Primeiro e Único

Emily Giffin · Capítulo 28 de 46

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Primeiro e Único

Vinte e oito

 

Não liguei para Ry an.

Foi a prim eira coisa em que pensei quando acordei na m anhã seguinte. A segunda foi: Como vou pegar o meu carro? A terceira: Nunca mais vou beber de novo. Estiquei o braço até o criado-m udo para pegar o celular, sentindo as têm poras latej arem e o coração apertado ao ver que havia seis ligações perdidas e sete m ensagens de texto, todas de Ry an, um a seguida da outra, m ostrando um a preocupação crescente.

8:30: Oi, meu doce. Acabei de te ligar. Me retorne.

8:42: Vou dormir daqui a pouco. Tô com saudade. Me liga.

9:05: Onde vc está? Pq não atende?!

9:38: Preocupado. Vc está bem?

10:07: Vc deve ter saído. Desligado o telefone. Boa noite, Shea.

10:43: E aí??? Nossa. Tudo bem?

11:21: Não consigo dormir. Que merda. Espero q tenha sido por um bom motivo.

Encarei a tela do celular e tentei form ular m inha defesa. Bebi dem ais? Perdi a noção de tem po? Esqueci de ligar? Caí no sono? O sinal do telefone estava ruim ... A bateria acabou... Perdi o celular? A verdade? E qual era a verdade? Que eu não tinha pensado nele a não ser quando uns ex-colegas de escola m e perguntaram ? Que o treinador era o único para quem eu queria ligar e para quem , de fato, eu liguei?

Me obriguei a discar o núm ero de Ry an agora, sem ter a m enor ideia do que dizer se ele atendesse. Tocou um a vez e depois caiu direto na caixa postal, quando com ecei m inha m ensagem desconexa: Oi, Ryan. Mil desculpas por ontem à noite. Te explico o que aconteceu quando conversarmos... Sei que você está pensando exclusivamente no jogo a esta altura... Boa sorte... Não vejo a hora de assistir à partida com os seus pais... Me desculpe.

Desliguei, cheia de sentim entos contraditórios. Eu realm ente m e sentia arrependida pela noite anterior. Eu havia dito a ele que faria um a coisa e não fiz nada daquilo. Já estive na outra ponta várias vezes, e fui vítim a de prom essas vazias de Miller e de outros caras além dele, então eu sabia o quanto poderia ser frustrante. Eu tam bém sabia que Ry an gostava de controlar o que acontecia na noite da véspera de um j ogo, então tinha certeza de que os seus nervos tinham agravado ainda m ais o estado de irritação. E o m ais im portante: fui insensível e im prudente.

Ao m esm o tem po, tudo pareceu um pouco exagerado. Eu tinha passado um período de duas, três horas sem ligar para ele um a única noite... Grande coisa. Por que ele não poderia sim plesm ente ter m e desej ado boa noite e ido dorm ir? Precisava m esm o ter m andado aquele m onte de m ensagens? Precisava ficar tão chateado assim ?

Quando o quarto com eçou a rodar, fui ainda m ais para o cam po defensivo. O que aconteceu não foi com o se nós tivéssem os feito planos e eu tivesse sim plesm ente furado. Só esqueci de ligar para ele. Falando sério, ele não tinha coisas m ais im portantes para se preocupar? Com o o Philadelphia Eagles? Supere isso, já.

O telefone tocou e eu m e atrapalhei para atender, esperando que fosse Ry an e tem endo o confronto. Mas, em vez do nom e dele, vi CCC na tela do celular. Meu estôm ago continuou agitado, m as agora por um m otivo com pletam ente diferente.

— Alô? — atendi com a voz rouca.

— Ora, ora, ora, vej o que alguém não parece tão alegre quanto ontem à noite — disse ele.

Tentei rir, m as m inha garganta estava seca dem ais, e o que saiu foi um pequeno gem ido.

— É.... Acho que não.

— Você está bem ?

— Sim . Me desculpe por ontem à noite.

— Não há m otivo para pedir desculpas — afirm ou o treinador, o que, de certo m odo, m e fez sentir ainda m ais culpada em relação a Ry an. Na verdade, o treinador era quem deveria estar aborrecido com igo. Será que Ry an teria gostado de receber a ligação de um a bêbada à m eia-noite? — Só precisam os ir buscar o seu carro.

— Precisam os? Você quis dizer nós? — indaguei, m e enrolando feito um caracol e m e sentido dom inada por aquela sensação m aravilhosa que ele sem pre m e dava, ainda m ais quando conj ugava o verbo na prim eira pessoa do plural e usava o pronom e nós.

— Sim , nós. Isto é, se você estiver bem para dirigir agora...

— Eu não bebo tanto assim . Você deve estar pensando que eu sou um a pinguça.

— Não. Duas bebedeiras num período de oito m eses não quer dizer que você sej a pinguça.

