Primeiro e Único

Emily Giffin · Capítulo 38 de 46

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Primeiro e Único

Trinta e oito

 

Dois dias depois, eu estava na casa de Lucy, fazendo tudo o que podia para evitar o olhar do treinador, e ele fazia exatam ente o m esm o em relação a m im . Não nos vim os m ais desde aquela noite no escritório dele, m as conversávam os toda hora. Na noite anterior, eu tinha até cochilado enquanto nos falávam os por telefone.

— Ah, adoro esta aqui! É Blitzen! — exclam ou Lucy, segurando um a rena feita de vidro fosco enquanto todos nos reuníam os em sua sala de estar para decorar a árvore de Natal.

— Cara, com o é que você sabe que é Blitzen? Para m im está parecendo m ais Prancer — opinou Lawton, enquanto Lucy passou o enfeite para ele para que o pendurasse em algum lugar da frente.

— Rudolph não pode ser — interveio Caroline, apontando sabiam ente. — Está vendo? Não tem o nariz verm elho.

— Verdade — Lawton concordou, dirigindo-se a Caroline, enquanto o treinador se m anteve concentrado na tarefa, enchendo de cola um enfeite dos Broncos que estava quebrado. — Mas poderia ser qualquer um a das outras renas, exceto Rudolph. Com o ela sabe que é Blitzen?

Eu m e perguntei a m esm a coisa, constatando que havia perdido algum capítulo da crença sobre as renas do Papai Noel, enquanto Lucy sorriu e explicou:

— Minha m ãe m e disse que era Blitzen. Muito tem po atrás.

— Bom , e com o ela sabia? — Lawton questionou.

— Ela conhecia as renas que tinha, Lawton — respondeu Lucy, revirando os olhos. — Agora coloque este lá em cim a... e este aqui tam bém . — Ela entregou ao irm ão um enfeite em form a de rem o de m adeira com a inscrição LAGO LBJ, e pediu que o colocasse na parte de trás.

Lucy desem brulhou os enfeites que estavam aninhados em caixas de plástico grandes e verdes, um por vez, depois os passou para Caroline, Lawton, o treinador e eu, enquanto Neil, que j á tinha pendurado centenas de luzes brancas na árvore, se concentrou em colocar, cuidadosam ente, as bolas douradas e verm elhas. Lucy fez parecer que a escolha do lugar exato dos enfeites era aleatória, m as eu sabia que não era, e logo percebi que ela deu as m ais resistentes e berrantes para Caroline, assim não quebrariam e ficariam na parte m ais baixa da árvore, com pouca visibilidade. Os enfeites infantis (aviões, trens, carros, soldados, elfos, bonecos de neve e renas) ela deixou para Lawton. E todos os outros relacionados a Walker ou ao futebol am ericano — a categoria na qual aparentem ente todo o resto se enquadrava — ela deixou para m im e o treinador. Além disso, o treinador ficou responsável por todos os Papais Noéis, tanto os m ais esquisitos quanto os m ais convencionais.

Levam os a tarefa a sério, esperando que nossa escolha estivesse de acordo com o gosto dela. Porém , o m ais im portante foi que não a decepcionam os, em bora ela tenha olhado, vez ou outra, com certa expressão de desagrado para determ inada cor ou tem a.

— Espalhe esses elfos, Lawton, por favor. Eles parecem m uito... am ontados desse j eito — ela com entou, antes de voltar a olhar para as caixas, das quais m etade estava no sótão da sua casa e a outra m etade no sótão dos pais, depois de ter dado perm issão ao pai para renunciar à própria árvore de Natal naquele ano.

— Está ficando bom , gente! — ela opinou, e todos concordam os que a árvore estava m esm o bonita. Nem dava para perceber que era artificial (o que era necessário devido à alergia de Neil a plantas de verdade), a m enos que se parasse para pensar que nenhum a árvore de verdade seria tão enfeitada e sim étrica.

— Lem bra desta daqui? — ela perguntou a Lawton, segurando um enfeite delicado em form ato de um a m enininha em purrando um carrinho cheio de brinquedos. O enfeite parecia germ ânico e velho, ou pelo m enos ultrapassado, talvez porque a garotinha se parecia com Shirley Tem ple com seus olhos grandes, sua boca verm elha e cachos espessos.

