Inspiração
Capítulo 25
Layla
Sem pre tive a m úsica com o um a via de escape, podia expor m eus
sentim entos sem m e m achucar, ou dem onstrar descaradam ente o que se passava dentro de m im . Quando eu vi a decepção nos olhos do Bruno por causa da m inha recusa em adm itir o que sentia, percebi um a oportunidade de deixar as inseguranças de lado.
Aquela m úsica deixou bem claro o que eu sentia, m eu m edo e
am or. Ele tinha um sorriso estúpido no rosto desde aquele m om ento, parecia m uito satisfeito consigo m esm o.
Encontram os uns am igos dele do hospital e sentam os para tom ar
um a cervej a. Já que eu não tinha nada para fazer na m anhã de segunda, poderia ficar sossegada e curtir a noite.
Bruno m e apresentou ao Alberto, seu am igo desde a faculdade. O
cara era um safado nato, percebi assim que o conheci. Tinha um sorriso de m enino no rosto, olhos azuis, loiro e fofo. Mas boba era aquela que caía na sua lábia, ele encarava qualquer m ulher bonita com um a m alícia evidente, não fazia cerim ônia em tentar disfarçar. Sabia do seu poder de sedução e usava na m aior cara de pau.
Bruno grunhiu e deu um soco no braço dele.
— Tira o olho, cara.
Alberto sorriu, descarado, e balançou a cabeça.
— Lay la, tenho que te parabenizar. Enlaçar esse idiota e o
transform ar num cara apaixonado foi um a m issão, m as não o culpo, você é m aravilhosa.
Nunca havia ficado tão envergonhada na vida. Alberto tinha um a
m aneira de falar que deixaria até a m ais sem -vergonha das m ulheres coradas com o um a total inexperiente. Ele era um caçador.
Agradeci com um m urm úrio e desviei a m inha atenção para o bar.
Heitor estava estranho, parecia tenso e chateado. Desde que conversam os, firm am os um a am izade legal, e eu não gostava de vê-lo daquele j eito. Era sem pre alegre e brincalhão.
Toquei no braço do Bruno, que tinha engaj ado num papo sobre
m edicina com Alberto, e pedi licença por um m inuto.
— Aonde você vai? Quer ir pra casa?
— Não, vou ter um a palavrinha com o Heitor. Ele tá estranho,
quero saber se posso aj udar em algum a coisa.
Bruno olhou em direção ao balcão e assentiu. Deu um beij o na
m inha testa e lançou um sorriso carinhoso. Com o pude m e apaixonar tão rápido? Era inevitável um frio na barriga cada vez que ele olhava pra m im .
Levantei-m e e fui ao balcão. Sentei num banquinho e cham ei a
atenção dele. Heitor parecia tão aéreo que tinha certeza de que estava trabalhando no autom ático.
— Ei, barman tatuado. Manda um a marguerita para a estrela do
bar, estou sedenta.
Ele levantou a cabeça e sorriu. Puta m erda, aquele m oreno
sorrindo era quase um pecado. Dentes brancos e alinhados eram coroados com um a covinha em cada lado de sua bochecha.
— E aí, estrela? Veio aqui beber ou só papear? Já sei, veio fugir da
m anada de m édico que baixou aqui hoj e?
Sorri com a sua brincadeira. Realm ente, ficar em m eio a vários
m édicos não era tão legal, tinham term os e outras coisas que não conseguia entender m uito bem . Encontrei-m e totalm ente deslocada.
— Papear, quero saber o m otivo dessa sua carranca. Tô te
achando m uito triste, isso não é norm al em você, m eu am igo.
Ele torceu a boca e fez um a careta bonitinha.
— Hoj e é um dia m eio triste. Aniversário de um a coisa que
aconteceu na m inha vida, não gosto m uito de falar sobre isso. Mas am anhã j á fico legal, eu j uro.
— Então, apesar de não ter que vir aqui am anhã, vou dar um a
passada só pra te conferir. — Arqueei um a sobrancelha em desafio, claro que ele iria recusar.
