Primeiro e Único

Emily Giffin · Capítulo 36 de 46

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Primeiro e Único

Trinta e seis

 

Dois dias depois e m ais vinte recados de Ry an em m inha caixa postal, Lucy, Neil e eu nos encontram os no Mi Cocina, em Dallas, e eu estava pronta para executar m eu plano. Mandei um a m ensagem de texto para Ry an pedindo para ele vir ao restaurante depois do treino dos Cowboy s, que eu sabia que term inaria às seis, graças ao cronogram a do tim e que estava grudado na baia de Gordon. Ry an respondeu concordando, e m e agradeceu m uito, acreditando visivelm ente que essa seria a oportunidade pela qual ele estava esperando.

Mal ele sabia que eu estaria com “guarda-costas” naquele restaurante m exicano popular em Highland Park. Eu sabia que trazer Lucy e Neil poderia ser um exagero, e tanto o treinador quanto eu ficam os m eio preocupados com a possibilidade de Ry an m encionar o envolvim ento dele em nossa últim a briga, m as decidim os que era m elhor prevenir do que rem ediar.

— Você está bem ? —Lucy m e perguntou enquanto entram os no restaurante. — Parece pálida.

— Só um pouco nervosa — respondi, enfiando a m ão na bolsa para roçar os dedos na caixinha de veludo onde estavam os brincos, com o que para im plorar por sorte ou força.

— Um a Mam bo Taxi aj udaria? Ou soa com em orativo dem ais? — Lucy perguntou, referindo-se à m argarita frozen com um a pitada de sangria.

— Boa ideia. Por que não? A ocasião é com em orativa. — Aj eitei o cabelo discretam ente e falei: — Tchauzinho, Ry an.

Neil e Lucy riram , em bora a situação em si não tivesse graça nenhum a, enquanto a garçonete chegou com nossas fritas, guacam ole e bebidas.

— Está preparada para o Natal? — perguntou Lucy depois de algum tem po. Era óbvio que ela estava tentando m e distrair com conversas casuais enquanto eu não parava de olhar para a porta.

Respondi que não estava nem um pouco, e ela contou que j á tinha feito quase todas as com pras, a m aioria pela internet, naquele m esm o dia, durante o café da m anhã.

— Você definitivam ente é igual à sua m ãe — com entei.

Lucy abriu um sorriso de orelha a orelha. Esse era o tipo de elogio de que ela m ais gostava.

— Falando sério. Com o consegue ser tão eficiente com um a filha e um negócio para adm inistrar?

Ela deu de om bros de um j eito m odesto enquanto eu contei que eu não tinha nem com eçado m inhas com pras. Lem brei-m e das roupas e dos equipam entos dos Cowboy s que Ry an havia dado de presente para m im e para m inha fam ília e pensei em doar tudo à Com m unity Partners of Dallas, um a instituição de caridade para crianças vítim as de m aus-tratos.

— E aí? Está anim ada para Pasadena? — perguntou Neil, referindo-se ao j ogo pelo cam peonato BCS. A pergunta soou forçada, e m e ocorreu que, com o o único hom em do grupo, ele deveria ser a pessoa quem estava sofrendo a m aior pressão psicológica de todas, ainda m ais porque respeitava e adm irava m uito Ry an. Todos nós o queríam os bem , na verdade.

— Muito — respondi com firm eza.

— Espere. Achei que os tim es não fossem escolhidos antes da seleção do dom ingo... Vai ser neste fim de sem ana? — Lucy perguntou.

Concordei com a cabeça, orgulhosa por ela saber desse detalhe, m as expliquei que neste ano seria apenas um a questão técnica. Havia apenas dois tim es nacionais invictos, e nós éram os um deles. Então, sem dúvida, ficaríam os na prim eira ou na segunda posição na classificação final da BCS, j unto ao Alabam a, am bos os tim es abrindo espaço para conquistar a vitória.

— Queria que a m inha m ãe estivesse aqui — desabafou Lucy, lam bendo o sal da borda da taça. — Ela ficaria tão em polgada...

Neil a envolveu com o braço:

— Só chegam os aonde estam os por causa da sua m ãe, am or.

— Você acha que é verdade, Shea? — ela indagou, virando-se para m im .

