Inspiração

Gisele Souza · Capítulo 4 de 46

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Inspiração

Capítulo 1

 

Layla

 

Já estava atrasada para a m inha apresentação. Meu trabalho no

escritório de advocacia era até tranquilo, m as aquela não era a m inha verdadeira vocação. Eu adoro cantar. Desde pequena, m eu pai m e deu um violão de presente e com ecei a tocar os prim eiros acordes só ouvindo playbacks. Ele dizia que eu parecia um rouxinol. Meu coração apertava só de lem brar o hom em que ele foi. Mesm o depois de tantos anos, ainda sentia sua falta.

Há um a sem ana, tinha com pletado 27 anos de idade, vinte e cinco

de j unho era um a data que nem fazia questão de com em orar. A única pessoa im portante para m im era o m eu irm ão Lucas. Nossa m ãe faleceu há nove anos de um problem a no coração, o m édico disse que ela se cansou dem ais. Tam bém pudera, trabalhava em m ais de três em pregos para poder nos sustentar com o m esm o padrão de quando o m eu pai ainda era vivo.

Assum i responsabilidade total por ele, tinha um garoto de onze

anos sob m eus cuidados. Na época fiquei assustada, m as nunca recuei. Batalhei m uito para o Lucas ter tudo o que m erecia. Ele era o orgulho da m inha vida. Estava no terceiro período da faculdade de m edicina e era brilhante, daí o m otivo pelo qual tinha dois em pregos.

Mas o que m e dava satisfação pessoal — e da qual não abriria

m ão era a m inha apresentação no bar, que j á estava atrasada. Atravessei a via principal sem nem olhar para os lados. Estava focada nas m úsicas que tinha escolhido para a noite. Andava m eio m elancólica, m eu irm ão estava tão enfurnado em suas provas e estudos que não tivem os tem po de conversar com o sem pre fazíam os. Depois da cirurgia que sofreu há dois m eses tinha m uita m atéria acum ulada. Lucas sem pre se esforçava ao m áxim o para fazer o seu m elhor. Eu não tinha m uitos am igos, com tanto trabalho não sobrava tem po. Éram os som ente nós dois.

Selecionei um repertório bem rom ântico, j á que na quarta-feira

sem pre frequentavam pessoas m ais relax, podia abusar um pouco das letras m ais significativas. O Beer at the bar era bem tranquilo, funcionava todos os dias das seis da noite às duas da m anhã. Eu m e apresentava de quarta a dom ingo.

Tirava um bom dinheiro de couvert artístico. Não tinha am bição

de m e lançar com o cantora fam osa. Para m im , apenas ter pessoas que escutassem a m inha voz j á estava m uito bom .

Entrei no Beer e fui recebida por um clim a refrescante, o dono

insistia em deixar o sistem a de ar condicionado no m ais fresco possível. Realm ente, quando ele estava lotado era im prescindível, pois ficava superabafado. E j á estava bem cheio para o m eio da sem ana, tinha um a m esa perto do palco com várias pessoas. Pareciam com em orar algum a coisa, m as nem dei m uita atenção. Por certo viriam pedidos variados, era sem pre assim : os que sentavam próxim os se envolviam m ais na m inha apresentação. Eu gostava, pelo m enos sabia que estavam prestando atenção.

O lugar tinha um clim a totalm ente fam iliar, dificilm ente iam

pessoas que queriam fazer baderna. No canto tinha um balcão enorm e, onde ficava Heitor, o barman. O palco estava no canto em um lugar estratégico, era forrado de m adeira com o todo o recinto, dando um ar country. E por este m otivo j á tive inúm eros pedidos de m úsica nesse estilo. Ainda bem que a m inha voz era bem eclética.

Passei pelo Heitor e m urm urei um “boa-noite”. Não

conversávam os m uito, eu era m uito fechada com am izades e ele era bem m isterioso pro m eu gosto. Apesar de ser m uito bonito, não gostava de m isturar trabalho com prazer, não era m eu estilo. Segui para o cam arim : um quartinho pequeno que transform ei para poder m e trocar e virar a “estrela” da noite. Meu violão estava encostado na parede, estiquei a m ão e o peguei, dedilhando alguns acordes. Deixei-m e levar pelo lindo som que fazia.

Um a batida na porta m e tirou do devaneio. Elisa, a garçonete,

enfiou a cabeça no vão da porta, sorrindo.

— Ei, gata. Já estão à sua espera. Está ficando lotado hoj e.

Elisa era linda, tinha cabelos castanhos encaracolados, longos e

cheios, seus olhos pareciam duas am êndoas. Tinha um corpo curvilíneo que toda m ulher desej aria e era um am or de pessoa. Nos dávam os m uito bem .

— Já vou, querida. Estava só m e aquecendo. — Sorri, e ela saiu.

