Primeiro e Único
Dezessete
Após um a sem ana, depois que desbancam os o Oklahom a State e subim os três pontos na escala, J.J. e sua esposa, Mary Ann, fizeram um a festa de despedida para m im , em bora eu tenha insistido em dizer que não iria a lugar nenhum e que todos m e veriam com a m esm a frequência de sem pre. Eu odiava ser o centro das atenções e esperava que as coisas se aj eitassem , para que assim a festa se transform asse em um a com em oração norm al com as figurinhas carim badas do departam ento de esportes. Mas, quando estacionei do lado de fora da casa dos Justuses e avistei o Porsche preto de Ry an, soube que não haveria nada de norm al naquela noite. Nada que envolvia Ry an poderia ser com um . Não pude evitar um súbito incôm odo pelo fato de ele estar ali, j á que eu não tinha lhe contado exatam ente sobre a festa, nem para ninguém do trabalho que estávam os nam orando. Concluí que a presença do m enino de ouro do Walker só poderia ter sido arm ada por Lucy, pois a discrição nunca foi m uito o ponto forte dela.
Saí do carro, entrei na casa e encontrei Ry an na antessala, entregando um a garrafa de vinho a Mary Ann enquanto ela falava que estava encantada por vê-lo, que ele j ogava m aravilhosam ente bem e que todos nós sentíam os orgulho dele. Quando os dois m e avistaram e vieram m e cum prim entar, consegui m udar o m eu hum or e m e sentir grata. Posso não gostar desse tipo de coisa, m as realm ente foi m uito legal da parte de todos prom over aquela festa, inclusive de Ry an. Ele deu alguns passos em m inha direção, deslizou o braço sobre a m inha cintura e m e beij ou na boca, deixando pouquíssim as dúvidas sobre o nosso relacionam ento, enquanto Mary Ann elogiou o m eu vestido azul-turquesa.
— Com prei na loj a da Lucy. Obrigada. E m uito obrigada pela festa — falei, enquanto nós três fom os para a sala de estar, onde j á havia m uitas vozes e risos.
— Está surpresa? — sussurrou Ry an no corredor, com o braço envolvendo o m eu om bro.
— Sim . Muito. Obrigada por ter vindo — falei, sorrindo para ele e m e preparando para nossa entrada triunfal.
— Mas é claro que eu viria, querida. Não perderia de j eito nenhum — afirm ou. Depois, Ry an m e beij ou de novo, dessa vez bem à vista de Scott Street, o chefe da com issão técnica, e de Tim Sey m our, o conselheiro acadêm ico a quem o treinador se referia de m odo j ocoso com o “O Ceifador”, porque ele só aparecia para dar m ás notícias. Tanto Scott quanto Tim pareceram surpresos ao ver Ry an, e passou pela m inha cabeça que o m eu relacionam ento suplantaria o m eu novo trabalho, e que seria o fato m ais im portante aos olhos da m aioria.
Tentando agir da m aneira m ais natural possível, com ecei a rodada de saudações e abraços, observando, com o norm alm ente eu fazia nesse tipo de encontro, que o grupo era eclético, quase tão diversificado quanto poderia ser, considerando que todos nós trabalhávam os em um a faculdade pequena e particular do Texas. Gay s e heterossexuais, negros e brancos, j ovens e velhos. Isso era um a das coisas que eu adorava no esporte: a diversidade intrínseca e o vínculo intenso que estavam associados ao fato de ter algo em com um . Nós realm ente éram os com o um a fam ília unida, com o a Sra. Carr sem pre dizia. Em bora o nosso “chefe” ainda não tivesse chegado, Lucy j á estava trabalhando na sala, com Neil ao seu lado. Vestindo um terninho coral lindo e um colar de pérolas longo, ela brilhava. Até m esm o o cabelo reluzia com as m echas de luzes recentem ente retocadas. Ela veio correndo para m e dar um abraço. Seu hum or era contagiante, e logo a absolvi diante da adm issão de que ela e Ry an tinham m esm o arm ado tudo aquilo.
— Sei que você não gosta de surpresas, m as...
— Mas o quê? — perguntei, sorrindo, m as tentando m anter a m inha posição.
— Mas... sur-pre-sa! — exclam ou ela, dando um toque de m ão com Ry an, com o se os dois tivessem acabado de com pletar um a invasão m ilitar tática. Enquanto isso, o treinador Carr fez a sua entrada discreta, m as ainda assim grandiosa, de cam isa polo e calça cáqui, circulando entre nós enquanto Ry an foi até o bar im provisado para buscar um a taça de cham panhe para m im .
