Inspiração

Gisele Souza · Capítulo 38 de 46

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Inspiração

Capítulo 35

 

Layla

 

Minha apresentação foi m uito difícil. Cheguei cedo ao bar com o

havia prom etido ao Heitor e no palco derram ei toda m inha tristeza. Podia j urar que senti alguém m e observando, m as o Beer estava m uito cheio, não conseguia identificar ninguém . Mesm o porque m inha vista estava em baçada com lágrim as não derram adas.

Toquei m úsicas intensas e com letras que expressavam m eu

hum or que não estava nada bom . Não sabia se as pessoas gostavam , m as eu não conseguia ser diferente. Acostum ei-m e a dem onstrar m eus sentim entos nas canções.

Cham ei o intervalo e fui para o cam arim , assim que desci do palco

m inha visão estava nublada. Com o doía ficar sem ter notícias, ouvir sua voz e im aginar aqueles olhos azuis m e observando com desej o. Com o fiquei dependente de alguém tão rápido? Esse era m eu m edo: perder. Meu peito doía dem ais.

Fechei a porta e m e sentei em frente à penteadeira, abaixei a

cabeça entre as m ãos e fechei os olhos. Estava m uito cansada. Escutei um barulho da dobradiça rangendo e m e assustei, olhei por sobre o om bro e o Dr. Silva estava ali. Acabado. Com a barba enorm e e seus olhos vidrados. Parecia bêbado.

— Ora, ora. A putinha tá sozinha? Cadê seu m édico?

Eu li em algum lugar que se você está num a situação difícil e

sozinha, m antenha a calm a e m inta.

— Ele está lá fora. Já deve estar entrando a qualquer m om ento.

Ele cam baleou se aproxim ando. Levantei-m e para ficar m ais fácil

se precisasse fugir. Não arriscaria m inha integridade física confiando em sua falta de equilíbrio.

— Você acabou com a m inha vida, sua vadia. Minha m ulher m e

deixou e ainda descobriu as m inhas falcatruas. Perdi tudo, m inha carta da Ordem dos Advogados foi suspensa até term inarem as investigações — sua voz estava grossa e falava enrolando as palavras. — Tudo por sua causa, porque se doeu toda por eu te querer. O que você achava, Lay la? Se insinuando toda pra m im , não se m exe com um hom em e fica por isso m esm o.

Se não fosse trágico, seria côm ico. Eu m e insinuando para esse

velho? Nem em sonho. E não queria entrar no departam ento das suas fantasias, ou então era capaz de vom itar.

— Senhor, acho m elhor você ir em bora. Vam os deixar assim ,

tenho certeza que sua vida vai se acertar.

Ele sorriu diabólico e se aproxim ou, perto dem ais para o m eu

desconforto.

— Não, você vai m e pagar agora. Vou te ter nem que for à força.

Agarrou-m e tentando m e beij ar e eu gritei, suas m ãos noj entas j á

estavam em m eu corpo. A porta foi aberta de súbito e Bruno entrou com os olhos arregalados. Quando viu a cena pude ver seu rosto se transform ar, nunca tinha visto-o tão furioso. O doutor ainda não tinha notado de tão bêbado. Tentava tapar m inha boca com a m ão livre.

Bruno disparou da porta e deu um a gravata no Dr. André, que não

entendeu o que havia acontecido. O velho balbuciava e gritava m e xingando de todos os nom es horríveis. De repente, Heitor apareceu e viu a cena ficando confuso. Eu não conseguia dizer nada, estava em choque. Por um m inuto achei que seria violentada sem poder fazer nada.

Encostei-m e à parede escorregando até o chão e vi toda a cena se

desenrolar. Bruno gritava querendo socar o velho, m as Heitor o puxou e j ogou o advogado no sofá. Ele estava tão bêbado que nem m ostrou resistência.

Bruno sacou o celular e gritou que cham aria a polícia. Ele estava

descontrolado. Em m inha m ente nebulosa não conseguia raciocinar m uito bem , ficava m e perguntando o que ele estava fazendo no Beer.

— Essa m erda não vai ficar assim , seu filho da puta. Eu disse pra

ficar longe dela. — Só faltava sair fum aça das orelhas dele.

Heitor se aproxim ou de m im e agachou.

— Você tá bem , Lay la? Ele te m achucou?

Estendi os braços onde tinha m e segurado, estava verm elho, m as

não ia ficar m arca. Não com o a anterior, apesar de ter forçado não foi por m uito tem po.

— Não, estou bem .

— Quem é ele, Lay la?