— Sim . Eu sem pre gostei dela... Mas nunca consegui entender por que um anj o traria um carrinho cheio de brinquedos — disse Lawton.

— Ela não é um anj o — zom bou Lucy, indignada, enquanto Lawton tinha apelidado a boneca de prostituta. — Ela é só um a menina. E esse aí é o carrinho de com pras dela.

— Um a ova! — Lawton retrucou, apontando e olhando para o enfeite por entre a sua franj a longa, que necessitava urgentem ente de um corte. — Olha isto aqui. Se cham a auréola.

— Você acha que auréola tem algum a coisa a ver com aréola? — brinquei, tentando ao m áxim o soar natural, leve e alegre, com m edo de acabar m e entregando. Continuei evitando olhar para o treinador, m as percebi cada m ovim ento dele e sentia um a descarga elétrica toda vez que se aproxim ava de m im .

Lawton deu risada e respondeu:

— Mas é claro que tem .

Lucy olhou para a garota em form ato de anj o, sem conseguir acreditar.

— Caram ba. Você tem razão! — Lucy concordou com um a risadinha. — Mas tem certeza que não é só um a tiara?

— Não! É um a m aldita auréola — Lawton insistiu.

Caroline soltou um a risadinha e cobriu a boca, entusiasm ada com tantos palavrões, enquanto Lucy sem icerrou os olhos para verificar m elhor. — Bem , agora gosto dela m ais ainda. É um a cliente angelical com seu carrinho de com pras!

— Igualzinha a você, Lucy — com entou o treinador Carr, pondo um gancho em um boneco de neve. — Aposto que tem algum a coisa da Chennel e da Vespucci enfiada em algum lugar aí nesse carrinho.

Todo m undo riu da piada, ciente de que ele quis dizer Chanel e Versace. Virei-m e para Lucy e perguntei de onde aquele enfeite tinha vindo. Eu sabia que ela estava ávida por com partilhar algum a história sobre a m ãe, e decidi que era m inha tarefa criar essa oportunidade.

— Minha m ãe trouxe da Austrália, da época em que m orou lá, quando era criancinha. Era um dos seus enfeites favoritos. Não era, pai?

— Era, sim — ele respondeu, em bora todos nós soubéssem os que Lucy era a autoridade quando o assunto eram relíquias de fam ília, e que, m uito provavelm ente, ele estava apenas concordando com ela.

Caroline pediu o enfeite à m ãe e Lucy a alertou para ter cuidado, dizendo que ela m esm a penduraria aquele porque era “m uito frágil e m uito, m uito especial”. Depois, Lucy colocou o anj o no topo da árvore, bem próxim o a um a das luzes do pisca-pisca, e em seguida em purrou o carrinho delicadam ente e ficou observando-o por alguns segundos antes de voltar para suas caixas de enfeites.

E assim continuam os, Lucy retirando enfeite por enfeite da caixa, aj ustando na árvore todos os que colocávam os, contando histórias sobre sua m ãe. Eu j am ais poderia im aginar, ainda m ais considerando o seu hum or no Dia de Ação de Graças, m as ela parecia realm ente feliz, sem o m enor sinal de m elancolia, apesar do som , do barulho e do cheiro natalino que todas aquelas coisas traziam , nos fazendo lem brar que algo — alguém — estava faltando. Ao fundo, Harry Connick, Jr. cantava. O cheiro de biscoitos de açúcar com canela, um a especialidade da Sra. Carr, em anava da cozinha. Lá fora, um a tem pestade com eçava a se form ar, e o vento ricocheteava as j anelas, o que lem brou Lucy de que sua m ãe adoraria aquele dia. Para falar a verdade, ela estava com o hum or tão estável que com ecei a suspeitar que tinha algum a coisa a ver com as suas pílulas m ilagrosas, ou talvez com um a dose a m ais de álcool em sua eggnog. Por outro lado, talvez ela tivesse sim plesm ente chegado a um ponto decisivo de sua dor. Talvez o tem po realm ente fosse capaz de curar todas as feridas.

