Inspiração
Capítulo 3
Layla
A noite de quinta foi bem tum ultuada. Minha apresentação foi boa
com o sem pre, m as tinha algum a coisa, que não conseguia identificar, faltando. Meus olhos vagaram por todo o bar à procura de alguém . E com o não o encontrei, fiquei com um hum or do cão.
Não que eu fosse adm itir que a culpa era dele, aquele convencido.
Nunca fiquei tão indignada e excitada na m inha vida. Confesso que ser arrebatada daquela m aneira m exeu com igo. Fazia m uito tem po que não sentia o toque de um hom em que m e desej ava, aquele beij o roubado m e deixou alucinada. Por m ais louco que pudesse ser, eu queria m ais.
Atravessei a cidade, louca para pegar o Lucas em casa, pois
m orria de saudade das nossas conversas. Andávam os tão atarefados que acabam os perdendo um pouco o contato. Nossa casa era m odesta, m as confortável. Graças à m am ãe, não precisávam os pagar aluguel. Morávam os num bairro sim ples da cidade, porém acolhedor.
Passei por m eus vizinhos com um sorriso no rosto, eram boas
pessoas. Já era tarde, m as estava quente e eles sem pre ficavam nos portões de suas casas, olhando o tem po passar. Eles m e aj udaram bastante quando era m ais nova e tive que virar m ãe de um adolescente. Não que Lucas tenha m e dado trabalho, m as não foi nada fácil.
Abri a porta de casa à procura do m eu irm ão. A sala estava
arrum ada e cheirosa, ele sem pre m e aj udava nessa parte. Nunca foi um m enino bagunceiro, eu ficava até preocupada por não ser um garoto com atitudes norm ais para a sua idade. Mas sei que nós am adurecem os m uito cedo, era de se esperar que fôssem os diferentes.
Fui até a copa, e senti um aperto no coração; Lucas estava com a
cabeça deitada em cim a de um m onte de livros. Era sem pre assim : se acabava de tanto estudar e dorm ia em qualquer lugar. Coitadinho, devia estar m orto, o quanto estava se esforçando por essa faculdade não era brincadeira. Apesar de ele ser um hom em , ainda o enxergava com o o m eu irm ãozinho gordinho que pedia colo quando tinha saudade do nosso pai.
Cheguei ao seu lado e lhe acariciei o rosto. Era m uito engraçado
ver com o cresceu e am adureceu. Ele estava com a barba de uns dois dias por fazer e tinha círculos de cansaço em volta dos olhos. Ainda m e sentia culpada por deixá-lo sozinho, m as era o único m eio de conseguir pagar sua faculdade de m edicina.
— Luquinha, vai pra cam a. — Sacudi seus om bros levem ente.
Sem pre fui m uito paciente com ele, acho que para com pensar a falta dos nossos pais. Sentia-m e na obrigação de tratá-lo da m elhor m aneira possível. — Você está todo am assado aí, am anhã estuda m ais.
Ele abriu os lindos olhos verdes e sorriu sonolento.
— Que horas são, Lala? — Não deixava aquele apelido de lado.
— Já passa da m eia-noite, am anhã você tem aula cedo. Vai
dorm ir que eu arrum o seus livros.
Lucas estava bem m ais alto do que eu, era estranho porque, com o
a irm ã m ais velha, sem pre m e surpreendia com seu tam anho. Ele m e abraçou carinhosam ente e m e deu um beij o no topo da cabeça.
— Boa noite, Lala.
Ele estava quase na porta do quarto quando deu m eia volta e se
virou para m im .
— Podíam os m arcar de sair no dom ingo, o que você acha? Faz
tem po que não fazem os nada assim .
Meu irm ão sentia tanto a m inha falta quanto eu sentia a dele.
— Claro, pode ser à tarde, e depois você vai ao bar com igo. —
Sorri entusiasm ada.
— Beleza, com binado.
Entrou em seu quarto e fechou a porta levem ente. Lucas era tão
diferente dos outros garotos da sua idade, sem pre tão educado e am oroso... Era até estranho não ter nam orada. Estava tão focado nos estudos que não devia ter tem po para pensar nisso.
Arrum ei seus livros em um a pilha. Nossa, quanta coisa para
estudar! Eu não podia nem im aginar o que seria decorar e aprender todos aqueles term os m édicos. Não fiz nenhum a faculdade, tive que parar a m inha vida para cuidar de um m enino de onze anos que tinha acabado de perder a m ãe.
Na verdade, anulei-m e com pletam ente. A única coisa que
continuava a fazer era tocar e cantar. Contudo, aprendi um a coisa aos trancos e barrancos: não adiantava ficar m e lam entando pelo que poderia ter sido. Meu irm ão precisava de m im , e não faria de outra m aneira. O negócio era seguir em frente. Nada de ficar rem oendo o passado, im aginando com o poderia ter sido se o papai não tivesse m orrido naquele acidente de carro.
Nem percebi que tinha lágrim as escorrendo pelo m eu rosto. Era
im possível não m e em ocionar, m eus pais eram pessoas tão boas, não m ereciam o fim que tiveram .
Respirei fundo e fui para a cam a. Meu coração estava pesado, por
causa de toda a em oção que se encontrava reprim ida dentro de m im .
***
O escritório de advocacia estava um a baderna, era im pressionante
a capacidade das pessoas quererem processar os outros por m otivos ínfim os. Ainda m ais num a sexta-feira.
Meu chefe, o Dr. André Silva, estava com um a carranca
trem enda. Norm alm ente era um hom em calm o — apesar de ser indiscreto às vezes —, m as, devido aos chatos que passavam por sua m esa, devia estar tendo um dia infernal. Levei seu café quando um dos clientes saiu da sua sala. Ele estava com dois dedos apertando a têm pora. Parecia m uito cansado.
