Inspiração

Gisele Souza · Capítulo 34 de 46

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Inspiração

Capítulo 31

 

Layla

 

Eu estava deitada chorando desde a hora que Bruno saiu. Tentei ir

em bora porque estava bem e não precisava ficar internada, m as não deixaram . Segundo a enferm eira só poderia sair com ordens do m édico. Fiquei ainda m ais indignada, pelo j eito Bruno queria m e m anter ao seu alcance.

De repente, ouvi um a gritaria no corredor e a porta foi aberta com

um Bruno raivoso em purrando a loira da loj a pra dentro do quarto. Ela tropeçou nos próprios pés e arregalou os olhos, ofegante.

— Agora conta toda a verdade, Andressa. Confessa a ela a

m entira que você disse — gritou Bruno fazendo a m édica se encolher.

Ela olhou pra trás e fez um a careta.

— Para de gritar, esse é m eu local de trabalho tam bém , j á basta

você ter m e arrastado nesses traj es. — Ela estava de short e cam iseta, sem sapatos.

Bruno estreitou os olhos e se aproxim ou ficando de pé ao lado da

cam a.

— Foda-se, eu vou gritar o quanto eu quiser. Você fez a m erda,

agora conserta. Fala logo, senão eu term ino de te envergonhar. — Am eaçou num tom de voz, que m e assustou.

Fiquei surpresa com a ferocidade com que Bruno a tratava, se eles

tinham tido algum a coisa, ele seria pelo m enos educado. A loira suspirou entediada.

— Tá... — Se virou para m im . — Eu te vi no bar outro dia em que

fui tentar sair com esse idiota. Eu não entendo por que ele ficaria com um a sem sal com o você e deixaria um a deusa pra escanteio? — ela falava na m aior naturalidade observando as unhas pintadas. Quem se cham ava de deusa assim ? — Aí foi um golpe de sorte estar passando em frente daquela loj a, entrei e fui diretam ente pra acabar com a sua vidinha m edíocre.

Eu tinha a leve im pressão que ela era louca. Aqueles olhos

estavam vidrados e olhavam Bruno com o se fosse um doce. Ele estava tenso e prendia o m axilar fazendo aquele m úsculo hipnotizante pulsar.

— Agora diz Andressa, fala que você m entiu, que eu te rej eitei.

— É, foi isso aí. — Acenou com a m ão em desdém . — Ele não

m e quis porque a nam orada estava esperando em casa. Ele quem perdeu. — Deu de om bros.

Oh, Deus. Eu não podia acreditar, eu duvidei dele, quando essa

vadia que era a culpada de tudo. Com o pude acreditar em alguém que nem m esm o conhecia. E ainda por cim a o com parei a ela no m om ento que disse que ele tam bém era um estranho. Porra, insegurança é um veneno, não confiava em m im m esm a e acabei fazendo besteira.

Virei m eu olhar pra m ulher louca que ainda observava m eu

nam orado e m e levantei, não ia am eaçar nem nada. Não era disso, m as ela iria aprender com quantos paus se faz um a canoa.

— Então, você inventou tudo. Por quê? Eu não entendo... — Dei

m ais um passo em sua direção, Bruno estava tão chateado que nem percebeu que eu estava m e m ovim entando.

— Porque eu o quero. E o m elhor j eito é te tirar de cena, o que foi

m uito fácil, ainda m ais quando te vi desm aiando no m eio do shopping soluçando com o um a perdedora. — Sorriu diabolicam ente.

— Você a viu desm aiar e não prestou socorro? — Bruno parecia

chocado.

— Claro que não, poderia ter tido um a convulsão que eu não

estava nem aí. — Deu de om bros.

Eu m e aproxim ei m ais um pouco. Ela estava um pouco distante da

cam a, então tive que dar uns três passos pra ficar próxim a o bastante.

— Eu vou te denunciar Andressa, não se recusa atendim ento

quando alguém precisa, ainda m ais que você foi a causadora — gritou Bruno.

Ela ofegou e olhou pra ele com desdém , seu olhar ferino destilava

veneno.

— Você é um idiota. Acha m esm o que vai conseguir algum a coisa

com suposições? Ninguém vai acreditar que um a m édica respeitável recusou atendim ento.

Eu estava em silêncio quando cheguei ao lado dela. Olhei bem em

seus olhos e vi um a m ulher rej eitada e m im ada, provavelm ente teve tudo o que queria e precisava da infelicidade alheia para ser feliz. Seu ego era m uito grande, pois sem pre se referia a si m esm a com o m elhor em tudo.

Levantei a m ão e desferi um tapa bem estalado em seu rosto

odioso. Ela virou-se com a força, surpresa pelo m eu ataque. Puxei seu cabelo igualando seu rosto ao m eu, j á que ela era m ais alta. Deve ter doído porque Andressa reclam ou, gem endo baixo de dor, m as eu nem liguei, e falei com os dentes cerrados.

