Primeiro e Único

Emily Giffin · Capítulo 7 de 46

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Primeiro e Único

Sete

 

Alguns dias depois, o Walker disputou o cam peonato anual dos j ogos de prim avera, o que era a nossa décim a quinta e últim a participação no treino dos j ogos de prim avera do cam peonato de NCAA. Mais de 30 m il fãs com pareceram para assistir à gloriosa partida, transm itida pela ESPN2, que m ostrou a prim eira “espiadinha” do nosso tim e, exceto os j ogadores novos. Tecnicam ente, eu estava trabalhando, fazendo as m inhas rondas com o sem pre fazia, entre a cabine de im prensa e a lateral do cam po, garantindo que tudo funcionasse perfeitam ente bem . Mas, com o o j ogo não valia pontos, a partida foi m ais um a brincadeira do que um j ogo em si, um a dem onstração do talento da defesa e do ataque de am bas as equipes. Nosso tim e estava bem , m ais solto e rápido em com paração com o j ogo que eu tinha visto em m arço — um sentim ento que ouvi parafraseado atrás de m im em dialeto texano, com o se fosse um prolongam ento sutil das vogais. Im ediatam ente, reconheci o sotaque e a voz, e, m esm o sem olhar para trás, sabia que era Ry an Jam es, o m enino dos olhos de ouro do Walker. Sua voz era com pletam ente diferente de qualquer outra, m esm o que eu tenha a ouvido no dia anterior, conversando sobre a próxim a tem porada de j ogos dos Cowboy s, que estava se aproxim ando.

— Vocês rapazes, precisam virar o j ogo — exclam ou ele em voz alta. — Vam os lá, caras.

— Ei, Ry an — cham ei, quando ele deu dois passos à frente e ficou em parelhado com igo, observando a drive, que é um a com binação de várias j ogadas do tim e que está no ataque.

— Ei, Rigsby ! — respondeu. Ele cruzou os braços enquanto assistíam os à prim eira j ogada. Segunda, terceira, m as Mark Everclear, nosso quarterback, ficou olhando para o primary receiver por m uito tem po e levou um sack.

— Droga! — esbravej ei, feliz ao ver que os nossos linebackers pareciam bem , m as frustrados pela hesitação de Mark.

— O Phil Medlin abriu muuuuuito — reclam ou Ry an, lendo os m eus pensam entos. Fiquei im pressionada ao ver que ele conhecia o nosso plantel tão bem , e em ocionada por saber que ele priorizou a nossa equipe, voltando para Walker para os j ogos de prim avera.

— Você teria derrubado ele com os olhos fechados — afirm ei.

Ele fez um a expressão de m odéstia, com o se quisesse dizer: “talvez sim , talvez não”, enquanto eu furtivam ente o olhei dos pés à cabeça. Sem pre m uito bem vestido, Ry an parecia especialm ente elegante esta noite, com um paletó esporte azul-m arinho, cam iseta polo branca, calça j eans de lavagem escura e m ocassim m arrom de cam urça. Com o era herdeiro de um a fam ília que atuava no ram o do petróleo em Midland, Ry an sem pre cheirava a dinheiro e tinha bom gosto, m esm o antes de se tornar profissional e com eçar a faturar os seus próprios m ilhões. George Bush, tanto o pai quanto o filho, com pareceram à grandiosa cerim ônia de seu casam ento com sua, agora, ex-esposa, Blakeslee Meadown, um a socialite belíssim a de Houston que, segundo m uitos dizem por aí, pediu transferência da SMU para a Walker para que pudesse se casar com Ry an. Seu plano funcionara, e os dois ficaram noivos alguns dias depois que ele foi selecionado logo na first pick do draft (um sistem a de escolhas de j ogadores, transm itido pela TV, no qual eles podem até ser transferidos de tim e). Lucy foi ao casam ento com os pais, e disse que nunca tinha visto um a cerim ônia com o aquela — a fazenda da fam ília Blakeslee cheia de seguranças, fam osos e pessoas com uns, que de tão bonitas pareciam celebridades.

