Inspiração
Capítulo 35
Layla
Minha apresentação foi m uito difícil. Cheguei cedo ao bar com o
havia prom etido ao Heitor e no palco derram ei toda m inha tristeza. Podia j urar que senti alguém m e observando, m as o Beer estava m uito cheio, não conseguia identificar ninguém . Mesm o porque m inha vista estava em baçada com lágrim as não derram adas.
Toquei m úsicas intensas e com letras que expressavam m eu
hum or que não estava nada bom . Não sabia se as pessoas gostavam , m as eu não conseguia ser diferente. Acostum ei-m e a dem onstrar m eus sentim entos nas canções.
Cham ei o intervalo e fui para o cam arim , assim que desci do palco
m inha visão estava nublada. Com o doía ficar sem ter notícias, ouvir sua voz e im aginar aqueles olhos azuis m e observando com desej o. Com o fiquei dependente de alguém tão rápido? Esse era m eu m edo: perder. Meu peito doía dem ais.
Fechei a porta e m e sentei em frente à penteadeira, abaixei a
cabeça entre as m ãos e fechei os olhos. Estava m uito cansada. Escutei um barulho da dobradiça rangendo e m e assustei, olhei por sobre o om bro e o Dr. Silva estava ali. Acabado. Com a barba enorm e e seus olhos vidrados. Parecia bêbado.
— Ora, ora. A putinha tá sozinha? Cadê seu m édico?
Eu li em algum lugar que se você está num a situação difícil e
sozinha, m antenha a calm a e m inta.
— Ele está lá fora. Já deve estar entrando a qualquer m om ento.
Ele cam baleou se aproxim ando. Levantei-m e para ficar m ais fácil
se precisasse fugir. Não arriscaria m inha integridade física confiando em sua falta de equilíbrio.
— Você acabou com a m inha vida, sua vadia. Minha m ulher m e
deixou e ainda descobriu as m inhas falcatruas. Perdi tudo, m inha carta da Ordem dos Advogados foi suspensa até term inarem as investigações — sua voz estava grossa e falava enrolando as palavras. — Tudo por sua causa, porque se doeu toda por eu te querer. O que você achava, Lay la? Se insinuando toda pra m im , não se m exe com um hom em e fica por isso m esm o.
Se não fosse trágico, seria côm ico. Eu m e insinuando para esse
velho? Nem em sonho. E não queria entrar no departam ento das suas fantasias, ou então era capaz de vom itar.
— Senhor, acho m elhor você ir em bora. Vam os deixar assim ,
tenho certeza que sua vida vai se acertar.
Ele sorriu diabólico e se aproxim ou, perto dem ais para o m eu
desconforto.
— Não, você vai m e pagar agora. Vou te ter nem que for à força.
Agarrou-m e tentando m e beij ar e eu gritei, suas m ãos noj entas j á
estavam em m eu corpo. A porta foi aberta de súbito e Bruno entrou com os olhos arregalados. Quando viu a cena pude ver seu rosto se transform ar, nunca tinha visto-o tão furioso. O doutor ainda não tinha notado de tão bêbado. Tentava tapar m inha boca com a m ão livre.
Bruno disparou da porta e deu um a gravata no Dr. André, que não
entendeu o que havia acontecido. O velho balbuciava e gritava m e xingando de todos os nom es horríveis. De repente, Heitor apareceu e viu a cena ficando confuso. Eu não conseguia dizer nada, estava em choque. Por um m inuto achei que seria violentada sem poder fazer nada.
Encostei-m e à parede escorregando até o chão e vi toda a cena se
desenrolar. Bruno gritava querendo socar o velho, m as Heitor o puxou e j ogou o advogado no sofá. Ele estava tão bêbado que nem m ostrou resistência.
Bruno sacou o celular e gritou que cham aria a polícia. Ele estava
descontrolado. Em m inha m ente nebulosa não conseguia raciocinar m uito bem , ficava m e perguntando o que ele estava fazendo no Beer.
— Essa m erda não vai ficar assim , seu filho da puta. Eu disse pra
ficar longe dela. — Só faltava sair fum aça das orelhas dele.
Heitor se aproxim ou de m im e agachou.
— Você tá bem , Lay la? Ele te m achucou?
Estendi os braços onde tinha m e segurado, estava verm elho, m as
não ia ficar m arca. Não com o a anterior, apesar de ter forçado não foi por m uito tem po.
— Não, estou bem .
— Quem é ele, Lay la?
Eu sabia que levaria um a bronca por ter escondido sobre o assédio,
m as acabei m e esquecendo totalm ente depois que Bruno enfrentou o velho.