Heitor virou para pegar um as cervej as no refrigerador antes de
voltar e m e olhar com seus olhos chocolate.
— Claro, adoro conversar contigo. Mas não seria m elhor você aproveitar seu doutor? — Acenou com a cabeça na direção da m esa em que Bruno ocupava com seus am igos. — Ele tá caidinho. Você sabe disso, né?
Olhei para trás: Bruno estava m e olhando com a testa franzida.
Tinha o rosto preocupado. Quando ele havia ficado tão territorial? Era até bonitinho, um ex-garanhão todo possessivo e cium ento.
— Eu sei, e é recíproco.
Heitor pegou a m inha m ão em cim a do balcão, voltei a observá-lo
com surpresa. Ele tinha um olhar estranho, cauteloso.
— Só não se m achuca, ok? Ele tem m uita m ulher ao redor, m as só
tem olhos para você. Não fica colocando m inhocas na cabeça.
Eu sabia o que Heitor estava querendo dizer. Tinha notado a vaca
que estava flertando com o Bruno enquanto eu m e apresentava. Mas ele logo se desvencilhou, deixando-a chupando dedo. Adorei, claro.
— Ok, am igo. E você, ninguém especial? Notei a Elisa te olhando
outro dia. — Heitor se desvencilhou da m inha m ão e pigarreou.
— E... Elisa? Não, que isso! Som os só am igos. — Caram ba, ele
estava corando.
— Hum -hum , sei. Tudo bem , não quer falar. Mas se não tiveram
nada ainda, tá m eio cam inho andado. Ela é um a garota legal, e parece m uito afim de você.
Heitor desviou o olhar pra onde Elisa estava servindo algum as
m esas e conversava com os clientes.
— Eu sei disso, por esse m otivo que não posso m e envolver. Mas nada m e im pede de ter um a noite totalm ente louca e m olhada. — Sorriu balançando as sobrancelhas.
— Ah, inform ação dem ais, cara! Cadê o Bruno? Quero ir em bora
depois dessa declaração, nossa tem que m anter os detalhes pra você. — Heitor sorriu e inclinou a cabeça para a m esa do m eu nam orado.
Bruno se despediu do pessoal e veio em m inha direção, seus olhos
azuis m e encantavam . Nunca m e cansaria daquele brilho m alicioso que era destinado som ente a m im , assim eu desej ava. Chegou ao m eu lado, e se abaixou para falar no m eu ouvido.
— Tá pronta pra ir?
Ficava um pouco preocupada com a m inha reação a ele. Às vezes
enlouquecia pronta para pular em seu pescoço, e em outras perdia a fala. Por este m otivo, assenti e peguei na sua m ão, se tornou autom ático entrelaçarm os nossos dedos, parecia algo essencial a fazer. O sentim ento de ter sua m ão forte na m inha era deliciosam ente inexplicável, m e sentia segura e protegida. Acenei para o Heitor e fui para casa com m eu nam orado.
Estava planej ando fazer um a surpresa para a noite seguinte, m as
teria que m e segurar e m anter o segredo. Um suspense seria ideal para o que tinha em m ente. Chegam os ao carro e nos acom odam os.
Bruno tinha um sorriso no rosto que estava m e incom odando.
— Qual é a desse sorriso? Tá m e deixando curiosa.
Ele balançou a cabeça e m e olhou de soslaio.
— É um a coisa que o Alberto disse.
— Lá vem bom ba. O que foi?
Lançou um sorriso sedutor para m im e voltou sua atenção para a
estrada.
— Ele disse que eu sou um filho da puta sortudo por ter encontrado
você. — Deu de om bros. — Tam bém falou para tom ar cuidado, porque sua voz encanta a todos ao redor, tem m uito gavião à espreita e ele se candidatou o prim eiro da fila. Babaca!
Fiquei tensa, não gostava de causar nenhum a inim izade. Estava
acostum ada a ser assediada às vezes, m as agora era diferente, eu tinha um nam orado. Não queria que a m inha profissão atrapalhasse o nosso relacionam ento.
— E isso te incom odou?
