Inspiração

Gisele Souza · Capítulo 22 de 46

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Inspiração

Capítulo 19

 

Layla

 

Meu coração estava disparado! Quando Bruno veio cam inhando

por entre as m esas, m e olhando tão intensam ente, foi com o naqueles film es em que você não ouve ou vê nada ao redor. Parecia que tinha um holofote ilum inando o m eu cam inho até aquele hom em m aravilhoso, delicioso. Ele era m eu, para apreciar e tocar quando e onde bem quisesse.

Pareceu certa ironia que, quando ele chegou, a m úsica que eu

cantava ser tão cheia de significados para o que estava acontecendo entre nós. Depois de ficar sem vê-lo por três longos dias, só pensava em sentir o seu toque.

Ele estava na porta do bar, em basbacado. Sorri e cam inhei em sua

direção. Ignorei todos que tentavam m e parar, tinha um a m issão a cum prir. Parei na sua frente e o olhei descaradam ente. A boca daquele hom em era a m inha perdição. Poderia com eçar a explorar por ali. Aproxim ei-m e e sussurrei:

— Nunca senti tanta falta do gosto e do cheiro de alguém com o

senti a sua. Vou m e esbaldar.

Ele gem eu e fechou os olhos por um segundo, j ogando a cabeça

para trás. Quando os abriu, seu olhar era azul-escuro, quase negro. Suas pupilas estavam dilatadas de desej o. Bruno m e enlaçou pela cintura, colando seu corpo ao m eu, tom ando a m inha boca num beij o fam into. Sua língua se m ovia num a dança erótica, estávam os tão sintonizados um no outro que esquecem os totalm ente das pessoas ao redor. Enlacei seu pescoço e m ordi seus lábios, ele gem eu um som rouco e m e apertou um pouco m ais. Eu estava ficando louca, precisava daquele hom em de todas as m aneiras.

Bruno rosnou em frustração e se afastou um pouco. A boca estava

verm elha, inchada e deliciosa. Lam bi os lábios e olhei em seus olhos. Ele sorriu e levantou a m ão, acariciando o m eu rosto levem ente.

— Senti sua falta, Anj o. Eu j á te disse que você vai ser a m inha

perdição?

— Que bom , porque eu j á estou perdida.

Ele arregalou os olhos aturdidos, levantou a vista e m e puxou em

direção ao cam arim . As pessoas nos olhavam , surpresas com a nossa pequena dem onstração de afeto. Bruno entrou e fechou a porta atrás de si, enlaçou a m inha cintura e m e sentou na penteadeira, ficando entre as m inhas pernas.

— Aqui está perfeito para poder te apreciar com o se deve. —

Passou as m ãos pelos m eus braços, apertando de leve, e dei um grito involuntário. Foi então que m e lem brei da porcaria da m arca que tinha ali.

Bruno franziu a testa.

— O que foi? Te m achuquei?

Droga, se eu m entisse não ia ser legal, tínham os com eçado agora

o nosso relacionam ento. Mas aparentem ente não precisaria dizer m uita coisa. Ele estava levantando o m eu braço e olhando a m arca roxa estam pada em m inha pele.

— O que é isso, Lay la? São dedos. O que aconteceu?

Desviei o olhar e tentei pensar num a coisa que fosse convincente o

bastante.

— Lay la? Olha pra m im . — Voltei m inha atenção para o seu rosto.

— O que aconteceu? E não se atreva a m entir.

Respirei fundo e decidi contar, seria bom desabafar... Estava com

tudo entalado em m inha garganta.

— É... — suspirei e decidi contar tudo de um a vez, com o tirar um

band-aid. — Foi o Doutor André... Segurou-m e pelo braço e m e m achucou. Ele disse que eu não podia ficar com você e que eu o encantei com m inha voz, que o provoquei. Tentou m e beij ar, m e assediou.

Abaixei os olhos, chateada. Fiquei observando o peito do Bruno

subindo e descendo com a sua respiração forte. Ele levou a m ão até o m eu queixo e o ergueu.

— Esse velho é louco ou o quê? Com o se atreve a colocar a m ão

em você e ainda por cim a te proibir de algum a coisa? Aconteceu m ais algum a coisa que não está m e contando?

Torci a boca para o lado e fiz um a careta.

— Ele m e dem itiu por j usta causa.

— O quê?! — Se afastou com os olhos arregalados, era visível a

sua raiva. — Mas que porra! Com o ele conseguiu isso depois de você prestar queixa?

Corei, envergonhada com a m inha covardia.

— Eu não o fiz — sussurrei.