— Você fica longe de m im e do Bruno, sua puta. Se eu te ver ao

nosso redor outra vez, acabo contigo. Entendeu?! — Soltei seus cabelos de supetão, fazendo-a tropeçar.

A louca estreitou os olhos e colocou a m ão por cim a da m arca dos

m eus dedos, parecia que ficaria verm elho por um bom tem po. Eu podia ser baixinha, m as tinha a m ão bem pesada.

— Eu vou te processar, sua coisinha. Você arrancou m eus cabelos.

— Realm ente tinha bastante cabelo arrebentado na m inha m ão.

Bruno se adiantou ficando ao m eu lado e estendeu o braço em

m eus om bros.

— Você não vai fazer nada, Andressa, porque eu vou te denunciar

ao conselho do hospital, não pode ser chefe de um lugar que precisa de atendim ento contínuo sendo assim . E não ouse se aproxim ar dela de novo, esse tapa foi m erecido e você sabe. Acho até que ela tinha que ter batido m ais.

Ela bufou estreitando os olhos, e saiu pisando duro do quarto.

Prontam ente Bruno m e soltou e colocou as m ãos nos bolsos andando até a j anela, observava o lado de fora com um a expressão triste em seu rosto. Eu teria que m e desculpar por ter sido tão idiota e tam bém por tê-lo m agoado.

Aproxim ei-m e e coloquei a m ão em suas costas, sentindo o calor

que em anava do seu corpo. Até seu perfum e acalm ava m eus sentidos.

— Eu sinto m uito, Bruno — sussurrei

Ele tensionou os m úsculos e abaixou a cabeça, pesaroso.

— Eu não posso fazer isso, Lay la. Você não confia em m im , toda

vez que alguém der algum a insinuação de que dorm iu com igo, você vai agir desse j eito.

— Não, foi burrice m inha... Mas é que eu não acredito que alguém

com o você ficaria com um a m ulher tão sem sal.

Bruno virou e seu rosto era pura tristeza. Senti um aperto no peito,

m e deu até vontade de esfregar com a m ão pra ver se passava.

— Você não é sem sal, Lay la. Já disse isso m il vezes, é a m ulher

m ais linda, delicada e m aravilhosa que eu tive a felicidade de conhecer. Mas aí está o problem a, você não acredita em si. Luta por todos à sua volta, porém se acostum ou dem ais a se anular. E enquanto você for assim não dá pra gente ficar j unto. — Passou a m ão pelos cabelos nervoso. — Doeu dem ais você não acreditar em m im e ainda m e rotular com o um estranho. Sei que não fui nenhum santo, m as nunca dei m otivos pra duvidar do que sinto por você. Pelo contrário.

Meu coração j á cansado se partiu. Lágrim as queim aram em m eus

olhos. Seu olhar azul estava triste e m e observava, atentam ente.

— Você está term inando com igo? — m inha voz estava rouca de

tentar segurar o choro.

Ele fechou os olhos e suspirou.

— Não sei, Lay la. Nós dois precisam os pensar. Eu vou assinar sua

alta e te levar pra casa, m eu plantão acabou m esm o.

Eu o vi sair pela porta e senti m eu corpo todo dorm ente, não sabia

que a sensação de incerteza em perdê-lo seria tão dolorosa. Até m ais do que quando eu achei que ele tinha m e traído, porque dessa vez a culpa era só m inha.

Cam inhei até a cabeceira e peguei m inha bolsa. Não tinha

conseguido com prar a lingerie, agora tam bém nem precisaria. Bruno voltou com os papéis na m ão e um a sacolinha plástica que im aginei ter m edicam entos. Ele não estava nada bem , tinha os olhos cansados e verm elhos.

— Assina aqui para você poder ter alta e entrega na recepção,

esses rem édios são pra dor de cabeça e se sentir ansiedade ou qualquer sintom a de depressão, tom a antes de ter um colapso, por favor.

— Eu não vou ter, foi um episódio isolado. — Fiquei envergonhada

por ter sido tão fraca ao ponto de ter um ataque de nervos.

Ele assentiu, m as ainda não tinha olhado em m inha direção um

m inuto sequer. Estava tentando se afastar.

— Eu j á estou saindo e vou te levar, só tenho que pegar m inhas

coisas no vestiário e passar no conselho do hospital. Espera-m e no estacionam ento.

Deixou tudo em cim a da cam a e saiu, fiquei ali parada tentando

entender o porquê de tudo aquilo acontecer com igo. Eu deixei alguém se introm eter em algo que tanto alm ej ei e finalm ente havia conseguido.

Peguei a bolsa e saí do quarto, tinha certeza que eu não precisava

estar ali. Bruno deve ter arrum ado para que eu ficasse confortável. Passei pela recepção para deixar a alta com a enferm eira. Fui cam inhando para o estacionam ento e percebi alguns curiosos m e observando atentos por causa do escândalo envolvendo um a das m édicas.

