Inspiração

Gisele Souza · Capítulo 20 de 46

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Inspiração

Capítulo 17

 

 

Layla

 

Meu dia com eçou num m arasm o só. Ainda não havia dito ao

Lucas que tinha saído do em prego, não podia falar sobre o que aconteceu ainda. Estava assustada e chocada com tudo. Com o um a pessoa que parecia am ável se transform ava num louco que se achava no direito de m e agarrar daquele j eito? Sentia-m e m uito m al só de lem brar. Meu braço estava roxo e com m arcas de dedos. Tentei esconder ao m áxim o com m aquiagem , não queria alarm ar ninguém , além do que estava extrem am ente envergonhada. Já tinha resolvido tudo sozinha.

A única coisa que tinha conseguido m e fazer relaxar na noite

anterior foi a ligação do Bruno. Sua voz conseguiu m e acalm ar e pude descansar tranquila. Só que não estava acostum ada a ficar em casa, e tinha um problem a em m ãos: falta do que fazer. Estava acostum ada a passar o dia e a noite fora, era a m inha rotina há anos. Às vezes m udava o roteiro e horários, m as sem pre tinha o m eu tem po preenchido. Então, resolvi fazer um a lim peza geral. Arrum ar tudo o que vinha adiando há alguns m eses.

Fui até o quarto do Lucas; apesar de ele ser relativam ente

organizado, um quarto de um garoto é sem pre um a caixinha de surpresas. E não foi nenhum espanto quando abri a porta e parecia que um furacão havia passado por ali. Ele tentava m anter sua bagunça escondida, não deixava nada espalhado pela casa, m as o quarto estava um a confusão sem fim .

Tinha livros abertos espalhados pelo chão, roupas j ogadas em

qualquer lugar — que não deviam estar lim pas —, e sua cam a estava um fuzuê. Eu tentava dar privacidade a ele não entrando em seu quarto, pois im aginava que cuidaria de suas próprias coisas. Mas m e enganei, teria de fazer um a faxina geral para que ficasse habitável.

Recolhi todos os livros do chão e arrum ei-os num a pilha ao lado do

com putador. Não queria m e introm eter dem ais. As roupas realm ente não estavam lim pas. Seria tão difícil colocar no cesto de roupa suj a do banheiro? Fiquei surpresa com a bagunça do Lucas. Parecia tão certinho! Precisava passar m ais tem po com ele, devia ter m udado m uito ao longo daqueles anos e eu não percebi. Tirei tam bém os lençóis e troquei por lim pos. Depois de aspirar e esfregar, a desordem j á não existia m ais.

Deixei aquela enorm e trouxa no banheiro, iria cuidar das roupas

m ais tarde. Já estava um horário razoável para entrar em contato com a contabilidade. Sentei-m e no sofá ao lado do telefone e disquei o núm ero que sabia de cor.

— CED Contabilidade, bom dia — a voz estridente da secretária

guinchou em m eu ouvido no prim eiro toque.

— Olá, Juliana. É a Lay la, eu gostaria de falar com a Patrícia, por

favor.

— Oi, querida. Só um m inuto, vou passar pra ela.

Ficou tocando aquela m usiquinha chata por uns bons três m inutos

antes de a Patrícia atender.

— Oi, Lay la. No que posso aj udar?

— Patrícia, preciso da sua aj uda. Eu saí do escritório e preciso

acertar as m inhas contas. Não quero m ais entrar em contato com o doutor. Podem os resolver tudo diretam ente, certo?

— Sabe o que é, querida... O doutor André ligou e disse que você

foi dem itida por j usta causa. Com o você não tem férias vencidas, é só o salário do m ês. Pode vir buscar na segunda que deixo tudo arrum adinho.

Eu não consegui responder de im ediato. Tinha um bolo agarrado

na m inha garganta. Com o aquele velho safado teve coragem de fazer um a coisa daquelas? Justa causa? Eu que devia denunciá-lo por assédio sexual, ainda tinha m arcas no m eu braço para provar. Mas não queria nenhum escândalo, seria um a confusão dos infernos.

Droga, perder o restante do m eu dinheiro faria um a falta danada.

Antes de entrar em desespero, m e despedi e disse que iria entrar em contato em breve. Encostei a cabeça no sofá e fechei os olhos, cansada. Pelo visto aquele pesadelo não iria acabar tão cedo.

Minha recom pensa seria à noite, sem pre relaxava com a m úsica.

E teria o adicional de Lucas e Sabrina aparecerem no bar. Seria bom conversar com gente j ovem e descontraída.

