Inspiração

Gisele Souza · Capítulo 43 de 46

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Inspiração

Capítulo 40

 

Bruno

 

O dom ingo havia chegado, graças a Deus. Lay la não quis dorm ir

com igo na noite anterior. Disse querer passar a últim a noite com o irm ão. E que esperá-la até o dia em que estaria se m udando seria um a espécie de ritual. Eu não entendi m uito bem , coisas de m ulher. Já havia desistido de com preendê-las há m uito tem po.

Lay la ficou de m e encontrar na festa, com o todas suas coisas j á

estavam guardadinhas na m inha casa, só tinha um a m ochila com ela. Queria vir de carro com o irm ão, aproveitar o tem po que restava para ficarem j untos. Não que iriam se separar de vez, m as eu sabia a diferença entre m orar com sua fam ília e ir viver sua própria vida.

Quando fui dar o carro de presente, fiquei superapreensivo com

sua reação. Ela era toda orgulhosa, realm ente achei que não aceitaria. Porém a felicidade de vê-la entrar e dar partida foi sem igual. Adoro fazer m inha m ulher feliz.

Mas m eu anj o estava dem orando. Tinha chegado um m onte de

parentes e am igos que queriam conhecê-la e nada. Nem um a m ensagem . Será que ela desistiu? Merda, eu estava um a pilha.

E pra com pletar, Alberto havia chegado há uns dez m inutos e Ana

ainda não o tinha visto. Quando o visse, ela iria querer m e m atar, m esm o j á sabendo que ele viria.

Estava a ponto de ligar quando tive um vislum bre de um vestido

azul-turquesa vindo em m inha direção. Olhei por cim a do celular e quase caí pra trás. Lay la estava m aravilhosa, suas pernas lindas estavam de fora para a m inha apreciação.

Ela sorria lindam ente enquanto cam inhava. Dei um passo à frente

e term inei a distância que nos separava. Enlacei sua cintura com um braço e levei m inha m ão até seu rosto.

— Já ia cham ar o bom beiro pra te buscar. Achei que tinha

desistido.

— Claro que não, seu bobo. Estava m e arrum ando pra você.

Gostou do vestido novo? — Balançou as sobrancelhas, divertida. Adorava vê-la descontraída.

— Am ei, m as tem um a coisa que está em prioridade aqui — disse

num a voz rouca de desej o.

— Ah, e o que é? — Ela j á tinha um a noção do que seria. Seus

olhos verdes brilhavam , m e conhecia m uito bem para saber das m inhas intenções.

— Essa sua boca gostosa m e cham ando.

Capturei sua boca num beij o saudoso. Parecia um a eternidade que

estávam os separados. Seus lábios sem pre tão m acios tinham um gosto de cerej a, que m e deixou ainda m ais inebriado. Lay la encostou seu corpo no m eu, m e proporcionando um tesão no m eio do quintal da m inha m ãe. Ouvi um pigarro chato e m e afastei um pouco sem soltá-la.

O inconveniente do Alberto estava com um sorriso divertido em

seu rosto e não desgrudava o olhar da m inha m ulher. O m onstro do ciúm e m ostrou sua cara feia novam ente.

— Eu acho que não vou visitá-los por um bom tem po... — Sem pre

o engraçadinho. — Quero dar os parabéns e não se desgrudam .

Ele se aproxim ou e abraçou Lay la apertado. Ela era m uito tím ida

com os outros, seu rostinho lindo estava corado num verm elho brilhante.

— Ei, seu idiota. Já chega de abraçar m inha m ulher.

Alberto se separou e veio para o m eu lado, m e dando tapas de

“hom em ” nas costas.

— Parabéns, seu babaca. Apesar de tudo, estou feliz por você.

— Obrigado, cara. Fico feliz em tê-lo aqui.

Mal tive tem po de dizer m ais algum a coisa, Ana apareceu

desenterrada de algum lugar dentro de casa. Ela estava sorrindo, esquadrinhando o quintal. Encolhi-m e para o lado da Lay la autom aticam ente, com o se ela pudesse m e proteger. Quando nos encontrou, seu sorriso m orreu. Foi com o ver um a flor m urchar. Estreitou os olhos e cam inhou furiosa em nossa direção.

— É m elhor se segurar, m eu am igo, aí vem bom ba!

Alberto, sem entender m uito bem , se virou e viu Ana Luiza

m archando para nós. Instintivam ente deu um passo atrás. Tinha que rir, dois m arm anj os com m edo de um a garota... Porém ela assustava até o hom em m ais bravo, aquela carinha de m enina doce era só fachada.

