Primeiro e Único

Emily Giffin · Capítulo 31 de 46

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Primeiro e Único

Trinta e um

 

No sábado de m anhã, o dia do últim o j ogo do Walker pela tem porada regular, acordei enj oada. Minha aversão pelo Texas sem pre agravava o nervosism o de sem pre, e este ano era ainda pior, pois havia m uito m ais coisa em j ogo. Se ganhássem os, disputaríam os o cam peonato nacional. Se perdêssem os, o Texas saborearia para sem pre o gostinho de ter sido o estraga-prazer, e nós term inaríam os o ano na terceira ou quarta posição, na m elhor das hipóteses, o que seria, de certo m odo, m ais doloroso do que um a tem porada m edíocre.

Saí da cam a preocupada dem ais para tom ar café, nauseada dem ais para com er, e fiquei andando de um lado para o outro, rezando e rem exendo nos m óveis, inquieta. Ouvi um pouco de m úsica e até fiz algum as posturas de ioga e exercícios de respiração, m as nada adiantou. Pedi a m im m esm a que m e acalm asse. O j ogo era im portante — com o sem pre foi em relação aos Longhorns —, m as havia coisas m ais im portantes na vida, destinos piores do que perder para os Longhorns. Naquele m esm o dia, m uitas pessoas receberiam diagnósticos terríveis sobre doenças. Morreriam em acidentes trágicos. Outras, ainda, seriam dem itidas, perderiam suas casas para o banco, seus cônj uges para o divórcio, seus m elhores am igos para diferenças m esquinhas. Anim ais de estim ação queridos teriam de ser sacrificados. Cartas de suicidas seriam escritas. Hom ens inocentes, presos. Desastres naturais poderiam acontecer e derrubar vilas inteiras em diferentes partes do m undo.

É apenas um jogo, repeti para m im m esm a. Não é questão de vida ou m orte. Mas não im porta o quanto eu tentasse perm anecer filosófica: não conseguia m e convencer sob essa perspectiva. Sob nenhuma perspectiva.

Então, algum as horas depois, eu realm ente vom itei em um a lata de lixo do estádio.

J.J. m e surpreendeu e se aproxim ou pelo m eu lado esquerdo, rindo.

— Você acabou de fazer o que eu estou pensando? — A voz dele ecoou no corredor cavernoso que logo ficaria cheio de em presas e fornecedores.

Lim pei a boca com um guardanapo, tom ei um gole de água da garrafa que havia na m inha bolsa e enfiei um chiclete na boca antes de m e virar para olhar para ele.

— Sim , fiz sim .

— E algo m e diz que não foi peixe estragado que você com eu.

— Não m esm o! Foi “boi castrado” — respondi, usando o m eu apelido favorito para os Longhorns.

— Um pouco pesado para um a j ornalista im parcial.

Dei risada, m as logo fiquei séria de novo, e o rosto de J.J. refletia exatam ente a m aneira com o eu m e sentia.

— Está com a sensação de que é agora ou nunca? — perguntou ele.

— Sim . Por que estam os nos sentindo assim ? — investiguei.

— Porque estam os muito perto do nosso obj etivo. Não consigo im aginar quando chegaríam os tão perto assim de novo. Poderia levar anos. Tenho 61. Não tenho todo o tem po do m undo.

— Eu sei. É preciso ser muito bom ... Mas ter m uita sorte tam bém . — Cruzei os dedos, encarei o teto do átrio e rezei pela centésim a vez naquela m anhã.

— Você acha que vam os conseguir passar? — perguntou.

Dei de om bros, pensando que, quando era realm ente necessário, eu nunca tinha bons pressentim entos. O problem a não era não acreditar no m eu tim e, m as ser um a daquelas fãs de verdade que sem pre condenavam o j ogo à catástrofe, da m esm a form a que os pais sem pre se preocupam com a possibilidade de um a tragédia se abater sobre seus filhos. O am or sem pre faz tudo parecer instável, e, quando param os para pensar nisso, tudo na vida é frágil, fugaz e, por fim , trágico. Sim , alguém ganharia esse j ogo, e dois tim es nacionais disputariam um cam peonato em j aneiro. E alguém ganharia o próximo j ogo. E alguns j ogadores j á consagrados no program a encerrariam suas carreiras em pleno auge. Mas, para outros, m uitos outros, a tem porada de futebol am ericano universitário term inaria em absoluta decepção. Até m esm o desgosto. Assim com o a vida.

J.J. deu um tapinha nas m inhas costas:

— Quando foi a últim a vez que você “botou os bofes pra fora” antes de um j ogo?

— No Cotton Bowl.

— Bem , isso é um bom sinal, não?

