Primeiro e Único

Emily Giffin · Capítulo 44 de 46

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Primeiro e Único

Quarenta e quatro

 

Com o não tinha outras opções, acabei decidindo ir para Nova York, depois de fazer um a reserva no voo m ais barato que consegui na véspera de Natal, o últim o que saiu de Dallas e que pousou no LaGuardia tão cedo que m al dava para ver o aeroporto. Meu pai disse que m andaria alguém m e buscar, m as lá estava ele parado no final da escada rolante, vestindo um terno escuro, segurando um cartaz que dizia: FELIZ NATAL, SHEA MANTEIGUINHA!

Dei risada quando vi o nom e do m eu anim alzinho de estim ação de que eu tinha quase m e esquecido, m e sentindo m ais em ocionada do que j á havia m e sentido em relação ao m eu pai. Esse seria o nosso prim eiro Natal j untos desde que ele saíra do Texas, j á que m inha m ãe havia im posto durante o processo de divórcio que eu não poderia ir para Nova York até com pletar 26 anos. Em outras palavras, ela passaria o Natal com a própria filha, exatam ente com o ele passaria o Natal com a filha dele.

— Oi, pai. Que cartaz legal — cum prim entei, sorrindo.

Ele sorriu, fez um sinal de reverência engraçado, com o quem diz “estam os aqui para isso”, e colocou o cartaz no bolso.

— Feliz Natal, querida.

— Feliz Natal... Você não precisava ter vindo. Eu pegaria um táxi.

— Isso m e fez fugir da m issa — ele explicou, piscando. Depois do terceiro casam ento dele, Astrid o fez se converter ao catolicism o, m as ele não havia aceitado de todo o coração, pelo m enos não na m esm a intensidade com que era fã de futebol am ericano universitário ou republicano. Ele sim plesm ente fazia algum as coisas, m as não sentia.

— Tenho certeza de que ela está em polgada com a m inha chegada — com entei, enquanto cam inhávam os até a única esteira de bagagens ligada. — Deve ser esta aqui — falei, apontando. — Desculpe, eu estava com um a bagagem de m ão, m as m e fizeram despachar...

— Sim . Esteira núm ero três — ele disse, dim inuindo o passo e sem icerrando os olhos para olhar o painel com os horários de chegada e partida. — E pare de se preocupar com Astrid. Ela está cuidando da vida dela. Ela está bem .

— Mesm o assim . É véspera de Natal.

— Ah, pare com isso. Eu quis que você viesse. Já decidiu quanto tem po vai ficar? Quero fazer as reservas e com prar as passagens.

— Reservas para quê? — perguntei, ainda com o futebol am ericano na cabeça. Eu sabia que tanto os Jets quando os Giants estavam fora, então m e perguntei se ele estava se referindo ao Knicks. O basquete tam bém poderia ser um a excelente m udança de assunto, de fato.

— Para shows, peças de teatro, assistir a um a apresentação das Rockettes... o que você quiser fazer.

Sorri, depois avistei m inha m ala surrada e corri para pegá-la.

— Deixe que eu pego para você. Sou seu m otorista, está lem brada? — perguntou, enquanto a em purrei até ele.

— Manteiguinha — com entei, balançando a cabeça e m e virando para a m inha m ala. — Tinha m e esquecido com pletam ente disso.

Meu pai riu, visivelm ente orgulhoso de si m esm o.

— Ninguém te cham a m ais assim ?

— Ah, não. Ninguém pensa no Mets no Texas.

— E na m anteiga? O povo do Texas gosta m uito de m anteiga.

Dei risada.

— O que você quer dizer?

— Lá, todos vocês gostam de fritura — ele disse, com um m aldito sotaque sulista.

— Sim , gostam os — confirm ei, seguindo-o até o estacionam ento. Logo nos prim eiros segundos, senti o frio cortando m eu rosto e m e congelando com o sem pre. — Droga — reclam ei, cobrindo o rosto com o m eu único cachecol.

— Estava bem quente até ontem . Esfriou hoj e — ele inform ou, algo que os Yankees sem pre dizem . Com o se nós os pegássem os num raro m om ento de tem po frio.

— Sei. E o que é quente? Dois, três graus?