Bruno franziu a testa e olhou pra m im , confuso.
— Claro que não. Eu sei o quanto cantar é im portante para você. E
não culpo ninguém por te adm irar, Anj o. Você é sim plesm ente m agnífica.
Corei, nunca m e acostum aria com aquilo. Não era daquele tipo de
m ulher que ficava pescando elogios do nam orado.
— Hum , ok. — Olhei para o lado de fora da j anela, tentando
disfarçar m inha ansiedade com o que diria a seguir. — Você vai fazer algum a coisa am anhã à noite?
Ele negou com a cabeça, com a atenção ainda na estrada.
— Am anhã tenho plantão de doze horas, à noite tô de boa. Por
quê?
— Quero fazer um j antar especial lá em casa, para com em orar
tudo o que tem acontecido conosco. Você vem ? — Tentei não transparecer ansiedade no pedido.
Ele riu e m e olhou engraçado.
— Você ainda pergunta? Não vou perder nem um m inuto da sua
com panhia. Só não m e convido a dorm ir com você hoj e porque am anhã levanto cedo e não trouxe nada para m e trocar, m as na próxim a não serei tão idiota. Minha vontade é de passar todos os dias e as noites ao seu lado.
Concordei com um aceno, eu tam bém tinha esse desej o dentro de
m im . Era inevitável, pensava nele durante todo o tem po que estávam os separados.
— Melhor assim , você sente a m inha falta.
Ele pegou o m eu queixo e acariciou com o polegar, com seus
olhos ainda atentos ao traj eto que percorríam os.
— Eu penso em você a cada m inuto do m eu dia, Lay la. Não há
com o esquecer.
Meu coração dava um solavanco cada vez que dizia algo assim .
Chegam os ao lado da m inha casa e olhei para o Bruno. Aproxim ei-m e e dei um beij o leve. Saí sem dizer m ais nada, sabia que ele viria atrás. Não deu outra. Escutei o barulho da porta fechando e parei no cam inho. Virei-m e, e ele vinha correndo, com a testa franzida.
— Você achou que iria se safar com um beij inho assim ? Não
m esm o! — Enlaçou m inha cintura e se aproxim ou, colando seu quadril em m im . — Eu quero te beij ar até tirar seu fôlego, Anj o. Seu gosto é o m eu alim ento m ais saboroso.
Beij ou-m e deliciosam ente. Bruno tinha um j eito com a boca que
era extrem am ente pecam inoso. Gem i e grudei a m ão no seu pescoço. Lam bi seus lábios carnudos e m e esbaldei em sua língua m acia.
Fiquei desnorteada, aquele hom em tinha o poder de m e colocar no
céu e m e j ogar no inferno. Afastou-se sem fôlego e sorriu m aliciosam ente.
— Agora ficou bom ... Estou com calor e de pau duro. Am anhã
você vai se ver com igo, m ulher.
Tive que rir, ele tinha toda a desenvoltura de brincar com um a
coisa séria. Eu estava excitada, e não tinha nada para apaziguar a m inha situação.
— Acho que vou ter que fazer você pagar por m e deixar assim .
Com o vou fazer para dorm ir? Agora estou extrem am ente excitada.
Ele arqueou um a sobrancelha e andou de costas até o carro, com
um sorriso cínico grudado em seu rosto bonito.
— Mal posso esperar pelo m eu castigo, Anj o — gritou, entrando
no carro e dando partida.
Fiquei esperando ele sum ir na rua e abri a porta de casa. Meu
coração transbordava de tanto am or. Sentia-m e com o se fosse a m inha prim eira vez, o que na verdade era. Nunca havia m e apaixonado antes.
A prim eira coisa que notei quando pisei na sala foi o Lucas
esparram ado no sofá com um sorriso idiota no rosto. Muito estranho, àquela hora ele estaria dorm indo para a faculdade na m anhã seguinte. Fora a expressão em seu rosto, chegava a ser um pouco assustador.
Joguei a chave em cim a da m esa e m e esparram ei ao lado dele.