Bruno se aproxim ou, abaixando-se um pouco e encontrando m eus

olhos, os dele queim avam de raiva, esperava que não fosse direcionada a m im .

— Com o assim não fez, Lay la?

Joguei as m ãos para o alto em frustração.

— Eu não queria fazer escândalo, ok? Resolvi por m im m esm a e,

aliás, não aconteceu nada dem ais, a não ser o m eu braço ficar roxo. Eu não deixei que chegasse a tanto, sei m e defender.

Ele passou as m ãos pelos cabelos, exasperado.

— Não sei o que fazer com você, m ulher. Dá vontade de te

colocar no m eu colo e bater na sua bunda até clarear a sua m ente. Com o você pode deixar isso im pune? É assédio sexual! Você saiu do escritório? Beleza. Mas e a próxim a funcionária? E se acontece algum a coisa pior com ela?

Arregalei os olhos e levei um a m ão à boca.

— Oh, Deus. Eu nem pensei nisso! Só não queria fazer nenhum

escândalo. Meu irm ão não ia gostar de um a coisa assim . Não seria bom para os seus estudos.

Bruno estacou sua cam inhada pelo m eu pequeno cam arim e olhou

em m eus olhos. Aproxim ou-se e pegou as m inhas m ãos, fazendo círculos com o polegar. Aquilo m e acalm ava.

— Eu vou falar isso só um a vez, Anj o, e espero que você m e

entenda. Lucas não é m ais um m enino sozinho. Você não tem que protegê-lo. — Eu ia abrir a boca para retrucar, m as ele levantou a m ão, m e interrom pendo. — Você acha que ele ficaria feliz de saber que sua irm ã escondeu um abuso por m edo de que um escândalo possa afetá-lo? Eu acho que não.

Abaixei a cabeça, tentando esconder as lágrim as que se form aram

em m eus olhos.

— Eu não estou acostum ada com essas coisas, Bruno. Sem pre

cuidei de m im m esm a, não queria dar trabalho para ninguém . — Não m e sentia confortável falando dos m eus problem as e sentim entos.

Ele se aproxim ou e m e abraçou, acariciando os m eus cabelos. Era

um m im o que poucas vezes recebi.

— Agora tem alguém para cuidar de você, Anj o. Nunca m ais vai

precisar fazer tudo sozinha. E com eçando por agora, tira essa m aquiagem do seu braço, que não está adiantando de nada, e vem com igo.

Franzi a testa, confusa. Aonde ele iria m e levar depois de todo esse

alvoroço?

— Aonde nós vam os?

— Para a delegacia, prestar queixa desse palhaço — esbravej ou,

irritado.

— Bruno...

— Sem Bruno, Anj o. Você vem andando sozinha ou vou ter que te

carregar?

Suspirei, resignada. Era bem capaz de ele fazer isso m esm o.

Parecia um hom em das cavernas às vezes.

— Ok, estou indo.

— Ótim o, vou te esperar do lado de fora.

Esperei-o sair da sala e desabei contra a parede. Ia ser um inferno

prestar queixa e ainda ter que m e explicar por ter dem orado tanto. Eu estava acostum ada a resolver os m eus problem as sozinha, sem ninguém para aj udar.

Levantei e fui ao encontro do Bruno, era m elhor resolver tudo de

um a vez. Do lado de fora do bar, ele estava encostado no carro, com as m ãos nos bolsos e de cabeça baixa. Ao ouvir m e aproxim ando, levantou os olhos e se afastou, ficando na m inha frente. Segurou o m eu queixo e aproxim ou a sua boca da m inha. Seus olhos não desgrudavam dos m eus.

— Nunca m ais esconda nada de m im , Anj o. Se nós vam os fazer

isso, tem que ser direito. Você não sabe o que foi descobrir que ficou três m alditos dias segurando isso sozinha. — Sacudiu a cabeça, chateado. Afastou-se e pegou a m inha m ão. — Vem , vam os logo.

Abriu a porta do carro e eu entrei, fiquei observando ele contornar

e sentar no banco do m otorista. Tinha um a expressão zangada em seu rosto e um m úsculo pulsava em seu m axilar. Senti-m e culpada por causar todo aquele desconforto. Percorrem os todo o cam inho em silêncio. Eu estava m eio anestesiada com tudo que iria acontecer.

O am biente da delegacia não era nada acolhedor, tinha todos os

tipos de casos. Desde bandidos à briga fam iliar. Bruno enlaçou sua m ão na m inha e m e senti m ais segura, não gostava de depender de ninguém , m as aquilo era diferente. Tínham os um com panheirism o.