— Olá, m eninas. Vocês duas estão lindas — ele disse, m e fazendo lem brar de com o falava conosco quando éram os adolescentes, quando nos arrum ávam os para algum a apresentação de dança ou algum a festa.
— Oi, pai. — Lucy o beij ou.
— Oi, treinador — respondi, sentindo o calor da presença dele e ao m esm o tem po m e esforçando ao m áxim o para afastar m inha epifania m ais recente e inquietante. — Com o foi o treino?
— Tirando o fato de que a nossa linha ofensiva foi tão inútil quanto um a porta com tela contra m osquitos num subm arino?
Caí na gargalhada, e, em seguida, m e lem brei de outra piada recente que ele usou para criticar os nossos linemen.
— Um pouco m enos incrim inador do que ser um cinzeiro em um a m oto?
Ele arqueou a sobrancelha:
— Talvez não. Pelo m enos fum ar num a m oto não vai te m atar.
Sorri enquanto Ry an voltou com duas taças de cham panhe. Ele m e entregou um a e depois deu um abraço caloroso e viril no treinador, afirm ando que era ótim o vê-lo.
O treinador sorriu:
— Para m im tam bém , filho. Que j ogão na segunda passada, hein?
— Sim , fiquei sabendo que você assistiu com a Shea. E com o Miller — com entou Ry an, com um a careta prem editada.
Felizm ente, eu tinha contado a Lucy sobre a reação de Ry an ao saber que eu tinha visto Miller, então ela logo saiu em m inha defesa:
— Sim . A Shea m e contou com o foi chato ele ter aparecido do nada e se introm etido na conversa entre ela e o m eu pai.
Olhei para ela, pensando que não tinha contado as coisas exatamente daquele j eito, m as eu sabia o que Lucy estava fazendo e apreciei o seu esforço para m e aj udar. Mesm o assim , ainda m e senti obrigada a pegar leve com Miller.
— Ele não fez por m al — afirm ei, olhando para o treinador, que assentiu.
Mas Ry an não ia deixar barato.
— Esse cara é encrenca.
Lucy balançou a cabeça, concordando.
— Encrenca é pouco.
Mudei de assunto e voltei a falar de futebol am ericano, e o treinador olhou para seu relógio discretam ente, confirm ando a m inha suspeita de que tinha aparecido só para ser gentil e estava contando as horas para poder ir em bora. O que se confirm ou quando, m eia hora m ais tarde, depois que tanto o treinador quanto eu tínham os conversado sobre diferentes assuntos, ele m e procurou de novo, m e deu um tapinha no om bro e disse que tinha m esm o de ir em bora a fim de se preparar para o próxim o j ogo.
Respondi que com preendia.
— Eu trouxe um a coisinha para você. Está lá no m eu carro. Vem com igo buscar? — ele perguntou.
— Tudo bem — falei, m e sentindo m ais feliz do que deveria.
— Eu ia te dar naquela outra noite — explicou ele, enquanto cam inhávam os para o hall. — Mas aí o Miller apareceu e... acabei esquecendo.
Meneei a cabeça, e nós dois perm anecem os em silêncio enquanto cam inham os até o carro dele. Fiquei esperando no gram ado, observando enquanto ele abriu a porta do lado do passageiro, abaixou-se até o assoalho e pegou um pacote plano, retangular e em balado em papel kraft.
O treinador m e entregou o em brulho:
— Considere isso com o um presente para parabenizá-la e para lhe desej ar boa sorte. Os dois em um só.
Aliviada pelo fato de ele não ter cham ado aquilo de presente de “despedida”, peguei o pacote e falei:
— Não sei o que dizer... Obrigada, treinador.
— De nada, m enina — disse ele, com os olhos brilhando. — Estou m uito orgulhoso de você. — Ele m ordeu o lado direito do lábio inferior e acrescentou: — Agora volte para lá e aproveite a festa. E não deixe que o Ry an sej a o centro das atenções. Hoj e tem que ser você.
— Obrigada, treinador — agradeci e estive bem próxim a de abraçá-lo.