Não fui convidada, o que não m e m agoou, m as m e surpreendeu um pouco, não porque Ry an e eu fôssem os tão próxim os assim na faculdade, m as porque pensei que fôssem os am igos o bastante para que eu não fosse deixada de fora da lista de novecentos convidados. Lucy recom endou que eu visse aquilo com o um elogio, que Blakeslee deveria m e ver com o um a concorrente. Rebati a conclusão dela, considerando aquilo um absurdo. Pode ser que eu tenha certos atributos que alguns caras apreciam , m as eu não era com o Blakeslee, isso com toda a certeza, e Ry an era areia dem ais pro m eu cam inhãozinho, o m elhor hom em de todos no campus na época em que estudam os j untos e, agora, um a estrela do NFL (Liga Nacional de Futebol Am ericano). Um peixe grande num a lagoa enorm e. Eu tinha até ouvido boatos num tabloide de que Giselle tinha flertado com ele num a festa no Havaí, no ano passado, durante o Pro Bowl, o que levou a um a troca de farpas entre ele e Tom Brady. Quando pensei nisso, tive certeza absoluta de que Ry an era a única pessoa do planeta que poderia irritar Tom Brady, tanto em cam po quanto fora dele. O que seria m ais um a de suas m uitas realizações.

Saí do m eio do cam inho enquanto o cinegrafista se virou para conseguir um close de Ry an para todos os telespectadores que acom panhavam o j ogo em casa. Visivelm ente acostum ado com os holofotes, ele fingiu não perceber a luz ofuscante sobre o seu rosto, e continuou conversando com igo com o se estivéssem os sozinhos.

— Que pena que não tivem os a oportunidade de conversar no funeral da Sra. Carr — lam entou ele baixinho. — Tive de sair...

Balancei a cabeça, lutando contra um a onda de tristeza que m e invadiu ao ouvir o nom e dela. Em seguida, falei:

— A propósito: ótim o j ogo aquele contra os Steelers. Não é nada fácil conseguir um a vitória no Heinz Field.

Ele sorriu.

— Você assistiu?

— Claro. E que belo scramble você conseguiu fazer bem no final...

Ry an m e olhou de um j eito engraçado:

— E aí, com o você está, Shea?

— Bem . Estou bem — respondi, pensando que, desde a faculdade, nada na m inha vida tinha realm ente m udado. — Você sabe... a m esm a coisa de...

— Continua trabalhando com J.J.? Com j ornalism o esportivo?

Ergui o m eu crachá de im prensa, balançando-o no cordão ao redor do m eu pescoço, e sorri.

— Sim .

— E com o vai o Miller? Ele vem hoj e? — perguntou ele.

— Deve estar por aí. Mas não tenho visto ele, não... Nós term inam os — contei, surpresa ao ver que Ry an nem sabia que Miller e eu estávam os j untos.

— Com o? Ah, sinto m uito... — lam entou ele, com a voz ainda m ais baixa.

— Tudo bem . As coisas só... tom aram o rum o que deveriam .

Ry an m eneou a cabeça e disse:

— Acontece.

Depois de um a estranha pausa, falei:

— Sinto m uito pelo seu divórcio.

— É. Obrigado. Pelo m enos não tivem os filhos... então, sabe com o é, term inam os num a boa.

Ele sorriu, m e deixando à vontade, enquanto eu m e lem brava da m atéria de um tabloide que eu tinha lido, contando que Blakeslee tinha conseguido a custódia de Sasha, a cachorra sheepdog deles, que tinha três anos. Os dois brigaram pela guarda dela até que Ry an finalm ente cedeu, considerando principalm ente a sua agenda de viagens. Então, um a sem ana depois que Blakeslee recebeu a guarda, Sasha com eu um cogum elo envenenado e m orreu.

Tentei pensar em algo legal para dizer, m as m e deu um branco.

— Bem , é m elhor eu voltar para a cabine de im prensa. Foi ótim o encontrar você.

— Digo o m esm o.

Quando m e virei para ir em bora, ele esticou o braço e segurou o m eu om bro.

— Você tem aí um cartão de visitas?

— Não tenho — respondi. Em bora estivesse usando um a roupa deplorável e pouquíssim o fem inina (cam iseta polo e calça cáqui), eu estava sem pochete e não havia colocado a carteira no bolso de trás da calça. Além disso, eu tinha certeza de que Ry an só estava sendo educado com um a ex-colega de classe.

