Inspiração

Gisele Souza · Capítulo 16 de 46

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Inspiração

Capítulo 13

 

 

Layla

 

Sentir o peso do seu corpo, sua respiração em m eu pescoço, a pele

suada j unto a m inha, era um a sensação indescritível. Meu peito subia e descia freneticam ente, foi incrível. Bruno era um am ante habilidoso e nada egoísta. Foi o paraíso estar em seus braços, m as algum a coisa aconteceu com igo. Meu coração estava apertado e senti m eus olhos se enchendo de lágrim as. Não conseguia entender por quê. Tinha sido tudo tão bom , ele foi gentil e atencioso. Não havia m otivos para tristeza ou arrependim entos.

Bruno com eçou a se m over e levantou a cabeça, que estava

encostada em m eu om bro. Ele respirava rapidam ente.

— Oi. — Sorriu ofegante.

— Oi.

Ele se apoiou nos cotovelos e fez um a cara engraçada.

— Devo estar te esm agando, você é tão pequena que fico com

m edo de te quebrar. — Saiu devagar de m im e deitou ao m eu lado. Observou-m e intensam ente, e eu m e perdia naquele céu azul. — Dorm e com igo, Lay la?

Fiquei surpresa com aquele pedido repentino. Bruno virou o rosto e

focou os olhos no teto, com um a expressão cautelosa no rosto, m ordia o lábio inferior nervoso. Tive que rir. Um pegador com o ele, nervoso por pedir para um a garota dorm ir em sua casa?

— Eu não posso, am anhã trabalho cedo. Não dá pra andar por aí

com vestido de noite.

— Eu te levo em casa. — Suspirou. — Só fique com igo esta noite.

Bruno m e olhou fixam ente com expectativa. Eu tinha sentim entos

contraditórios guerreando em m eu peito. Queria tanto deixar rolar, ser totalm ente livre com aquele cara gostoso ao m eu lado. Mas, ao m esm o tem po, ficava tem erosa com o que poderia acontecer se eu m e apaixonasse. Os fantasm as do passado, as perdas e as decepções insistiam em não m e deixar.

Porém , ao olhar aquele corpo delicioso, não havia dúvida do que

eu realm ente queria: pular de cabeça.

— Ok. Mas você vai ter que m e levar ao escritório tam bém .

Ele sorriu am plam ente e levantou a m ão, acariciando o m eu rosto.

— Claro, com m uito prazer. Adorei estar com você, Lay la. Não

consigo m e lem brar de alguém m e fazendo tão bem com o você m e faz.

Aquele hom em ainda iria m e levar à loucura. Lindo, bom de

cam a, educado, gentil e ainda por cim a falava as coisas certas. Só m e deixava num a situação ainda m ais com plicada. Tinha m uita coisa dentro de m im , sentim entos desconhecidos e assustadores.

— Você tam bém não é nada m al. — Balancei as sobrancelhas.

Com os olhos brilhando, Bruno virou e subiu em m eu corpo.

Encaixou o peito sobre m im e circulou m inha cabeça entre seus braços.

— Nada m al, Anj o? Acho que tenho que provar alguns pontos

aqui.

— Oh, feri seus sentim entos m asculinos Neandertais? — Fiz um

biquinho divertido.

Ele respirou fundo e passou os dedos pelos m eus cabelos num a

carícia m aravilhosa.

— Você sabe que eu vou ficar louco, certo? Tudo isso entre a gente

é com o um a avalanche. Vai desabar tudo de um a vez, não estou acostum ado a isso, Lay la. — Seus lindos olhos azuis estavam preocupados.

— Eu tam bém não, Bruno. Tenho m uito m edo de m e envolver e

perder. A vida é m uito frágil, j á perdi dem ais.

— Com o assim ? O que você perdeu, Anj o?

Olhando em seus olhos percebi que acontecesse o que fosse, Bruno

seria um bom am igo. Eu não tinha m uitos, na verdade eu passava m ais tem po na com panhia de m im m esm a do que de outra pessoa qualquer.

— Meu pai m orreu quando eu tinha doze anos, Lucas tinha cinco.

Minha m ãe teve que trabalhar duro para sustentar a gente. — Suspirei, tentando segurar a em oção. — Ele sofreu um acidente de carro e não tinha seguro algum . Acabou que virei guardiã de um a criança.

— Mas você tam bém era criança, não devia carregar esse tipo de

responsabilidade.

— Se não fosse eu, quem seria? Minha m ãe se desdobrou em três

em pregos para pagar a nossa escola, para term os com ida na m esa. Quando m eu pai era vivo, tínham os um padrão de vida alto, então tudo baixou drasticam ente. Mam ãe vendeu nossa casa e com prou aquela onde vivo j unto com o Lucas. Nada m ais j usto do que aj udá-la cuidando do m eu irm ão.

Bruno olhava para m im com adm iração. Levou a m ão até m inha

bochecha e acariciou levem ente.

— E sua m ãe? Você não m e disse nada. Onde ela está?

Engoli em seco e virei o rosto, olhando para o seu guarda-roupa

escuro, m asculino. Era m uito difícil falar da m inha m ãe.

— Ela tam bém faleceu, insuficiência cardíaca. O coração cansou

de tanto trabalhar.

Ele ficou m uito quieto, nem m e arrisquei a olhá-lo nos olhos. Sabia

o que tinha ali: pena. Estava cansada daquilo, não precisava deste sentim ento. Lutei m uito na m inha vida. Mesm o porque m inha m ãe só viveu para que eu tivesse idade o suficiente para cuidar de tudo, então ela foi para j unto do seu am or. Ainda que achasse egoísta da sua parte, não iria ficar m e lam entando. Existem pessoas fracas dem ais e eu não era um a dessas.