— Meu ex-chefe. Ele m e assediou uns dias atrás e parece que teve
alguns problem as com isso.
Heitor abaixou a cabeça e coçou o queixo.
— E por que eu só estou sabendo disso agora? Ele te m achucou da
outra vez?
A m arca que tinha no m eu braço j á havia sum ido quase
totalm ente, só se olhasse bem que daria pra ver.
— Estou bem .
— Não esconda m ais essas coisas... Bruno j á cham ou a polícia.
Vou levar o velho pra fora. Pode ir pra casa, não precisa se apresentar m ais hoj e. — Ele olhou pra trás. — E acalm e o seu m édico, parece que quer m atar o cara.
Bruno andava para os dois lados da sala fulm inando o doutor
André. Meu coração apertou quando percebi o que havia acontecido. Ele tinha m e salvado, estava ali. Isso queria dizer algum a coisa? Será que veio term inar de vez?
Minha respiração acelerou e com ecei a ficar com a visão
em baraçada. Senti um a m ão forte e quente em m inhas pernas e abri os olhos, Bruno estava agachado à m inha frente, preocupado.
— Calm a, anj o. Você vai ter outro ataque, ficou pálida com o um
papel. Vam os ter que ver isso, não pode ficar tendo colapsos todos os dias.
Oh, Deus. Ouvir sua voz grossa m e cham ando de anj o de novo era
um bálsam o ao m eu coração doído.
— Por que isso tá acontecendo?
— Você afogou m uito estresse e m ágoa, é norm al. Mas vam os
aprender a controlar, você vai ficar bem . Eu vou cuidar de você. Aquele velho tocou em você?
Meus olhos se encheram de lágrim as com a lem brança. Bruno m e
abraçou encostando m inha cabeça em seu peito. Seu perfum e m e acalm ou e m inha visão com eçou a voltar ao norm al. Mas não m e afastei, estava sentindo falta do seu corpo quente.
— Desculpe, Lay la. Por tudo. Eu não sei o que fazer para você m e
perdoar. Se eu estivesse aqui não teria acontecido essa m erda. Esse noj ento nem teria chegado perto. Droga!
Sua voz estava rouca e olhei para cim a, os olhos azuis que tanto
am ava estavam m olhados de lágrim as. Não era bom ver um hom em forte chorando.
— Não é sua culpa, Bruno. Eu tam bém não o vi. E, além do m ais,
você m e salvou de ter acontecido algo pior.
Ele fechou os olhos e lágrim as escorriam em seu rosto sem parar,
m e sentei m elhor e passei a m ão por sua bochecha.
— Eu sinto tanto por ter te deixado. Fui m uito orgulhoso, m as
percebi que não posso viver sem você, anj o. Não quero m ais ficar longe. Por favor, diz que m e perdoa. Que podem os retom ar de onde param os.
Sorri e assenti, é o que m ais desej ei nesses dias que ficam os separados. Só levantei para o trabalho por m era força de responsabilidade. Algo que aparentem ente em dem asia m e prej udicou, m as teria essas drogas de colapso pra m e tratar. Ainda bem que nam orava um m édico.
— Claro que sim , m eu am or. Eu te am o, fiquei m uito m al por estar
longe. E não havia ninguém m elhor do que você pra m e salvar.
Ficam os ali m ais algum tem po e escutam os o barulho da sirene. A
polícia tinha chegado e eu daria m eu depoim ento. Agora teria certeza que o velho noj ento seria punido.
Não dem orou e um policial bateu na porta. Bruno o convidou a
entrar e respondi suas perguntas. Ele disse que por ter sido flagrante iria ficar preso, e com o estava sem nenhum tostão não tinha com o pagar fiança.
Ainda assim seria um pouco chato, teria que com parecer num
tribunal se fosse entrar com um processo. Coisa que j á havia decidido levar em frente. Já tinha sido ingênua um a vez, não m ais.
Pedi ao Bruno para que m e esperasse e fui ao banheiro. Lavei o
rosto e as m ãos, queria tirar o cheiro horroroso do velho de m im . Saí ao seu encontro, ele estava encostado na parede do lado de fora com as m ãos nos bolsos. Quando m e viu, abriu um sorriso lindo e pegou m inha m ão levando-a aos lábios para um beij o carinhoso. Fom os de m ãos dadas para a frente do bar. As pessoas m e olhavam estranho, devem ter visto e ouvido a confusão.
Passam os pelo balcão para despedir do Heitor.
— Estam os indo, obrigada por m e deixar sair m ais cedo.