— Bem , fique com isto — disse ele, pegando a carteira com várias letras G do logotipo da Gucci im pressas em relevo. Ele retirou um cartão que continha o logotipo dos Cowboy s, e o título de QUARTERBACK em letras m aiúsculas, bem abaixo do nom e dele. — Aí tem o m eu celular. Me ligue quando quiser sair para com er ou beber algum a coisa

Balancei a cabeça fazendo que sim e peguei o cartão, sentindo o rosto congelar num sorriso grande e estranho. Com certeza Ry an não estava falando sério.

— Ou quando quiser ingressos... Vam os voltar a j ogar em setem bro.

— Setem bro, ah... É quando o NFL vai recom eçar? — perguntei, com um sorriso afetado.

— Isso m esm o, acertou. Nossa, esqueci que você entende tudo m esm o de futebol am ericano — respondeu ele.

— Ele te deu o núm ero do celular? — perguntou Lucy.

Depois do j ogo, passei na casa dela para tom ar um a taça de vinho. Eram quase nove horas, m as Caroline ainda estava bem acordada, assistindo a Procurando Nemo enquanto bebericava um copo cheio de suco verm elho, do tipo que só está esperando para ser derram ado. Lucy educava Caroline de m aneira bem flexível — m uito diferente da m aneira com o ela foi criada e da m aneira com o se im aginaria que educaria um filho — o que era ao m esm o tem po surpreendente e reconfortante.

— Não foi bem assim . Não se em polgue — respondi.

— O que você quer dizer com “não foi bem assim ?” Claro que foi assim ! Ele te passou o núm ero do telefone dele!

— Ele m e deu um cartão de visitas.

— Tem o núm ero do telefone lá?

Balancei a cabeça, respondendo que sim , e dei risada.

— Então, pronto. Não faz diferença. Me deixe ver o cartão — ela pediu, fazendo um gesto com a m ão.

Eu disse que ela estava se entusiasm ando por nada, m as tirei o cartão do bolsinho lateral da bolsa.

Lucy o exam inou e depois cham ou Neil.

— Querido! Venha aqui nos dar um a aj udinha!

Neil parou de colocar a louça na m áquina de lavar e Lucy lhe m ostrou o cartão, contando o que aconteceu.

— Agora m e diga: você não acha que ele está interessado nela? O que m ais explica isso? — inquiriu ela.

Neil analisou o cartão e pareceu im pressionado.

— Eu diria que ele está interessado — opinou ele, olhando para m im .

— Eu diria que você só está concordando com a sua esposa porque sabe que precisa fazer isso — retruquei.

Lucy ignorou o que falei:

— Você precisa ligar para ele.

— Ah, fala sério, Lucy. Ele pode sair com a m ulher que quiser. Modelos. Atrizes. Qualquer um a — rebati.

— Ele estava com a Blakeslee, e agora quer algo diferente — ela argum entou.

— Você quer dizer um a m ulher m aiorzinha? — questionei. Não sou m uito o tipo que fica encanada com o peso, m as definitivam ente sou m ais encorpada que Blakeslee.

— Cai na real! Ele quer um a m ulher norm al agora. Quer você.

Dei risada e refutei:

— Ele não m e quer. Só gosta de m im com o am iga. Além disso, m esm o que ele estivesse interessado, não posso sair com um colega de tim e do Miller.

— E por que não? — exclam ou ela ao pegar o cartão de volta das m ãos de Neil.

— Porque... é um código.

— Não é o seu código. É um código dos caras. E Ry an dem onstrou que não está nem aí com esse tal código quando te entregou isto.

Lucy observou o cartão m ais um pouco e depois m e devolveu.

— É m elhor você ligar para ele.

Disparei um a últim a obj eção:

— Achei que você não m e quisesse saindo com j ogadores de futebol am ericano. E eu vou ficar passando de m ão em m ão feito um a... tiete.

— Existem j ogadores de futebol am ericano — com eçou ela, fazendo um a careta — e existe o Ry an Jam es. Senhor, até eu sentiria invej a se você ficasse com ele. — Ela olhou para Neil. — Sem ofensas, querido.

— Ah, não m e ofendo nem um pouco. Até eu sentiria invej a dela — brincou ele.

— Você dois são patéticos — falei, m as, sem nenhum a pretensão e apenas para divertir Lucy, peguei o celular e digitei um a m ensagem de texto: Foi bom te encontrar hoje. Adoraria sair para comermos alguma coisa. Aguardo sua resposta. Shea.