— Duas?

— Sim . A noite do troféu Heism an. Não foi a últim a?

— Ah, é. Sim , foi a últim a — confirm ei, j á não m e sentindo m ais envergonhada.

— Então, vam os m arcar a próxim a para depois da tem porada. Você e eu. Em j aneiro.

— Sim , j aneiro — concordei, pensando no cam peonato nacional. Estiquei o braço e dei três batidinhas na m adeira do criado-m udo. — Com binado. Só você e eu.

Pude perceber que ele sorriu do outro lado da linha, e eu retribuí fazendo o m esm o.

— Ok — ele disse depois de alguns segundos. — Passo por aí lá pelas nove.

— Você vai passar aqui? — perguntei, entusiasm ada.

— Sim . Alguém tem que te levar lá para você pegar o seu carro. Não vai precisar dele hoj e? Para ir ao j ogo?

Respondi que sim , m e sentei e olhei para o relógio. Já eram quase 8:30, o que significava que eu tinha trinta m inutos para parecer apresentável.

— Bom , levante-se e pode com eçar a se aquecer. Você tem um grande dia pela frente. Um grande j ogo. E um grande encontro.

— Certo — respondi, m e perguntando com o eu passaria por tudo aquilo.

Trinta m inutos m ais tarde, depois que eu j á tinha tom ado banho, vestido um j eans e um a blusa de m oletom e secado um pouco o cabelo, ouvi um a batida rápida na porta. Corri para abri-la, e vi o treinador, usando um uniform e de m oletom do Walker e um boné de beisebol, segurando um café grande da Bunki.

— Feliz Dia de Ação de Graças, m enina — desej ou ele, erguendo o copo de café.

— Ah, é verdade. Esqueci. Feliz Dia de Ação de Graças — falei, pegando o copo térm ico e quente da m ão dele. — Obrigada.

— Im aginei que você precisasse de um pouco de café, m as aí percebi que nem sei com o você gosta.

Nem. A palavra sugeriu que ele deveria saber, que nossa relação j á tinha passado por esse ponto.

— Puro. Sem açúcar — falei. Era exatam ente o j eito com o ele gostava.

— Bem , então você está com sorte. Espero que eu tenha acertado os donuts tam bém — acrescentou, segurando a sacola, depois a colocou sobre a m esa pequena que ficava ao lado da porta.

— Caram elizado? — adivinhei, sabendo que era o favorito dele.

Ele piscou e deu um tapinha na sacola:

— Sim .

— Quer entrar um pouco? — convidei, ainda m e sentindo m eio ousada, m as não tão atrevida quanto na noite passada.

— Eu entraria, m as tem os que correr. Você precisa chegar a tem po para o j ogo, que com eça à um a.

— Eu sei — concordei, pegando as chaves e a bolsa. Em seguida, atravessam os a porta. Ele segurou o m eu café enquanto eu a trancava, depois m e devolveu o copo enquanto descíam os as escadas e nossos passos ecoavam nos degraus. Chegando à calçada do lado de fora do prédio, ele olhou ao redor, depois abaixou a aba do boné.

— Está preocupado que alguém o vej a?

— Não, sinceram ente não — ele respondeu, m e dando um a risadinha. — Acho que superei isso ontem , quando estive aqui à m eia-noite.

Sorri:

— Certo. Mas... Estam os autorizados a serm os am igos.

Ele m e olhou de um j eito cheio de significado ao chegarm os ao seu carro.

— Estam os autorizados a serm os o que quiserm os, entendido? — afirm ou ele enquanto abria a porta para m im .

— Entendido — respondi, sentindo a voz e as m ãos vacilantes.

Abaixei a cabeça para entrar no carro, e ele colocou as m ãos sobre os m eus om bros, m e conduzindo. Tive de prender a respiração enquanto ele foi até o lado do m otorista, entrou no carro e colocou a chave no contato. Antes de dar a partida, ele olhou para m im de novo:

— Você sabe o que está acontecendo aqui?

Congelei, tentando interpretar a pergunta, desej ando que m eus pensam entos estivessem m ais claros.

— Com a gente? — questionei, e a pergunta preencheu o espaço entre nós, reduzindo-o ainda m ais. Pude sentir o cheiro da pele dele agora, enxergar cada pelo do seu rosto, todos os detalhes.

Ele fez que sim com a cabeça e ficou m e encarando.

— Sim . Com a gente.

— Faço ideia — respondi, sentindo o coração ainda m ais acelerado.

Ele abriu um sorriso de orelha a orelha:

— Tudo bem . Só para ter certeza.

Então, quando ele se concentrou na pista, olhei para a j anela, m eus pensam entos acelerados. Não falam os m ais nada, nem nos olham os, até que m ostrei a direção em que estava o m eu carro, estacionado de um j eito m eio torto a pouco m ais de quinze m etros do bar.