— Não! Dez — ele retrucou, vestindo suas luvas de lã enquanto cam inhávam os. — Juro!

— Me diga que conseguiu um a boa vaga no estacionam ento — com entei, lutando para conseguir respirar em m eio a outra lufada de vento.

— Com o sem pre — ele respondeu, apontando para o seu Mercedes preto, que estava bem na nossa frente. Ele abriu a porta do passageiro, depois j ogou m inha m ala no banco de trás, deu a volta até o lado do m otorista, assoviando, com o se estivesse passeando por um cam po de golfe num dia agradável. — Duas vezes em seis sem anas — falou.

Sorri.

— Sim . Posso im aginar.

— Isto é um presente de Natal.

— Então, posso devolver o prendedor de gravata que com prei pra você?

Meu pai sorriu.

— Sim . Tenho um m onte deles. Só não tenho m uitos dias para ficar com a m inha garotinha.

Conversam os sobre am enidades até entrarm os no túnel Queens Midtown. Meu pai pigarreou:

— Então. Sua m ãe m e ligou.

Senti o m eu corpo tenso, fitando os m osaicos suj os da parede, que, do carro, passavam por nós com o um raio.

— Hoj e de m anhã.

— Por quê? — Olhei para ele, com o se não soubesse a resposta.

Ele ergueu as sobrancelhas e ficou olhando para m im por um longo tem po, m ais do que eu gostaria, enquanto estiquei o braço e coloquei a m ão sobre o volante.

— Ela disse que você não retorna as ligações.

— Verdade — confirm ei.

— Porque ela não aprova o seu sentim ento pelo Clive?

— Porque ela é um a megera. Critica tanto que chega a assustar.

— Sim , ela faz isso m esm o.

— Mas, escute, pai, não quero conversar sobre isso. Vim para cá j ustam ente para fugir de tudo.

— Ah, é? Achei que tivesse vindo para ver o seu velho aqui — ele com entou.

Sorri.

— Você não é “velho”. Velhos usam agenda para registrar os núm eros de telefone, dirigem a 50 por hora, usam sapato com velcro. Você está usando um sapato social da Gucci.

— E isso m e im pede de ser velho?

— Sim . Com certeza. Mas não o im pede de ser o m eu pai — acrescentei, m e sentindo estranham ente grata e carinhosa em relação a ele.

— Entendi — ele disse, sorrindo, enquanto saíam os do túnel e entrávam os na Terceira Avenida.

— Bom , acho que deve ter ouvido tam bém que fui dem itida.

Ele fez que sim com a cabeça.

— Mas acho que você não quer falar sobre isso tam bém , certo?

— Exato.

— Bem , caso m ude de opinião, m e avise... Tenho algum as ideias sobre isso.

— Talvez depois. Vam os superar o Natal prim eiro.

— Superar o Natal? Tudo bem , Sr. Scrooge — ele brincou.

— Ah, que besteira! — exclam ei, fingindo que estava brincando.

O dia de Natal foi surpreendentem ente agradável. Fiquei no apartam ento luxuoso do m eu pai e Astrid na Quinta Avenida. Bronwy n e Wiley estavam em St. Moritz esquiando, então ficam os apenas os três, e Astrid se com portou da m elhor m aneira possível, num a versão contida e hum ilde de si m esm a. Ela deveria saber um pouco sobre o que estava se passando na m inha vida, m as m anteve a conversa num tom genérico, evitando suas perguntas introm etidas, e não m encionou, em m om ento algum , o m eu trabalho nem a Walker. Foi com o se o m eu pai a tivesse alertado ou subornado — ou talvez a m atriculado em algum curso intensivo de discrição.

Logo depois do j antar (para o qual Astrid tinha contratado um bufê), ela, com delicadeza, tocou no nom e de Ry an, com m uita diplom acia com entou sobre o fim do nosso relacionam ento e m e perguntou com o eu estava.

— Estou bem . Obrigada, Astrid — respondi, com sinceridade.

— Sinto m uito que não tenha dado certo. Nada do que eu falar pode servir, m as acho que ter um m arido fam oso teria sido bem com plicado. As m ulheres se j ogam em cim a. E, você sabe, eles vivem sob os holofotes.

