Primeiro e Único
Dezesseis
Estava chovendo quando saí do bar, e havia um a ligeira névoa que criaria um a cena rom ântica perfeita se eu estivesse segurando a m ão de alguém , m as, com o eu não estava, m e senti m ais m elancólica e solitária do que nunca. Solitária o bastante para enviar um a m ensagem de texto para Ry an ao entrar no m eu carro, parabenizando-o pelo ótim o j ogo. Antes de sair da vaga do estacionam ento, ele j á tinha m e respondido: Obrigado. Acho que você deveria me dar parabéns pessoalmente. ;)
— Pronto — falei em voz alta e, alguns m inutos depois, lá estava eu na I-35, a cam inho de Dallas, com os m eus pensam entos confusos e acelerados e vira e m exe rem etendo-m e ao treinador. Nossa conversa, os seus olhos, o m odo com o eu m e sentia perto dele, fosse em seu escritório ou no bar. Era diferente da m aneira com o eu m e sentia com qualquer outra pessoa. O treinador m exia com igo, e, em bora eu sem pre tivesse atribuído esse nervosism o ao fato de estar tão próxim a de um a figura grandiosa, com ecei a m e preocupar que talvez fosse algo m ais. Enquanto dirigia, um sentim ento estranho m e invadiu. Eu estava por fim caindo na real — e detestava o fato de que não poderia sim plesm ente apertar um botão para desligar e silenciar o que sentia.
Liguei o rádio, balancei a cabeça, segurei firm e no volante e com ecei a inventar um a série de desculpas. Falei para m im m esm a que só estava confundindo o m eu am or pelo futebol e pelo Walker com um a atração física. É claro que o treinador era atraente — até um redator do sexo m asculino tinha afirm ado isso num a edição da Sports Illustrated —, e um cara bonito pode deixar qualquer m ulher perturbada, até m esm o um a m ulher com prom etida e num a relação satisfatória; que até m esm o a m inha irmã am ava o treinador Carr, e que eu era não a única em Walker, e que um a paixonite não era nada além de um a versão adulta da adoração pelo herói da m inha infância.
Porém , quanto m ais eu tentava convencer a m im m esm a, m ais o m uro da negação vinha abaixo. E, dessa vez, no m eio do cam inho entre Walker e Dallas, não havia com o ignorar a sensação que m e golpeou as entranhas: eu sentia algo pelo pai de Lucy. Algo inegável, real, não com o am iga, nem com o filha, m as como mulher e homem.
Acelerei o carro, afastando o treinador do m eu pensam ento e m e concentrando em Ry an e no quanto eu verdadeiramente gostava dele. No quanto ele era perfeito. No quanto ele m e fazia feliz.
Falei para m im m esm a que precisava m e controlar, e rápido. O treinador Carr era a últim a pessoa no m undo com quem eu poderia m e relacionar. Era m uito m ais velho que eu. Tinha acabado de perder o am or da sua vida. Era o pai da m inha m elhor am iga. Seria m uita loucura.
A chuva ficou m ais forte, açoitando m eu para-brisa, de m odo que o m eu lim pador não conseguiu dar conta e eu m al consegui enxergar a pista à m inha frente. Por fim , desisti e parei no acostam ento, onde fiquei esperando, respirando, negando para m im m esm a que eu realm ente estava com saudade, e fazendo tudo o que estava ao m eu alcance para não pensar nele. Mas a estratégia não deu certo, com o de costum e, e as coisas pioraram ainda m ais quando a m úsica de Bonnie Raitt, I Can’t Make You Love Me — a canção m ais triste que j á existiu —, com eçou a tocar no rádio. “Morning will com e, and I’ll do what’s right...” (“A m anhã vai chegar, e eu vou fazer o que deve ser feito...”)
Depois de certo tem po, a chuva dim inuiu, então voltei à estrada. Quando Ry an liberou a m inha entrada pelo portão de ferro da casa dele, eu j á tinha m e recuperado. Sorri ao vê-lo parado na porta de entrada, usando chinelo e um robe preto, aberto, deixando o peito à m ostra.
— Oi, m inha linda — ele m e cum prim entou, enquanto eu saía do carro.
— Oi, Ry an — respondi, cam inhando até ele.
Ele saiu da varanda, veio até m im , segurou a m inha m ão e m e tirou da chuva.
— O que trouxe você aqui? — ele perguntou de um j eito tím ido, beij ando o m eu pescoço.
— Vim te parabenizar pessoalm ente.
— Muito obrigado — disse ele, passando seus braços fortes ao m eu redor e m e beij ando de novo, dessa vez na boca. Fechei os olhos e m e concentrei na sensação dos seus lábios, da sua língua e das m ãos grandes que m e puxavam para perto. Depois, deixei que ele m e levasse para o quarto dele, onde fizem os am or de um j eito lento e apaixonado.
Um pouco antes de o sol nascer, acordei nos braços de Ry an, desej ando-o de novo. Com cuidado, m e desenrosquei dele para poder observá-lo, adm irar o seu rosto lindo.
Depois de um tem po, ele abriu os olhos e sorriu discretam ente antes de vir até m im .