— Bom , chegam os — anunciou, parando bem atrás do m eu carro.

— Sim . Chegam os.

Ele virou os om bros em m inha direção e segurou um a de m inhas m ãos. Consenti e ele apertou m eus dedos entre os dele.

— Feliz Dia de Ação de Graças, m enina. Espero que o seu Cowboy s vença — disse ele, a m ão quente e firm e.

— Ele não é o meu Cowboy s — retruquei, olhando-o bem nos olhos. — Só tenho um tim e.

— Ah, pare com isso — ele argum entou, soltando m inha m ão e aj ustando a aba do boné. — Você sabe que não é verdade.

— É verdade, sim .

Ficam os sentam os por m ais alguns segundos, agarrando-nos àquele m om ento, fosse lá o que estivesse acontecendo entre nós. Quebrei o encanto:

— Na verdade, Ry an deve estar enfurecido com igo. Então, hoj e deveria ser um dia legal...

— Por quê?

— Não liguei para ele ontem à noite.

— É um a obrigação? Digo, você tinha que ligar para ele? — ele quis saber.

— Ontem à noite era. Ele m e pediu para ligar às nove.

— E ainda especificou o horário?

— É o horário em que ele vai dorm ir. Na véspera de um j ogo.

— Sei. — O treinador m eneou a cabeça, visivelm ente ciente de tal prática, j á que ele tam bém tinha suas próprias regras nas noites que antecediam os j ogos. Mas a pergunta seguinte foi neutra: — E por que você não ligou?

— Porque eu tinha outras coisas na cabeça.

— Por exem plo?

Meneei a cabeça.

— Eu não estava pensando no Ry an. Nem um pouco.

— Bem ... — disse ele, depois parou.

— Bem o quê?

— Se você não cum priu o com binado, basta pedir desculpas...

— Já pedi.

— Vocês se falaram ?

— Deixei recado na caixa postal.

— Então, pronto. Você pediu desculpas... Não rastej e.

— Não vou.

— E não... — com eçou ele, e voltou a olhar para m inha m ão. Ele parecia estar prestes a segurá-la m ais um a vez, m as se conteve. — Não deixe aquele cara controlar você.

— O que você quer dizer com isso? — Eu tinha certeza do que o treinador queria dizer, m as precisava de esclarecim entos, o m áxim o de inform ação que pudesse conseguir.

— Ry an está acostum ado a ter tudo o que quer. Ele sem pre espera conseguir o que quer... Ele norm alm ente consegue.

Assenti, pensando que aquele era um belo resum o de Ry an, m as ainda não sabia m uito bem aonde o treinador queria chegar até que ele olhou para m im e acrescentou:

— Apenas se certifique de que é o que você quer.

Olhei de volta para ele, a ressaca deixando m eus pensam entos nebulosos, m as tam bém m e encoraj ando. Foi um a com binação estranha e assustadora.

— Eu sei o que quero — declarei.

O treinador m e encarou.

— Que bom . É um belo com eço.

— Sim . É um com eço... — concordei, depois hesitei. Senti que estaria traindo Ry an se dissesse qualquer outra coisa, m as consegui superar esse sentim ento ao concluir que ainda estávam os falando genericam ente. — Só preciso descobrir com o conseguir isso.

— Bem . De acordo com a m inha experiência... — com entou o treinador, com um sorriso discreto. Ergui as sobrancelhas, à espera de um a preciosidade filosófica. Mas, em vez disso, ele term inou a frase com : — Um chicletinho Big Red do Superm ercado Parkit nunca é dem ais.

Dei risada e falei:

— Foi o que m e disseram .

Meia hora m ais tarde, depois que m e troquei e vesti m eu legging preto de couro, botas de cam urça e um suéter azul do Cowboy s com um V enorm e nas costas, caí na estrada rum o a Dallas. Olhei para o celular m il vezes, na esperança de Ry an ter retornado, e ao m esm o tem po fiquei obcecada pela últim a conversa com o treinador. Quando parei na entrada do Ritz, estava apenas dez m inutos atrasada, o que era um pequeno m ilagre. Avistei m eu pai e a fam ília dele, enfeitados e em frente ao balcão do m anobrista. Astrid, Bronwy n e o m arido, Wiley, que lem brava m uito o m eu pai, estavam vestindo preto ou tons de cinza, um grupo de m orenos típicos de Manhattan. Bronwy n e Astrid tinham o m esm o estilo de cabelo longo e lam bido, m as Bronwy n usava um a franj a curta e penteada para o lado, não consegui decidir se gostei ou odiei (talvez, m ais precisam ente, eu tenha odiado porque na verdade gostei).