Sorri e falei:

— Ah, fala sério, Astrid! Você adora ser o centro das atenções!

— Tá legal, tudo bem . Acho que seria m aravilhoso! Mas tenho a sensação de que você teria odiado! — ela confessou, enquanto m eu pai colocava m ais vinho em nossas taças. Procurei a intenção oculta, por força do hábito, tendo em vista o cinism o dela. Mas Astrid acrescentou: — Adm iro isso em você. Você gosta das coisas... sim ples.

Fiquei olhando para ela.

— No bom sentido.

— É autêntica — intercedeu m eu pai.

— Sim , foi isso o que eu quis dizer — continuou Astrid, assentindo com firm eza. — Autêntica, é isso.

— Bem , obrigada, gente — agradeci, tom ando um a boa dose de vinho, pensando em Ry an e no e-m ail que ele tinha m e enviado havia apenas alguns dias. Ele não m encionou nada sobre voltar com igo, só escreveu algum as linhas m e agradecendo e dizendo que estava indo a um psicólogo e se esforçando para lidar com seus problem as. Respondi dizendo que estava m uito feliz pela notícia, depois lhe desej ei sorte no j ogo de revanche e na vida. Em bora eu realm ente não acreditasse que Ry an fosse capaz de estuprar alguém , acreditava na história de Tish e na de Blakeslee tam bém , certa de que ele havia sido tão violento com elas quanto fora com igo. No entanto, e de m odo surpreendente, eu não sentia nenhum a m ágoa em relação a ele, apenas alívio por não estarm os m ais j untos e esperança de que ele pudesse m udar, de fato. Levei as m ãos aos m eus brincos de diam ante. Era a prim eira vez que eu os colocava desde o nosso rom pim ento: — Ry an não é m á pessoa. Ele só não é para m im .

Depois disso, Astrid m udou de assunto e com eçou a falar sobre os tratam entos de fertilidade de Bronwy n, explicando que ela iria, em fevereiro, para Cornell fazer a segunda fertilização in vitro. Essa era um a novidade para m im , e eu falei que sentia m uito por saber que ela estava com problem as para engravidar. Enquanto Astrid tagarelava sobre o processo, eu discretam ente verifiquei o celular pela centésim a vez no dia, ainda na esperança de receber algum a notícia do treinador em pleno Natal. Mas não havia nenhum sinal dele. Aliás, nenhum sinal de ninguém da Walker, exceto Miller, que m e m andou um a m ensagem de texto: Feliz Natal para a minha mamãe-noel favorita, ho ho ho! Respondi com : Por que uma árvore de Natal é melhor que um homem? Porque ela fica acordada o tempo todo, tem bolas bonitas e fica bonita quando está com as luzes acesas!

À m edida que a noite transcorria, eu sentia cada vez m ais falta do treinador e tentava tapear a dor com Barolo e cheesecake. O cheque de dois m il dólares que ganhei de Astrid e do m eu pai tam bém m e aj udou, e eu calculei que ele m e bancaria por alguns m eses enquanto eu procurava trabalho. Sentindo-m e ligeiram ente constrangida, m e prontifiquei a dizer que o valor era m uito alto, m as Astrid m e assegurou que havia gasto o m esm o valor em um a bolsa que deu de presente a Bronwy n, e acrescentou com gentileza:

— Im aginei que você gostaria de escolher a sua, por isso o cheque. — Com o se alguém ali acreditasse que eu pagaria um valor desse em um a bolsa. Era absurdo, m as bem típico dela, então sorri e agradeci:

— Bom , obrigada. De verdade. Foi m uito generoso da parte de vocês e eu gostei m uito. Ainda m ais por vir neste m ês.

E eu de fato m e senti m uito bem por receber um bom presente do m eu pai sem ter de carregar o peso nas costas.

Então, depois que lhes entreguei m eus presentes (brincos da butique de Lucy para Astrid, m eias xadrez e um livro de capa dura sobre charutos para o m eu pai), abrim os outra garrafa de vinho e nos sentam os para assistir a Uma história de Natal. Não parecia o tipo de film e de que m eu pai gostaria, m as ele gargalhou a cada “Não cutuque a onça com vara curta” e ficava em polgado durante as cenas em que os garotos ficavam com a língua presa no m astro da bandeira. Ele m e contou que seu irm ão, m eu único tio, tinha feito a m esm a coisa quando era pequeno e que a língua dele grudou m esm o no m astro. Então, bem no m om ento em que Ralphie recebe o seu anel decodificador pelo correio, m eu telefone tocou e o núm ero de Lucy apareceu na tela.