— Aí está — falei, segurando o m eu celular e m ostrando a Lucy a m ensagem enviada. — Satisfeita agora?

— Sim . Mas vou ficar m ais satisfeita ainda quando você tiver acesso ao avião particular e à casa dele em Cabo.

— Rá! Continue sonhando.

No dia seguinte, recebi a resposta de Ry an, que ele enviou às seis da m anhã: Tenho um compromisso numa instituição de caridade na sexta. Preciso de uma “acompanhante gostosa”. Está dentro?

Devo ter lido a m ensagem um as seis vezes, procurando por um tom de “apenas am igos”, só para m e proteger de um a possível decepção, e concluí que ele só poderia estar brincando na parte do “acom panhante gostosa”, porque, se ele realmente m e visse com o um a acom panhante gostosa, não m e chamaria assim ; sim plesm ente guardaria pra ele. Ainda assim , fatos são fatos. Estivesse eu ou não na categoria das “gostosas”, ele tinha um com prom isso ao qual deveria com parecer e eu estava sendo convidada para acom panhá-lo — e é claro que aceitaria o convite, dessa vez sem precisar de nenhum em purrãozinho de Lucy. Então respondi a m ensagem de texto: Estou dentro.

Alguns segundos depois, ele m e ligou, dizendo:

— É disso que eu gosto em você.

Posso até vê-lo falando no viva-voz, usando óculos Ray -Ban, dentro do seu carro esportivo luxuoso, dirigindo com apenas um a das m ãos apoiada sobre a direção, com o teto solar aberto.

— O que isso quer dizer? Que sou um a m ulher fácil? — questionei, rindo.

— Bem , para ser sincero, sim . Digo... Não naquele sentido. Só quero dizer que você é um a pessoa de fácil relacionam ento. Você nunca tem aquelas neuroses fem ininas, não é?

— Depende do que você cham e de neurose fem inina — respondi, pensando no guardanapo todo rabiscado do treinador Carr que resgatei do lixo depois de um a reunião do pessoal do departam ento de esportes, ano passado. Isso provavelm ente se enquadraria num a neurose, especialm ente se consideram os que o guardanapo estava bem próxim o à m etade de um donut m ordido, que por acaso tam bém pertencia ao treinador. Pelo m enos não com i o resto do doce.

— Você não esperou três dias para responder. Não perguntou todos os detalhes antes de aceitar o convite. Não saiu correndo para garantir um horário no cabeleireiro, nem na clínica de beleza, para um a sessão de bronzeam ento. Não m e fez perguntas exaustivas sobre o que teria de vestir. Você só disse: “sim ” — esclareceu Ry an.

Sorri, pensando que talvez Lucy estivesse certa. Talvez Ry an estivesse procurando (com um nível de exigência baixo) um a “antiBlakeslee”. E, sendo esse o caso, ele havia encontrado a garota certa (em bora eu tenha criado m entalm ente um lem brete para agendar cabeleireiro e bronzeam ento, j á que era evidente que ele estava acostum ado com isso).

— Bem , j á que você tocou no assunto... Pode m e dizer quais são os detalhes? — Eu havia doado para um brechó o m eu único vestido apropriado para a ocasião porque achei que nunca iria usá-lo e porque Lucy havia m e dito que ele era curto dem ais, que os m eus sapatos só deveriam aparecer quando eu m e m ovim entasse, não enquanto estivesse de pé. — Devo usar traj e social com pleto?

— Não. Só esporte fino. Na verdade, no convite diz “Business Casual”, acho. É um evento em prol do autism o. Um a das m inhas causas. Mas eu não vou precisar fazer absolutam ente nada. Só aparecer por um a hora ou duas. Com um a m ulher deslum brante ao m eu lado, segurando no m eu braço.

Eu tinha certeza de que ele não teve a intenção de dizer que eu era deslum brante, do m esm o m odo que não m e cham ou de “gostosa” propositalm ente, m as, ainda assim , não consegui m e conter e abri um sorriso bobo, m e sentindo grata porque ele não estava ali e assim não poderia m e ver.

— Deslum brante, hein? Que tarefa difícil. — Girei o corpo, sentada na m inha cadeira do escritório, para olhar para a única j anela que havia ali e que tinha um a vista perfeita e m aravilhosam ente sim étrica das plantações de m agnólia que j á tinham florescido por com pleto.

