Primeiro e Único
Vinte e seis
Nas duas prim eiras vezes em que eu disse que deveria ir em bora, ele protestou, m as, quando j á era m ais de m eia-noite e eu o peguei abafando um bocej o, levantei-m e e disse que agora era m esm o hora de ir. Ele m e levou até o portão da garagem e m e deu um abraço, depois um beij o. Foi um beij o na bochecha, nada dem ais, m as ainda assim m uito significativo, j á que era o prim eiro que ele m e dava desde que eu tinha dez anos. Saí de lá tão atordoada que não percebi que tinha deixado a bolsa na cozinha até a m anhã seguinte. Esperei até as nove, para o caso de ele ainda estar dorm indo, e disquei o único núm ero no m undo, além do m eu, que eu sabia de cor.
— Sim , você deixou a sua capanga aqui — avisou ele antes que desse tem po de eu perguntar.
— Capanga? — perguntei, zom bando da sua term inologia ultrapassada.
— Sim . Teve sorte de não ter sido parada pela polícia. Com o ia explicar que estava sem a carteira?
— Fácil. Eu diria que estava com você... Diria o seu nom e. Isso sem pre funciona aqui na cidade.
— Sim , j á passam os por isso outra vez, está lem brada? — ele perguntou, se referindo àquele episódio em que eu dirigi em briagada.
Estrem eci diante da lem brança.
— Meu Deus, você m e deixou assustada aquela noite. Me assustou m ais do que os policiais.
— Era essa a ideia — confessou.
— Sabe, naquela noite fiz um a prom essa... — com ecei, com a voz vacilante.
— Que prom essa?
— Nunca m ais te decepcionar.
— E não decepcionou — ele declarou. — E então? Vai vir aqui buscar esse negócio ou não?
— Sim . Já estou indo buscar a m inha capanga.
Depois de um banho rápido, lá estava eu no cam inho de volta à casa do treinador, com m eu j eans, um a blusa de m oletom velha do Cotton Bowl e um rabo de cavalo im provisado. Eu estava toda em polgada quando parei na entrada e avistei o carro de Lucy. Em pânico, com ecei a voltar de ré, até que percebi que ela estava no banco da frente, olhando para m im pelo retrovisor. Ela acenou ligeiram ente, depois saiu do carro, com um vestido azul-m arinho, um sapato alto nude e um colar fio duplo de pérolas. Lucy esticou o braço até o banco traseiro para tirar Caroline da cadeirinha, e depois as duas vieram até o m eu carro. Fiquei com o pensam ento acelerado, tentando encontrar um a explicação para estar ali, num dom ingo de m anhã tão cedo, enquanto lancei toda a m inha atenção para m inha afilhada, ganhando alguns segundos para pensar.
— Ei, querida! Você está linda! — exclam ei enquanto Caroline se arrastava sobre o m eu colo e com eçava a brincar com os botões do painel do m eu carro. — Am ei o seu vestido. E as suas tranças.
— É trança francesa! Foi a m am ãe quem fez! — disse Caroline.
— Nossa, ouì, ouì! Ela fez um bom trabalho! — com entei, olhando para Lucy, que m e ofereceu um sorriso breve.
Caroline balbuciou m ais alguns acontecim entos sobre a m anhã dela, algo sobre o seu coelho de pelúcia cham ado Macaco que caiu dentro da pia e ficou m olhado. Logo ela m udou de assunto e perguntou se eu tinha algum doce no carro.
— Claro que tenho — respondi, abrindo o porta-luvas para pegar um pacotinho de drops de cerej a que eu m antinha lá especialm ente para ela. O drops tinha derretido por causa do sol e grudado no papel da em balagem , m as Caroline não se im portou e enfiou dois na boca de um a só vez. Um deles caiu da boca e rolou pelo vestido branco de piquê, deixando um rastro verm elho no tecido antes de cair no chão. Lucy soltou um suspiro profundo enquanto Caroline desceu do m eu colo, pegou a bala e a enfiou de volta na boca.
— Ei, Lucy ! — saudei-a com o m áxim o de naturalidade possível, percebendo que ainda precisávam os falar diretam ente um a com a outra. — Você vai para a igrej a?
— Sim ... Mas só Deus sabe se vam os conseguir chegar lá — desabafou ela, conversando m ais consigo m esm a do que com igo. Ela suspirou de novo, parecendo exausta. — E você? O que está acontecendo?