Saí do carro e acenei para eles, m e sentindo desleixada e sem graça, um efeito que esse grupo sem pre causava em m im . Na com panhia deles, não im portava o quanto eu m e arrum asse, m eu cabelo sem pre ficava desgrenhado dem ais, m inhas roupas e m eu batom , extravagantes dem ais e m eu corpo, gordo e sem graça — m ais ou m enos um a Julia Roberts em Uma Linda Mulher, antes da transform ação. Mas lem brei a m im m esm a o m otivo pelo qual estávam os todos ali hoj e, é que Ry an Jam es tinha m e legitim ado exatam ente com o Richard Gere fizera com Julia.

— Ei! — saudei-os, sorrindo, m ostrando dentes dem ais e desej ando ter m e lem brado de j ogar o chiclete fora antes de sair do carro. — Bem -vindos a Dallas!

Alto demais, pensei, acrescentando a m inha lista, enquanto Astrid e Bronwy n acenaram tim idam ente e sorriram de um j eito hipócrita.

— Oi. Am ei as botas. Você está m aravilhosa! — exclam ou Astrid.

— Obrigada — agradeci, m e sentindo estranha ao receber dois beij inhos, um em cada bochecha.

Browny n foi a próxim a, m as eu a esnobei no últim o segundo, virando-m e direto para m eu pai, desej ando que pudéssem os ter um m om ento a sós, sem serm os observados por Bronwy n e Astrid.

— Oi, pai.

— Feliz Dia de Ação de Graças, querida — disse ele, m e dando um abraço apertado.

— Pra você tam bém — desej ei, retribuindo o abraço.

Os próxim os que cum prim entei foram Bronwy n e Wiley, trocando gentilezas form ais, notei, não pela prim eira vez, que os dois pareciam se igualar na indiferença com refinam ento. Mas eu tinha de adm itir que os dois eram m esm o refinados, com cabelo, etiqueta e traj es im pecáveis, até as fivelas reluzentes do m ocassim dele e o laço preto e lustroso do salto de doze centím etros dela. Para com eço de conversa, eu não conseguia im aginar nenhum deles de ressaca nem bebendo dem ais.

— E aí, tão anim ados para o j ogo? — perguntei, e o “tão” escapou da m inha boca antes que houvesse tem po hábil para eu m e lem brar de usar o apropriado “estão”.

— Sim — respondeu Bronwy n, com um sorriso apertado de Botox.

— Com certeza — interveio Wiley. — Isso é m aravilhoso. Obrigada por organizar tudo, Shea.

— De nada. Não fiz nada dem ais. Foi o Ry an quem fez...

— E com o vai ele? — indagou Astrid, apoiando o braço no m eu enquanto m eu pai entregava o tíquete ao m anobrista.

— Ela está bem — respondi, sentindo um a nova onda de culpa e de preocupação m e invadir. Eu ainda não tinha recebido nenhum a notícia dele, e é óbvio que àquela altura nem receberia, j á que o j ogo com eçaria em m enos de um a hora.

— E você está mesmo... nam orando ele? — ela perguntou, no tom m ais insultante que um a pergunta poderia ter.

Eu a encarei por um bom tem po e disse, da m aneira m ais incisiva, que pude:

— Sim . Por quê? Isso te surpreende?

— Claro que não — respondeu m eu pai por ela, entendendo m uito bem qual era o m eu obj etivo. Ele tinha no m ínim o trinta pontos a m ais de QI que ela, o que, aliás, servia com o um a pequena fonte de conforto para m inha m ãe.

Astrid não pegou a dica.

— Então, o negócio está ficando sério m esm o? Ou vocês só estão saindo? — pressionou ela.

— Vam os assistir ao j ogo no cam arote, com os pais dele — disse m eu pai, com um tom de irritação que m e encantou. — “Faça as contas”, querida.

— Astrid não consegue fazer contas — falei, sorrindo, m as logo em seguida acrescentei: — Brincadeirinha!

— Mas ela não consegue m esm o — observou Bronwy n.

A única coisa que redim ia m inha m eia-irm ã era o fato de ela parecer quase tão incom odada com a m ãe quanto eu, e m e passou pela cabeça a estranha constatação de que eu gostava m ais de Browy n pessoalm ente do que na teoria. Ela era m uito m ais interessante que Astrid, j á que herdara a inteligência do m eu pai.

O m anobrista trouxe o SUV alugado deles, e todos nós entram os. Wiley, Bronwy n e eu fom os atrás, Bronwy n no m eio. Olhei para as m ãos dela, que estavam sobre suas coxas, e observei o enorm e anel de diam antes e as unhas pintadas. Cerrei m inhas m ãos para esconder as cutículas ásperas, e fiz de tudo para conversar o m enos possível. Perguntei com o estavam as coisas em Nova York, no trabalho e na nova casa nos Ham ptons. Bronwy n m e deu respostas sucintas ou m odestas (dependendo da m aneira com o você as interpreta), sem deixar nenhum a brecha, e, para seu próprio bem , tentou desviar a conversa de volta para m im , parecendo m ais interessada em m eu novo trabalho do que em Ry an.

