Inspiração
Capítulo 40
Bruno
O dom ingo havia chegado, graças a Deus. Lay la não quis dorm ir
com igo na noite anterior. Disse querer passar a últim a noite com o irm ão. E que esperá-la até o dia em que estaria se m udando seria um a espécie de ritual. Eu não entendi m uito bem , coisas de m ulher. Já havia desistido de com preendê-las há m uito tem po.
Lay la ficou de m e encontrar na festa, com o todas suas coisas j á
estavam guardadinhas na m inha casa, só tinha um a m ochila com ela. Queria vir de carro com o irm ão, aproveitar o tem po que restava para ficarem j untos. Não que iriam se separar de vez, m as eu sabia a diferença entre m orar com sua fam ília e ir viver sua própria vida.
Quando fui dar o carro de presente, fiquei superapreensivo com
sua reação. Ela era toda orgulhosa, realm ente achei que não aceitaria. Porém a felicidade de vê-la entrar e dar partida foi sem igual. Adoro fazer m inha m ulher feliz.
Mas m eu anj o estava dem orando. Tinha chegado um m onte de
parentes e am igos que queriam conhecê-la e nada. Nem um a m ensagem . Será que ela desistiu? Merda, eu estava um a pilha.
E pra com pletar, Alberto havia chegado há uns dez m inutos e Ana
ainda não o tinha visto. Quando o visse, ela iria querer m e m atar, m esm o j á sabendo que ele viria.
Estava a ponto de ligar quando tive um vislum bre de um vestido
azul-turquesa vindo em m inha direção. Olhei por cim a do celular e quase caí pra trás. Lay la estava m aravilhosa, suas pernas lindas estavam de fora para a m inha apreciação.
Ela sorria lindam ente enquanto cam inhava. Dei um passo à frente
e term inei a distância que nos separava. Enlacei sua cintura com um braço e levei m inha m ão até seu rosto.
— Já ia cham ar o bom beiro pra te buscar. Achei que tinha
desistido.
— Claro que não, seu bobo. Estava m e arrum ando pra você.
Gostou do vestido novo? — Balançou as sobrancelhas, divertida. Adorava vê-la descontraída.
— Am ei, m as tem um a coisa que está em prioridade aqui — disse
num a voz rouca de desej o.
— Ah, e o que é? — Ela j á tinha um a noção do que seria. Seus
olhos verdes brilhavam , m e conhecia m uito bem para saber das m inhas intenções.
— Essa sua boca gostosa m e cham ando.
Capturei sua boca num beij o saudoso. Parecia um a eternidade que
estávam os separados. Seus lábios sem pre tão m acios tinham um gosto de cerej a, que m e deixou ainda m ais inebriado. Lay la encostou seu corpo no m eu, m e proporcionando um tesão no m eio do quintal da m inha m ãe. Ouvi um pigarro chato e m e afastei um pouco sem soltá-la.
O inconveniente do Alberto estava com um sorriso divertido em
seu rosto e não desgrudava o olhar da m inha m ulher. O m onstro do ciúm e m ostrou sua cara feia novam ente.
— Eu acho que não vou visitá-los por um bom tem po... — Sem pre
o engraçadinho. — Quero dar os parabéns e não se desgrudam .
Ele se aproxim ou e abraçou Lay la apertado. Ela era m uito tím ida
com os outros, seu rostinho lindo estava corado num verm elho brilhante.
— Ei, seu idiota. Já chega de abraçar m inha m ulher.
Alberto se separou e veio para o m eu lado, m e dando tapas de
“hom em ” nas costas.
— Parabéns, seu babaca. Apesar de tudo, estou feliz por você.
— Obrigado, cara. Fico feliz em tê-lo aqui.
Mal tive tem po de dizer m ais algum a coisa, Ana apareceu
desenterrada de algum lugar dentro de casa. Ela estava sorrindo, esquadrinhando o quintal. Encolhi-m e para o lado da Lay la autom aticam ente, com o se ela pudesse m e proteger. Quando nos encontrou, seu sorriso m orreu. Foi com o ver um a flor m urchar. Estreitou os olhos e cam inhou furiosa em nossa direção.
— É m elhor se segurar, m eu am igo, aí vem bom ba!
Alberto, sem entender m uito bem , se virou e viu Ana Luiza
m archando para nós. Instintivam ente deu um passo atrás. Tinha que rir, dois m arm anj os com m edo de um a garota... Porém ela assustava até o hom em m ais bravo, aquela carinha de m enina doce era só fachada.