Senti um a m ão forte em m eu queixo e pisquei, fazendo lágrim as

grossas escorrerem pelo m eu rosto. Bruno enxugou com o polegar e puxou o m eu rosto para j unto do seu.

— Eu te adm iro m uito, Lay la. Você enfrentou a perda dos seus

pais em um espaço relativam ente pequeno e conseguiu seguir em frente, criar seu irm ão sem pestanej ar. Muitas pessoas, no seu lugar, teriam j ogado tudo pro alto e vivido a própria vida. Quantos anos Lucas tinha quando sua m ãe m orreu?

— Onze.

Ele sorriu triste, passando o polegar por m eu rosto num a carícia

leve e carinhosa.

— Aguentou toda a adolescência de um m enino, sendo que você

ainda era m uito j ovem . Fico até sem graça, sabia?

Arqueei as sobrancelhas, surpresa.

— Por quê?

— Meu pai faleceu quando eu tinha dezesseis anos, e m inha m ãe

lutou sozinha com quatro crianças. Eu não aj udei em nada, na verdade só atrapalhei. Com Sabrina que foi diferente, por ser a m ais nova e m ais pentelha, eu não tive escolha... Ela ficava grudada em m im com o um carrapato. — Sorri com a im agem dela pequena, devia ser um a graça grudada nele o tem po todo. — Mas ele deixou a nossa situação boa financeiram ente. Tinha uns bons investim entos, então m antivem os nosso padrão de vida. Não foi nada com o você. Eu não tive que assum ir responsabilidades por ninguém .

— Mas pelo m enos você aj udou no que podia. Eu fiz o que era

necessário. Minha m ãe era um a casca vazia, Bruno. O pouco tem po em que m am ãe passava em casa só conseguia dorm ir, não tinha nenhum a perspectiva de seguir em frente, se fechou dentro de si e não tinha espaço para o m eu irm ão e eu. Quando m eu pai se foi, ela enterrou com ele toda sua personalidade e vontade de viver. Eu não quero ficar dependente de um a pessoa com o ela era dele.

Bruno acariciou m eu rosto ternam ente, colocou um a m echa de

cabelo atrás da m inha orelha e m e deu um beij o na testa.

— Eu entendo o que você quer dizer. Tam bém não quero apressar nada. O que rolou entre a gente foi bom dem ais para estragar com prom essas e m edos, m as não quero ficar sem te ver.

Sorri e m e m ovi em baixo do seu corpo.

— O que você está sugerindo? Um a am izade colorida?

— Não chega a isso. Não quero ninguém rondando enquanto estou

no território.

Dei um tapa em seu braço.

— Credo, falando assim parece que sou um a propriedade. Você

tem um a m aneira m uito eficaz de m e brochar, sabia? — Ele teve a audácia de rir da m inha cara.

— Não foi isso o que eu quis dizer, é porque se for só am izade há a

possibilidade de algum m alandro querer se aproveitar. Quero você só pra m im , Anj o.

Agora parou a brincadeira. Se ele não queria apressar e tam bém

não queria ser só m eu am igo, o que estava sugerindo?

— Sej a claro, Bruno. — Arqueei um a sobrancelha, m eu

tem peram ento j á estava alterado.

— Que tal um tipo de relacionam ento sem neuras? A gente deixa

rolar, m as com exclusividade.

Esse cara... era m uito esperto. Queria ser exclusivo, m as sem o

com prom isso de um nam oro?!

— E com o isso iria funcionar? Você pega o telefone, m e liga, m arcam os e nos encontram os quando você quiser? Tipo foda delivery?

Ok, eu estava irritada. Ele m e deixava confusa.

— Anj o, calm a. Quem disse ter m edo foi você, só achei que se

sentiria m elhor assim , sem com prom isso e sem m edo de perder. Por m im , eu te prendo na m inha cam a e não deixo sair m ais — Bruno falou num fôlego só. Pareceu alarm ado com a m inha reação.

Eu era com plicada m esm o. Mas não queria ser step de ninguém .

Se ele queria ficar com igo teria que ser de verdade, m eio term o não funcionava. Em purrei seu peito para m e sentar. Ele se afastou, e agarrei a ponta do lençol para cobrir m eu corpo.

— Olha, vou deixar claro e só vou falar um a vez: o que aconteceu

entre nós dois foi um evento novo para m im , não costum o sair com o cara e logo na prim eira noite ir dorm indo com ele. Algum a coisa m e fez fazer essa loucura, eu não sou assim . — Ele estava m e olhando sério. Nem liguei, continuei a falar tudo o que queria: — E outra, se você quiser ficar com igo, vai ter que ser pra valer, ou então pode caçar sua turm a. Meu m edo que se foda! Você não é hom em o suficiente para tirar isso de m im , não?

Ele sorriu am plam ente e se aproxim ou colando nossos corpos

novam ente. O hom em era um a enorm e distração.

— Acabou? Mulher, você é confusa. Vou te m ostrar quão hom em

eu sou para tirar seu m edo. A pergunta é: Está preparada para isso? — Mordeu m eu queixo enquanto falava. — Porque a partir do m om ento em que você falar que é m inha, não vai ter volta.

Engoli em seco. Por essa eu não esperava. Respirei fundo e segui o

m eu coração, m esm o que m eu cérebro gritasse que estava indo rápido dem ais. Não tinha j eito, eu seria dele. Mandei m inha m ente calar a boca e fiz o que queria pela prim eira vez na vida.

Dei de om bros e torci a boca.

— Mostra, então, o quanto você pode espantar m eu m edo.

Bruno se acom odou e m ordeu a m inha orelha.

— Se prepara, eu vou abalar as suas estruturas.

Disso eu não tinha dúvida.