Troquei a roupa rapidam ente, não podia m e apresentar de

terninho. Coloquei um a calça j eans esburacada e cam iseta prata de paetê. A estrela do Beer j á estava pronta. Joguei m eus cabelos castanhos pra frente e baguncei sem pena. Quando voltei, era outra m ulher. Esse truque dava um visual sedutor. Parei em frente ao espelho e observei o m eu reflexo. Para um a garota que j á batalhou m uito, até que ainda estava bem .

Meus olhos verdes estavam brilhantes por causa da m inha

apresentação. Sem pre antes de cantar ficava num a excitação sem tam anho. Peguei o m eu violão e respirei fundo, fui em direção à única coisa que m e dava prazer.

Olhando em volta, percebi novam ente o quanto estava cheio.

Aproxim ei-m e do palco e arrum ei o banquinho para m e sentar. Entreguei a lista de m úsicas ao DJ que fazia acom panham ento. Ele olhou e levantou um polegar pra cim a. Acom odei-m e e testei o m icrofone, tudo certinho... Show time.

— Olá, pessoal, boa noite! Pra quem não m e conhece, m eu nom e

é Lay la Bonatti, canto aqui no Beer há m ais de um ano. Hoj e, selecionei um as m úsicas bem rom ânticas, m as, com o sem pre, se alguém tiver algum pedido não hesite em solicitar. — Dedilhei as cordas do violão, fazendo o som que m ais am ava no m undo. — Vou com eçar com Palpite, da Vanessa Rangel.

Deixei m eus dedos fazerem sua m ágica. Toquei a introdução e

soltei a voz com os olhos fechados:

 

“Tô com saudade de você

Debaixo do meu cobertor

E te arrancar suspiros

Fazer amor.

Tô com saudade de você

Na varanda em noite quente

E o arrepio frio

Que dá na gente

Truque do desejo,

Guardo na boca

O gosto do beijo...”

 

Cantei com a m inha alm a, com o sem pre fazia. Por m ais que j á

houvesse apresentado a m úsica várias vezes, senti algo diferente com aqueles versos. Saudade por um a coisa que não tinha era estranho, claro que eu gostaria de ter alguém com quem dividir a vida, sentar na varanda num dia frio com cobertores em torno de nós e apenas ver o tem po passar. Sinceram ente, o am or era um desej o que carregava e ansiava fervorosam ente.

Só que m eu m edo de perder um a pessoa tão im portante era bem

m aior, não m e envolvia em ocionalm ente em m eus relacionam entos. Eu queria alguém para am ar, m as era m uito arriscado.

No m eio de toda aquela gente, um cara m e cham ou a atenção.

Era um gato; seus olhos azuis perfuravam a m inha alm a, cabelos pretos bem cortados caíam em sua testa. Fiquei com um a vontade louca de ir até lá e tirar. Olhei dentro de seus olhos e m e deixei levar.

 

“Tô com saudade de você,

Do nosso banho de chuva,

Do calor na minha pele

Da língua tua

Tô com saudade de você

Censurando o meu vestido,

As juras de amor

Ao pé do ouvido,

Truque do desejo,

Guardo na boca

O gosto do beijo...”

 

Naquele m om ento, eu não m e pertencia. De algum a form a,

aquele desconhecido capturou a m inha atenção com o ninguém nunca tinha feito. O j eito com o m e olhava era intenso, m as ao m esm o tem po suave. Não conseguia entender m uito bem , m as ali no palco era com o se eu fosse dele, m inha im aginação foi a m il com pensam entos do que poderia acontecer se m e abrisse para alguém com o ele.

Depois daquela situação confusa, cantei m ais algum as m úsicas

MPB e anunciei m inha pausa. Andei em direção ao bar e pedi um a água. Heitor m e olhou de cim a a baixo com interesse evidente. Apesar de ser um cara legal, não estava afim , não era m eu tipo.

Senti um arrepio na espinha, um hálito soprou em m eu ouvido.

Olhei para trás e dei de cara com aquele hom em m aravilhoso, ele estava m e observando com o se fosse m e devorar. Quando abriu a boca, sua voz rouca m e deu um frio na barriga.

— Você tem um a bela voz, docinho.

Arqueei um a sobrancelha em descrença. Estava bom dem ais para

ser verdade.

— Docinho? Bom , se você não escutou, m eu nom e é Lay la. Nada

de docinho pra você.

Ele sorriu de lado e passou os dedos na m inha bochecha.

— Com um a voz com o a sua? Só pode ter um gosto doce.

Ok, chega de dar ideia para esse idiota. Pedi licença para voltar ao

palco, m as ele não se afastou e ainda pegou no m eu braço, m e parando no m eio do cam inho. Olhou para m im tão intensam ente que as m inhas pernas ficaram bam bas.

