesas diárias. Fica leve para os dois.

Ela arregalou os olhos e m ordeu o lábio inferior pensativa.

— Não sei se é um a boa ideia.

— Está com m edo de quê? Meu irm ão é um cara legal, nem é

m uito bagunceiro. Vocês não são am igos? — Arqueei um a sobrancelha.

Todos podiam perceber a energia que rolava entre os dois, m as se

fosse acontecer algo ia ser natural.

— Sim , m as...

— Nada de m as, vou falar com ele quando chegar. Vai ser bom

pra am bos, vão ter a independência que desej am e ainda não ficarão sozinhos.

Ela ficou quieta e continuou a picar os tom ates e as azeitonas. Pela

quantidade de coisas que j á tinham prontas, e ainda o que fazer, seria um batalhão de pizzas.

Aproxim ei-m e da Ana para m ontarm os os recheios nas m assas.

Ela estava concentrada e levou um susto quando m e viu ao seu lado.

— Desculpa, estava concentrada. — Sorriu, m e em purrando com

o quadril.

— O que foi? Parece preocupada?

— Não, é que fiquei sabendo que o Alberto vai na festa e não

gostei da notícia. — Desviou o olhar observando o m olho de tom ate.

— Hum , por quê? Acho-o tão legal.

— Ah, nós nam oram os na faculdade e não deu certo. Não gosto de

estar próxim a a ele. Foi algo bem sério e que m e m agoou m uito.

Assenti surpresa, eu sabia que eles tinham se envolvido. Porém

im aginei que tivesse acabado bem . Pelo j eito não. Ela estava realm ente chateada com aquilo.

Bruno desceu após alguns m inutos, resm ungando o quanto m ulher

fala.

— Dava pra ouvir vocês lá de cim a. Caram ba!

— Pode se acostum ar, m aninho, vam os estar sem pre por aqui

agora que tem um a presença estim ulante. — Arregalou os olhos provocando-o.

Era m uito engraçado ver Ana Luiza e Bruno interagindo. Eram

iguais em tudo, o que um dizia o outro rebatia.

E a desordem se com pletou quando Larissa chegou trazendo os

gêm eos e o m arido a tiracolo. Lucas veio logo depois e se postou ao lado de Sabrina. A m ãe do Bruno não viria, pois estava enrolada com os preparativos para a festa, m e ofereci para ir aj udar, m as as m eninas m e pararam dizendo que ela não gostava de ninguém interferindo em sua cozinha.

Colocam os as pizzas no forno e aguardam os tom ando um a

cervej a. Bruno sentou ao m eu lado na longa m esa que havia na copa. E ficam os conversando, contando casos da infância, eles tinham com etido m uitas traquinagens.

Por um instante parei e observei m inha nova fam ília. Lucas estava

com Sabrina rindo de algum a coisa que ela dizia. Ana estava entretida, brigando com Bruno pra variar. Larissa e o m arido estavam sem pre ocupados com os gêm eos para que não fizessem m uita bagunça. Um sorriso despontou em m eus lábios.

Ali era onde eu pertencia: num a fam ília grande, barulhenta e

louca.