— Sim — afirm ei, passando a m ão sobre as gotículas que se form aram do lado de fora do m eu drinque, do qual finalm ente tom ei um a bela golada. — Nossos j ogadores estão se em penhando ao m áxim o e j ogando com o coração pelo treinador. Dá para sentir isso a cada vitória. E o treinador está dando o m áxim o de si neste cam peonato por causa dela... Então, sim . Com certeza a Sra. Carr tem grande responsabilidade em todo o nosso sucesso na tem porada.

Lucy engoliu em seco, parecendo m eio triste, ainda m ais quando m udou com pletam ente de assunto e falou:

— Já são quase sete horas. Precisam os com binar m ais algum a coisa para quando ele chegar?

— Não. Vai ser um a conversa bem obj etiva e breve — respondi.

— Bom , então você j á pode se preparar. Ele acabou de entrar — avisou Neil.

Preparei-m e m entalm ente, m as não olhei para a porta. Reuni forças ao olhar para o rosto de Lucy enquanto Ry an se aproxim ou. Ele estava usando um j eans largo, um a blusa de m oletom e um boné de beisebol azul-m arinho sem nada estam pado e com a aba aj eitada para baixo, o suficiente para esconder seus olhos de qualquer pessoa que pudesse estar nos observando. Mas, do lugar onde eu estava sentada, pude olhar para os olhos dele e diria que ficou frustrado ao ver que eu não estava sozinha.

— Oi, gente — cum prim entou, com a voz baixa.

Lucy e eu respondem os com um “oi” bem tím ido, enquanto Neil se levantou, cum prim entou Ry an com um aperto de m ão e falou:

— Oi, Ry an. E aí, com o está, cara?

— Bem . Obrigado — respondeu. Ele parecia abatido ou envergonhado. Ou talvez estivesse fingindo, com o parte de algum plano. Fiz questão de lem brar a m im m esm a que qualquer coisa que ele dissesse, fizesse ou sentisse seria irrelevante agora. Eu j á havia tom ado a m inha decisão.

Conform e planej ado, Lucy se levantou, cutucou Neil e disse que iriam para o bar. Logo que os dois saíram , Ry an perguntou:

— E aí? Posso m e sentar com você?

— Sim — respondi, gesticulando para o banco vazio de frente para m im .

Ry an se sentou e, de im ediato, esticou os braços e pegou m inhas m ãos, agora úm idas. Recuei e enxuguei as palm as em m eu j eans.

— Shea. Por favor, por favor. Me perdoe — ele pediu, suplicante.

— Tudo bem — falei com certa petulância na voz. — Te perdoo.

Interpretando m eu pensam ento de m odo errado, Ry an relaxou a expressão instantaneam ente, recuperando um pouco de seu habitual estado de glória.

— Ah, obrigado, m eu doce. Aquilo nunca m ais vai voltar a acontecer. Aquele não era eu. Da próxim a vez nós dois vam os dar um tem po para nós m esm os, organizar os pensam entos. Não vam os deixar um m al-entendido bobo virar um a coisa tão séria.

Balancei a cabeça.

— Não, Ry an. Não haverá um a próxim a vez. — Peguei a caixinha de veludo da bolsa e estiquei o braço até ele, por cim a da m esa. — Tom e.

Ele ficou encarando e perguntou:

— São os seus brincos?

— Não m ais. Estou devolvendo.

Com o ele não pegou a caixinha, eu a coloquei entre seus braços, que estavam cruzados sobre a m esa.

Ele a em purrou de volta para m im .

— Não. Foi um presente.

— Não posso ficar com eles.

— Por quê?

— Você sabe por quê.

— Porque fiquei nervoso um a noite?

Fiquei com o pensam ento acelerado, em busca de respostas estratégicas. Eu havia m e preparado m uito bem para isso, j á que sabia que Ry an não facilitaria nem um pouco as coisas e que ele era bom de argum entação. Era óbvio que tinha se preparado.

— Não quero discutir isso, Ry an — insisti, em purrando a caixinha de veludo para o lado dele de novo, com o se estivesse em um acirrado j ogo de xadrez. — Está tudo acabado. E eu não quero esses brincos.

Ele balançou a cabeça.

— Não.

— Não? — perguntei, incrédula. — O que você quer dizer com não?

— Mesm o que você não queira m e ver nunca m ais na sua vida, eles continuam sendo seus.

Respirei fundo e soltei o ar, bufando.