Era óbvio que ela estava m e perguntando o que eu estava fazendo na casa do pai dela em pleno dom ingo de m anhã. Mas dei de om bros e respondi:
— Ah, nada dem ais.
— O que está fazendo aqui? — ela questionou, à queim a-roupa.
Olhei para ela através dos m eus óculos escuros e pude ver que ela parecia um pouco confusa, m as não com ar de acusação, nem de suspeita. Pedi para m im m esm a para não ficar na defensiva, e m uitos m enos m entir, enquanto Caroline correu para dentro da casa. Pela m inha visão periférica, pude ver que o treinador apareceu na garagem . Ele se abaixou para pegar Caroline, depois cam inhou em direção ao m eu carro. Logo de cara, vi que estava usando a aliança de casam ento na m ão direita, um a m udança desde a noite passada e algo que fez o m eu coração doer no peito.
Lucy repetiu a pergunta:
— E então? O que está fazendo aqui? Veio só para ver o m eu pai?
Considerei apenas responder que sim , m as m e forcei a ser sincera e m urm urei que tinha deixado a m inha bolsa lá.
— Sua bolsa? — inquiriu Lucy, com o treinador agora parado entre nós duas. — Quando?
— Ontem à noite — respondi, olhando ligeiram ente para o treinador, que parecia se sentir da m esm a m aneira que eu. Desconfortável, culpado, paralisado.
— Está lá no balcão da cozinha — respondeu ele, sem olhar para m im , enquanto Caroline com eçou a brincar com a aba do boné dele. Ela acabou arrancando-o, revelando o cabelo bagunçado do treinador (tão desgrenhado quanto um cabelo curto e rebelde poderia ser).
— E por que é que a sua bolsa... — com eçou Lucy, quando o treinador a interrom peu.
— Shea teve a gentileza de m e trazer uns tacos ontem à noite, depois do j ogo. Foi m uito gentil da parte dela m esm o. — Ele olhou para m im e disse: — Obrigado, m ais um a vez.
— De nada — respondi com um nó na garganta.
Lucy analisou o pai, depois eu, depois olhou para o pai de novo e finalm ente disse:
— Parece que você não está pronto para ir à igrej a.
— Eu deveria estar?
Ela balançou a cabeça e acrescentou:
— Hoj e é dom ingo, não é?
— E desde quando eu vou à igrej a no dom ingo de m anhã sem ser na Páscoa ou no Natal?
— Desde quarta-feira passada, quando conversam os que você deveria ir à igrej a e você disse que faria um esforço para isso — ela respondeu, enquanto eu m e perguntava se ela, assim com o eu, tinha notado que o treinador trocou a aliança de m ão. Seria esse um dos m otivos pelos quais ela estava nervosa? Ou o único m otivo era o fato de eu ter aparecido lá na noite anterior? Ou ela ficou assim sim plesm ente pelo fato de o pai não ir à igrej a? — Lem bra?
— Vagam ente — respondeu ele.
— Esse é um esforço que você pode fazer? Falar sobre Taco Bell, com essa roupa e às... — Lucy olhou para o seu relógio branco de cerâm ica. — Nove e quarenta e cinco?
O treinador olhou de volta para ela com tim idez.
— Argh. Ok. Precisam os ir — disse ela.
— Sem ana que vem — m urm urou ele.
— Um dia depois do j ogo contra o Texas — observei, deixando as palavras sim plesm ente escaparem , com m eu tom de voz dizendo: Então, todos nós sabemos que isso não vai acontecer.
Caroline passou a m ão sobre o rosto áspero do avô e reclam ou:
— Ai! Seu rosto m achuca!
— Sim , Ursinha Carinhosa. Preciso fazer a barba hoj e — com entou o treinador, e depois, com gentileza, colocou-a sobre o chão e voltou a olhar para Lucy. — E onde está Neil?
— Vai nos encontrar lá.
O treinador assentiu, depois olhou para m im e pediu um m inuto para buscar m inha bolsa. Assim que ele saiu, Lucy ficou m e encarando, m e fulm inando com os olhos.
— E aí, ontem à noite... algum a coisa relacionada a trabalho? Para algum a m atéria sua?
Balancei a cabeça e adm iti que j á tinha term inado de escrever m inha m atéria.
— Então você passou aqui só m esm o para ver com o ele estava?
— E para trazer tacos — acrescentei, esperando não parecer tão culpada quanto eu m e sentia.
