Primeiro e Único

Emily Giffin · Capítulo 10 de 46

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Primeiro e Único

Dez

 

Depois de um fim de sem ana inteiro pensando, rem oendo e m e odiando por ter bebido e sido tão im prudente, a prim eira coisa que fiz na segunda-feira, logo de m anhã, foi seguir. Aliviada por encontrar a Sra. Heflin fora de sua m esa, respirei fundo e bati à porta dele.

— Entre! — A voz ressoou.

Em agonia, m e forcei a abrir a porta e olhar dentro dos olhos dele, e logo percebi que com binavam perfeitam ente com a cam iseta polo azul-clara que ele vestia.

— Oi — cum prim entei, desej ando ter trazido algum a coisa para segurar. Um caderno, um a pasta, qualquer coisa. — Bom dia.

— Olá — respondeu ele, sorrindo. — Com o está, Shea?

— Bem . E o senhor?

— Nada m al — declarou, gesticulando para que saísse da porta e entrasse.

— Tem certeza de que é... um bom m om ento? — questionei, praticam ente desej ando que ele dissesse não.

Em vez disso, o treinador olhou para o seu relógio e disse:

— Sim . Tenho alguns m inutos antes de ir para um a reunião.

Dei três passos hesitantes à frente, ficando agora de pé bem no m eio do escritório.

— E com o vai o plano? — perguntei, olhando para o diagram a do j ogo que estava sobre a m esa, cheio de letras X e O.

— Estam os quase lá... E você, vai assistir? — indagou ele, recostando-se sobre a cadeira, cruzando as m ãos atrás da cabeça. Dei m ais um passo, sentei, cruzei as pernas e fiquei olhando para o m eu colo.

Esperei, im aginando que ele m encionaria algo sobre a m inha ligação prim eiro, até que o treinador finalm ente com eçou:

— Ora, vam os, não precisa ficar acanhada agora.

— Certo... Então, em relação a... eu só queria m e desculpar — declarei, olhando nos olhos dele, desviando o olhar para o seu queixo, que era, provavelm ente, a parte de que eu m ais gostava no seu corpo. Era essa m andíbula perfeita, forte e quadrada, com um a fenda no m eio, que sem pre m e lem brava da postura decisiva e im positiva. Passou pela m inha cabeça que, se um treinador não tem um belo queixo, é m elhor encontrar outra profissão.

— Pedir desculpas? Do quê? — perguntou, abrindo um ligeiro sorriso.

— Por ter ligado tão tarde e...

— Eu estava acordado. Assistindo a um film e.

— Bem , então... desculpe por ter interrom pido... enquanto você estava trabalhando — desculpei-m e, pensando que o horário da ligação ou o fato de interrom per o trabalho dele não eram o verdadeiro m otivo do m eu arrependim ento, m as foi difícil dizer: “Desculpe, sinto m uito por ter ligado bêbada para você”.

— Tudo bem . Você estava feliz — confessou ele, parecendo agora com pletam ente entretido. Você pode pensar que isso m e fez sentir m elhor, m as m inha ansiedade só aum entava a cada absolvição.

O treinador inclinou a cabeça para o lado e perguntou:

— Mas, enfim , quanto você tinha bebido?

— Hum ... Não sei. Talvez tenha sido um pouco... dem ais — confessei.

— Bem , você tem de tom ar cuidado com essas coisas — aconselhou. — Precisa ter sem pre o controle.

— Sim — adm iti, concordando com a cabeça, tentando m e lem brar de quando eu tinha deixado de cham á-lo de senhor.

— E, então, você estava com o Ry an, certo?

— Sim . Fom os para um evento beneficente. Com o amigos. — Fiz questão de enfatizar a últim a palavra, em bora eu não soubesse bem o porquê.

— Bem , é m uito bom ter amigos — disse ele, para provocar.

— Sim , ter am igos é m uito bom . Digo... nós, por exem plo — balbuciei, sentindo o rosto esquentar de novo. — Fico feliz por serm os am igos. Você e eu. Pelo m enos acho que som os am igos, certo?

— Claro que som os. É com o j á dissem os... ter am igos é sem pre m uito bom .

— Sim , é — afirm ei, sentindo a tensão sobre os m eus om bros aum entar. — E, quando eu disse que você é a pessoa de que m ais gosto neste m undo, e tudo o m ais, eu só quis...

— Eu sei o que você quis dizer.

Soltei a respiração.

— Sabe?

