Inspiração

Gisele Souza · Capítulo 6 de 46

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Inspiração

Capítulo 3

 

Layla

 

A noite de quinta foi bem tum ultuada. Minha apresentação foi boa

com o sem pre, m as tinha algum a coisa, que não conseguia identificar, faltando. Meus olhos vagaram por todo o bar à procura de alguém . E com o não o encontrei, fiquei com um hum or do cão.

Não que eu fosse adm itir que a culpa era dele, aquele convencido.

Nunca fiquei tão indignada e excitada na m inha vida. Confesso que ser arrebatada daquela m aneira m exeu com igo. Fazia m uito tem po que não sentia o toque de um hom em que m e desej ava, aquele beij o roubado m e deixou alucinada. Por m ais louco que pudesse ser, eu queria m ais.

Atravessei a cidade, louca para pegar o Lucas em casa, pois

m orria de saudade das nossas conversas. Andávam os tão atarefados que acabam os perdendo um pouco o contato. Nossa casa era m odesta, m as confortável. Graças à m am ãe, não precisávam os pagar aluguel. Morávam os num bairro sim ples da cidade, porém acolhedor.

Passei por m eus vizinhos com um sorriso no rosto, eram boas

pessoas. Já era tarde, m as estava quente e eles sem pre ficavam nos portões de suas casas, olhando o tem po passar. Eles m e aj udaram bastante quando era m ais nova e tive que virar m ãe de um adolescente. Não que Lucas tenha m e dado trabalho, m as não foi nada fácil.

Abri a porta de casa à procura do m eu irm ão. A sala estava

arrum ada e cheirosa, ele sem pre m e aj udava nessa parte. Nunca foi um m enino bagunceiro, eu ficava até preocupada por não ser um garoto com atitudes norm ais para a sua idade. Mas sei que nós am adurecem os m uito cedo, era de se esperar que fôssem os diferentes.

Fui até a copa, e senti um aperto no coração; Lucas estava com a

cabeça deitada em cim a de um m onte de livros. Era sem pre assim : se acabava de tanto estudar e dorm ia em qualquer lugar. Coitadinho, devia estar m orto, o quanto estava se esforçando por essa faculdade não era brincadeira. Apesar de ele ser um hom em , ainda o enxergava com o o m eu irm ãozinho gordinho que pedia colo quando tinha saudade do nosso pai.

Cheguei ao seu lado e lhe acariciei o rosto. Era m uito engraçado

ver com o cresceu e am adureceu. Ele estava com a barba de uns dois dias por fazer e tinha círculos de cansaço em volta dos olhos. Ainda m e sentia culpada por deixá-lo sozinho, m as era o único m eio de conseguir pagar sua faculdade de m edicina.

— Luquinha, vai pra cam a. — Sacudi seus om bros levem ente.

Sem pre fui m uito paciente com ele, acho que para com pensar a falta dos nossos pais. Sentia-m e na obrigação de tratá-lo da m elhor m aneira possível. — Você está todo am assado aí, am anhã estuda m ais.

Ele abriu os lindos olhos verdes e sorriu sonolento.

— Que horas são, Lala? — Não deixava aquele apelido de lado.

— Já passa da m eia-noite, am anhã você tem aula cedo. Vai

dorm ir que eu arrum o seus livros.

Lucas estava bem m ais alto do que eu, era estranho porque, com o

a irm ã m ais velha, sem pre m e surpreendia com seu tam anho. Ele m e abraçou carinhosam ente e m e deu um beij o no topo da cabeça.

— Boa noite, Lala.

Ele estava quase na porta do quarto quando deu m eia volta e se

virou para m im .

— Podíam os m arcar de sair no dom ingo, o que você acha? Faz

tem po que não fazem os nada assim .

Meu irm ão sentia tanto a m inha falta quanto eu sentia a dele.

— Claro, pode ser à tarde, e depois você vai ao bar com igo. —

Sorri entusiasm ada.

— Beleza, com binado.

Entrou em seu quarto e fechou a porta levem ente. Lucas era tão

diferente dos outros garotos da sua idade, sem pre tão educado e am oroso... Era até estranho não ter nam orada. Estava tão focado nos estudos que não devia ter tem po para pensar nisso.

Arrum ei seus livros em um a pilha. Nossa, quanta coisa para

estudar! Eu não podia nem im aginar o que seria decorar e aprender todos aqueles term os m édicos. Não fiz nenhum a faculdade, tive que parar a m inha vida para cuidar de um m enino de onze anos que tinha acabado de perder a m ãe.

Na verdade, anulei-m e com pletam ente. A única coisa que

continuava a fazer era tocar e cantar. Contudo, aprendi um a coisa aos trancos e barrancos: não adiantava ficar m e lam entando pelo que poderia ter sido. Meu irm ão precisava de m im , e não faria de outra m aneira. O negócio era seguir em frente. Nada de ficar rem oendo o passado, im aginando com o poderia ter sido se o papai não tivesse m orrido naquele acidente de carro.

Nem percebi que tinha lágrim as escorrendo pelo m eu rosto. Era

im possível não m e em ocionar, m eus pais eram pessoas tão boas, não m ereciam o fim que tiveram .

Respirei fundo e fui para a cam a. Meu coração estava pesado, por

causa de toda a em oção que se encontrava reprim ida dentro de m im .

 

***

 

O escritório de advocacia estava um a baderna, era im pressionante

a capacidade das pessoas quererem processar os outros por m otivos ínfim os. Ainda m ais num a sexta-feira.