Localizei o carro do Bruno e m e encostei aguardando-o voltar, se

eu fosse seguir m eu orgulho iria pegar um táxi ou um ônibus. Mas estava cansada, e a errada nessa história toda era eu por não ter confiado nele. Então qualquer tem po que pudesse ter ao seu lado até que resolvêssem os tudo, era indispensável.

Avistei Bruno vindo em m inha direção, tinha os om bros curvados e

as m ãos nos bolsos. Ele estava tão chateado quanto eu. Destravou o alarm e e deu a volta sem m e lançar um único olhar. Respirei fundo engolindo m inha vontade de gritar. Abri a porta e m e sentei. Ele deu partida e deslizam os pela cidade num silêncio apavorante.

Eu não gostava nada daquela situação, era pior do que quando nos

conhecem os e não sabia o que dizer. Agora não tinha nada a dizer. E aquilo m e incom odava m uito.

Observei seu rosto e Bruno tinha os olhos focados na rua, suas

m ãos apertavam o volante com o se estivesse se segurando para não fazer nada, com o m e tocar. Eu j á sabia que ele era teim oso, m as aquilo estava m achucando a nós dois.

Não dem orou m uito e chegam os à m inha casa, ele estacionou e

esperou sem falar nada.

— Você não vai entrar? — tentei falar norm alm ente, m as m inha

garganta estava fechada de tristeza.

Ele balançou a cabeça e encostou a testa no volante.

— Não piora ainda m ais isso, anj o. Eu tenho que ir, preciso pensar.

E ficar com você neste m om ento não é a m elhor opção.

Assenti e saí do carro, nem olhei pra trás ou então explodiria em

lágrim as. Parei na porta e m e virei levem ente, ele ainda estava estacionado no m esm o lugar m e observando, fechei os olhos e entrei.

Segundos depois escutei o carro partir. Cam inhei até o sofá que

ainda estava com a m anta verm elha e m e j oguei encostando a cabeça no seu encosto, a noite m aravilhosa que tivem os parecia ter sido anos atrás e não na anterior.

Deixei m eus olhos transbordarem , m eu coração estava pesado.

Quando percebi j á estava enrolada num a bola soluçando com o um a criança pequena. Ouvi a porta da sala se abrindo e Lucas entrou m e abraçando logo em seguida. Encostei a cabeça em seu peito e deixei m inha tristeza sair.

Chorei por tudo o que aconteceu na m inha vida e o que não m e

perm iti lam entar em anos: a m orte dos m eus pais, a indiferença da m inha m ãe, a dificuldade que foi criar m eu irm ão sozinha e todos os m eus sonhos que foram deixados para trás, que nem m e lem brava m ais quais eram . Por um a m enina que foi obrigada a virar m ulher, pelos am ores que não tive a oportunidade de ganhar e perder, e por esse hom em que tanto m exeu com m inha vida e agora tinha a possibilidade de ter arruinado, por m inha idiotice.

Lucas m urm urava para que eu m e acalm asse, m as m eu coração

estava m uito pesado, parecia que iria explodir a qualquer m om ento. Não conseguia parar de m e lam entar, algo que não m e perm iti em todos aqueles anos. Soluços dolorosos ecoavam em m eu peito.

— Calm a, Lala. Vai ficar tudo bem , vocês vão resolver tudo. Ele

só está chateado, todo m undo pode ver o am or que sente por você.

Levantei a cabeça do peito do m eu irm ão e olhei em seus olhos verdes, tão parecidos com os m eus.

— Com o você sabe o que aconteceu?

Ele sorriu e acariciou o m eu rosto enxugando as m inhas lágrim as.

— Bruno m e ligou quando estava no hospital para falar que tinha

conseguido a bolsa, e pediu para eu vir pra casa porque você precisaria do m eu om bro.

Chorei ainda m ais. Estava m e sentindo com o um a torneira

vazando, nunca fiz aquilo na vida, nem m esm o quando m eu pai faleceu, pois tive que consolar m eu irm ão que estava assustado.

Agora a situação se inverteu, ele que tentava tirar a tristeza de

m im . Mas a única pessoa capaz disso não estava presente. Tentei m e anim ar por Bruno ter a consideração de cham ar o Lucas, m as não conseguia, eu só queria afundar as m ãos em seus cabelos negros m acios, beij ar a sua boca, dorm ir toda a noite em seus braços e não podia.

Entreguei m inha alm a a um hom em e som ente ele tinha o poder

de trazê-la de volta.

Deitei no colo do Lucas e deixei o tem po passar, tentaria esquecer

tudo e seguir com a m inha vida. Se Bruno m e am asse com o dizia, ele voltaria. Era só o que eu pedia a Deus.