— Aonde você vai? Ainda estou falando com você!

— Não tenho nada para falar, por favor, m e solta.

Ele soltou m eu braço e passou as m ãos pelos cabelos, exasperado.

— Me desculpe, acho que com ecei m al. Podem os voltar ao início?

— Estendeu sua m ão. — Prazer, m eu nom e é Bruno Petri. Adorei sua voz, Lay la. Eu j á não te conheço de algum lugar?

Observei-o atentam ente, parecia m eio atrapalhado. Devia estar

acostum ado a ter a m ulher que quisesse; só acenar que elas vinham com o um as idiotas. Com o aprendi a ser educada, resolvi devolver o cum prim ento, apertei sua m ão e levei um a leve descarga de eletricidade. Não podia ser! Olhei em seus olhos. Parecia que ele tam bém havia sentido o que quer que tenha acontecido, porque estava com um a expressão confusa em seu rosto.

— Não, eu saberia se tivesse te visto antes. Bom , prazer Bruno.

Agora, se m e der licença, tenho que voltar ao palco.

Ele assentiu e se encostou com os cotovelos apoiados no balcão,

senti o peso de seu olhar em m inhas costas durante todo o cam inho. Acom odei-m e no banquinho e voltei a m e apresentar.

Enquanto cantava, varria m eus olhos à sua procura. Encontrei-o

num a m esa com várias pessoas. Tinha um a m ulher pendurada em seu braço, que tentava a todo custo cham ar sua atenção, m as ele m e encarava intensam ente, prendendo m eu olhar. Fiquei envergonhada, coisa que não acontecia há tem pos. Eu sem pre fui um a m ulher bem resolvida, nunca cheguei ao nível de m e envergonhar por um a coisa que fiz ou não.

Contudo, m e senti nua em seu escrutínio. A garota pegaj osa ao seu

lado falou algum a coisa com ele, e só assim Bruno quebrou nossa conexão. Senti-m e aliviada, j á não estava conseguindo raciocinar m uito bem . Voltei às m inhas m úsicas e não olhei m ais na sua direção.

Depois de várias canções, recolhi m eu violão — que era a única

coisa que tinha m inha no bar — e cam inhei para o cam arim . Com o não tinha tido tem po de ir em casa, tinha duas opções para m e vestir: o terno que trabalhei o dia todo ou a roupa de “estrela” que estava vestindo.

Escolhi a roupa de estrela. Apanhei m inhas coisas e coloquei num a

sacola. Fui até o bar, peguei um a água e cam inhei para a saída, sem olhar ao redor. Não queria ter de encarar aqueles olhos azuis de novo.

Dito isso, você pode im aginar o susto que levei ao m e deparar com

o Bruno em pé do lado de fora, com as m ãos nos bolsos e o olhar fixo na porta.

— Estava te esperando, anj o.

Quase cuspi toda a m inha água com essa declaração. Franzi a testa.

— Com o assim ?

Ele desencostou da parede e parou na m inha frente.

— Eu tenho um pequeno problem a. Quando quero um a m ulher, eu

a tenho. Não im porta quanto tem po dem ore, e enquanto você estava naquele palco, tão linda, decidi que você ia ser m inha. — Deu de om bros.

Será que eu estava escutando direito? Aquele cara estava achando

que, só porque decidiu que m e queria, tinha o direito de falar assim com igo? Estreitei m eus olhos.

— Querido, senta e espera.

Estava indo em direção à rua quando ele pegou no m eu braço, m e

puxou para j unto de si, abaixou a cabeça e cheirou o m eu pescoço. Senti um arrepio por todo o corpo, parecia enfeitiçada. Não consegui m e obrigar a ir em bora.

— Acho que não, anj o.

Agarrou m inha cintura e assolou m eus lábios num beij o delirante.

Sua boca era firm e e quente. Abri m eus lábios e ele m e invadiu, tom ando tudo de m im . Eu estava caindo num poço sem fundo com aquela atração que sentia, algo totalm ente desconhecido e novo para m im . Mas, de repente, percebi o que estava acontecendo. Nem conhecia o cara e perm itia que m e tratasse assim ? Não!

Em purrei-o com força e m e desvencilhei.

— Você tá louco? O que pensa que está fazendo?

Ele sorriu e se aproxim ou perigosam ente.

— Vai m e dizer que não gostou?

Gostei, m as ele não precisava saber disso.

— Claro que não. Com o vou gostar de alguém que m e ataca assim

do nada? Isso não existe, cara. Se liga. Eu tô fora dessa.

Saí pisando duro, não antes de ouvi-lo gritar:

— Te vej o am anhã, anj o. Não vou esquecer essa sua boca linda.

Bastardo!