Lucy ficou m e observando por alguns segundos, depois m eneou a cabeça.
— Vocês são am igos. Entendi.
Não falei nada.
— Mas é m eio estranho... — pontuou ela, fazendo aquela coisa de apontar a ponta do pé para baixo, algo que ela herdou de anos de balé.
— Estranho? — questionei, ainda observando o seu pé.
— Vocês terem um a am izade. Além de m im . Digo, você consegue m e im aginar saindo com o seu pai?
— Eu não saí com o seu pai — retruquei. — Mas você tem am izade com a m inha m ãe.
— Não desse tipo. Não para... com er taco com ela num sábado à noite... e sem você. Mas deixa para lá; preciso ir agora.
— Eu tam bém .
— Para onde está indo? — perguntou.
— Para casa.
— Por quê? — investigou ela, com a voz um tanto estridente. — Não estou te expulsando não. Ele não vai para a igrej a. E o que você vai fazer hoj e?
— Bom , assistir ao j ogo dos Cowboy s — respondi no m om ento em que o treinador voltou com a m inha bolsa. Eu a peguei e m urm urei: — Obrigada.
— E que horas é o j ogo? Dos Cowboy s? — perguntou Lucy.
— Com eça às três — falei.
— Ora, então por que a pressa?
— Só vim buscar a m inha bolsa.
— Sim , m as está aqui agora. Deveria ficar. Entrar. Tom ar café com ele.
Lucy estava agora definitivamente agitada, pressionando-nos contra a parede. Argum entar m ais do que j á tínham os feito faria as coisas parecerem ainda piores, e o m elhor seria concordar, então ele olhou para m im e disse, num tom agradável e natural:
— Shea, se quiser ficar, será m uito bem -vinda. Mas não tenho m uita coisa para o café da m anhã além de cereal...
— Tudo bem . Vou entrar e com er um pouco de cereal. Obrigada, treinador — respondi em tom seco.
Lucy balançou a cabeça, consentindo, e forçou um sorriso, o que m e fez lem brar da época em que ela usava aparelho e seus lábios ficavam esticados. Ela se inclinou para am arrar a fita e aj eitar a trança de Caroline, que agora se arrastava pelo chão. Em seguida, pegou a filha e foi para o carro.
— Então tudo bem . Você dois, aproveitem o café da m anhã j untos — disse ela, olhando por cim a dos om bros.
— Quero ficar com o vovô e a Shea — reclam ou Caroline.
Lucy balançou a cabeça e disse alto o bastante para que nós dois escutássem os:
— Não. Eles têm coisas para conversar... sobre futebol am ericano. Você não ia gostar.
Ela colocou Caroline na cadeirinha do banco traseiro e eu percebi que precisava dar a ré para deixá-la sair. Foi o que eu fiz, depois fiquei esperando dentro do carro, ainda ligado, enquanto ela se foi um pouco depressa dem ais.
Meu estôm ago e m eu peito doíam enquanto eu saía do carro.
O treinador balançou a cabeça.
— Merda — retrucou ele, baixinho. Depois olhou para m im e disse o óbvio:
— Ela não gostou.
— Não m esm o...
— Você acha que é porque... você esteve aqui ontem à noite? Ou porque eu não tinha m e aprontado para ir à igrej a?
— Não sei — respondi, em bora soubesse sim . — Talvez pelos dois?
— Não consigo ficar em paz na igrej a. Ainda m ais durante a tem porada — com entou ele, em bora eu possa dizer que ele tam bém sabia que esse não era o m aior problem a.
— Posso im aginar. E na sem ana que vem não dá mesmo para você ir. Fala sério — afirm ei, m e referindo m ais um a vez ao j ogo contra o Texas.
Ele concordou com a cabeça. Depois, enquanto eu o acom panhava para dentro da casa, ele colocou o dedo na ferida.
— Acho que talvez a nossa am izade a incom ode um pouco.
— Eu sei. Mas ela com preende que...
— Você e eu tem os m ais coisas em com um — com pletou ele, term inando a frase por m im .
Não sei ao certo se ele quis dizer que nós dois tínham os m ais em com um do que eu e ela ou entre ela e ele, m as, de qualquer m odo, a constatação era verdadeira.
Voltei para um terreno m ais seguro:
— Acho que os dom ingos são difíceis...