— Sim — falei, depois de j á ter pensando nisso sob um ângulo supersticioso. Afinal, não im porta o quanto eu fosse pessim ista antes de um grande j ogo, eu nunca deixava de procurar sinais, nunca deixava de rezar pedindo pelo alinham ento correto das estrelas sobre o rio Brazos.

Com o pude constatar, não havia necessidade de ter ficado andando de um lado para o outro, de vom itar nem de rezar, porque o Walker m assacrou o Texas. Fom os m ais rápidos, m ais precisos e m elhores em quase todas as j ogadas. Foi um a m istura de arte, ciência e de um belo e glorioso ato divino, e o placar final brilhou m ais do que a própria lua: Walker 28, Texas 0.

Sentindo-m e nas nuvens, saí correndo para a sala de im prensa, contando os m inutos para ver o treinador, para ouvi-lo recapitular a partida com a introdução de sem pre: “Para falar a verdade...”. Ao entrar, ele exam inou a sala com o se estivesse procurando algo ou alguém . Até que m e viu de pé, ao fundo, com alguns caras do The Dallas Morning News. Ficam os olhando um para o outro, e ele m e deu um a piscadinha. Me derreti por dentro, não consegui m e conter e sorri para ele.

— Deixe-m e adivinhar — disse um dos repórteres próxim os a m im com um a voz sarcástica. — Você torce para o Walker.

— Sim . E deixe-m e adivinhar. Você torce para o UT-Austin — j oguei, sabendo que era verdade. O Austin enfurecia os fãs do Longhorn, que gostavam de pensar na faculdade com o a Universidade do Texas, o que se confirm ou pela expressão de ira dele.

Alguns segundos depois, no decorrer da coletiva de im prensa, fiz inúm eras anotações, esperando até o final para fazer m inha pergunta.

— Sim , Shea? —o treinador cham ou, apontando para m im .

— Parabéns pela tem porada invicta — iniciei, com em orando que essas tenham sido as m inhas prim eiras palavras pós-j ogo para ele.

— Obrigado — ele agradeceu, assentindo, esperando pela pergunta.

Respirei fundo e segui em frente:

— Então... Todos nós sabem os que você teve um ano excepcionalm ente difícil, e acho que talvez você queira falar um pouco sobre o significado pessoal dessa tem porada.

O treinador m eneou a cabeça, com o sem blante sério.

— Sim , este ano tem sido m uito difícil para m im e para m eus filhos, Lucy e Lawton. Minha esposa, Connie, era tudo para nós e para este program a e a nossa com unidade, e ela deixou um vazio... — Ele fez um a pausa, piscou, olhou para baixo, aparentem ente abalado, e, por alguns segundos, m e arrependi da pergunta. Mas, quando ergueu a cabeça, ele se recom pôs e prosseguiu: — Então, term inar a tem porada regular dessa form a tem um significado enorm e para m im ... e acho que é a últim a hom enagem a ela. — Ele pigarreou e continuou: — Gostaria de agradecer aos j ogadores, treinadores e à nação de Broncos por tornar este dia possível. Muito obrigado.

Em seguida, ele sorriu e saiu da bancada.

A entrevista coletiva continuou com Mack Brown e alguns de seus principais j ogadores. Perm aneci e fiz algum as anotações, m as j á tinha o que precisava para escrever m inha m atéria, sabia qual seria a abordagem , então voltei o m ais breve possível para a sala de im prensa para escrever. Eu estava ficando rápida, e, naquela noite, as palavras, frases e parágrafos inteiros brotaram de m eus dedos, de m odo que term inei de escrever em m enos de noventa m inutos, um recorde. Foi um relato factual, m as tam bém poético, e eu fiquei m ais orgulhosa da m atéria do que qualquer outra coisa que j á havia escrito. Concluí o texto com a fala do treinador sobre a Sra. Carr. Enviei por e-m ail para Sm iley, que respondeu: “Muito bom . Parabéns”.

Não sei ao certo se ele m e parabenizou pela m atéria ou pelo j ogo, m as considerei que tenha sido pelos dois m otivos. Peguei o carro e fui direto para o Third Rail, onde Lucy, Neil, Lawton e Ry an estavam com em orando com um a dúzia de outros am igos, conhecidos e antigos colegas da Walker. Todos os bares da cidade estariam bom bando naquela noite, m as eu não conseguia im aginar euforia m aior do que a que havia aqui, e tive certeza absoluta de que as notícias do dia seguinte m ostrariam o bar com o o novo reduto de Ry an. Todos nos abraçam os, beij am os e nos cum prim entam os. Eu não conseguia sequer m e lem brar da últim a vez em que m e senti tão grata e eufórica depois de um j ogo, nem de um a noite m ais em polgante do que essa.

Até que ela deixou de ser.