— O que ele está fazendo aqui? — soltou logo que nos alcançou.
— Com o assim , Ana? Alberto é am igo do Lucas, ele o convidou.
Você sabia. — tentei am enizar.
Ana bufou e com prim iu os lábios, sem tirar seu olhar furioso do
rosto do m eu am igo.
— Fique longe de m im , seu idiota. — Pude perceber a força que
ela fez para não fazer um escândalo. Provavelm ente, m am ãe j á a havia alertado.
— Calm a Ana, não vou m e aproxim ar. Só vim por causa dos m eus
am igos. E acho bom se acostum ar porque vam os nos ver m uito daqui pra frente. — Alberto não sabia se calar. A m ulher j á estava soltando fogo, e ele provocava ainda m ais. Ele se aproxim ou e abaixou na altura do seu ouvido. — Acho que vai gostar de m e ter por aqui, Ann Baby. — Passou a língua pelo pescoço da m inha irm ã. Mas que m erda, eu não precisava ver aquilo!
Ela deu um grito de frustração e saiu pisando duro. Parecia ter
ficado extrem am ente furiosa.
— Cara, eu am o m ais essa m ulher a cada dia.
Arqueei um a sobrancelha e olhei para o Alberto, que tinha um ar
sonhador em seu rosto, estava adm irado. Conhecia bem aquilo, eu ficava daquele j eito cada vez que ouvia m eu anj o cantar.
— Mesm o depois de tantos anos, Alberto? — Lay la parecia
surpresa com aquela declaração. E eu não sabia que ela estava ciente do passado dos dois, deve ter se inteirado num daqueles encontros que teve com m inhas irm ãs.
— Sim , Lay la. Nunca esqueci Ana Luiza. O que tivem os não se
apaga de um a hora pra outra e tenho certeza que ela gosta de m im , só é teim osa dem ais para adm itir.
Tive que concordar, m inha irm ã podia sofrer por estar longe, m as
acreditava que nunca daria o braço a torcer.
Ficam os rindo e conversando am enidades, até que avistei Lucas
sentado ao lado de Sabrina, outro louco apaixonado. Mas m inha irm ã estava fechada pra balanço.
— Vou ali falar com Sabrina, um m inuto, ok? — Lay la franziu a
testa, m as logo concordou.
Cam inhei observando os dois. Lucas não fazia nenhum m ovim ento
brusco em direção a ela enquanto conversavam , apenas carícias ocasionais. Sabrina tentava se esquivar, m as sem pre voltando pra perto. Nunca entenderia esse tipo de coisa. Quando eu queria algo, lutava por ela apesar dos pesares. Tem po não é um a coisa a se perder.
Alcancei a espreguiçadeira ao lado deles e m e j oguei colocando a
m ão atrás da cabeça, e ainda assim não tinham m e visto. Estavam m uito focados um no outro, em sua conversa interessante. Pigarreei forte e Lucas olhou pra m im assustado.
— Porra, Bruno. Você quase m e m ata do coração.
— Ué, m e sentei aqui e nem m e notaram . Tinha que cham ar a
atenção de algum a m aneira.
Sabrina torceu a boca pra m im num a careta e m ostrei a língua pra
ela. Adorava provocar m inha irm ãzinha.
— Então, o que os dois estão aprontando?
— Nada, só estava desej ando feliz aniversário para o Lucas. —
Era im pressionante ver a caçulinha corando.
— Oh, é m esm o. Parabéns cunhado, agora que com eça a
diversão. Independência total. Morando sozinho, vai ter um m onte de gatinhas ao seu redor.
Lucas fez um a careta de dor e fechou os olhos. Não dem orou um
segundo, Sabrina levantou e saiu bravinha, grunhindo pra m im .
— Merda, agora terei que ir atrás dela. Obrigado, cunhado.
Antes que ele pudesse se afastar, eu o segurei pelo braço.
— Dá um a dura nela, Lucas. Não pode continuar assim . Minha
irm ã é difícil de lidar, m as esse chove não m olha, não é legal.
— Eu sei. Decidi conversar com ela hoj e. Obrigado.
Saiu disparado por onde Sabrina tinha sum ido. Fiquei com pena do
garoto. Ia ter um trem endo trabalho em m ãos.
Varri o quintal com o olhar, observando as pessoas que am ava.
Heitor estava com Elisa, flertando num a das espreguiçadeiras da piscina, pelo que percebi eles tinham algum rolo, porém nada sério. O cara era m uito m isterioso e fechado. Desde que conversam os no bar sobre casam ento, notei que ele tinha m uita m ágoa guardada por trás da im agem de bad boy. Só podia torcer para que o futuro reservasse um am or tão lindo quanto o que eu tinha. E m eu anj o, vinha em m inha direção, linda.