— Não é um a tarefa difícil em se tratando de você. Eu te vi na lateral do cam po, estava ótim a naquele uniform e do Walker, e sem fazer o m enor esforço — afirm ou Ry an quando ouvi ao fundo o barulho da seta, o que confirm ou que ele realm ente estava no carro. — Nunca vi um a m ulher ficar tão bem assim num a calça cáqui.

Sorri, pelo nervosism o e por um pouquinho de em polgação. Será que isso estava m esm o acontecendo? Eu estava m esm o prestes a ter um encontro com um quarterback fam oso, um a estrela do futebol am ericano, conhecido até por quem não era fã de futebol? Fiz questão de lem brar a m im m esm a de que ele era apenas Ry an Jam es, um am igo antigo, que por acaso se tornou j ogador do Dallas Cowboy s — o que eu tinha certeza que m e aj udaria m uito pouco.

— Bom , então está com binado. Traj e business casual. Vou usar a m inha calça cáqui que visto nos dias de j ogo — falei.

— Você pode vestir aquilo que o seu coração desej ar — disse Ry an, desativando o m odo viva-voz do telefone. Ele dim inuiu a voz, e falou num tom baixo e suave, com o se estivesse sussurrando no m eu ouvido: — Mas sem pre fui m uito fã do seu om bro...

Parei no m eio do cam inho, com um a lem brança súbita e distante do nosso penúltim o ano de faculdade. Ry an e eu estávam os em algum a festa do pessoal da república. Eu estava com um a regatinha branca para acentuar o m eu bronzeado (na época em que eu realm ente ficava estirada num a câm ara de bronzeam ento, tam bém conhecida com o câm ara de câncer) e dançando Brown eyed girl quando ele se aproxim ou e disse:

— Alguém algum a vez j á te falou que você tem um om bro m uito sexy ?

Eu não sabia exatam ente onde ficava a clavícula, até que ele passou os dedos por ela e disse:

— Tem caras que gostam de bunda... outros gostam de pernas, outros de seios. Mas isso... é o m eu ponto fraco.

Ry an deixou o dedo parado lá, tem po o suficiente para que três am igas m inhas, incluindo Lucy, que estava fazendo um a visita à nossa universidade, m e questionassem depois sobre o incidente. Eu disse a elas que não tinha sido nada. Eu sabia que não tinha sido nada. Nada além de um a troca de fraternidade com um dos m aiores j ogadores num a festa no campus onde houve m uita bebedeira. E, quando digo jogador, não estou m e referindo ao cam po.

— Sim , acho que você com entou com igo um a vez. Muito tem po atrás — falei.

— Eu adoraria relem brar aquilo.

— Bom , então... vou ver o que posso fazer por você — com entei, sorrindo ao telefone.

Naquela noite, m inha m ãe preparou o j antar para m im , um a refeição à francesa, servida na sala de j antar, à luz de velas e com guardanapos brancos de pano. Mas a form alidade do j antar não a im pediu de pular da cadeira e gritar quando lhe contei sobre Ry an, um a contradição que era tão típica da m inha m ãe. No fundo, ela era o tipo de m ulher que j antava assistindo à TV, m as lutava contra suas raízes caipiras, e fazia tudo o que pudesse para se afastar da educação classe m édia baixa que recebera em Odessa. Sem que ela soubesse, e antes de a Sra. Carr ficar doente, eu cham ava isso de efeito Connie, brincando com Lucy ao dizer que a m inha m ãe havia passado sua vida adulta inteira tentando esconder sua luz e cafonice interior para se parecer com sua am iga da classe alta. De fato, não sei com o a Sra. Carr suportou todo esse com portam ento de im itação, m as tenho certeza que tinha algo a ver com o fato de a sua própria m ãe perfeita incutir nela a crença benevolente de que o m odo de um a pessoa im itá-la era a dem onstração m ais sincera de lisonj a.