O treinador balançou a cabeça, concordando:
— Sim . Você deve estar certa. E acho que talvez eu tenha m esm o prom etido que iria à igrej a esta sem ana.
Fiz um a careta enquanto cam inhávam os pela garagem , e a m esm a pilha de roupas continuava sobre a secadora, m as o rádio estava sintonizado num a estação de m úsica country com Garth Brooks cantando Shameless (Sem Vergonha).
— Essa é m elhor — falei, apontando para o rádio.
— Adoro essa m úsica — com entou o treinador no exato m om ento em que Garth choram ingou: “But I can’t walk away from y ou” (Mas não posso m e afastar de você).
Ele m e lançou um olhar proposital que m e fez sentir exatam ente com o Garth pareceu naquela m úsica: de j oelhos e sem vergonha.
Lem brando de Lucy, m e recom pus e segui o treinador até a cozinha, observando enquanto ele pegava as duas tigelas, duas colheres e dois guardanapos, preparando a m esa. Peguei os copos no arm ário, servi suco de laranj a e os levei até a m esa.
— Leite — disse ele, estalando os dedos. Em seguida, ele balançou a cabeça, desgostoso. — Droga. Estou sem leite aqui. Me desculpe.
— Tudo bem . Eu nem estou com fom e...
Ele assentiu, parecendo tão atordoado quanto eu, e confessou:
— Eu sei. Eu tam bém não.
— Acho que realm ente devo ir — declarei, em bora quisesse ficar.
— Ok — concordou ele, tão rápido que fiquei chateada.
Deixam os as tigelas sobre a m esa, levantam os e fom os até o m eu carro. Ao chegarm os lá, eu estava com pletam ente desanim ada, certa de que nunca m ais teríam os a oportunidade de ficar sozinhos. Não valia a pena toda aquela culpa ou angústia que estávam os sentindo por sabe-se lá o que estava passando na cabeça de Lucy.
Porém , alguns m inutos depois, no m om ento em que tirei o carro da entrada da garagem , recebi um a m ensagem de texto do treinador, dizendo: Desculpe pelo leite. Vou ao mercado agora. Podemos deixar o cereal para a próxima?
Aliviada e afastando Lucy do pensam ento para tão longe quanto se pode fazer em relação à m elhor am iga, respondi: Combinado. É só marcar.
Naquela m esm a tarde, enquanto assistia ao j ogo dos Cowboy s e dobrava as roupas da lavanderia, Lucy veio até o m eu apartam ento, sem avisar e sem Caroline. Ela tinha trocado a roupa da igrej a por um a calça de linho com cordão e um a cam iseta branca de m anga longa, m as tinha esquecido de tirar o colar de pérolas. Enquanto fui até a geladeira buscar algo para beberm os, contei para ela que o Dallas estava ganhando por um touchdown, m as era óbvio que ela não tinha vindo para assistir ao j ogo.
— Meu pai m udou a aliança para a m ão direita — observou ela, aparentando que ia com eçar a chorar.
— Mudou? — questionei com nervosism o, colocando gelo e Coca-Cola Zero nos dois copos. Entreguei-lhe um dos copos e m e obriguei a olhar nos olhos dela.
— Sim . O que você acha que isso significa?
— Não sei — respondi.
— Que ele está tocando a vida adiante?
— Não necessariam ente.
— Então por que ele faria isso?
— Não sei, Lucy. Talvez você deva perguntar a ele — sugeri.
Ela ficou m e encarando por um bom tem po, depois tom ou um belo gole da Coca.
— Não posso.
— Por quê?
— Porque não conversam os sobre essas coisas... — Então, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela continuou: — Desculpe pelo m au hum or hoj e de m anhã.
Eu m e fingi de idiota ao segui-la até a sala.
— Você não estava m al-hum orada, estava?
Ela olhou para a televisão, depois se sentou no chão, de costas para a tela, antes de prosseguir:
— Eu disse que queria a sua aj uda para cuidar do m eu pai... e aí, quando você tentou fazer isso eu agi daquela form a.
— Está tudo bem — falei o m ais rápido que pude. Aquilo foi o m ais perto que Lucy chegaria de um pedido de desculpas, o que m e fez sentir desconfortável levando em conta tudo o que eu sabia ser verdade, e o que era ainda pior: ela não m e devia desculpa nenhum a. — Eu entendo.
— Entende? — perguntou ela enquanto eu abaixava o volum e da tevê.