Eu sabia que levaria um a bronca por ter escondido sobre o assédio,

m as acabei m e esquecendo totalm ente depois que Bruno enfrentou o velho.

— Meu ex-chefe. Ele m e assediou uns dias atrás e parece que teve

alguns problem as com isso.

Heitor abaixou a cabeça e coçou o queixo.

— E por que eu só estou sabendo disso agora? Ele te m achucou da

outra vez?

A m arca que tinha no m eu braço j á havia sum ido quase

totalm ente, só se olhasse bem que daria pra ver.

— Estou bem .

— Não esconda m ais essas coisas... Bruno j á cham ou a polícia.

Vou levar o velho pra fora. Pode ir pra casa, não precisa se apresentar m ais hoj e. — Ele olhou pra trás. — E acalm e o seu m édico, parece que quer m atar o cara.

Bruno andava para os dois lados da sala fulm inando o doutor

André. Meu coração apertou quando percebi o que havia acontecido. Ele tinha m e salvado, estava ali. Isso queria dizer algum a coisa? Será que veio term inar de vez?

Minha respiração acelerou e com ecei a ficar com a visão

em baraçada. Senti um a m ão forte e quente em m inhas pernas e abri os olhos, Bruno estava agachado à m inha frente, preocupado.

— Calm a, anj o. Você vai ter outro ataque, ficou pálida com o um

papel. Vam os ter que ver isso, não pode ficar tendo colapsos todos os dias.

Oh, Deus. Ouvir sua voz grossa m e cham ando de anj o de novo era

um bálsam o ao m eu coração doído.

— Por que isso tá acontecendo?

— Você afogou m uito estresse e m ágoa, é norm al. Mas vam os

aprender a controlar, você vai ficar bem . Eu vou cuidar de você. Aquele velho tocou em você?

Meus olhos se encheram de lágrim as com a lem brança. Bruno m e

abraçou encostando m inha cabeça em seu peito. Seu perfum e m e acalm ou e m inha visão com eçou a voltar ao norm al. Mas não m e afastei, estava sentindo falta do seu corpo quente.

— Desculpe, Lay la. Por tudo. Eu não sei o que fazer para você m e

perdoar. Se eu estivesse aqui não teria acontecido essa m erda. Esse noj ento nem teria chegado perto. Droga!

Sua voz estava rouca e olhei para cim a, os olhos azuis que tanto

am ava estavam m olhados de lágrim as. Não era bom ver um hom em forte chorando.

— Não é sua culpa, Bruno. Eu tam bém não o vi. E, além do m ais,

você m e salvou de ter acontecido algo pior.

Ele fechou os olhos e lágrim as escorriam em seu rosto sem parar,

m e sentei m elhor e passei a m ão por sua bochecha.

— Eu sinto tanto por ter te deixado. Fui m uito orgulhoso, m as

percebi que não posso viver sem você, anj o. Não quero m ais ficar longe. Por favor, diz que m e perdoa. Que podem os retom ar de onde param os.

Sorri e assenti, é o que m ais desej ei nesses dias que ficam os separados. Só levantei para o trabalho por m era força de responsabilidade. Algo que aparentem ente em dem asia m e prej udicou, m as teria essas drogas de colapso pra m e tratar. Ainda bem que nam orava um m édico.

— Claro que sim , m eu am or. Eu te am o, fiquei m uito m al por estar

longe. E não havia ninguém m elhor do que você pra m e salvar.

Ficam os ali m ais algum tem po e escutam os o barulho da sirene. A

polícia tinha chegado e eu daria m eu depoim ento. Agora teria certeza que o velho noj ento seria punido.

Não dem orou e um policial bateu na porta. Bruno o convidou a

entrar e respondi suas perguntas. Ele disse que por ter sido flagrante iria ficar preso, e com o estava sem nenhum tostão não tinha com o pagar fiança.

Ainda assim seria um pouco chato, teria que com parecer num

tribunal se fosse entrar com um processo. Coisa que j á havia decidido levar em frente. Já tinha sido ingênua um a vez, não m ais.

Pedi ao Bruno para que m e esperasse e fui ao banheiro. Lavei o

rosto e as m ãos, queria tirar o cheiro horroroso do velho de m im . Saí ao seu encontro, ele estava encostado na parede do lado de fora com as m ãos nos bolsos. Quando m e viu, abriu um sorriso lindo e pegou m inha m ão levando-a aos lábios para um beij o carinhoso. Fom os de m ãos dadas para a frente do bar. As pessoas m e olhavam estranho, devem ter visto e ouvido a confusão.

Passam os pelo balcão para despedir do Heitor.

— Estam os indo, obrigada por m e deixar sair m ais cedo.