Em outras palavras, m inha m ãe tinha m esm o copiado Connie Carr todos os dias, especialm ente em se tratando da questão do gosto. Quando a Sra. Carr trocou o carro prata por um branco, m inha m ãe fez o m esm o (em bora ela tenha dito, certa vez, que j am ais teria um carro branco). Quando a Sra. Carr decidiu cortar o cabelo na altura do queixo e em cam adas, em certo verão, m inha m ãe fez o m esm o corte. E assim por diante. A Sra. Carr era a m elhor am iga da m inha m ãe, com o tam bém sua conselheira e o barôm etro de todas as suas decisões, tanto as pequenas quanto as grandes, e perdê-la, posso ver agora, causou um efeito devastador e desorientador na vida dela. Minha m ãe não conseguia com preender por que Connie teve de fato de ficar com a pior parte, e isso representava um a grande fonte de culpa para ela. Em penhar-se ainda m ais pela perfeição, no estilo Connie Carr de ser, parecia um a m aneira de lam entar o fato de ser a sobrevivente, e, com o sem pre, m inha m ãe não poderia m e deixar de fora do seu obj etivo. Desse m odo, Ry an Jam es seria o bálsam o final. Se eu conseguisse agarrá-lo — ou até m esm o nam orá-lo por um m inuto, pelo m enos —, haveria algum tipo de prova concreta de que ela havia m e educado do j eito certo, de que tinha sido um a boa m ãe, superado as suas raízes de operária.

A vida inteira m inha m ãe se esforçou para descartar e resistir aos defeitos de sua fam ília, a com eçar pela sua própria adm issão na Walker com um a bolsa integral (em bora concedida pela baixa renda), depois ao fazer am izade com Connie, agarrar o m eu pai (o dinheiro de um Yankee seria m elhor do que ficar sem dinheiro), se associar a todos os clubes apropriados e, o m ais im portante, criar relações estreitas entre a nossa fam ília e os Carr. Realm ente não havia nada m ais que ela pudesse fazer para colocar no seu patam ar de sucesso e status. Ainda assim , eu conseguia contrariá-la de vez em quando, o que com eçou quando eu era m enina e ela m e m atriculou num a escola de equitação, m as logo descobriu que eu tinha um a alergia severa a cavalos. As coisas com eçaram a ir por água abaixo a partir daí. Fracassei no balé. Recusei-m e a ser líder de torcida. Passava m uito tem po m e distraindo com o futebol am ericano. Não era m uito de roupas nem de m aquiagem , nem ligava m uito para todas essas coisas que as m eninas do Texas são educadas para aprenderem a gostar. Não entrei para o Waldem ar, um acam pam ento particular no qual as m eninas podem ficar sem a presença dos pais, e cuj o processo de adm issão era m ais rigoroso que Harvard, nem entrei para a Hockaday School, um colégio interno luxuoso em Dallas para o qual todas as “m elhores” garotas iam (a única exceção notável foi Lucy, porque o treinador Carr não era adepto à ideia de m andar os filhos estudarem fora). Participei da corte do baile, m as não com pareci às festividades do encontro regional.

Talvez a pior decepção da vida da m inha m ãe, pelo m enos desde que seu casam ento acabou, foi quando eu não fui convidada para ser a debutante. Foi um tiro no escuro, j á que essas coisas são passadas de geração para geração, m as, por causa da diligência da m inha m ãe, e por nossa afinidade com os Carr, eu ainda tinha um a chance — até que com ecei a nam orar Gregory Hobbs, m eu colega de classe do últim o ano do ensino m édio, e acabei com todos os seus esforços de um a vez só. Não havia problem a que Gregory fizesse parte da National Honor Society ou que o seu pai fosse professor de Econom ia na Walker ou que o nosso nam oro fosse inocente e que durasse pouco tem po. O que realm ente im portava era que Gregory era um am ericano-africano e, adm itissem ou não, nam oros inter-raciais não eram exatam ente o cam inho m ais rápido para chegar ao topo da sociedade texana. Minha m ãe tinha tolerância zero para o racism o e com certeza j am ais m inou a m inha am izade com Gregory, m as posso dizer que o sonho de ser debutante m orreu depois disso, e que as am bições sociais sobre m im dim inuíram um pouco.

Quando a Sra. Carr e Lucy com eçaram todo o processo tedioso para o baile de debutante, as feridas da m inha m ãe logo foram reabertas, e, para ser sincera, eu senti por ela. Mas eu lhe assegurei que foi m elhor assim . Eu não estava nem um pouco interessada em m e em bonecar toda para descer por um corredor usando luvas brancas ridículas e um vestido de princesa, ainda m ais para um bando de elitistas. Tam pouco estava a fim de ficar de j oelhos para fazer aquela reverência ridícula de “cisne” para os m eninos que eu via arrotando e falando palavrões no refeitório. Toda aquela coisa era um a piada m isógina, e falei para a m inha m ãe que, se eu aparecesse naquele leilão, perderia todos os m eus direitos de m e tornar um a m ulher forte e independente. Ela não tinha m e educado de um j eito m elhor que aquele?