— O que ele está fazendo aqui? — soltou logo que nos alcançou.

— Com o assim , Ana? Alberto é am igo do Lucas, ele o convidou.

Você sabia. — tentei am enizar.

Ana bufou e com prim iu os lábios, sem tirar seu olhar furioso do

rosto do m eu am igo.

— Fique longe de m im , seu idiota. — Pude perceber a força que

ela fez para não fazer um escândalo. Provavelm ente, m am ãe j á a havia alertado.

— Calm a Ana, não vou m e aproxim ar. Só vim por causa dos m eus

am igos. E acho bom se acostum ar porque vam os nos ver m uito daqui pra frente. — Alberto não sabia se calar. A m ulher j á estava soltando fogo, e ele provocava ainda m ais. Ele se aproxim ou e abaixou na altura do seu ouvido. — Acho que vai gostar de m e ter por aqui, Ann Baby. — Passou a língua pelo pescoço da m inha irm ã. Mas que m erda, eu não precisava ver aquilo!

Ela deu um grito de frustração e saiu pisando duro. Parecia ter

ficado extrem am ente furiosa.

— Cara, eu am o m ais essa m ulher a cada dia.

Arqueei um a sobrancelha e olhei para o Alberto, que tinha um ar

sonhador em seu rosto, estava adm irado. Conhecia bem aquilo, eu ficava daquele j eito cada vez que ouvia m eu anj o cantar.

— Mesm o depois de tantos anos, Alberto? — Lay la parecia

surpresa com aquela declaração. E eu não sabia que ela estava ciente do passado dos dois, deve ter se inteirado num daqueles encontros que teve com m inhas irm ãs.

— Sim , Lay la. Nunca esqueci Ana Luiza. O que tivem os não se

apaga de um a hora pra outra e tenho certeza que ela gosta de m im , só é teim osa dem ais para adm itir.

Tive que concordar, m inha irm ã podia sofrer por estar longe, m as

acreditava que nunca daria o braço a torcer.

Ficam os rindo e conversando am enidades, até que avistei Lucas

sentado ao lado de Sabrina, outro louco apaixonado. Mas m inha irm ã estava fechada pra balanço.

— Vou ali falar com Sabrina, um m inuto, ok? — Lay la franziu a

testa, m as logo concordou.

Cam inhei observando os dois. Lucas não fazia nenhum m ovim ento

brusco em direção a ela enquanto conversavam , apenas carícias ocasionais. Sabrina tentava se esquivar, m as sem pre voltando pra perto. Nunca entenderia esse tipo de coisa. Quando eu queria algo, lutava por ela apesar dos pesares. Tem po não é um a coisa a se perder.

Alcancei a espreguiçadeira ao lado deles e m e j oguei colocando a

m ão atrás da cabeça, e ainda assim não tinham m e visto. Estavam m uito focados um no outro, em sua conversa interessante. Pigarreei forte e Lucas olhou pra m im assustado.

— Porra, Bruno. Você quase m e m ata do coração.

— Ué, m e sentei aqui e nem m e notaram . Tinha que cham ar a

atenção de algum a m aneira.

Sabrina torceu a boca pra m im num a careta e m ostrei a língua pra

ela. Adorava provocar m inha irm ãzinha.

— Então, o que os dois estão aprontando?

— Nada, só estava desej ando feliz aniversário para o Lucas. —

Era im pressionante ver a caçulinha corando.

— Oh, é m esm o. Parabéns cunhado, agora que com eça a

diversão. Independência total. Morando sozinho, vai ter um m onte de gatinhas ao seu redor.

Lucas fez um a careta de dor e fechou os olhos. Não dem orou um

segundo, Sabrina levantou e saiu bravinha, grunhindo pra m im .

— Merda, agora terei que ir atrás dela. Obrigado, cunhado.

Antes que ele pudesse se afastar, eu o segurei pelo braço.

— Dá um a dura nela, Lucas. Não pode continuar assim . Minha

irm ã é difícil de lidar, m as esse chove não m olha, não é legal.

— Eu sei. Decidi conversar com ela hoj e. Obrigado.

Saiu disparado por onde Sabrina tinha sum ido. Fiquei com pena do

garoto. Ia ter um trem endo trabalho em m ãos.

Varri o quintal com o olhar, observando as pessoas que am ava.