— Acho que você está fugindo de m im — falou deitando-se ao m eu lado na cadeira da piscina.
— Claro que não, nunca vou fugir de você, m eu am or. Queria só
ver o que aqueles dois estavam aprontando.
— Hum , e conseguiu algum a coisa? — Levantou os olhos verdes
preocupados para m im .
— Não. Só irritar a Sabrina, m as alertei Lucas para que dê um
chega pra lá nela. Não pode ficar nessa enrolação. Mas m udando de assunto... Tem um a coisa que queria te m ostrar.
— Ah, é? E o que seria?
— Meu antigo quarto. — Sorri m alicioso.
Lay la levantou a cabeça do m eu peito e m e olhou nos olhos.
— Você quer m e levar pro seu abatedouro?
— Não, m eu anj o, nunca levei nenhum a garota pro quarto. Na
verdade, nunca trouxe ninguém pra casa da m inha m ãe. Achava falta de respeito com ela. Por isso quero estrear essa tradição com você.
— Hum , isso é um pouco tentador dem ais. Não vou conseguir
resistir.
Levantei de supetão quase a derrubando da cadeira, m as antes que
ela pudesse levantar, senti um a m ão forte em m eu om bro. Olhei pra trás e Heitor estava ali com seu j eito m au.
— Então, tem um a pequena tradição na m inha casa quando
alguém j unta os trapinhos... — Havia um sorriso travesso em seu rosto, j á fiquei desconfiado.
Mas era um idiota. Tinha que m e interrom per pra falar de
tradição?
— E qual é, careca? — Nós tínham os nos tornado bons am igos.
— Ah, um a espécie de batizado...
E antes que pudesse pensar em qualquer coisa, estava sendo
levantado por Heitor e m eu cunhado — m arido da Larissa — e arrem essado na piscina com roupa e tudo. Não podia acreditar naquela m erda.
Em ergi, xingando e cuspindo água.
— Porra, podiam ter avisado? Engoli um m onte de água aqui.
— Ah, e qual seria o divertim ento disso? Agora a m ocinha ali. —
Heitor cam inhou para o lado de Lay la, que estava atônita, e pediu licença pegando-a no colo.
Tive que reprim ir um pouco m inha reação a outro cara pegar m eu
anj o. Mas logo em seguida ela era arrem essada na piscina com igo. Lay la voltou sorrindo, porque j á estava esperando e não engoliu um m onte de cloro. Todos na festa estavam gargalhando às nossas custas. Nem liguei, nadei até ela e tirei o cabelo m olhado do seu rosto.
— Agora vam os ter que subir ao m eu quarto m esm o. Você vai ter
que vestir m inhas roupas.
Ela sorriu lindam ente e se aproxim ou sussurrando.
— E quem disse que quero m e vestir?
Merda, com o eu iria sair da piscina naquele estado? Balancei a
cabeça e m ergulhei pra longe dela, gritei pela m inha m ãe para que trouxesse toalhas, voltei e abracei-a.
— Você vai pagar por m e deixar duro em plena festa.
— Hum , isso é bom . E qual vai ser seu m odo de punição?
— Espere e verá...
Mam ãe voltou com as toalhas e aj udei Lay la a subir. Enrolam o-
nos com elas e correm os para dentro de casa. Pretendia tom ar um banho quente com m inha m ulher.
— Vem , anj o. Vou te dar um banho. Aqueles caras são uns idiotas.
— Estendi a m ão tentando levá-la para o banheiro.
— Não podem os Bruno, o pessoal está nos esperando.
— Que se dane, eu quero aproveitar que tem um a garota no m eu
quarto de adolescência.
Ela sorriu e cam inhou para o banheiro fechando a porta. Encostei-
m e na parede e fechei os olhos.
— Lay la, não faz isso com igo. Eu preciso estar aí com você. —
Estava sofrendo de verdade.
— Não, sej a um bom m enino e arrum e um a roupa pra m e vestir.
Droga, cam inhei até m eu antigo guarda-roupa e puxei um a
cam iseta e calça de m oletom . Minha m ãe m antinha-as sem pre lim pas e cheirosas. Bati na porta e ela pegou de um a fresta aberta.