— Sim . Acho que sim . Com certeza. — Peguei a calça de um pij am a da pilha que estava em cim a do sofá e a dobrei, evitando olhar pra ela. Era evidente que a conversa (independentem ente do rum o que Lucy queria que tom asse) não term inaria ali, por m ais que eu desej asse isso.
— É que eu sinto um pouquinho de... ciúm e — adm itiu.
Senti m inha pulsação acelerar e m inha boca secar.
— Ciúm e de quem ? — retruquei, dobrando um a cam iseta com grande cuidado e precisão. Provavelm ente foi a peça de roupa m ais bem dobrada em toda a m inha vida, o que significava m uito considerando a prática que eu tinha adquirido na butique de Lucy.
— Ciúm e de você com o m eu pai. Do quanto vocês são próxim os. Ele é m eu pai, m as às vezes tenho a im pressão que ele é m ais próxim o de você do que de m im .
— Isso não é verdade — retruquei, m e sentindo m al. Puxei m ais um a cam isa da pilha, sacudi-a e com ecei a dobrá-la.
— É verdade, sim — argum entou ela, tom ando m ais um gole da Coca e depois colocando o copo sobre a pilha de Sports Illustrated que estava no chão, bem atrás dela. — Sem pre foi.
— É só... futebol americano — opinei, em bora eu realm ente não acreditasse que essas palavras j untas fizessem sentido. — Tem os o futebol am ericano em com um . É isso.
— Isso é o m esm o que dizer que... que... a Ralph Lauren e a Calvin Klein só têm a m oda em com um ... ou... — Ela encarou o teto, pensando. Analogias nunca foi m uito o forte de Lucy.
— Entendi o que você quis dizer — adm iti, sorrindo, fingindo m e divertir quando na verdade eu estava m e sentindo m uito m al.
— Sej a no futebol ou em qualquer outra coisa, vocês dois sem pre tiveram esse vínculo... Ele conversa com você. Conversa pra valer, coisa que não faz com igo. Vou lá falar com ele e é m uito estranho. É com o se ele não tivesse nada a dizer.
Sua observação m e fez estrem ecer, m as balancei a cabeça e neguei de novo.
— Não tem os um vínculo, Lucy — declarei, pensando no j eito com o ele tinha m e olhado na noite anterior. — Nós dois só gostam os de futebol am ericano. Sou um a j ornalista esportiva. Ele é um treinador. E nós dois te am am os. É isso.
— Mas até quando não estão falando de futebol. Mesm o quando estão j ogando Trivial Pursuit é com o fizessem piadas que só vocês entendem .
Quase falei: Não são piadas que só nós dois entendemos. São só piadas. É você que não consegue entendê-las, m as não achei que isso a faria se sentir m elhor, então sim plesm ente falei:
— Não, não é verdade.
Lucy levou os braços para trás e se apoiou sobre as m ãos.
— Tá legal. Olha. Estou curiosa. Sobre ontem à noite... ele te convidou para ir até lá? Ou foi você quem ligou para ele?
Respondi que tinha sido ideia dele, e de cara percebi que não foi a resposta que ela queria. Ela retorceu ligeiram ente o canto da boca e franziu a testa.
— Viu? Foi o que eu pensei — ela retrucou, em bora eu não soubesse ao certo com o aquilo poderia fazer diferença. Não teria sido pior se tivesse sido eu?
— Ei, espere — intervim , fingindo pensar nos detalhes para então voltar atrás. — Na verdade, parando para pensar, fui eu que liguei para ele. E depois ele m e retornou. Mas eu estava no Taco Bell e então perguntei se ele queria algo de lá. Então, tecnicam ente fui eu que m e convidei. E aí, ele respondeu que sim , que adoraria com er taco naquela hora. Percebe?
Ela m eneou a m ão no ar, rej eitando m inha tagarelice explicativa, e insistiu:
— O fato perm anece o m esm o. Ele nunca m e cham a para essas coisas... nunca m e convida desse j eito. Ainda m ais depois de um jogo!
— Mas você é filha dele. É totalm ente diferente — argum entei. Ela m e perguntou por quê e cruzou os braços. Respondi: — Porque os pais não precisam convidar as filhas. Elas sim plesm ente... aparecem sem pre que querem . Com o você sem pre faz. — Refleti por um segundo e m e lem brei do m eu próprio pai. — A m enos que haj a um divórcio envolvido na questão.