Mas não o abracei. Fiquei lá, parada, enquanto ele entrava no carro e partia. Meio zonza, voltei para dentro, esperando que ninguém tivesse sentido a m inha falta. Porém , enquanto eu guardava o pacote no hall, Lucy apareceu no corredor com sua m ente acelerada processando cada detalhe.
— Onde você estava? O que é isso? — interrogou ela, olhando para o m eu presente.
— Lá fora. Foi o seu pai quem m e deu.
— O que foi que ele te deu?
Dei de om bros e respondi que não sabia.
— Ora, então abra!
— Depois.
— Não. Agora. Estou curiosa para saber com o ele se virou sem a aj uda da m inha m ãe!
Sua fala foi direta e sem rodeios, m as eu a conhecia o suficiente para saber o que estava pensando: que ele tinha feito todo o esforço para arranj ar um presente para m im e tinha se esquecido com pletam ente do aniversário dela. Senti um a pontada de culpa quando ela pegou o pacote e voltou para a festa.
— Olha, Neil! — anunciou ela enquanto todos pararam para observá-la. — Meu pai deu um presente para a Shea! Não foi gentil da parte dele?
Neil assentiu e sorriu, m as algo no olhar dele confirm ou o m eu palpite. Em bora tenha sido m uito rápido, pude ver no rosto dele um a expressão de piedade ou de conforto. De repente, tive certeza de que eles tinham conversado sobre a m inha am izade com o treinador — assim com o tam bém estava certa de que ela havia confessado que sentia ciúm es ou no m ínim o frustração pelo fato de ela e o pai aparentem ente terem tantos problem as de relacionam ento enquanto com igo era tudo tão m ais fácil.
Ry an e m ais m eia dúzia de outros convidados a seguiram até o sofá, onde ela ordenou que eu m e sentasse e abrisse o pacote. Minhas bochechas queim avam enquanto eu puxava cuidadosam ente o papel de em brulho, que revelou um artigo de j ornal desgastado pelo tem po e em oldurado. Naquele instante, reconheci que era o prim eiro artigo que eu havia escrito para o j ornal do ensino m édio, quase vinte anos atrás. Tratava-se de um a poesia cheia de erros gram aticais intitulada “Por que am am os Walker”, acom panhada de um a foto que eu havia tirado do treinador Carr em ação no cam po, e outra do então quarterback do Walker, Adam Jipe, segurando a bola um pouco antes de arrem essá-la, os braços erguidos, flexionados, prontos para um arrem esso na velocidade de um a bala. Ao lado da m inha assinatura, em um pedaço de espaço em branco, o treinador rabiscou a caneta: “Nós também te amamos, menina. Eu sabia que você conseguiria! Treinador C”.
Assim que todos processaram a inform ação e descobriram do que se tratava, houve um couro de “oh!” e “ah!” e J.J. aproveitou o m om ento para m e entregar um a caneta-tinteiro azul-turquesa e um a lanterna da Walker, que reconheci serem da loj inha da faculdade.
— E este é um presente de todos nós aqui para agradecê-la por essas duas décadas de extrem a dedicação.
— Duas décadas? Não faz tanto tem po assim ...
J.J. m e lem brou de um trabalho voluntário que fiz quando era criança, detalhando algum as das tarefas m ais corriqueiras. Sorri enquanto Roxann Moody, gerente da com issão técnica, levou as m ãos em concha à boca e gritou:
— Discurso! Discurso!
Ladeada por Lucy e Ry an, aceitei o desafio e agradeci a presença de todos, dizendo o quanto apreciei os presentes, e fiz um agradecim ento especial a J.J. e a Mary Ann, acom panhado de um lem brete de que eu continuaria vendo todos com frequência. Encerrei erguendo a m inha taça e exclam ando: “Vai, Broncos!”. Todos bateram palm as e assoviaram , e eu pensei que estivesse livre. Foi então que Ry an pediu silêncio aos convidados e anunciou:
— Gostaria de dizer um a coisa. — Eu não fazia a m enor ideia do que ele havia guardado na m anga, m as pensei no que o treinador tinha dito lá fora. Ele definitivam ente conhecia m uito bem o seu ex-quarterback. A sala ficou em com pleto silêncio, e todos fizeram cara de adoração enquanto Ry an continuou: — Eu gostaria de agradecer J.J. e Mary Ann por terem m e convidado para participar desta noite — declarou, fazendo um a pausa proposital. — Com o sem pre, é ótim o voltar para casa, especialm ente agora que estou com a Shea. Só quero agradecê-la por ser quem é. E a todos vocês por serem tão bons para ela. Isso m e faz ter um orgulho im enso de ser um Bronco.