— Você está gostando? É com o você im aginava? — investigou.

— Sim . Igualzinho — respondi enquanto todos prestavam atenção ao que eu dizia. — É difícil trabalhar com prazos tão apertados, m as eu gosto m uito. Gosto de m anter o foco em um único esporte e em um único tim e.

Bronwy n assentiu e eu pude sentir o tom de respeito em sua voz quando ela perguntou:

— Quantas outras repórteres fem ininas há na redação?

— Na redação do Post, especificam ente?

Ela confirm ou com a cabeça.

— Nenhum a — respondi.

Pude ver o sorriso de orgulho do m eu pai pelo retrovisor — o que m e agradou m ais do que deveria.

— Ry an te aj udou a conseguir esse trabalho? — perguntou Astrid.

— Não. Ele não teve nada a ver com isso.

Wiley fez algum as perguntas sobre a obsolescência crescente dos j ornais e se eu acreditava que, em algum m om ento, em um futuro próxim o, todas as notícias estariam na internet, até que Astrid conseguiu se introm eter de vez e m udou com pletam ente o rum o da conversa. Enquanto ela tagarelava, voltei a checar as m ensagens de Ry an, tentando encontrar algum tom agressivo nelas, m as m e senti aliviada por não encontrar nada. Todas tinham um tom controlador, de carência, de integridade, m as não encontrei nada que j ustificasse as acusações de Blakeslee. Claro que eu ainda não tinha ouvido as m ensagens que ele deixou na caixa postal, e m e perguntava por quê. Será que eu não queria encontrar provas contundentes bem agora, m om entos antes de conhecer os pais dele? Ou só estava exausta dem ais? Ou será que eu sim plesm ente não estava tão preocupada assim ? Quando olhei para o m eu celular, um a nova m ensagem apareceu na tela. Era do treinador: Diga ao seu pai que mandei um oi.

Respondi: Vou dizer.

Fiquei com os olhos grudados no celular, esperando um a nova m ensagem . E ela finalm ente chegou: Como está se sentindo? Melhor?

Eu: Sim, bem melhor. O café e o donut ajudaram. Obrigada mais uma vez.

CCC: Por nada. Já chegou ao estádio?

Eu: Quase.

Tirei os olhos da tela:

— Pai, o treinador Carr te m andou um oi.

— Com o ele está? — indagou Astrid, num tom de sim patia exagerada.

— Bem — respondi.

— Ele j á está nam orando alguém ?

Respondi que não da m aneira m ais curta e grossa que consegui.

— E a sua m ãe?

— Minha m ãe?

— Você acha que os dois vão ficar j untos?

— Deus do céu. Claro que não.

— Já falei isso para ela — com entou m eu pai.

— E por que não? Eles são tão am igos... e eu sem pre o achei m uito sexy.

— Astrid, por favor, pare — pedi, o que só serviu para botar m ais lenha na fogueira.

— Você não o acha um hom em sexy ? Com aquele j eito m ásculo de treinador de futebol am ericano... Em bora não faça m uito o m eu tipo — lançou ela, dando um tapinha na m ão do m eu pai.

— Astrid! — exclam ou papai, exasperado. — Connie faleceu há pouco tem po, está lem brada? Em fevereiro.

— Tem po suficiente para tocar a vida — rebateu ela.

— Chega — insistiu m eu pai.

— O quê? Está com ciúm es? — questionou Astrid enquanto chegam os ao estádio. — Ficaria incom odado se os dois ficassem j untos?

— Não. Só não im agino que isso possa acontecer — ele respondeu.

Voltei a olhar para o celular quando chegou um a nova m ensagem do treinador: Aproveite o jogo.

Obrigada, digitei. Depois, fiz um a pausa e acrescentei um a frase bem atrevida: Queria estar assistindo com você.

CCC: Eu também.

Fiquei olhando para o telefone e sorrindo, perdida por um m om ento, tentando enxergar o que havia nas entrelinhas enquanto param os em frente ao estacionam ento VIP do AT& T Stadium .

Quando chegam os ao cam arote dos Jam es, os pais de Ry an j á estavam lá com um grupo de outros casais da m esm a faixa etária. Eu os reconheci im ediatam ente, tanto por vê-los na arquibancada na faculdade com o porque Ry an se parecia m uito com o pai. O Sr. Jam es veio direto falar com igo, e m e cum prim entou com um abraço de urso. Não era o que eu esperava, e eu diria que Bronwy n e Astrid ficaram im pressionadas. Se houvesse qualquer suspeita de exagero, o pai de Ry an tinha acabado de desfazê-la com aquele grande abraço texano.

— Querida! Venha conhecer a Shea! — Ele cham ou a Sra. Jam es, que se aproxim ou de m im com um a dose de entusiasm o sem elhante à dele.