— Claro. Você quis dizer que... eu sou a pessoa de que você m ais gosta neste m undo. — O treinador soltou um a gargalhada, os olhos cintilando daquele j eito.

— Certo. Eu quis dizer que gosto de você... com o treinador... e com o um exem plo de vida, um ídolo... coisas assim .

— Certo. Ídolos são com o am igos. É m uito bom ter tanto um quanto o outro.

Agora ele estava definitivamente zom bando de m im , e eu sabia que tinha de salvar a m inha pele e dizer algo substancial. Justificar, de algum m odo, as m inhas declarações de bêbada.

— Te considero m uito — afirm ei, certa de que as m inhas bochechas estavam verm elhas com o tom ate. — O que eu quero dizer é que todos acham você ótim o, m as eu realmente o considero m uito. E foi isso o que eu quis dizer...

— Tam bém te considero m uito, Shea. Você é um a m oça excelente, com um grande coração e um a boa cabeça em cim a dos om bros. Não perca isso, ok?

Assenti, sentindo o m eu coração e a m inha m ente acelerados.

— E você tem de persistir com o Sm iley. Acho que provavelm ente ele vai escolher outra pessoa para cobrir essa posição do Texas... alguém com m ais experiência. Mas tenho a sensação de que em breve ele vai abrir um a nova oportunidade. Então, sej a paciente, certo?

— Serei — concordei, sentindo um a onda de frustração.

— E m ais um a coisa — acrescentou, esboçando um sorriso tím ido. — Sobre aquele assunto do nosso am iguinho braço-duro...

— Sim ? — indaguei, sabendo que ele se referia ao troféu Heism an.

— Naquela noite, você não m encionou o John Huarte. Ele não deveria ter ganhado do Rhom e nem do Butkus, de j eito nenhum !

— Foi um j eito de prem iarem o técnico Parseghian por ter recuperado o program a do Notre Dam e — opinei, referindo-m e à tem porada de 1964, sobre a qual eu havia lido.

— Mas o prêm io não deve ter nenhum a relação com o técnico — ele com entou.

— Eu discordo. Os dois estão ligados.

O treinador balançou a cabeça, determ inado.

— Eu poderia estar errado. Mas não estou — insistiu.

Sorri diante da expressão fam iliar dele, depois m e levantei para sair.

— Você tam bém está errada a respeito do Salaam — advertiu ele, de repente. — Ele foi um daqueles rushers raros, capazes de correr duas m il j ardas. Você há de concordar com igo.

— Mas Ki-Jana teve um desem penho m elhor em poucas vezes em que carregou a bola enfrentando dez grandes j ogadores da defesa — argum entei. — E McNair? Ah, fala sério! Ele foi o m elhor nas corridas longas.

— Em corridas longas? Você está analisando na retrospectiva. Não pode fazer isso. A votação acontece ao final de um a tem porada regular. Mesm o antes dos bowl games. Essas decisões têm de ser tom adas com base nos fatos que tem os no m om ento. Eu posso m udar algum as das m inhas decisões se tiver m ais tem po para avaliá-las — ponderou o treinador.

Fiquei olhando para ele, incapaz de im aginar o treinador tom ando um a decisão errada, pelo m enos não em relação a algo relevante. E foi o que eu disse, acrescentando:

— Até a m ídia considera você perfeito.

— Não m esm o — retrucou ele, depois respirou fundo, com o se estivesse prestes a dizer algo sério. Em vez disso, o treinador balançou a cabeça e sim plesm ente desabafou: — Estou longe de ser perfeito. Você sabe disso, m enina.

Balancei a cabeça, pensando que aquilo até poderia ser verdade, m as que ele chegava m uito perto da perfeição. Com certeza ele chegava.

Ao longo dos m eses seguintes, m e transform ei num a versão m ais assertiva de m im m esm a, determ inada a progredir tanto na vida profissional quanto na pessoal, em vez de definhar no calor asfixiante do Texas com o norm alm ente acontecia em todo verão.

Com o não recebi retorno de Sm iley, enviei um e-m ail dizendo o quanto eu gostaria de fazer parte de sua equipe. E, descaradam ente, persegui Ry an, que se apresentou no centro de treinam ento do Cowboy s, em Oxnard, na Califórnia. Na verdade, a longa distância m e fez ousar m ais, e a nossa brincadeirinha de trocar m ensagens de texto logo ficou m ais picante. Um a noite ele escreveu dizendo que não via a hora de m e encontrar de novo e contou em detalhes o que faria quando nos víssem os. Respondi dizendo que eu estava m ais entusiasm ada por isso do que pelo início da tem porada de futebol am ericano universitário. Ry an respondeu com o emoticon de um sorriso, dizendo que, vindo de um a m ulher com o eu, aquelas palavras tinham grande im portância.