Meu anj o sabia com o m e torturar, m as teríam os m uito tem po para
banhos j untos. Se queria voltar para a festa, eu respeitaria sua vontade. Era incrível com o eu tinha m e ligado a ela. Sentia-m e super à vontade ao seu lado. Tínham os um a ligação incrível, éram os am igos, am antes, com panheiros e nam orados.
Eu pretendia aum entar esse patam ar, m as não por enquanto. Ela
ainda tinha m uito que viver antes de tom ar um a decisão tão im portante.
Só a certeza que Lay la era m inha, acalm ava m eu coração
ansioso.
Retirei toda a roupa m olhada e fui até o quarto da m inha m ãe
tom ar um banho quente. Fui o m ais rápido possível, não queria que ela saísse do banheiro e não m e encontrasse. Voltei com um a calça de m oletom velha e a toalha enrolada no pescoço secando os cabelos. Deparei-m e com a visão m ais linda que poderia m e proporcionar.
Lay la estava com m inha cam isa, deitada na m inha cam a antiga e
olhando para o teto. Quando ouviu m e aproxim ando, desviou a atenção para m im e sua boca caiu. Eu não sabia o que estava tão legal que m erecia um a reação daquelas. Mas não ia reclam ar.
— Você sabe que pode m atar um hom em assim , né anj o?
— E você, nessa calça? Deixa-m e um pouco louca tam bém .
Sorri de lado e m e aproxim ei. Deitei em cim a dela e m e
acom odei entre suas pernas, que prontam ente m e deu passagem . Apoiei os cotovelos na cam a e colei m eus lábios num beij o carinhoso. Adorava sentir a textura de sua boca gostosa. Ela era toda deliciosa, na verdade.
— Você sabe o quanto eu am o tê-la em m eus braços?
— Ah, é? Quanto?
— Muito, desde que te vi naquele palco. Mesm o tendo um a
abordagem m uito “hom em das cavernas”, não conseguia parar de pensar em tê-la. Na cam a, no chuveiro... Na m inha vida.
— Hum , eu m e lem bro dessa abordagem que está falando. Quase
m orri de raiva naquela hora. Quando m e beij ou lutei contra m eus sentim entos. Queria te bater e beij ar m ais.
Sorri, aquela atitude foi a que m ais m e encantou. Eu estava
cansado de m ulheres fáceis.
— Me lem bro bem das suas reações nos nossos encontros, senti
você totalm ente entregue.
— E eu estava, Bruno. Totalm ente entregue a você. Eu tenho que
lhe contar aquela coisa, lem bra o que te disse ao telefone?
— Oh, é m esm o! Havia m e esquecido. O que é?
Lay la olhou bem dentro dos m eus olhos com tanta intensidade que,
se não estivesse deitado, tinha caído desm aiado no chão. Lágrim as escorriam por seu rosto e com ecei a ficar preocupado.
— Você sabe que a pessoa m ais im portante na m inha vida sem pre
foi m eu irm ão, certo? — Assenti e ela continuou. — Há alguns m eses atrás, Lucas precisou de um a cirurgia de em ergência e fiquei sabendo que m eu plano de saúde não cobria, e m e desesperei. Não tínham os dinheiro pra arcar e eles iriam transferi-lo para um hospital público, com o risco de ter m ais algum a com plicação. Mas um m édico decidiu fazer a operação assim m esm o, sem custo algum . Eu nunca fiquei tão agradecida por um a pessoa existir até aquele m om ento. E im agina a m inha surpresa quando o Lucas m e contou no dia em que fom os visitar a lápide de nossos pais que o tal m édico era você.
Arregalei m eus olhos com a lem brança do paciente que eu havia
bancado todo o procedim ento cirúrgico. Eu não identifiquei o irm ão da m inha m ulher com o aquele garoto que estava sofrendo de dor enquanto falava com igo que era estudante de m edicina. Então entendi o porquê do Lucas ter aquela reação a prim eira vez que o vi no bar, ele m e reconheceu e não disse nada.
Observei m eu anj o e m ais lágrim as desciam por seu rosto.
— Eu não o reconheci, anj o...
— Eu sei, Lucas m e disse que são m uitos pacientes e que confunde
rostos. Você fez por am or à sua profissão. E acabou que salvou a pessoa que m ais m e im portava na vida. Acho que, afinal, você recebeu sua recom pensa.
Sorri e capturei sua boca num beij o que abalou m eu coração. Essa
m ulher tinha toda m inha vida em suas m ãos. Não haveria Bruno sem Lay la. Pertencíam os um ao outro de um a form a que nunca im aginei ser possível.
Só poderia aguardar, o que o resto de nossas vidas reservava.