Porém , apenas alguns m inutos depois, quando ouvi Lucy dizendo para Caroline: “Querida, esta noite não parece m ágica?”, considerei outra hipótese. Que tudo aquilo poderia não passar de um a atitude de fingim ento m uito convincente.

Caroline respondeu que sim , enquanto pegava outro biscoito da tigela e Lucy tirava um a sequência ininterrupta de fotos, procurando diferentes ângulos da filha, m as seus olhos estavam tristes e distantes. É claro que ela não estava se sentindo m elhor, pelo m enos não logo no prim eiro Natal sem a m ãe. Ela estava sim plesm ente fazendo o m elhor para disfarçar para a própria filha, para dem onstrar firm eza e seguir os conselhos que a m ãe lhe teria dado: Faça tudo com perfeição para sua família, não importa como esteja se sentindo por dentro. Seu hum or era tão falso quanto aquela árvore artificial, m as, ainda assim , astuto e belo, a sua própria m aneira. Mais tarde, quando ela e Neil estivessem sozinhos no quarto, suspeitei de que as lágrim as cairiam , m as, por enquanto, ela assum iu o dever solene de construir com zelo e dedicação tudo aquilo que seriam as lem branças de Caroline. Senti m eu coração se encher de adm iração por ela e m e perguntei se conseguiria ser tão forte se estivesse em seu lugar. Creio que não, m as suspeito que a m aternidade sej a, de certo m odo, um a m aneira de reforçar nossas reservas em ocionais.

Continuam os trabalhando na árvore, até que as caixas ficaram praticam ente vazias, restando apenas os enfeites m ais sim ples e desm azelados que Lucy adquirira havia pouco tem po e que ela j ocosam ente apelidou de nouveau accoutrements.

— Chegou a hora da estrela. Neil, pegue a escada.

Ela bateu palm as ao ver a filha exclam ar:

— Rápido! Rápido!

— Uauuuu. Viram isso? Rápido! Rápido! Viram só com o a m inha esposa está influenciando m inha filha? — Neil brincou. Era evidente que ele adorava esse atrevim ento das duas e que sentia orgulho de ter m ulheres m andonas em sua vida. De m aneira subm issa, ele pegou a escada e a colocou o m ais próxim o que os galhos da árvore perm itiam . Neil subiu três degraus, e em seguida perguntou:

— Caroline, gostaria de fazer as honras da casa?

Ela concordou e subiu a escada com entusiasm o, depois arrancou a estrela da m ão do pai e, sem m edo, esticou o braço para pendurá-la na árvore de quase três m etros.

— Cuidado, cuidado — Lucy advertiu enquanto Neil segurava a filha, erguendo-a ligeiram ente, aj udando-a a colocar a estrela no lugar. Todos exclam am os: “Oohhh!” e “Aaah!” e elogiam os a façanha natalina de Caroline. Então, enquanto ela e o pai desciam , Lucy se levantou, pigarreou e disse:

— Bem , agora Caroline tem algo a dizer... Caroline?

Pulando, dançando e rodopiando pela sala, Caroline gritou algo sobre um a irm ã, antes de cair no chão de tanta tontura. Lawton e o treinador ficaram olhando para ela, confusos, m as eu entendi im ediatam ente, sentindo m eu coração se encher de alegria. Lucy estava grávida!

— Fala de novo, querida, m ais devagar — Lucy pediu.

Caroline se levantou e tentou de novo, organizando as palavras com m ais clareza.

— Eu vou ser a irm ã mais velha!

Dessa vez o treinador e Lawton entenderam , e com eçaram a dar parabéns, enquanto eu sorri e fiquei observando tudo. Pela prim eira vez naquela noite, m e perm iti olhar para o rosto dele, e, pela expressão conflituosa, posso dizer que ele se sentiu tanto feliz quanto chateado pela notícia, porque Connie não estava ali para partilhar da m esm a alegria. Ou talvez ele estivesse apenas tentando ser afetuoso, fazendo o m elhor para dar a Lucy o que ela precisava, dizer e fazer todas as coisas que a esposa teria dito e feito com a m aior facilidade.

Ele respirou fundo, com o se estivesse se recom pondo, depois foi até Neil e o cum prim entou com um aperto de m ão e um tapinha nas costas.