Ele balançou a cabeça e estreitou os olhos em Bruno, que sorriu e

assentiu com o um soldado.

— A trate bem , seu idiota. E você m ocinha, se cuida. Pode tirar o

resto da sem ana de folga.

— E com o ficam as apresentações?

Ele deu de om bros fazendo um a careta.

— Vou ver algum a coisa, não se preocupe, sei m e virar. — Sorriu

e se inclinou sobre o balcão para m e dar um beij o no rosto. — Agora vai, estrela. Descansa.

Assenti, agradecida. Seria bom passar alguns dias de folga total.

Fom os para fora do Beer e Bruno m e abraçou. Com o sem pre, m e

sentia agradecida por ele estar ao m eu lado. Não im aginava m inha vida sem a sua presença. Engraçado eu pensar nisso sem sentir m edo.

Ele abriu a porta do carro e eu entrei. Fom os devagar pela cidade,

parecia que estava com m edo de que eu quebrasse a qualquer m om ento. Mas apesar de tudo eu estava bem , o que estava m e doendo m ais era ter ficado longe dele. O velho era louco, não tinha nem o que ficar lam entando.

E aconteceu tanta coisa pra nos separar no pouco espaço de tem po

em que estávam os j untos que não era engraçado.

Depois de um tem po Bruno estacionou em frente à m inha casa, a

luz da sala estava acesa, sinal que Lucas estava em casa. Suspirei resignada, ele iria querer explicações que não estava pronta para dar.

— Você vai ficar?

Bruno levou a m ão até o m eu rosto acariciando, levem ente.

— Você tem certeza? Não quer descansar? — Apertou m eu

queixo.

— Eu não quero passar m ais um a noite sem você. É m uito

doloroso.

Ele engoliu em seco e assentiu saindo do carro, deu a volta e abriu

a porta para m e dar passagem . Pegou m inha m ão e acionou o alarm e trancando tudo. Fom os abraçados até a varanda, respirei fundo e abri.

Lucas franziu a testa e levantou-se da m esa onde estava estudando.

Sabia que ficaria preocupado ao ver m eu rosto.

— O que foi, Lala?

Tentei disfarçar m eu rosto, m as podia perceber que seria

im possível. Ele j á havia visto que eu estava abatida.

— Vem Lucas, tenho que te contar um a coisa.

Levei-o até o sofá e contei tudo que aconteceu, desde o assédio no

escritório ao episódio de hoj e. Meu irm ão ficou louco, disse que eu tinha que ter lhe contado e queria ir bater no velho.

Mas Bruno o tranquilizou nessa parte, dizendo que j á tinha

resolvido tudo e não deixaria o hom em im pune. Eu nunca havia visto m eu irm ão tão bravo.

— Você não podia ter escondido isso de m im , Lay la. Eu sou seu

irm ão, tenho que cuidar de você.

Sorri triste, na verdade era sem pre eu a cuidar dele.

— Lucas, sem pre fui eu por m im m esm a. Está tudo bem .

Ele passou as m ãos pelos cabelos e parou na m inha frente.

— Lay la, eu não sou m ais criança. Entenda de um a vez por todas,

se você continuar escondendo coisas im portantes de m im pra m e “poupar”, eu vou em bora dessa casa. Não quero ser m ais um a carga pra você.

Não m e deu nem chance de retrucar qualquer outra coisa. Saiu

batendo a porta, afundei a cabeça entre as m ãos tentando entender o que eu fiz de errado. Lucas nunca tinha sido tão agressivo.

Senti Bruno se aproxim ando, sentou ao m eu lado m e abraçando.

— Ele vai ficar bem , Lay la. Só está frustrado por não ter feito

nada. Eu entendo isso, fiquei exatam ente assim quando soube que a Sabrina havia sido agredida.

— Com o assim ? — franzi a testa.

— Ah, relacionam ento conturbado e o cara forçou a barra. Não é

legal para nós, irm ãos, ouvir essas coisas e não poder fazer nada.

Entendi o que ele quis dizer. Lucas estava bravo consigo m esm o,

não com igo. Eu estava agradecida por estar ao seu lado. Abracei sua cintura e deitei m inha cabeça em seu peito m usculoso. Ele passava a m ão em m eus cabelos m urm urando palavras de conforto.

Devo ter adorm ecido, porque a próxim a coisa que sabia era que

estava na m inha cam a, nua. Braços fortes envolviam m inha cintura, num aperto possessivo e seguro.

Acom odei-m e um pouco m ais no corpo do m eu hom em e fechei os olhos agradecida por Deus ter trazido ele de volta.