— Ouvim os m uito sobre você! — exclam ou ela.

O Sr. Jam es concordou com a cabeça.

— O Ry an gosta m uito de você. Ele contou que você sabe m ais de futebol am ericano do que qualquer outra m ulher que ele j á conheceu.

— Bom , que gentil da parte dele — falei, ignorando a óbvia nuance sexista e aceitando o com entário com espírito esportivo, com o foi a intenção dele. — Am o futebol am ericano.

— E o Ry an te am a — acrescentou o Sr. Jam es.

Astrid ficou literalm ente de queixo caído.

— Ele é um cara m uito especial — com entei, explorando o m om ento ao m áxim o, por tudo o que valeria a pena. Depois m e virei para fazer as apresentações necessárias. Meu pai, o Sr. Jam es e Wiley se deram bem de im ediato, e encontraram m uitos assuntos para discutir sobre os seus respectivos m undos financeiros, enquanto Astrid se esforçou ao m áxim o para im pressionar a Sra. Jam es, despej ando sua própria versão de nom es im portantes, rótulos e lugares. Bronwy n ficou na dela, m anteve-se discreta e m e acom panhou até a área do bar que havia no cam arote.

— Quer que eu prepare um drinque para você? — ofereci, olhando para a vodca. — Bloody Mary ?

— Você vai beber? — ela perguntou.

— Acho que sim — respondi. Eu não era m uito o tipo de m ulher que cura um a ressaca bebendo m ais, m as decidi que, naquela ocasião, eu poderia precisar. Seria um longo dia, e m inha m ãe ainda não tinha aparecido. Para agravar ainda m ais a pressão social, eu estava com eçando a m e sentir nervosa com o j ogo. É claro que eu queria que os Cowboy s ganhassem , prim eiro com o fã do tim e, depois com o nam orada de Ry an e, terceiro, porque m e passou pela cabeça que, se ele não ganhasse, o que aconteceu na noite anterior poderia ser visto com o o m otivo da derrota.

Preparei dois drinques, entreguei um a Bronwy n e confessei que tinha exagerado na noite anterior.

— Você saiu ontem ? — perguntou ela.

Quando m e lem brei de que eu havia m entido sobre o trabalho, inventei outra m entira, dizendo que tinha saído depois que term inei a m atéria, m as vi que ela não engoliu m uito bem .

— Ok. Eu não fiquei trabalhando... Eu só... — confessei.

— Já entendi. Sei que a m inha m ãe é um a pessoa difícil de lidar.

— E a m inha tam bém — adm iti no exato m om ento em que ela fez sua entrada triunfal em um terninho azul-claro Chanel e um sapato lustroso azul-m arinho. Ela estava incrível, não poderia estar m elhor. Sem dúvida, m elhor que Astrid.

— A sua m ãe está ótim a — Bronwy n observou quando m am ãe foi direto até o m eu pai para cum prim entá-lo. Foi um a atitude estranha, que acrescentou m ais um assunto à nossa pauta. — E m uito feliz tam bém . Ela está saindo com alguém ? — Bronwy n quis saber.

Balancei a cabeça:

— No m om ento, não. Sabe? Adm iro isso nela. Minha m ãe não precisa estar com ninguém para se sentir feliz.

— Você não é assim tam bém ? — perguntou ela.

— De certa form a, sim . Acho que todo m undo quer encontrar o verdadeiro am or — afirm ei, enquanto m inha m ãe se aproxim ou, virou-se e m e cum prim entou com um beij o, ignorando Bronwy n, que pescou a dica e foi falar com Wiley.

— Mãe, você poderia ser um pouco m enos óbvia — resm unguei.

— Pfft! Eles não existem — retrucou ela.

— Mas o pai, sim ?

— Tenho que cum prim entá-lo. Ele é o seu pai.

— Tudo bem . Que sej a — falei, dando de om bros enquanto colocava um pouco m ais de vodca no m eu Bloody Mary. Em seguida, levei m inha m ãe até a fileira da frente do cam arote, onde a apresentei aos pais de Ry an.

Em bora estivesse m enos eufórica do que Astrid, ela tam bém ficou entusiasm ada, tentando im pressionar a Sra. Jam es, e com eçou a tagarelar, o que foi inconveniente considerando que o filho da m ulher estava prestes a com eçar a j ogar. Mas a Sra. Jam es pareceu não se im portar, e eu fiquei m e perguntando se tanto Astrid quanto m inha m ãe estavam com partilhando o m esm o instinto m aternal, tentando descontrair a m ãe de Ry an. Eu m esm a estava m uito ansiosa, m uito m ais agora, assistindo ao j ogo pessoalm ente, certa de que cada snap parecia m ais perigoso e de que cada j ogador da defesa pareceria hoj e ainda m ais am eaçador. De qualquer form a, o j ogo estava prestes a com eçar e era hora de se concentrar. Então, m e acom odei na prim eira fileira do cam arote e m e desliguei de todo o resto, m enos do futebol am ericano.