— Não precisa pausar. Já volto — avisei, buscando a segurança do m eu exuberante quarto de hóspedes antes de atender.

— Você não ia m e ligar? — ela perguntou logo que eu disse “alô”. Lucy parecia m agoada, o que m e irritou um pouco. Ela tinha m uitas razões para estar triste no dia de hoj e, m as nenhum a para ficar chateada com igo.

— Desculpe. O dia passou e eu nem percebi — j ustifiquei-m e, com um a declaração ridícula, considerando quão devagar os m inutos tinham passado.

— Eu sei. Por aqui tam bém . E aí, com o foi o seu Natal?

— Adorável — respondi. Um a palavra que eu nunca usava.

Ela apelou:

— Adorável? Você tem andado dem ais com Astrid.

— Dessa vez ela não se saiu nada m al. É com o se tivesse feito um transplante de personalidade j unto com a últim a cirurgia plástica.

Lucy deu risada.

Hesitei por alguns segundos antes de perguntar:

— O Papai Noel trouxe um presente legal para Caroline?

— Sim . Muito legal.

— Que bom , que bom — falei, m ais um a frase estranha seguida de um a pausa. — Diga que eu a am o, por favor.

— Vou dizer. Quer falar com a sua m ãe? Ela chegou agora há pouco...

Com ecei a responder que não, depois m e obriguei a responder que sim , sentindo a pele arrepiar ao ouvir a voz dela do outro lado da linha.

— Oi, querida. Feliz Natal.

— Feliz Natal, m ãe.

— É a prim eira vez desde que você nasceu que não a vej o neste dia. Nem parece que é Natal.

— Sim . É m eio estranho. Mas está sendo legal ficar aqui em Nova York e tudo... — Pensei em perguntar se ela queria falar com m eu pai, porque, bem no fundo, gostaria que os dois pudessem se unir a m eu favor, algo com pletam ente diferente do que havia acontecido na m inha infância. Mas sim plesm ente deixei para lá.

Ouvi a voz estridente de Caroline ao fundo, depois a risada discreta do treinador. Senti um a dor no peito quando m inha m ãe e eu nos despedim os e ela devolveu o telefone a Lucy.

— Oi.

— Oi — respondi, esforçando-m e para ouvir o treinador de novo, aliviada e perturbada ao m esm o tem po por percebê-lo tão anim ado.

— Tem certeza de que está bem ? — perguntou.

— Sim . Por que não estaria? — falei, tentando não soar tão petulante quanto eu m e sentia.

Lucy m urm urou algum a coisa que não consegui entender, depois disse:

— Ei. Meu pai está aqui tam bém . Quer falar um “oi”?

— Hum ... pode ser — respondi, sentindo um nó na garganta. — Diga que eu m andei um Feliz Natal.

— Vou dizer.

— Certo. Bom , m elhor eu voltar a assistir ao film e agora...

— Ah... tudo bem . O que está assistindo? — perguntou, visivelm ente sem querer desligar. —A felicidade não se compra?

Tive de m e conter para não dizer que aquele era o film e favorito do pai dela e não o m eu, e respondi:

— Não. Uma história de Natal. Você sabe qual é. “Não cutuque a onça com vara curta.”

— Ah. Sim . É verdade... Bom , curta o film e. E a noite.

— Você tam bém .

— E o j ogo? Decidiu algum a coisa?

— Ainda não. Mas eu te aviso — respondi.

— Tá bom . Estam os com saudade. Te am am os. Feliz Natal, Shea.

— Te am o tam bém , Lucy. Feliz Natal — desej ei. Desliguei o telefone, pensando: Não tem nada de feliz neste Natal. E nada para aproveitar nesta vida.

É claro que eu estava sendo dram ática. Mas, por outro lado, sentir-se m agoada em plena época de Natal era algo extrem am ente dram ático.