Ser responsável era desgastante.

 

***

Tinha term inado com a faxina cedo, lavei toda a roupa suj a e dei

um a geral na sala e na cozinha. Acabei indo m ais cedo ao bar, pois poderia aj udar no balcão enquanto m inha apresentação não com eçasse. Apesar de Heitor ser atiradinho, nunca havia passado do lim ite.

Elisa estava servindo as m esas quando cheguei e franziu a testa por

m e ver tão cedo. Nem m e dei ao trabalho de explicar, a porcaria do m eu braço exposto ainda ia dar m uito pano pra m anga. Quando alguém visse ia ser um a droga. Ainda bem que só veria Bruno no sábado, era provável que a m arca estivesse quase im perceptível.

Olhei de novo e am aldiçoei baixinho, estava roxo, quase preto.

Mesm o com a m aquiagem , era possível identificar os dedos daquele velho. Sentia m eu peito com prim ido, ficava assustada quando m e lem brava da cena. Balancei a cabeça para dispersar.

Aproxim ei-m e do balcão e olhei Heitor atolado com os pedidos, o

bar j á estava lotado. Sentindo a m inha presença, levantou o olhar da pilha de cervej as que tirava do freezer.

— E aí, gatinha! Chegou cedo hoj e, o que foi?

No dia anterior fiz o possível para não ser vista por nenhum

funcionário, iria acabar desabafando e fazendo a m aior bagunça.

— Nada não. Queria saber se você precisa de aj uda antes de eu

com eçar a m e apresentar.

Ele bufou, olhando em volta.

— Toda aj uda é bem -vinda. — Pegou um avental debaixo do

balcão e o estendeu para m im .

Peguei sorrindo, adorava aj udar. Ainda m ais num am biente ótim o

com o o Beer. Passei por debaixo da portinhola no canto, e com ecei a pegar os pedidos de bebidas.

Era até engraçado trabalhar com o Heitor, acho que não dei m uita

chance de ele ser legal. Sem pre chegava em cim a da hora e saía correndo depois. Ele era bem -hum orado e fazia caretas engraçadas, im itando os clientes chatos. Eu não parava de rir das suas bobeiras.

— Ei, gata, até que você é legal. Apesar de estar aqui no Beer há

m ais de um ano não tínham os tido a chance de conversar. — Heitor Teles era lindo: cabeça raspada, m oreno, tatuado, m usculoso e ainda por cim a tinha covinhas em seu rosto bonito. Quebrava toda a onda de bad boy.

— Culpada! Eu sou um pouco fechada às vezes, m as ultim am ente

tem acontecido algum as coisas com igo que m e fizeram refletir um pouco. Tenho que aproveitar m ais a vida.

Ele sorriu, m ostrando todos os seus dentes brancos e alinhados. E

que lindo ficava sorrindo relaxado.

— Isso tem a ver com aquele cara que você anda se agarrando

pelo banheiro?

Arregalei os olhos, corando com o um tom ate.

— Com o você sabe sobre isso?

Heitor balançou a cabeça, divertido.

— Eu sei de tudo, gata. Só não conta pra ninguém . — Piscou.

Assenti, envergonhada, e voltam os ao trabalho. Mais um am igo para adicionar a lista recém -adquirida. Se eu parasse para pensar, m inha falta de vida social era exclusivam ente por m inha culpa. Apesar de não ter tem po, podia m uito bem ter feito am izade dentro do m eu círculo de trabalho.

Depois de m uitas cervej as e bebidas que nem lem brava o nom e,

j á era hora do show e m e despedi do m eu m ais novo am igo. Fui em direção ao palco. Já estava tudo arrum ado. Sentei-m e, preparando para com eçar, e vi Lucas e Sabrina entrando. Eles estavam m uito próxim os.

Lucas levantou os olhos e m e viu observando. Corou,

envergonhado, e acenou com a cabeça. Sorri em resposta, voltando a m inha atenção para o violão em m eus braços. Dedilhei algum as notas e peguei a lista de pedidos que j á havia se acum ulado com o DJ.

Não pude evitar um frio na barriga ao perceber, entre m uitas, a

m úsica que toquei quando vi Bruno pela prim eira vez. Palpite. Para m im , aquela canção ficaria gravada na m inha vida.

Com ecei com Ainda Lembro, da Marisa Monte. Era um a das

m úsicas que eu m ais gostava de tocar. E, com tudo que eu estava passando, era sim plesm ente perfeita. Sem pre quis ser tudo para alguém .