Porém , no m esm o instante, tive um sentim ento terrível em relação ao j ogo. Ry an parecia sem em oção nenhum a. Então, no m eio do prim eiro tem po, ele fez um arrem esso que foi interceptado e levou a um touchdown tão ridículo que com certeza se tornaria a m anchete do SportsCenter. Erros táticos, lances negligentes e turnovers ocorreram na sequência, e, j á no m eio do prim eiro tem po, o Dallas estava perdendo por 21 pontos e o clim a no cam arote era o m esm o do cam po. Só m inha m ãe e Astrid pareciam distraídas e continuavam com seus com entários excessivam ente otim istas e entusiasm ados, o que estava deixando o Sr. Jam es m ais irritado, era evidente, algo que não poderia acontecer. Em certo m om ento, puxei m inha m ãe de lado:

— Mãe, eles não querem conversar. O filho deles está levando um a lavada.

— Está? Só m arcaram três touchdowns contra o Dallas.

— Só?!

— Eles ainda podem reagir.

— Mas o problem a não é só o placar. Ele é o quarterback. As estatísticas sobre o desem penho dele são m onstruosas. Esse é o pior j ogo da carreira dele, com toda a certeza — adverti.

— Ah — exclam ou m inha m ãe, com preendendo agora, enquanto Astrid continuava a colocar ainda m ais pim enta sobre a Sra. Jam es com conversinhas sobre a coleção de verão da Neim an Marcus, a nova exposição do MOMA e a viagem que faria com m eu pai nos próxim os dias para Dubai, onde, desnecessário dizer, tudo o que ela m ais faria seria com prar.

Felizm ente, ninguém , nem m esm o seus colegas, puxaram conversa com o Sr. Jam es enquanto ele saiu da fileira da frente e foi para trás, onde ficou assistindo ao j ogo pela tevê. Na única vez em que m e aproxim ei dele, a cam inho do banheiro, pude ouvi-lo praguej ando contra a televisão, proferindo um m onte de palavrões para o próprio filho. Quando passei por ele sorrateiram ente, no cam inho de volta para m inha cadeira, ele gritou.

— Senhor? — respondi.

— Dá para acreditar neste j ogo?

— Não, realm ente não dá. — Ao perceber que não aj udei nem um pouco com essa frase, acrescentei: — Mas todos os grandes j ogadores têm partidas com o essa... Eli Manning passou por isso em certa tem porada e foi eleito o m elhor j ogador do Super Bowl duas vezes.

— Sim . Bem , eu daria um desconto para o Ry an se ele algum a vez tivesse ganhado o anel — retrucou o Sr. Jam es.

Meu Deus, pensei, cerrando os dentes. Você é realm ente um idiota. Em vez de dizer isso, argum entei:

— Ele é um ser hum ano... Vai superar.

O Sr. Jam es resm ungou algum a coisa enquanto m e sentei ao lado dele, em silêncio, cheia daquela sensação horrível de derrota que se tem quando se leva um chute no traseiro. Só que dessa vez era ainda pior, porque eu m e sentia responsável por cada m erda que acontecia ali. E se a derrota tivesse a ver com a insônia de Ry an? E se a insônia fosse a causa do m au desem penho dele, que por sua vez fez o tim e inteiro se sair m al? Eu não queria atribuir esse crédito — nem essa culpa — a m im m esm a, m as era difícil desconsiderar essa possibilidade. Quando a transm issão pela Fox foi pausada pelos com erciais, perguntei ao Sr. Jam es:

— Você acha que ele não está se sentindo bem ? Ou não teve um a boa noite de sono?

O Sr. Jam es olhou para m im :

— Diabos. Não sei o que aconteceu com ele... Faz anos que não o vej o tão m al assim .

Suspirei, passei o peso do corpo de um pé para o outro e olhei, nervosa, para m eu celular, que eu havia deixado no bolso de trás, com nervosism o. Havia duas novas m ensagens, um a de Lucy dizendo: Ah, não!!! Que jogo péssimo!!! Sinto muito!!!, e outra do treinador: Nossa! O que está acontecendo?

Perdida em m eus pensam entos ansiosos, devo ter m urm urado algum a coisa com igo m esm a, porque o Sr. Jam es m e olhou e perguntou:

— O que foi?

— Nada — respondi, encarando-o de um j eito inquieto. — Acabo de receber um a m ensagem do treinador. Só isso. — O pai de Ry an pareceu confuso, então percebi que provavelm ente, quando eu disse “treinador”, ele pensou no treinador Garrett, o técnico dos Cowboy s. Então, acrescentei: — O treinador Carr.