Heitor estava com Elisa, flertando num a das espreguiçadeiras da piscina, pelo que percebi eles tinham algum rolo, porém nada sério. O cara era m uito m isterioso e fechado. Desde que conversam os no bar sobre casam ento, notei que ele tinha m uita m ágoa guardada por trás da im agem de bad boy. Só podia torcer para que o futuro reservasse um am or tão lindo quanto o que eu tinha. E m eu anj o, vinha em m inha direção, linda.

— Acho que você está fugindo de m im — falou deitando-se ao m eu lado na cadeira da piscina.

— Claro que não, nunca vou fugir de você, m eu am or. Queria só

ver o que aqueles dois estavam aprontando.

— Hum , e conseguiu algum a coisa? — Levantou os olhos verdes

preocupados para m im .

— Não. Só irritar a Sabrina, m as alertei Lucas para que dê um

chega pra lá nela. Não pode ficar nessa enrolação. Mas m udando de assunto... Tem um a coisa que queria te m ostrar.

— Ah, é? E o que seria?

— Meu antigo quarto. — Sorri m alicioso.

Lay la levantou a cabeça do m eu peito e m e olhou nos olhos.

— Você quer m e levar pro seu abatedouro?

— Não, m eu anj o, nunca levei nenhum a garota pro quarto. Na

verdade, nunca trouxe ninguém pra casa da m inha m ãe. Achava falta de respeito com ela. Por isso quero estrear essa tradição com você.

— Hum , isso é um pouco tentador dem ais. Não vou conseguir

resistir.

Levantei de supetão quase a derrubando da cadeira, m as antes que

ela pudesse levantar, senti um a m ão forte em m eu om bro. Olhei pra trás e Heitor estava ali com seu j eito m au.

— Então, tem um a pequena tradição na m inha casa quando

alguém j unta os trapinhos... — Havia um sorriso travesso em seu rosto, j á fiquei desconfiado.

Mas era um idiota. Tinha que m e interrom per pra falar de

tradição?

— E qual é, careca? — Nós tínham os nos tornado bons am igos.

— Ah, um a espécie de batizado...

E antes que pudesse pensar em qualquer coisa, estava sendo

levantado por Heitor e m eu cunhado — m arido da Larissa — e arrem essado na piscina com roupa e tudo. Não podia acreditar naquela m erda.

Em ergi, xingando e cuspindo água.

— Porra, podiam ter avisado? Engoli um m onte de água aqui.

— Ah, e qual seria o divertim ento disso? Agora a m ocinha ali. —

Heitor cam inhou para o lado de Lay la, que estava atônita, e pediu licença pegando-a no colo.

Tive que reprim ir um pouco m inha reação a outro cara pegar m eu

anj o. Mas logo em seguida ela era arrem essada na piscina com igo. Lay la voltou sorrindo, porque j á estava esperando e não engoliu um m onte de cloro. Todos na festa estavam gargalhando às nossas custas. Nem liguei, nadei até ela e tirei o cabelo m olhado do seu rosto.

— Agora vam os ter que subir ao m eu quarto m esm o. Você vai ter

que vestir m inhas roupas.

Ela sorriu lindam ente e se aproxim ou sussurrando.

— E quem disse que quero m e vestir?

Merda, com o eu iria sair da piscina naquele estado? Balancei a

cabeça e m ergulhei pra longe dela, gritei pela m inha m ãe para que trouxesse toalhas, voltei e abracei-a.

— Você vai pagar por m e deixar duro em plena festa.

— Hum , isso é bom . E qual vai ser seu m odo de punição?

— Espere e verá...

Mam ãe voltou com as toalhas e aj udei Lay la a subir. Enrolam o-

nos com elas e correm os para dentro de casa. Pretendia tom ar um banho quente com m inha m ulher.

— Vem , anj o. Vou te dar um banho. Aqueles caras são uns idiotas.

— Estendi a m ão tentando levá-la para o banheiro.

— Não podem os Bruno, o pessoal está nos esperando.

— Que se dane, eu quero aproveitar que tem um a garota no m eu

quarto de adolescência.

Ela sorriu e cam inhou para o banheiro fechando a porta. Encostei-

m e na parede e fechei os olhos.

— Lay la, não faz isso com igo. Eu preciso estar aí com você. —

Estava sofrendo de verdade.

— Não, sej a um bom m enino e arrum e um a roupa pra m e vestir.

Droga, cam inhei até m eu antigo guarda-roupa e puxei um a

cam iseta e calça de m oletom . Minha m ãe m antinha-as sem pre lim pas e cheirosas. Bati na porta e ela pegou de um a fresta aberta.