Com um a pitada de fem inism o em algum lugar da sua corrente sanguínea, ela não discordou totalm ente, m as tam bém foi realista e m e advertiu que eu nunca m e casaria com um hom em de “boa” fam ília se não aprendesse com o funciona o j ogo — ou pelo m enos fingisse ser um a dam a do Sul. Ela estava certa, claro. Mas, com o eu nunca j oguei o j ogo, nunca m e tornei um a dam a do Sul, nunca tive contato direto com os sangue azul do Texas (o tipo de cara que se levanta quando um a m ulher chega à m esa, tira o chapéu no m om ento certo, faz você parecer linda quando rodopia o seu corpo na pista de dança e tem pilhas de dinheiro). Assim , eu acabava com caras com o Miller, que quebravam todas as regras e, nas palavras da m inha m ãe, calçavam botas em todas as ocasiões erradas, ou sej a, nos casam entos (não precisa ser um a Sra. Carr ou um Garth Brooks para saber que não se deve usar botas em ocasiões form ais).

Mas agora, aparentem ente do nada, m inha m ãe com eçava a se anim ar de novo. Aconselhei que ela não alim entasse esperanças.

— Ninguém está cortej ando ninguém . E eu não estou sendo cortej ada. Ele não é m eu adm irador e nem eu sua adm iradora — adverti, lançando todo term o retrógrado e antiquado do qual consegui m e recordar.

Apesar do que pensava consigo m esm a, ela sorriu e foi para a direção oposta.

— Então, o que acha que ele vê em você?

— Só Deus sabe — falei, unindo a palm a das m ãos num gesto de oração e olhando para o teto.

Minha m ãe ignorou o sarcasm o e m e perguntou:

— Você acha que é por causa de todo esse conhecim ento que você tem sobre futebol am ericano? Será que finalm ente você está recebendo a recom pensa?

Diferentem ente da m inha verdadeira devoção ao futebol am ericano, o am or que a m inha m ãe sentia pelo tim e da Walker era superficial, pura em polgação. Ela ia a todos os j ogos que aconteciam em casa, confraternizava no estacionam ento antes de com eçar a partida com seus fam osos ovos cozidos e a costela de porco ao m olho barbecue, m as, depois que atravessava os portões, a socialização não tinha m ais fim . Ela passava m ais tem po ocupada, tagarelando, dizendo que simplesmente morreria se o Walker perdesse, do que de fato assistindo ao j ogo.

— Sim , finalm ente chegou a m inha recom pensa! — exclam ei, decidindo que não valeria a pena cham á-la para a briga diante de outra dem onstração de sexism o. Era dessa m esm a form a que eu tinha de segurar a m inha língua sem pre que ouvia as pessoas (e as m ulheres eram , sem dúvida, as piores ofensoras) insinuarem que Erin Andrews e Sam antha Ponder não agregavam valor nenhum para a transm issão dos j ogos de futebol am ericano, alegando que as duas não passavam de m ero colírio para os olhos na lateral do cam po.

— Só pode ser isso — disse m inha m ãe, aparentando estar satisfeita com a sua própria teoria.

— Sim ! Aquele m onte de inform ação inútil sobre futebol am ericano! Rendeu algum fruto, até que enfim ! — exclam ei, pegando a cesta de pão.

— Nada de carboidrato — interveio m inha m ãe, arrancando o pão francês da m inha m ão, que era o m esm o que colocar o dedo na ferida que carrego desde a infância. Quando eu era m enina, se com esse pão dem ais, ou açúcar dem ais, ou ainda (Deus m e livre!) batata frita, m inha m ãe m e fazia ir até o quintal praticar calistenia até que conseguisse “elim inar” tudo. Foi um a m aravilha, porque eu nunca desenvolvi nenhum transtorno alim entar.

Fiz um a careta para ela, pensando que, se Ry an tivesse de gostar de m im , ele gostaria de qualquer jeito. Então, peguei o pão francês, passei m anteiga e lhe dei um a bela e suculenta m ordida.