— Com licença, doutor. Seu café.
Ele olhou por cim a de um a m ontanha de processos e suspirou
aliviado.
— Obrigado, Lay la. Só esse café para m e aliviar, está sendo um
dia estressante.
— Não há de quê. — Eu j á ia saindo quando ele levantou a m ão,
parando-m e.
— Só um m inuto, querida. — Pegou um bolo de papel em cim a da
m esa e estendeu na m inha direção. — Preciso que você exam ine esses processos e separe os que são m ais im portantes, m as quero que leia todos atentam ente, para não haver nenhum engano.
Aquiesci e estendi a m ão, im aginando ter visto um olhar estranho
nele. Doutor André m e avaliava de um m odo diferente. Tinha um brilho em seus olhos que m e deixou desconfortável. Só podia ser m inha im aginação, pois o m eu chefe era uns quarenta anos m ais velho do que eu. Dei m eia volta e saí de seu escritório antes que pudesse acontecer algum a coisa que m e fizesse largar o em prego. Não podia m e dar esse luxo.
Caram ba, com o tinha papel em m inhas m ãos! Era processo de
m au atendim ento de telefonia de celular, m au funcionam ento de m áquina de lavar, troco errado na padaria. Nossa, quanta gente insatisfeita! Porém , tam bém tinha assuntos sérios.
Depois de analisar toda aquela m ontanha, entreguei-a ao doutor e
fui arrum ar as m inhas coisas, tinha m uito que fazer em casa antes de ir ao bar. Já estava saindo quando fui parada por um a m ão enrugada.
— Lay la, acho que vou dar um a passada no Beer para te ver
cantar. — Passou o olhar vidrado de cim a a baixo no m eu corpo, e esfregou o polegar em m eu braço.
Franzi a testa e m e desvencilhei.
— Tudo bem , doutor. Te vej o por lá, com licença.
Saí o m ais rápido que pude. Não queria nem pensar o que ele podia estar insinuando, dava vontade de vom itar só de im aginar.
Corri pela rua a fim de pegar o ônibus para casa, ainda tinha que
m e arrum ar e ter um tem po para fazer o j antar do Lucas. Nas sextas eu sem pre fazia isso; por sair m ais cedo do escritório, dava tem po. Mas acabei m e atrasando um pouco, então tinha que m e apressar.
Quando cheguei ao ponto, m eu ônibus j á estava parado, entrei
rapidam ente e paguei a passagem . Estava um pouco cheio, m as tinha um lugar vago ao lado de um a senhora sim pática. Sentei ao seu lado sorrindo e pedi licença. Ela m e olhou intensam ente.
— Você teve um a vida difícil, m enina. Deixou tudo o que queria
para cuidar de alguém que am a, sua recom pensa está chegando, um am or inesperado surgirá. Você terá um a escolha a fazer novam ente: confiar ou perder. — A senhora tinha os olhos vidrados e, por um m om ento, ficou m e observando. Logo em seguida, piscou e sorriu, olhando para o outro lado.
Arregalei os olhos e engoli em seco, eu não era de acreditar em
coisas assim . Mas com o um a m ulher que nunca tinha visto na vida podia saber o que passei com m eu irm ão?
Fiquei sem m e m over o resto do cam inho. Nem quis olhar para o
lado, estava m uito assustada. Dei sinal e desci, a senhora olhava para m im da j anela com um a expressão de pena em seu rosto.
Balancei a cabeça, tentando tirar esses pensam entos da m inha
m ente. Entrei em casa e estava tudo em silêncio, a sala era pequena, tinha um sofá de três lugares e TV com um . O que m ais encontrava ali eram os livros do Lucas. Fui direto para a cozinha, que era espaçosa, tinha arm ário, fogão e geladeira. Nosso sonho de consum o era um m icro-ondas, m as não podíam os nos dar esse luxo, pois tínham os m uitas coisas para pagar.
Preparei um espaguete rápido para dar tem po de m e produzir. O
bar sem pre lotava as sextas, ia gente de todas as idades, e eu fazia questão de estar bem apresentável.
Tom ei um banho relaxante e escolhi m inha roupa de “estrela”.
Um vestido preto sem alças rendado, que ia até o m eio da coxa, salto alto para dar um ar m ais fem inino, apesar de preferir um a bela rasteirinha. Às vezes era preciso usar saltos; tendo 1,60m de altura, não podia m e dar ao luxo de recusar dez centím etros a m ais.
Olhei o m eu reflexo no espelho, e tinha que adm itir que eu era
bonita. Meus cabelos tinham um volum e incrível, estava realm ente com um j eito de m ulher fatal, que era longe da realidade. Não havia nada de fatal em m im , a não ser se você contasse com o salto agulha da m inha sandália.
Maquiagem feita, fui a cam inho do bar com um frio na barriga
por causa da possibilidade de ver o Bruno novam ente. Droga, j á estava anim ada com a perspectiva. Não podia negar o quão sensual o hom em era, m exeu com igo de um a m aneira fascinante.
Os olhos azuis m aliciosos estavam gravados em m inha m em ória e
m e sentia tão entusiasm ada, com o nunca tinha sido. Às vezes é bom dar um a chance para o desconhecido. Não que fosse ser fácil pra ele.
Sorri, e cam inhei pela porta do bar, estava m e sentindo sexy. Era
só esperar pra ver se iria aparecer o “garanhão” que sacudiu m inhas convicções. Brincar de gato e rato seria divertido.