— Tudo bem — concordei, pegando a caixa de volta e j ogando-a dentro da bolsa, enquanto pegava Lucy m e espiando com cara de preocupação. — Mas, só para o seu conhecim ento, vou vendê-los e doar o dinheiro para algum a instituição de caridade. Conheço um a que aj uda m ulheres e crianças violentadas. — Enfatizei a palavra violentadas e o encarei. Ele abriu a boca, m as estava perplexo dem ais para dizer algum a coisa. — Ouça. — Aproveitei que ele estava em silêncio. — Só para constar, acho que você tem um problem a. Não sei se tem algo a ver com o seu pai, ou com a violência inerente ao futebol am ericano... ou se há algum a outra razão psicológica, m as não resta a m enor dúvida de que você tem um problem a.

Ele ficou m e encarando, depois concordou com a cabeça, o que m e surpreendeu, ainda que tenha sido discretam ente. Continuei:

— E acho que você precisa procurar aj uda. Talvez as suas ex-nam oradas concordem com igo. E eu m e preocupo com as suas futuras nam oradas tam bém .

— Não quero ninguém . Só você — ele retrucou enquanto a garçonete voltou, parecendo m uito entusiasm ada ao reconhecer quem estava à m esa.

Mas Ry an a fez m urchar quando ergueu a m ão e gesticulou dizendo que não queria nada. O sorriso dela desapareceu no m esm o m om ento. Ela assentiu e olhou para m im .

— Não vam os ficar para j antar — anunciei, sentindo que Ry an ficou m e olhando enquanto eu falava com ela. — Você pode m e trazer a conta das batatas e das bebidas...

— Pensando bem — disse Ry an, olhando para o cardápio, protelando, ganhando tem po. — Vou pedir um a água com gás e... tacos al carbono. Ao ponto.

Revirei os olhos diante da sua tentativa de m e m anter refém pedindo dois tacos.

— Então... hum ... ainda quer que eu traga a conta? — perguntou a garçonete, parecendo confusa, provavelm ente porque percebeu algum tipo de desentendim ento entre nós. E era assim, pensei com igo m esm a, que as coisas iam parar no TMZ.

— Sim . Obrigada — respondi, desfazendo a estratégia dele.

Quando a garçonete saiu, ele repetiu:

— Não quero ninguém m ais além de você.

— Você vai superar isso rápido. Tem m uitas opções. Melhores — falei, obj etivam ente.

— Ah, fala sério, Shea. Você sabe que isso não é verdade. O que nós tem os é algo m uito especial. Vai m esm o j ogar tudo isso fora?

— Eu? Foi você que fez isso. Foi você que nos colocou nessa situação.

— Eu sei. E vou fazer o que for preciso para consertar o m eu erro. O que for preciso.

— Tenho certeza de que você j á disse essas palavras antes.

— Não, não disse.

Pensei na prom essa que eu havia feito a Blakeslee e dei de om bros, optando por m anter m inha palavra.

— O treinador é um ridículo — ele retrucou, a expressão se anuviando por alguns segundos.

— Não, não é — rebati, em bora não soubesse ao certo com o o treinador veio parar nessa parte da discussão.

— O que foi que ele te contou? É a prim eira vez que um a coisa assim acontece. Juro, aquilo que aconteceu com você naquela noite, e foi um acidente. Um m al-entendido... Eu não quis te m agoar nem te assustar... Você precisa acreditar nisso. Eu te am o, m eu doce.

— Não diga isso — resm unguei, com preendendo com m ais clareza a expressão “pelar-se de m edo” agora.

— Mas eu te am o. — Ele pigarreou, se aproxim ou de m im e seu rosto ficou m ais próxim o ao m eu, o m áxim o que a distância da m esa perm itia. Então, ele com eçou a falar com a voz firm e, séria. — Shea, eu sinto m uito por ter feito aquilo e por te colocar nessa situação. A responsabilidade foi toda m inha, e eu vou fazer tudo o que for preciso para reparar o erro. Posso ver nos seus olhos que você não confia em m im , m as torço para que ainda haj a algum sentim ento. Só um pouquinho. Caso haj a, podem os recom eçar. Sei que podem os. Te am o muito. Se você m e der um a única chance de te provar isso... Por favor.