— Parabéns, filho. — Ele sorria de orelha a orelha. Em seguida, o treinador deu um abraço de urso em Lucy e a segurou por alguns segundos, enquanto o ouvi dizer: — Meu am or. Que notícia m aravilhosa. Sim plesm ente m aravilhosa.

— Obrigada, pai — ela agradeceu, sorrindo e com as bochechas coradas enquanto os dois se separavam . — Estam os m uito felizes.

O treinador beij ou a testa da filha, depois foi atrás de Caroline, que continuava dançando pela sala, e perguntou se ela queria um irm ão ou um a irm ã — um a pergunta tão óbvia quanto: “Quer que o Walker ganhe o cam peonato?”.

— Um a irm ã! — gritou Caroline em cim a da barriga de Lucy, com o se o volum e da voz fosse o fator determ inante do sexo do bebê, e depois perm itiu que o avô a pegasse no colo.

— Já sabem se é m enino ou m enina? — Lawton perguntou, copiando o aperto de m ão e o tapinha nas costas de Neil, dando depois um abraço apertado na irm ã.

— Não. Ainda é m uito cedo para saber. Ela está de oito sem anas. Mas quero que saibam que achei que hoj e seria o m om ento perfeito para contar sobre a notícia — declarou Lucy, vacilando um pouco, m as se m antendo calm a, firm e e propositadam ente alegre.

— E vocês querem saber o sexo do bebê antes de ele nascer? Assim com o quiseram com esta pequena aqui? — o treinador perguntou, apertando o nariz de Caroline antes de colocá-la de volta no chão.

— Não, desta vez não. Minha m ãe vai ser a única a saber — Lucy respondeu, olhando para a estrela da árvore antes de olhar para m im . — O que você acha, Shea? — perguntou, com o que fazendo questão de m e incluir naquele m om ento fam iliar. Cheia de culpa, escolhi as palavras cautelosam ente, de um j eito que eu não havia feito quando soube que Caroline estava a cam inho.

— Acho que é um a ideia m aravilhosa. Deixem que sej a surpresa desta vez — respondi, e m e senti m eio aturdida. — Estou m uito feliz por você, Lucy.

— Eu tam bém estou. Finalm ente um pouquinho feliz — disse ela.

Sorri e, com discrição, olhei para o treinador, que agora estava de pé bem atrás de Lucy. Ele m e olhou de um j eito que parecia dizer a m esm a coisa que eu estava pensando: Graças a Deus não contamos nada para ela ainda.

Eu queria ter ido em bora depois disso, saído num a boa, no m om ento certo — um conselho que a Sra. Carr sem pre nos deu. Em vez disso, protelei e fiquei, m esm o depois que Lawton j á tinha ido em bora e Lucy e Neil subiram para levar Caroline para a cam a, sem conseguir resistir à atração pelo treinador, que m e puxava feito um ím ã.

— Outro bebê. Uau — com entou ele quando estávam os sozinhos, organizando a cozinha.

— É verdade. Não esperava por essa... — confessei, em bora não soubesse ao certo por que fiquei tão surpresa, pois sem pre soube que Neil e Lucy queriam outro filho.

— Nem eu — ele disse, j ogando água num a assadeira, depois colocando-a na m áquina de lavar louças enquanto eu lim pava a m esa da cozinha.

— Você acha que é m enino? — sondei.

— Acho que sim — ele respondeu, virando-se para olhar para m im por cim a do om bro antes de voltar a olhar para a pia. — E é estranho porque eu nunca sinto nada em relação a essas coisas. Vou am ar ter um netinho, m as outra m enininha seria ótim o tam bém . E, para Caroline, seria m aravilhoso ter um a irm ãzinha.

Concordei com a cabeça e observei as costas do treinador, enquanto m inha m ente egoísta processava as im plicações que isso traria para nossa situação. Essa novidade tornaria as coisas m ais fáceis ou m ais difíceis? Não havia com o prever, j á que os bebês têm o poder de tornar as coisas m elhores e piores ao m esm o tem po. Lucy teria um a distração agora, m as tam bém ficaria com os horm ônios a m il, o que com certeza revolveria o sentim ento de luto. E nada, nem m esm o as datas com em orativas, poderia destacar tanto o vazio que havia agora em sua vida com o um nascim ento.