Autom aticam ente, enlaçou o m eu om bro com o braço, encostando a cabeça na m inha. Meu irm ão ainda tinha o m esm o cheiro de quando era m enino. Iria sentir m uita falta daquilo, j á previa que ele se distanciaria, pouco a pouco. Precisaria de seu espaço para crescer e am adurecer.
— Eu estou apaixonada, Lucas.
— Rá... E você percebeu isso só agora? Lala, eu j á sabia. E se não
soubesse que o idiota está caidinho por você eu o m ataria. — Franzi a testa, confusa.
— Com o assim ? Por que m ataria?
Ele olhou pra m im e sorriu, brincalhão.
— Depois daquele episódio no banheiro, você acha que, se eu não
soubesse que vocês se gostam , eu iria aceitar num a boa ter m eus tím panos agredidos pelos gritos da m inha irm ã?
Em purrei-o para o lado e corei, envergonhada. Nunca falam os
sobre essas coisas, na verdade não tinha por que, pois eu nunca tive nada sério na m inha vida. Tentei ao m áxim o m anter m inhas relações longe do m eu irm ão.
— Para de m e lem brar que você escutou aquilo. Já foi
em baraçoso o suficiente de m anhã.
— Lala, tá tranquilo. Eu sei o que acontece quando se está
apaixonado.
Franzi a testa e m eu coração deu um solavanco. Estava m uito
preocupada com o tam anho do sentim ento dele por Sabrina. Se fosse um pouco parecido do que eu e Bruno tínham os, m eu irm ão estava em apuros.
— Você está apaixonado?
Ele sorriu tím ido e olhou para m im pela prim eira vez. Seus olhos
verdes eram de puro contentam ento.
— Tô sim , Lay la. E é dem ais, nunca m e senti assim , pleno.
— Lucas, tom a cuidado. Não vá se m achucar. Sabrina não é fácil,
tem m uitos problem as naquela cabecinha. — Droga, eu estava m uito preocupada com o que poderia acontecer, e j á não tinha volta. Lucas estava caidinho.
— Eu sei, Lala, m as eu consigo contornar num a boa. Você j á
percebeu que, com tudo isso, não existe m ais só nós dois?
Engoli em seco e assenti, reprim indo o nó que estava agarrado à
m inha garganta. Nós éram os m uito solitários, deve ter sido um m ecanism o de defesa nos afastarm os das pessoas.
— Sim , Lucas. Não estam os m ais sozinhos. E isso é bom , né?
Ele assentiu e sorriu am arelo.
— Lem bra-se do prim eiro natal em que passam os depois que
m am ãe m orreu? Eu chorei a noite toda no quarto e você foi cantar pra m im . Dorm i ao som da sua voz. — Seu rosto bonito se contorceu num a careta triste.
— Eu m e lem bro... Depois fui ao quarto e chorei a m inha própria
tristeza. Mas, você sabe? O que m ais m e doía era vê-lo sofrer. Porque para m im , m am ãe j á tinha se extinguido j unto com o papai. Ela perdeu todo o brilho, só ficou um a casca vazia.
— Um a pena, né? Você viu a m ãe do Bruno? Perdeu o m arido e
ainda assim seguiu com a sua vida.
Fiquei pensativa por alguns m inutos, m as logo levantei e sacudi a poeira. Não adiantava m e lam entar pela m inha m ãe. Ela era m uito fraca e perdeu a vontade de viver. Sorri e acariciei seu braço.
— Bom , irm ão, espero que dê tudo certo com você e a Sabrina. Eu
te am o dem ais. Vou dorm ir, tenho uns planos para fazer. Ah, e antes que eu m e esqueça: você pode chegar m ais tarde am anhã?
Lucas ficou pensativo por um instante e assentiu, sorrindo.
— Claro, vou cham ar Sabrina para ir ao cinem a, depois com em os
algum a coisa. Meia-noite tá bom pra você?
— Perfeito!
Virei-m e com um sorriso m alicioso no rosto, o que eu estava
planej ando para o j antar ia deixar Bruno de j oelhos.
Literalm ente.