Ele balançou a cabeça e estreitou os olhos em Bruno, que sorriu e
assentiu com o um soldado.
— A trate bem , seu idiota. E você m ocinha, se cuida. Pode tirar o
resto da sem ana de folga.
— E com o ficam as apresentações?
Ele deu de om bros fazendo um a careta.
— Vou ver algum a coisa, não se preocupe, sei m e virar. — Sorriu
e se inclinou sobre o balcão para m e dar um beij o no rosto. — Agora vai, estrela. Descansa.
Assenti, agradecida. Seria bom passar alguns dias de folga total.
Fom os para fora do Beer e Bruno m e abraçou. Com o sem pre, m e
sentia agradecida por ele estar ao m eu lado. Não im aginava m inha vida sem a sua presença. Engraçado eu pensar nisso sem sentir m edo.
Ele abriu a porta do carro e eu entrei. Fom os devagar pela cidade,
parecia que estava com m edo de que eu quebrasse a qualquer m om ento. Mas apesar de tudo eu estava bem , o que estava m e doendo m ais era ter ficado longe dele. O velho era louco, não tinha nem o que ficar lam entando.
E aconteceu tanta coisa pra nos separar no pouco espaço de tem po
em que estávam os j untos que não era engraçado.
Depois de um tem po Bruno estacionou em frente à m inha casa, a
luz da sala estava acesa, sinal que Lucas estava em casa. Suspirei resignada, ele iria querer explicações que não estava pronta para dar.
— Você vai ficar?
Bruno levou a m ão até o m eu rosto acariciando, levem ente.
— Você tem certeza? Não quer descansar? — Apertou m eu
queixo.
— Eu não quero passar m ais um a noite sem você. É m uito
doloroso.
Ele engoliu em seco e assentiu saindo do carro, deu a volta e abriu
a porta para m e dar passagem . Pegou m inha m ão e acionou o alarm e trancando tudo. Fom os abraçados até a varanda, respirei fundo e abri.
Lucas franziu a testa e levantou-se da m esa onde estava estudando.
Sabia que ficaria preocupado ao ver m eu rosto.
— O que foi, Lala?
Tentei disfarçar m eu rosto, m as podia perceber que seria
im possível. Ele j á havia visto que eu estava abatida.
— Vem Lucas, tenho que te contar um a coisa.
Levei-o até o sofá e contei tudo que aconteceu, desde o assédio no
escritório ao episódio de hoj e. Meu irm ão ficou louco, disse que eu tinha que ter lhe contado e queria ir bater no velho.
Mas Bruno o tranquilizou nessa parte, dizendo que j á tinha
resolvido tudo e não deixaria o hom em im pune. Eu nunca havia visto m eu irm ão tão bravo.
— Você não podia ter escondido isso de m im , Lay la. Eu sou seu
irm ão, tenho que cuidar de você.
Sorri triste, na verdade era sem pre eu a cuidar dele.
— Lucas, sem pre fui eu por m im m esm a. Está tudo bem .
Ele passou as m ãos pelos cabelos e parou na m inha frente.
— Lay la, eu não sou m ais criança. Entenda de um a vez por todas,
se você continuar escondendo coisas im portantes de m im pra m e “poupar”, eu vou em bora dessa casa. Não quero ser m ais um a carga pra você.
Não m e deu nem chance de retrucar qualquer outra coisa. Saiu
batendo a porta, afundei a cabeça entre as m ãos tentando entender o que eu fiz de errado. Lucas nunca tinha sido tão agressivo.
Senti Bruno se aproxim ando, sentou ao m eu lado m e abraçando.
— Ele vai ficar bem , Lay la. Só está frustrado por não ter feito
nada. Eu entendo isso, fiquei exatam ente assim quando soube que a Sabrina havia sido agredida.
— Com o assim ? — franzi a testa.
— Ah, relacionam ento conturbado e o cara forçou a barra. Não é
legal para nós, irm ãos, ouvir essas coisas e não poder fazer nada.
Entendi o que ele quis dizer. Lucas estava bravo consigo m esm o,
não com igo. Eu estava agradecida por estar ao seu lado. Abracei sua cintura e deitei m inha cabeça em seu peito m usculoso. Ele passava a m ão em m eus cabelos m urm urando palavras de conforto.
Devo ter adorm ecido, porque a próxim a coisa que sabia era que
estava na m inha cam a, nua. Braços fortes envolviam m inha cintura, num aperto possessivo e seguro.
Acom odei-m e um pouco m ais no corpo do m eu hom em e fechei os olhos agradecida por Deus ter trazido ele de volta.