Da cozinha, ouvim os o burburinho no andar de cim a, típico da hora de dorm ir. Neil e Lucy tentavam negociar com Caroline, e eu sabia que levaria pelo m enos m eia hora para conseguirem fazê-la dorm ir. O treinador tam bém deve ter pensando que nós dois estávam os seguros, porque m ordeu o lábio inferior e deu alguns passos para se aproxim ar de m im .

— Preciso te beij ar de novo — ele sussurrou, olhando para o corredor. — Em qualquer lugar.

Estrem eci e sussurrei de volta:

— Vam os voltar para a sala. É m ais seguro.

Ele concordou com a cabeça e m e levou até o sofá, onde nos sentam os próxim os um do outro, m as num a distância estrategicam ente segura. Conversam os sobre o bebê de Lucy por m ais alguns m inutos, antes de ele ficar com a expressão séria e dizer:

— Preciso conversar com você sobre algo im portante...

— O quê? — questionei, m e perguntando se o que ele tinha para contar teria algum a relação com a investigação da NCAA.

Ele balançou a cabeça e falou:

— Não agora. Depois. — O sem blante dele m e deixou preocupada, ainda m ais quando ele tocou m inha m ão e acrescentou: — Não se preocupe. Vai ficar tudo bem .

— Tem certeza?

— Sim . Só preciso... te contar um a coisa. Só isso.

Respondi que tudo bem , pensando agora que tinha algum a coisa a ver com a Connie. Talvez algum a confissão de que ele ainda se sentia fiel a ela. Que conseguia trocar a aliança da m ão esquerda para a direita, m as não se sentia capaz de se livrar dela totalm ente. Que podia m e beij ar, e quem sabe, talvez, fazer am or com igo, m as não se sentia preparado para assum ir um com prom isso porque sem pre a am aria m ais que tudo. Meu pensam ento buscou outras possibilidades, todas relacionadas à Sra. Carr, até que ele m e pediu:

— Pare de se preocupar, querida.

Em seguida, ele colocou a m ão sobre a m inha, levou-a até o seu rosto e a beij ou com ternura. Senti com o se estivesse derretendo, com o se um a m úsica estivesse soando em m eus ouvidos, fiquei com a visão turva, até que tudo congelou e se rom peu ao ouvirm os a voz de Lucy atrás de nós.

— Oi — ela disse, enquanto o treinador e eu pulam os, depois olham os para trás, um depois do outro.

— Oi — respondi, percebendo que ele continuava segurando m inha m ão. Eu a puxei im ediatam ente. Um a reação tardia e desaj eitada.

— Por que acabou de beij ar a Shea? — ela perguntou, a voz tão doce e inocente que m e fez lem brar Cindy Lou Who em O Grinch.

— Não beij ei — gaguej ou o treinador.

— Sim , beij ou, sim .

— Beij ei a m ão dela. Não ela.

— E por que beij ou a m ão dela? — Lucy insistiu enquanto Neil apareceu a seu lado. Ela se virou para o m arido, cruzou os braços e anunciou: — Meu pai acabou de beij ar a Shea.

Por vários segundos, ninguém se m oveu nem falou, até que Lucy deu a volta pelo sofá, sentou na poltrona de frente para nós, a árvore de Natal atrás dela. Neil se aproxim ou e se sentou aos seus pés, parecendo desconcertado. Esperei, em agonia, senti as bochechas queim ando e o suor escorrendo pelo rosto.

— Está acontecendo algum a coisa entre vocês? — Lucy perguntou, por fim . Ela ainda não parecia zangada, m as estava ficando m enos perplexa e m ais inflexível.

Nenhum de nós dois respondeu, o que soou m ais claro e evidente do que qualquer outra resposta que pudéssem os form ular.

— Ai, m eu Deus! — ela exclam ou, olhando para m im , depois para o pai, depois para m im de novo.

Decidi que eu tinha de falar algum a coisa, j á que ela ficou m e encarando.

— Não é bem ... assim — falei, em bora fosse exatam ente assim. Lem brei a m im m esm a de não m entir para m inha m elhor am iga. Para não piorar ainda m ais as coisas.

— Então é o quê? O que é isso?