— E? O que ele disse? Que não consegue acreditar que este showzinho de m erda é responsabilidade do garoto dele?

Balancei a cabeça, sentindo um a onda de raiva, e respondi:

— Não, não, ele não disse nada disso.

— E então? — o Sr. Jam es questionou, m e encarando, com a voz cheia de desgosto. — O que foi que ele disse?

— Só disse que... hoj e não é o dia do Ry an — respondi, m antendo a m inha posição, ciente de que isso seria o que o treinador diria. Ele com preendia o peso psicológico dos j ogos, ainda m ais para os quarterbacks, e nunca se irritava com seus j ogadores desde que eles estivessem dando seu m elhor. E, para m im , Ry an estava fazendo o seu m elhor, ao que parecia. Ao m enos ele estava se em penhando muito: forçando j ogadas, fora do seu ritm o habitual. Às vezes essas coisas sim plesm ente acontecem , e não há nada que se possa fazer. Detestei o pai de Ry an pelo fato de ele não saber disso ou de não dar a m ínim a. Todos esses anos acom panhando o filho e ele ainda não via que Ry an não era um a m áquina.

Então, com o que para com provar essa exata constatação — de que Ry an não era um robô —, assistim os enquanto ele tentou recepcionar a bola que veio de um péssim o passe na terceira e na oitava. Ele tropeçou, caiu e ficou deitado no chão enquanto os Eagles tentavam pegar a bola. Mesm o antes de m ostrarem no replay, eu sabia que tinha sido o j oelho m achucado e que ele continuava sentindo dor. Fiquei quase instantaneam ente nauseada, do j eito que sem pre acontecia quando via alguém se m achucando no j ogo, em especial quando envolvia o j oelho, a parte do corpo m ais vulnerável de qualquer atleta.

Prendi a respiração e rezei ao ver o rosto do Sr. Jam es em palidecer.

— Não é possível. Que m erda! — exclam ou ele.

Em seguida, o estádio ficou em pleno silêncio, enquanto a Sra. Jam es, em estado de pânico, veio correndo na direção do m arido. Um de seus saltos escapou do pé. Ela o chutou para longe, ficou m ancando com o outro pé de sapato, até que o abandonou tam bém .

— Será que ele se m achucou m uito? — perguntou ela, sem se dirigir a nenhum de nós especificam ente, ofegante.

— E com o vam os saber? — esbravej ou o pai.

— Você viu o replay ? Quem o m achucou? — ela questionou, com a voz trêm ula.

— Seu m enino tropeçou. Ninguém tocou nele — retrucou o Sr. Jam es, desgostoso.

Ela ignorou o tom do m arido:

— Shea, você viu? O que aconteceu?

— Não sei — respondi, assistindo ao replay pela terceira vez, gelada de m edo. Murm urei m ais algum as coisas, explicando que a lesão não parecia tão séria e que provavelm ente eles estavam usando o tem po de j ogo parado para respirar um pouco. O que eu não disse a ela, em bora soubesse que era verdade, era que m esm o os m enores m ovim entos podem resultar em lesões catastróficas e que, curiosam ente, acontecia assim com o j oelho. Mas ela não esperou eu term inar m inha resposta e voltou para a fileira da frente só para ficar um pouco m ais perto do filho. Fiquei dividida, pois queria vê-lo m ais de perto na televisão, m as tam bém queria vê-lo em carne e osso.

Então, de repente, Ry an se levantou sozinho e saiu m ancando do cam po, com a aj uda apenas de um preparador físico, para aplauso e alívio enorm e da m ultidão de oitenta m il fãs — exceto para o pai dele, que ainda parecia m ais irritado que tudo. Me afastei um pouco e fiquei parada no m eio do cam arote, sem conseguir ver nem o cam po nem a televisão, quando outra m ensagem do treinador chegou.

CCC: Não rompeu o ligamento. Ele vai sair de maca.

Eu: Eu sei. Mas o Sr. James está transtornado.

CCC: Deixe-me adivinhar. Ele está xingando o filho com um monte de palavrões?

Eu: Sim.

CCC: Ele vai desmoralizar aquele garoto. Mais do que ele já está desmoralizado.

Eu: Eu sei. Agora eu realmente queria que você estivesse aqui.

Quando falei isso, quis dizer não apenas para o bem de Ry an, m as pelo m eu tam bém . O treinador entendeu dessa form a e respondeu: Eu também. Saudade de você, menina.

Olhei para o celular, hesitante, depois digitei devagar: Também estou com saudade de você. Guardei o celular no bolso e fui para m inha cadeira, evitando os olhares de preocupação dos m eus pais. Acho que não assisti a nenhum outro lance depois disso; m antive os olhos grudados na lateral do cam po com o se ficar encarando o núm ero 12 em azul nas costas do m eu nam orado pudesse, de algum a form a, reverter aquela terrível m aré.