Ele pediu inform ação e o atendente nos m andou para um a sala

separada do prédio principal. Parecia ser destinada apenas para crim es sexuais, a m aioria eram m ulheres naquele setor. Sentam os e esperam os.

Bruno ainda não havia dito nada, estava tenso e olhava para frente

com o olhar perdido. Estava com eçando a ficar nervosa com seu silêncio. E eu nervosa não era um a coisa boa, vinham vários cenários na m inha cabeça. Então, decidi esperar tudo term inar para confrontá-lo.

Um policial fardado saiu da sala e nos convidou a entrar.

Levantam o-nos e sentam os. O oficial era sim pático, tinha um a aparência acolhedora; senhor de m eia-idade, cabelos grisalhos, baixinho, e um a barriga proem inente esticava os botões do seu uniform e.

— Então, crianças. O que posso fazer por vocês?

Bruno olhou para m im e sinalizou para que eu falasse. Com ecei a

explicar tudo o que aconteceu, desde ter notado os olhares estranhos do m eu chefe ao fato em si. E depois a audácia de m e dem itir por j usta causa, sendo que o errado havia sido ele. Disse sobre não ter prestado queixa logo depois do ocorrido, e que só tinha vindo por insistência do m eu nam orado.

O policial franziu a testa e coçou a cabeça, que estava com eçando

a ficar calva.

— Você devia ter dado queixa logo após o ocorrido, querida. Os

casos de abusos sexuais e assédios são cada vez m ais elevados, e na m aioria dos casos não são nem denunciados. Às vezes, m esm o entrando com um a queixa form al, não é levado adiante por falta de provas. E você ainda ter dem orado três dias para resolver se entrava com um processo... Não acredito que tenham êxito. — Suspirou, chateado, toda a situação de assédio realm ente m exia com o em ocional de todo m undo. — Mas vale a pena tentar, pelo m enos ele vai ter a ficha suj a. Não é bom para um advogado este tipo de acusação. Vam os fazer todo o procedim ento necessário. Registrarem os um boletim de ocorrência e você pode exigir que ele retire a dem issão por j usta causa.

Assenti, e ele m e encam inhou a um a sala ao lado. Tiraram fotos

de vários ângulos do m eu braço, a m arca tinha enfraquecido um pouco, m as eram bem visíveis seus dedos noj entos em m inha pele.

Saím os da delegacia com o BO em m ãos, e eu só não sabia o que

fazer dali para frente. Antes de chegarm os ao carro, parei e puxei o Bruno para m im .

— O que houve com você? Tá chateado com igo? — Não

aguentava m ais a dúvida.

Ele franziu o cenho, confuso.

— Claro que não, Anj o. Por que você diz isso?

— Você ficou quieto o cam inho todo. — Estava preocupada com o

fato de ele estar pensando m al de m im . Afinal, segundo o Doutor André, eu era a provocadora.

— Lay la, é porque eu não m e aguento de tanta raiva. Só de pensar

no que você passou, e no que aquele velho te disse... No que ele tentou fazer e insinuou, m e deixa louco. Só estava pensando no que eu vou fazer para que ele pague isso com o se deve.

— Com o assim ? Já não fizem os tudo o que era necessário?

— Não, Anj o. Você sabe onde aquele filho da puta m ora? —

Assenti. — Ótim o, nós vam os lá agora.

Arregalei os olhos, surpresa com a sua declaração. Ficava enj oada

só de pensar em ver aquele hom em asqueroso outra vez.

— O quê? Por quê?

— Esse cara vai aprender a não m exer com m ulher nenhum a.

Você vai ver... Vem , anj o, vam os logo para não ficar m uito tarde.

Continuei parada, olhando aquele hom em m aravilhoso. Bruno

estava disposto a ir atrás do velho noj ento, tirar satisfações por ter m exido com igo. Logo eu, que sem pre cuidei dos outros e nunca m e preocupei com igo.

Ele se virou e estendeu a m ão, ainda sério, m as seu rosto relaxou

um pouco.

— Vem , Lay la.

Segurei a sua m ão, enlaçando nossos dedos. Levantei nas pontas

dos pés e lhe dei um selinho nos lábios.

— É m uito fácil se apaixonar por você, sabia?

Bruno engoliu em seco, e segurou m eu queixo com os dedos.

— Digo o m esm o, Anj o. — Sorriu e acariciou o m eu rosto. —

Agora vam os, quero acabar logo com isso.

Entrei no carro e m e acom odei, encostando a cabeça no banco.

Eu não estava m ais sozinha.