Todos desfaleceram enquanto eu suava, m e abanando com a m inha própria m ão, trocando um olhar de desespero com Lucy, que sabia exatam ente o que eu estava pensando. Acabe logo com isso. E então, quando pensei que não haveria com o m e sentir m ais desconfortável, Ry an enfiou a m ão no bolso e m e entregou um a caixinha em brulhada com papel de presente.
— Abre! — exigiu Lucy, e eu sabia que não havia com o conter a m aré agora, então desem brulhei a caixa o m ais rápido que pude e vi que era um a caixinha de veludo cinza, do tipo usado para guardar j oias caras. Prendendo a respiração, abri a tam pa e todos na sala perm aneceram em silêncio total enquanto fitávam os o par de brincos com um a enorm e pedra de diam ante em cada um deles.
— Parabéns, Shea — ele disse, fazendo um a deixa para aplausos calorosos e alguns assovios.
— Puta m erda! — Lucy deixou escapar.
— Isso é... dem ais para m im — afirm ei para Ry an.
Ele balançou a cabeça, negando:
— Não, não é.
— Coloque — disparou Lucy.
Congelei. Tudo o que eu queria era devolver o presente a Ry an, m as eu sabia que essa não era um a opção, pelo m enos não ali, naquele m om ento, então tirei as m inhas argolas douradas de bij uteria e as substituí pelas únicas pedras de diam ante que j á havia tido.
Sem saber o que falar, olhei para Ry an e balancei a cabeça, enquanto todos perm aneceram sorrindo e olhando, pasm os. Para m im , para ele e para as pedras enorm es que agora enfeitavam m inhas orelhas. Forcei um sorriso, tentando j untar as peças para com preender com o aquilo tinha acontecido, com o as coisas aconteceram tão rápido assim , do sexo para os ciúm es e depois para os diam antes.
Levei a m ão à orelha para tocar um a das pedras, quase desej ando que não fossem reais. Ou que fossem , m as que Ry an fosse tão rico que aquilo seria com o dar um buquê de flores para a nam orada. Por outro lado, talvez as coisas estivessem m esm o ficando sérias.
Independentem ente do que estivesse acontecendo, eu não fazia a m enor ideia do que dizer nem de com o agir, e, o m ais im portante, com o sair dos holofotes. Então, apenas continuei olhando para baixo, fitando o artigo em oldurado que o treinador m e deu e que eu deixei sobre a m esa de café, e sua m ensagem escrita à m ão, com a caligrafia m eio irregular: Nós também te amamos, menina.
Naquela noite, tentei devolver o par de brincos que ganhei. Ry an se recusou a aceitá-los de volta, depois ficou agitado:
— Eu te dei de presente. Você tem o hábito de devolver o que ganha? — retrucou.
— Mas são caros dem ais — afirm ei pela terceira vez.
— Não para m im . Eu posso pagar por eles — declarou.
— Mas...
Ry an m e interrom peu com um beij o:
— É sério, Shea. Você vai m e deixar m uito chateado se continuar com isso. Com prei esses brincos para você. Quero que fique com eles. Agora, fique quietinha.
— Tudo bem — respondi, retribuindo o beij o. Então, prendi o cabelo num coque im provisado e balancei a cabeça de um lado para o outro. — Ficaram bonitos?
— Lindos. Com o você — ele respondeu.
— Então, nós estam os m esm o j untos... assim ? — Deixei escapar.
— Assim com o?
— Com o esses dois brincos de diam ante?
Ry an deu risada:
— Sim , estam os j untinhos com o os brincos. Form am os um par.
— Você não acha que estam os indo... rápido dem ais? — questionei.
— Sim . Um pouco — confirm ou ele, o que m e fez sentir m elhor. Pelo m enos ele não fingiu que achava ser esse o ritm o norm al das coisas. — Mas, se você parar para pensar, nos conhecem os desde sem pre... Não é com o se sim plesm ente tivéssem os acabado de nos conhecer...
— É verdade — concordei.
— Sou um cara m uito decidido. Sei bem o que quero.
Sorri.
— E o que você quer?
— Você, m eu doce — ele respondeu, inclinando-se para m e beij ar.
Eu m e senti a m ulher m ais sortuda do m undo.