O treinador se m anifestou:

— Lucy. Som os am igos m uito próxim os. Você sabe disso.

— Nunca fui beij ada desse j eito por um am igo próxim o. Só Neil m e beij a assim .

O treinador lim pou a garganta.

— Só beij ei a m ão dela.

— Tá legal... Bem , então você de fato j á a beij ou? — Lucy questionou, fulm inando-o com os olhos.

Olhei para o treinador, grata por ela direcionar as perguntas a ele, e fiz um a pequena oração interior para que ele m entisse só um pouco. Porém , um a vez m ais, o silêncio falou m ais do que qualquer alto-falante com o volum e no m áxim o.

— Ah, m eu Deus, Neil. Eles se beij aram — ela exclam ou, olhando para o m arido.

— Foi só um a vez. Eu j uro — confessei.

— Quando?

— Faz alguns dias — disse o treinador.

— Onde?

— No m eu escritório — ele acrescentou.

Lucy ficou encarando o teto, depois abaixou a cabeça e a apoiou sobre as m ãos, a voz saindo abafada agora:

— Não posso... Não vou suportar isso. Não posso...

Quando tirou as m ãos do rosto, ela olhou de um j eito suplicante para Neil e m urm urou algum a coisa que não consegui entender direito. Algo com o: Descubra o que está acontecendo.

Neil nos olhou com um a expressão de im potência e de decepção:

— Então, vocês dois sentem algum a coisa um pelo outro?

Silêncio.

— Olha. Acho que é m elhor que contem a verdade... E aí podem os lidar com a situação a partir disso. Basta contarem a verdade para Lucy — ele pediu.

Ouvi o treinador inspirar o ar, exatam ente com o eu fiz, m as prendi a respiração e ele soltou o ar, confessando:

— Sim . Sinto algo por ela.

— Mais do que com o am igo? — Neil indagou, enquanto eu pensei que ele nunca m e pareceu assim tão forte e tão sob controle. Nem m esm o no dia da m orte de sua sogra, em bora ele tenha se saído m uito bem naquela ocasião.

— Sim . Gosto dela — o treinador respondeu.

— E você, Shea? — Neil se virou para m im .

Respondi que sim , m as num sussurro.

— O quê? — Lucy disparou.

— Sim — respondi, agora m ais alto.

Neil m eneou a cabeça, aceitando os fatos, depois se virou para Lucy, com o se estivesse perguntando o que m ais ela queria saber.

— Quando? — ela questionou, agora com as bochechas tão enrubescidas quanto as m inhas. — Quando você com eçou a sentir isso por ele?

— Não antes de... — com ecei, a voz vacilando.

— Não antes do quê? Antes de a m inha m ãe m orrer? Meu pai do céu, espero que não. Ou então... ou então...

Lucy não term inou a frase, graças a Deus, m as im aginei o que ela estava pensando: Ou então vocês dois iriam queimar no inferno.

— Lucy. Tudo isso é m uito novo — expliquei.

— Assim , do nada? — ela rebateu.

— Bem , sim ... quer dizer, não... foi acontecendo gradativam ente... os sentim entos... m as o beij o... aconteceu. Sim , do nada. De repente.

Eu estava gaguej ando, m e retorcendo por dentro, e esperei que o interrogatório prosseguisse. Mas, em vez de fazer outra pergunta, Lucy declarou:

— Quer saber? Vou m e deitar. Não aguento isso. Não quero saber. Só façam o que querem fazer... e, por favor, m e deixem fora disso.

Ela se levantou e o treinador tentou segurá-la, parando em sua frente e segurando seu braço. Ela o puxou de volta e retrucou:

— Estou cansada, pai. Boa noite.

— Boa noite, Lucy... Sinto m uito se isso m agoou você...

— Se?! — ela rebateu, com os olhos cheios de lágrim as.

— Sinto m uito por ter te m agoado — ele insistiu.

Lucy encarou o pai; seus olhos estavam frios e distantes.

— Pois não sinta. Não diga m ais nada. Só espero que valha a pena para vocês dois...

— Lucy — ele cham ou, com a voz m ais forte, m ais insistente, e um ligeiro traço de autoridade. — Espere.

Ela balançou a cabeça, depois saiu da sala, sem ao m enos olhar em m inha direção.