Meu chefe, o Dr. André Silva, estava com um a carranca

trem enda. Norm alm ente era um hom em calm o — apesar de ser indiscreto às vezes —, m as, devido aos chatos que passavam por sua m esa, devia estar tendo um dia infernal. Levei seu café quando um dos clientes saiu da sua sala. Ele estava com dois dedos apertando a têm pora. Parecia m uito cansado.

— Com licença, doutor. Seu café.

Ele olhou por cim a de um a m ontanha de processos e suspirou

aliviado.

— Obrigado, Lay la. Só esse café para m e aliviar, está sendo um

dia estressante.

— Não há de quê. — Eu j á ia saindo quando ele levantou a m ão,

parando-m e.

— Só um m inuto, querida. — Pegou um bolo de papel em cim a da

m esa e estendeu na m inha direção. — Preciso que você exam ine esses processos e separe os que são m ais im portantes, m as quero que leia todos atentam ente, para não haver nenhum engano.

Aquiesci e estendi a m ão, im aginando ter visto um olhar estranho

nele. Doutor André m e avaliava de um m odo diferente. Tinha um brilho em seus olhos que m e deixou desconfortável. Só podia ser m inha im aginação, pois o m eu chefe era uns quarenta anos m ais velho do que eu. Dei m eia volta e saí de seu escritório antes que pudesse acontecer algum a coisa que m e fizesse largar o em prego. Não podia m e dar esse luxo.

Caram ba, com o tinha papel em m inhas m ãos! Era processo de

m au atendim ento de telefonia de celular, m au funcionam ento de m áquina de lavar, troco errado na padaria. Nossa, quanta gente insatisfeita! Porém , tam bém tinha assuntos sérios.

Depois de analisar toda aquela m ontanha, entreguei-a ao doutor e

fui arrum ar as m inhas coisas, tinha m uito que fazer em casa antes de ir ao bar. Já estava saindo quando fui parada por um a m ão enrugada.

— Lay la, acho que vou dar um a passada no Beer para te ver

cantar. — Passou o olhar vidrado de cim a a baixo no m eu corpo, e esfregou o polegar em m eu braço.

Franzi a testa e m e desvencilhei.

— Tudo bem , doutor. Te vej o por lá, com licença.

Saí o m ais rápido que pude. Não queria nem pensar o que ele podia estar insinuando, dava vontade de vom itar só de im aginar.

Corri pela rua a fim de pegar o ônibus para casa, ainda tinha que

m e arrum ar e ter um tem po para fazer o j antar do Lucas. Nas sextas eu sem pre fazia isso; por sair m ais cedo do escritório, dava tem po. Mas acabei m e atrasando um pouco, então tinha que m e apressar.

Quando cheguei ao ponto, m eu ônibus j á estava parado, entrei

rapidam ente e paguei a passagem . Estava um pouco cheio, m as tinha um lugar vago ao lado de um a senhora sim pática. Sentei ao seu lado sorrindo e pedi licença. Ela m e olhou intensam ente.

— Você teve um a vida difícil, m enina. Deixou tudo o que queria

para cuidar de alguém que am a, sua recom pensa está chegando, um am or inesperado surgirá. Você terá um a escolha a fazer novam ente: confiar ou perder. — A senhora tinha os olhos vidrados e, por um m om ento, ficou m e observando. Logo em seguida, piscou e sorriu, olhando para o outro lado.

Arregalei os olhos e engoli em seco, eu não era de acreditar em

coisas assim . Mas com o um a m ulher que nunca tinha visto na vida podia saber o que passei com m eu irm ão?

Fiquei sem m e m over o resto do cam inho. Nem quis olhar para o

lado, estava m uito assustada. Dei sinal e desci, a senhora olhava para m im da j anela com um a expressão de pena em seu rosto.

Balancei a cabeça, tentando tirar esses pensam entos da m inha

m ente. Entrei em casa e estava tudo em silêncio, a sala era pequena, tinha um sofá de três lugares e TV com um . O que m ais encontrava ali eram os livros do Lucas. Fui direto para a cozinha, que era espaçosa, tinha arm ário, fogão e geladeira. Nosso sonho de consum o era um m icro-ondas, m as não podíam os nos dar esse luxo, pois tínham os m uitas coisas para pagar.

Preparei um espaguete rápido para dar tem po de m e produzir. O

bar sem pre lotava as sextas, ia gente de todas as idades, e eu fazia questão de estar bem apresentável.

Tom ei um banho relaxante e escolhi m inha roupa de “estrela”.

Um vestido preto sem alças rendado, que ia até o m eio da coxa, salto alto para dar um ar m ais fem inino, apesar de preferir um a bela rasteirinha. Às vezes era preciso usar saltos; tendo 1,60m de altura, não podia m e dar ao luxo de recusar dez centím etros a m ais.

Olhei o m eu reflexo no espelho, e tinha que adm itir que eu era

bonita. Meus cabelos tinham um volum e incrível, estava realm ente com um j eito de m ulher fatal, que era longe da realidade. Não havia nada de fatal em m im , a não ser se você contasse com o salto agulha da m inha sandália.

Maquiagem feita, fui a cam inho do bar com um frio na barriga

por causa da possibilidade de ver o Bruno novam ente. Droga, j á estava anim ada com a perspectiva. Não podia negar o quão sensual o hom em era, m exeu com igo de um a m aneira fascinante.

Os olhos azuis m aliciosos estavam gravados em m inha m em ória e

m e sentia tão entusiasm ada, com o nunca tinha sido. Às vezes é bom dar um a chance para o desconhecido. Não que fosse ser fácil pra ele.

Sorri, e cam inhei pela porta do bar, estava m e sentindo sexy. Era

só esperar pra ver se iria aparecer o “garanhão” que sacudiu m inhas convicções. Brincar de gato e rato seria divertido.