Meu anj o sabia com o m e torturar, m as teríam os m uito tem po para

banhos j untos. Se queria voltar para a festa, eu respeitaria sua vontade. Era incrível com o eu tinha m e ligado a ela. Sentia-m e super à vontade ao seu lado. Tínham os um a ligação incrível, éram os am igos, am antes, com panheiros e nam orados.

Eu pretendia aum entar esse patam ar, m as não por enquanto. Ela

ainda tinha m uito que viver antes de tom ar um a decisão tão im portante.

Só a certeza que Lay la era m inha, acalm ava m eu coração

ansioso.

Retirei toda a roupa m olhada e fui até o quarto da m inha m ãe

tom ar um banho quente. Fui o m ais rápido possível, não queria que ela saísse do banheiro e não m e encontrasse. Voltei com um a calça de m oletom velha e a toalha enrolada no pescoço secando os cabelos. Deparei-m e com a visão m ais linda que poderia m e proporcionar.

Lay la estava com m inha cam isa, deitada na m inha cam a antiga e

olhando para o teto. Quando ouviu m e aproxim ando, desviou a atenção para m im e sua boca caiu. Eu não sabia o que estava tão legal que m erecia um a reação daquelas. Mas não ia reclam ar.

— Você sabe que pode m atar um hom em assim , né anj o?

— E você, nessa calça? Deixa-m e um pouco louca tam bém .

Sorri de lado e m e aproxim ei. Deitei em cim a dela e m e

acom odei entre suas pernas, que prontam ente m e deu passagem . Apoiei os cotovelos na cam a e colei m eus lábios num beij o carinhoso. Adorava sentir a textura de sua boca gostosa. Ela era toda deliciosa, na verdade.

— Você sabe o quanto eu am o tê-la em m eus braços?

— Ah, é? Quanto?

— Muito, desde que te vi naquele palco. Mesm o tendo um a

abordagem m uito “hom em das cavernas”, não conseguia parar de pensar em tê-la. Na cam a, no chuveiro... Na m inha vida.

— Hum , eu m e lem bro dessa abordagem que está falando. Quase

m orri de raiva naquela hora. Quando m e beij ou lutei contra m eus sentim entos. Queria te bater e beij ar m ais.

Sorri, aquela atitude foi a que m ais m e encantou. Eu estava

cansado de m ulheres fáceis.

— Me lem bro bem das suas reações nos nossos encontros, senti

você totalm ente entregue.

— E eu estava, Bruno. Totalm ente entregue a você. Eu tenho que

lhe contar aquela coisa, lem bra o que te disse ao telefone?

— Oh, é m esm o! Havia m e esquecido. O que é?

Lay la olhou bem dentro dos m eus olhos com tanta intensidade que,

se não estivesse deitado, tinha caído desm aiado no chão. Lágrim as escorriam por seu rosto e com ecei a ficar preocupado.

— Você sabe que a pessoa m ais im portante na m inha vida sem pre

foi m eu irm ão, certo? — Assenti e ela continuou. — Há alguns m eses atrás, Lucas precisou de um a cirurgia de em ergência e fiquei sabendo que m eu plano de saúde não cobria, e m e desesperei. Não tínham os dinheiro pra arcar e eles iriam transferi-lo para um hospital público, com o risco de ter m ais algum a com plicação. Mas um m édico decidiu fazer a operação assim m esm o, sem custo algum . Eu nunca fiquei tão agradecida por um a pessoa existir até aquele m om ento. E im agina a m inha surpresa quando o Lucas m e contou no dia em que fom os visitar a lápide de nossos pais que o tal m édico era você.

Arregalei m eus olhos com a lem brança do paciente que eu havia

bancado todo o procedim ento cirúrgico. Eu não identifiquei o irm ão da m inha m ulher com o aquele garoto que estava sofrendo de dor enquanto falava com igo que era estudante de m edicina. Então entendi o porquê do Lucas ter aquela reação a prim eira vez que o vi no bar, ele m e reconheceu e não disse nada.

Observei m eu anj o e m ais lágrim as desciam por seu rosto.

— Eu não o reconheci, anj o...

— Eu sei, Lucas m e disse que são m uitos pacientes e que confunde

rostos. Você fez por am or à sua profissão. E acabou que salvou a pessoa que m ais m e im portava na vida. Acho que, afinal, você recebeu sua recom pensa.

Sorri e capturei sua boca num beij o que abalou m eu coração. Essa

m ulher tinha toda m inha vida em suas m ãos. Não haveria Bruno sem Lay la. Pertencíam os um ao outro de um a form a que nunca im aginei ser possível.

Só poderia aguardar, o que o resto de nossas vidas reservava.