— Vem cá — sussurrou, m e puxando para m ais perto e beij ando m inha cabeça.
— Você esteve ótim o ontem à noite — falei.
— Bom , posso fazer ainda m elhor — brincou ele, correndo a m ão sobre m inha cintura.
— Eu m e referi ao j ogo — expliquei, rindo, e depois descrevi um a de suas m elhores j ogadas.
— Espere. Não foi no prim eiro tem po? — perguntou, m ais atento agora.
— Sim , foi no prim eiro tem po, sim .
— Mas você não disse que estava trabalhando? — ele indagou enquanto rolou para lado e se apoiou sobre o cotovelo.
— Sim , eu estava — afirm ei, depois fiz um a explicação confusa, dizendo que fui assistir ao j ogo com o treinador, m as com o repórter. — Um a j ornalista não pode recusar um a oportunidade com o essa.
Fui até ele, apoiei a bochecha sobre o seu peito, envolvi a m inha perna e braço direitos sobre ele e o abracei feito um coala. O gesto de intim idade foi um a estratégia, m as a verdadeira intenção foi m uito m ais fugir do seu olhar.
— Você contou para ele sobre a gente? — interrogou.
— Não. Não exatam ente.
— Por que não?
— Não sei. O que eu contaria para ele? Que estam os transando? — perguntei, tentando bancar a brincalhona, m as talvez querendo pescar algum a inform ação.
— Deus do céu! Acho que é m ais que isso — retrucou Ry an, os dedos penteando os m eus cabelos.
Sorri com igo m esm a e insisti, na m aior cara de pau:
— Ah, é?
— Sim . Você sabe que é — sussurrou ele.
Depois de um m om ento de silêncio, ele fez outra pergunta:
— Então você assistiu ao j ogo inteiro com ele e nem m encionou que nós estam os saindo?
Desconcertada, respondi:
— Bom ... É óbvio que ele sabe sobre a gente.
— Com o você sabe?
— Porque o Miller apareceu lá. Justo ele. E contou pro treinador.
Ry an ergueu-se subitam ente, e eu pude sentir um a das partes rígidas do seu corpo esbarrar no m eu queixo enquanto ele acendeu a luz para perguntar:
— Você viu Miller ontem à noite?
Seus olhos ficaram atentos, e os m eus se aj ustaram à luz enquanto tentei interpretar o que estava acontecendo, por que ele parecia tão chateado. Será que estava realm ente incom odado por eu ter visto Miller? Estava com ciúm es? Parecia algo im provável, m as, com o eu não tinha outra explicação, falei:
— Sim . Ele apareceu lá do nada. Foi m uito chato. O treinador e eu estávam os num a conversa séria sobre...
— E quanto tem po ele ficou lá? O treinador foi em bora prim eiro? — A voz dele ficou tensa e m ais alta, e ele cruzou os braços, os m úsculos do tórax e dos braços tensionados. Ele estava definitivam ente chateado.
— Ry an... Fala sério. Você não pode estar com ciúm es do Miller.
— Claro que não estou com ciúm es do Miller. Aquele cara é um m aconheiro perdido na vida — disparou ele, e a acusação soou m uito pior partindo dele do que de Lucy. Tive um a sensação estranha, com o um a necessidade súbita de m e proteger.
— Isso foi pesado — rebati.
— Uau. Você ainda está dorm indo com ele, não está?
— Do que você está falando? Claro que não estou dorm indo com ele — repliquei.
— Ainda gosta dele?
— Com o am igo. Só isso. Olhe, não posso controlar quem entra e quem sai do Third Rail... E o treinador o convidou para sentar com a gente. Não com binam os nada. Nós três ficam os lá sentados, assistindo você j ogar. Todos ficam os felizes por você. O Miller tam bém .
— Ah, sim , claro.
Fazia m uito tem po que eu não provocava ciúm es em alguém , e m al consegui acreditar que Ry an e eu estivéssem os tendo esse tipo de conversa. Fiquei lisonj eada, m as tam bém perturbada.
— Não foi nada com binado. Term inei com ele. Acabou. E ele j á está com um a nam orada — expliquei, divagando sobre Nan Buxbaum , e acrescentando um a observação: — Aposto que os dois vão ficar noivos em breve.
Ry an m e encarou por m ais um tem po.
— Ok — disse ele finalm ente, depois apagou a luz e colocou a cabeça de volta no travesseiro. — Me desculpe.
Eu disse que não havia m otivos para pedir desculpas.
Depois de um bom tem po, ele m e pediu:
— Você pode só m e prom eter um a coisa?
— Claro. O quê? — perguntei, desej ando vê-lo feliz de novo.
— Me prom eta que não vai sair com m ais ninguém . Eu sei que isso pode ser m eio antiquado, m as acredito em m onogam ia. E quero você todinha só para m im .
— Prom eto — afirm ei, surpresa ao ver o quanto as coisas estavam cam inhando rápido.
— Eu tam bém prom eto — declarou ele, e depois selou o nosso pacto com um beij o intenso e longo, do tipo que sem pre nos faz querer m ais e m ais.