Fechei os olhos e m e deixei levar. Toda vez que cantava m e

em ocionava com as letras doces e rom ânticas. Term inei a m úsica e abri os olhos, as pessoas estavam em basbacadas, olhando-m e adm iradas. Aplausos explodiram do nada. Sorri satisfeita, adorava fazer um bom trabalho.

— Obrigada, pessoal. É um prazer estar aqui com vocês. Hoj e,

estou atendendo aos pedidos, m as tenho um a especial que queria cantar. A lua que eu te dei, da Ivete Sangalo.

“Posso te falar dos sonhos

Das flores

De como a cidade mudou

Posso te falar do medo

Do meu desejo, do meu amor...

 

Posso falar da tarde que cai

E aos poucos deixa ver

No céu a Lua

Que um dia eu te dei...”

 

O restante da apresentação correu m aravilhosam ente. Não tirei

intervalo para poder acabar cedo e sentar com Lucas e Sabrina. Deixei o resto da noite a cargo do DJ, que não deixava a desej ar, na verdade, todo o atendim ento e serviço do bar era excelente.

Guardei todo o m eu equipam ento, que se resum ia som ente ao m eu

violão. Fui à m esa m e distrair um pouco. Tom ei cuidado de m e sentar com o braço escondido do Lucas.

Acom odei-m e em frente a eles e os observei. Form avam um lindo

casal. Lucas tinha os cabelos castanho-claros e os olhos verdes-escuros, Sabrina tinha os cabelos negros e seus olhos azuis eram tão claros que pareciam duas piscinas lím pidas.

— Bom , pom binhos... A que devo a honra da visita? — Não que eu

fosse reclam ar, ver Sabrina m e fazia lem brar m uito do Bruno. Além do fato de ela ser um a graça.

— Ah, você não sabe? O louco do m eu irm ão, que não cabe em si

de tanta ansiedade, exigiu que eu viesse te ver.

Não conseguia acreditar, ele era terrível. Mas não pude evitar um

sorriso satisfeito em m eu rosto.

— Sério?

— Rá... Gostou, né? É verdade, m as eu queria vir m e distrair um

pouco. Não estou acostum ada a ficar num a casa tão grande sozinha.

Lucas fechou a cara e olhou pra m im . Pareceu realm ente

chateado.

— Eu disse a ela, Lay la. Convidei-a para ficar lá em casa

enquanto Bruno estivesse trabalhando, m as é m uito teim osa para aceitar.

Arqueei as sobrancelhas. Ok, era um a ideia legal, m as onde ela

iria dorm ir? Algum a coisa m e dizia que era no quarto dele...

— Sim , Sabrina. Não há problem a.

Sabrina m e dispensou com a m ão, distraída.

— Im agina se vou dar este trabalho. Está tudo bem , passo a m aior

parte do tem po na faculdade m esm o.

Sabrina tinha um olhar estranho e, de repente, ficou tensa.

— Ok, m as se precisar pode ir lá pra casa. — Lucas assentiu,

olhando pela j anela com os lábios com prim idos.

Apesar do clim a pesado, nos divertim os bastante. Era bom ver o

Lucas sorrindo. Só estranhei a atitude de Sabrina, que subitam ente m udou sua atitude antes calorosa, e era óbvio que se forçava em m anter certa distância do m eu irm ão, depois que ele a pressionou. Iria perguntar ao Bruno se ele sabia algum a coisa a respeito.

Conversam os sobre m uitas coisas, e gostei de conhecer m elhor a

irm ã do m eu nam orado. Lucas nos contou da quantidade de nerd que tinha na sua turm a na faculdade, e que era difícil fazer am izade.

Fiquei feliz de ele ter pelo m enos alguém para se distrair, apesar

de eu perceber um interesse diferente de am bas as partes. Mesm o que Sabrina tenha tentado disfarçar, a energia era palpável.

Já estávam os de saída, rindo horrores da desenvoltura de Sabrina,

quando recebi um a m ensagem de texto do Bruno.

 

“Não vejo a hora de te ver, Anjo. Faltam só mais dois dias para te ter em meus

braços outra vez.”

 

Sorri com o um a colegial apaixonada. Levantei a cabeça e olhei

para o céu estrelado, era bom dem ais o que eu estava sentindo. Meu coração pulsava diferente desde que com ecei a m e envolver com ele. Respondi a sua m ensagem com um frio na barriga, em antecipação.

“Já estou contando as horas.”