Não falei nada e detestei o sentim ento de pena que se abateu sobre m im . Eu não queria sentir nada por ele, pois a indiferença seria o único cam inho para a verdadeira liberdade. Ele continuou:

— Você tem que entender que eu fiquei cism ado... sobre você e o Miller.

Com ecei a responder, m as ele levantou a m ão, m e interrom pendo.

— Não estou te culpando de nada em relação ao Miller. E sei que não há m otivos para m e preocupar com ele. Mas, com o não recebi notícias suas naquela noite, depois que m e prom eteu que ligaria... e foi bem na véspera de um grande j ogo. Senti m uita saudade de você... e depois veio aquele j ogo desastroso. E, m ais tarde, deixei o m eu pai e tudo o m ais encher a m inha cabeça. E aí o Miller apareceu com o seu cartão de crédito... eu vi aquilo e fiquei m al. Enfim , foi aí que descontei tudo. Me desculpe. Mas você precisa acreditar que eu não queria te m achucar. Me olhe nos olhos e diga que acredita nisso.

Apanhei-m e questionando m inha própria versão dos fatos, olhando o lado dele em relação às coisas, pelo m enos um pouquinho, m as consegui encará-lo e dizer:

— Não se pode descontar a raiva em um a relação, Ry an. Pelo m enos não se isso significa descontar para você.

Olhei ao redor para ter certeza de que não havia ninguém nos observando, então, m ais próxim a da j anela, m ostrei a ele o m eu hem atom a, agora am arelo, no braço esquerdo.

Sua expressão se encheu de angústia.

— Ah, Shea. Desculpe.

— Olhe. Não acho que você sej a m á pessoa. Acho que você é um cara que tem um problem a. Um problem a sério, grave. E eu te perdoo m esm o, de verdade, pelo que fez. Mas não acho que sej a certo continuarm os... Sim plesm ente não acho. Não quero m ais, Ry an. E você precisa aceitar isso com o a m inha palavra final. Não vai m udar. Não im porta o que você diga ou prom eta.

Ele ficou m e encarando, com a m andíbula grande apoiada sobre a m ão; por um segundo, pensei que finalm ente tivesse m e escutado, entendido que estava tudo realm ente term inado. Foi então que ele balançou a cabeça.

— Não posso aceitar.

— Mas vai ter que aceitar.

Ele respirou fundo e piscou várias vezes, rapidam ente, do j eito que alguém faz quando está prestes a chorar. Em seguida, olhou para o teto e piscou ainda m ais, até que vi as lágrim as se form ando no canto de seus olhos. Fiz um a advertência a m im m esm a para não ceder. Ver alguém assim , tão forte, à beira das lágrim as foi de dar pena.

— Sinto m uito, Ry an. Gosto de você. E sem pre vou gostar. Quero que procure aj uda e que m ude por você m esm o. Mas o nosso relacionam ento sim plesm ente não m e parece certo. De algum a form a, acho que nunca foi — acrescentei, m e sentindo um pouco culpada por perm itir que ele achasse que tudo era culpa sua. — Nem sei se em algum m om ento nós j á fom os um do outro... Sinto m uito. Mesm o.

Ele assentiu, desviou o olhar do teto para m im e perguntou:

— Você vai pelo m enos ficar com os brincos? Por favor?

Fiquei olhando para ele bem nos olhos, por vários segundos, até que falei:

— Tudo bem . Se isso é tão im portante para você...

— É, sim . Muito.

— Certo. Vou ficar com os brincos.

— E não vai vendê-los? Nem se livrar deles? Prom ete?

— Tudo bem . Vou ficar com os brincos, prom eto. Am ei o presente.

— Queria que você tivesse m e am ado tam bém . Pelo m enos, você sem pre terá algum a coisa m inha. Um a coisa boa.

Esbocei um sorriso discreto, breve e autêntico.

— Sou um a boa pessoa, Shea.

Concordei com a cabeça, acreditando que aquilo era verdade ou, pelo m enos, acreditando que ele desejasse ser um a boa pessoa.

— Procure aj uda, Ry an. Vai fazer isso?

— Vou, sim , m eu doce — ele respondeu, olhando nos m eus olhos.

Dessa vez, deixei que ele m e cham asse de meu doce, m as levantei, coloquei um a nota de vinte dólares sobre a m esa e m e despedi.

— Adeus, Shea — ele disse, com um a expressão de resignação.