Ele tinha toda a razão em dizer aquilo, j á que eu era obcecada por futebol am ericano e ficava na contagem regressiva para o m ês de agosto quando acontecia o início oficial dos treinos. Além das m inhas tarefas habituais na Walker, que incluíam a preparação do guia de m ídia e o recebim ento do pedido de entrevistas de todos os lugares do m undo, eu passava o m eu tem po livre lendo toda e qualquer m atéria sobre a próxim a tem porada. Eu decorava diagram as com plexos, devorava blogs com os prospectos da pré-tem porada e vasculhava os posts dos fóruns à procura de outros obstinados. O consenso era claro: este seria o ano do Walker. E isso estava só no papel. Levando em conta o sentim ento de luto pela perda da Sra. Carr e o quanto os j ogadores desej avam ganhar o cam peonato para hom enagear o treinador, não havia com o negar a sensação de que éram os um tim e de sorte.

Infelizm ente, isso tam bém nos transform ou num tim e suscetível à derrota. Um a equipe alvo de perseguição, de várias m aneiras, conform e descobri certo dia, quando vi um a m ulher estranha saindo do escritório de Ernie Galli, nosso diretor de controle. Eu a cum prim entei, m as ela m e lançou um olhar de soslaio, frio, enquanto observei seu penteado cheio de laquê, um terno extrem am ente form al e um a valise. Em sum a, tudo nela berrava: “sou um a auditora”.

Fui direto para o escritório do m eu chefe, olhei J.J. bem nos olhos e perguntei:

— O NCAA está aqui no campus?

Ele recostou na cadeira e respondeu com outra pergunta:

— Por quê? Você ouviu alguém falar?

— Por nada. Mas eu vi aquela m ulher. Ela é da NCAA, não é?

J.J. balançou a cabeça, confirm ando. Estava em burrado.

— Estam os encrencados? — perguntei.

J.J. deixou de lado o j eito m eticuloso e observou:

— Espero que não, m as aquela m ulher está louca para nos ferrar.

Então, ele m e deixou a par da situação: a NCCA recebera inform ações razoáveis e substanciais que indicavam possíveis violações em relação ao nosso tim e, e agora estavam conduzindo um a investigação prelim inar.

— E por que estão nos investigando?

J.J. deu de om bros.

— Cham e do que quiser... Acusações em relação ao recrutam ento, ao uso de drogas, à elegibilidade e acadêm icas.

— E de onde saíram essas acusações? De alguém em Austin, só pode ser...

— Exatam ente. Ao que tudo indica, o boato m ais forte é o de que um em presário de Cincinnati veio para Louisville algum as sem anas atrás, antes do dia das assinaturas de contrato, e levou Rhodes e seus am igos para um a bebedeira em algum boteco 5 estrelas.

— E um boteco pode ser 5 estrelas?

— Boa pergunta. Talvez não. Eles foram para churrascarias e boates. Em que se enquadraria, então? Três estrelas e m eia?

Dei risada e continuei:

— E então? Desde quando churrascaria e strippers não fazem parte das regras?

— Bem , acho que esse palhaço ficou no Walker por um ano ou dois, depois caiu fora. E se m ostrou um m aldito... — J.J. procurou pela palavra certa.

Ofereci-lhe um a citação de Jerry Maguire, um as das m inhas favoritas:

— [5] Ambassador of quan?

J.J. riu:

— Sim . E aí, de acordo com a NCAA, ele mostrou o dinheiro para Reggie.

— Você acha que isso é verdade?

— Não sei.

— Mas não acho que sej a um a coincidência o fato de as acusações aparecerem neste ano, bem quando vam os nos sair m uito bem — com entou J.J.

— Exatam ente — concordei. — Você conversou com o treinador?

J.J. balançou a cabeça.

— Não. Até onde eu sei, ninguém conversou sobre isso com ele ainda. Não sobre os detalhes.

— Bom . Ele j á está com a cabeça m uito cheia para se preocupar com essa besteira — enfatizei, concluindo que não havia a m enor possibilidade de o treinador estar envolvido em algo suspeito.