— Ou a m enos que haj a um a m ãe falecida na questão — rebateu ela. Estrem eci, talvez de m aneira evidente. Ou talvez Lucy tenha percebido o quanto a sua declaração tinha sido dura. Em qualquer um dos casos, sua voz e expressão facial relaxaram visivelm ente quando ela disse: — Olhe. Quando a m inha m ãe estava aqui conosco, era um a coisa. Ela era a ponte entre nós. Minha m ãe e eu conversávam os três, quatro vezes por dia, e pelo m enos em um a dessas vezes ele estava em algum lugar por perto. Ao fundo. E isso funcionava m uito bem . Nós três fom os felizes assim , com as coisas funcionando desse j eito. Mas agora... É tudo m uito diferente. Tudo.
Lucy fez um a pausa, pigarreou e depois enxugou o cantinho dos olhos com delicadeza. Eu queria abraçá-la ou dizer algum a coisa reconfortante, m as não consegui m e m over nem falar. Alguns segundos depois, ela se recom pôs e continuou: — E, sem a m inha m ãe, m eu pai e eu tem os que trabalhar um pouco m ais a nossa relação. Nós dois tem os a obrigação de nos esforçar.
Assenti e disse que ela estava certa. Porque ela estava m esm o, de fato.
— Só que não estam os fazendo isso. Pelo m enos ele não está. Não m esm o. Estou m e esforçando sozinha... e isso m e deixa m uito m al.
— Talvez... ele só não queira incom odar você. Ele sabe o quanto você está ocupada com Neil, Caroline e a sua butique.
— E liga para você em vez de ligar para m im ? — ela argum entou, m as não m e confrontando com o antes.
Balancei a cabeça.
— Em prim eiro lugar, ele não m e liga com frequência. Em segundo, eu... vivo sozinha.
— Você não está sozinha... — ela rebateu, revirando os olhos. — Você está namorando o Ryan James, está lem brada?
— Mas o Ry an estava em Washington ontem à noite. Está vendo? — falei, apontando para a tela.
Ela se virou para olhar a tevê enquanto Ry an com pletava um passe curto e preciso para um first down. Quando voltou a m e olhar, pareceu m enos estressada.
— Nossa... É tão bom saber que você está nam orando ele — opinou, com o se o fato fosse algo surreal para ela.
— Sim — afirm ei com um suspiro profundo.
— Bom , deixa eu te perguntar um a coisa....
Eu m e preparei para outra pergunta desconfortável enquanto m antive os olhos grudados no j ogo.
— E se ele estivesse na cidade ontem à noite? — perguntou ela.
— Quem ? O Ry an? — questionei, tentando m e m anter um passo à frente dela e enxergar o intuito da pergunta para não dizer a coisa errada de novo.
— Sim . O seu namorado. Então, suponham os que ele estivesse na cidade ontem ... E que o m eu pai tivesse te convidado.
— Lucy, o que você está tentando insinuar? — questionei, oficialm ente preocupada agora.
Ela voltou a olhar para m im e disse:
— É que parece que....
— O quê? — insisti, prendendo a respiração ao ver um lam pej o atravessar a sua expressão. Foi com o se ela estivesse processando todos os acontecim entos. Juntando as peças. Mas logo passou, e eu pude voltar a respirar.
— Deixa pra lá — ela afirm ou, dando de om bros, e, ao que tudo indicava, se distanciando da sua própria desconfiança. A possibilidade de que a sua m elhor am iga e o pai dela pudessem realm ente sentir algo um pelo outro era absurda, ridícula.
Com a cabeça ainda latej ando, esbocei um sorriso largo ao ver o rosto de Ry an preenchendo a tela, ele cerrando o punho, esm urrando o ar para com em orar e tirando o capacete para a glória da com em oração do touchdown.
— Legaaaal — exclam ei, em bora soubesse que tinha perdido totalm ente a j ogada.
— Ele m arcou ponto? — perguntou Lucy, olhando por cim a do om bro para o replay na tevê.
— Claro que m arcou — respondi do j eito m ais orgulhoso que pude, enquanto o replay m ostrava Ry an em câm era lenta, com seu corpo atlético, forte e gracioso ao m esm o tem po.
— É exatam ente por isso que Ry an Jam es é o m elhor quarterback da NFL — declarei para Lucy, fazendo questão de lem brar a m im m esm a.
Lucy sorriu, satisfeita.